domingo, 20 de setembro de 2009



XIXI SUSTENTÁVEL



Achou a pergunta acima inusitada? Pois é! A enquete da campanha Xixi no banho está sendo promovida pela ONG brasileira SOS Mata Atlântica e pode ser encontrada no site http://www.xixinobanho.org.br/. Por mais incrível que possa parecer, o ato de fazer xixi no chuveiro não é nada nojento e nem transmite doenças. Ou seja, fazer xixi no banho é ecologicamente correto. Afinal, segundo o site, uma descarga dada para eliminar o xixi do vaso sanitário corresponde a doze litros de água potável disponível no planeta. E quanto menos água se gastar menos se degrada a natureza, preservando os recursos naturais e a nascente dos rios. O recomendável, contudo, é que se faça xixi - composto por 95% de água e 5% por uréia e sal, entre substâncias outras - no início do banho, pois a água corrente lava e leva tudo para o ralo. Então, o que você está esperando?

sábado, 19 de setembro de 2009

Do baú...



TERRA À VISTA!


“Muitos são os que falam, mas poucos os que sabem o que dizem”.

José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta
Terra Papagalli


Quando os portugueses puseram os pés em terras do atual Estado do Rio Grande do Norte, por volta de 1500 e alguma coisa, os seus olhos devem ter confirmado a impressão que tiveram desde que, ainda em alto-mar, avistaram, anos antes, no dia 22 de abril de 1500, a Terra dos Papagaios pela primeira vez. Ou seja, eles estavam desembarcando no Paraíso. Porém, não demorou muito, a cobiça dos portugueses foi, mais uma vez, atiçada, logo transformando toras de pau-brasil, ouro, araras, com as suas exuberantes plumagens, e, até mesmo, exemplares vivos ou mortos de índios em cifrões. Como tudo isso começou?

No dia seguinte à chegada dos navegadores lusos ao Ilhéu de Coroa vermelha, nas águas da Baía de Cabrália, na Bahia, quando os portugueses estabeleceram o primeiro contato com os habitantes locais – logo chamados de índios –, ajudados, é claro, por um gaiteiro. À oportunidade, um dos tripulantes da esquadra comandada por Pedro Álvares Cabral (1467 - 1520) presenteou os índios, como prenda por seu exotismo, com um singelo espelho. E, aí, com aquele estranho objeto do desejo em mãos, o aborígine logo tratou de rapaginar o visual, formulando a pergunta: “Espelho, espelho meu, existe alguém mais simplório do que eu?”.


Foto: Nathalie Bernardo da Câmara

Corte de cabelo inspirado no dos jesuítas.

Foi a gota d’água, ou melhor, a senha para que, de imediato, os portugueses percebessem que não seria, assim, tão difícil, tomar para si as terras de tão gentis nativos, os próprios nativos e, é claro, as suas riquezas, logo criando a, hoje, tão conhecida propaganda enganosa. Afinal, em questão de dias, os portugueses puseram as mangas de fora e revelaram as suas verdadeiras intenções. Utilizando a força braçal indígena, eles derrubaram o primeiro dos milhares exemplares de pau-brasil (caesalpina echinata), extremamente lucrativo, que, durante séculos, confiscariam da Mata Atlântica brasileira, transportando-os para a Europa.


A Primeira missa no Brasil, 1861 – Victor Meireles

Bom! Madeira no chão, os portugueses esculpiram, toscamente, uma cruz, portando as armas e as divisas de Portugal, e, no dia 26 de abril, como marco da sua nova conquista, amparada pelo Tratado de Tordesilhas, assinado com a Espanha, em 1494, erigiram o símbolo cristão no Ilhéu de Coroa Vermelha e celebraram a primeira missa no Brasil, arrogantemente tomando posse das terras que mal conheciam e que, aliás, já tinha dono. Achando pouco, os primeiros posseiros que o Brasil conheceu – nascia, aí, a prática de grilagem de terras – decidiram realizar uma segunda missa. Desta vez, na foz do rio Mutarí, no dia 1° de maio.




No dia seguinte, ou seja, no dia 2 de maio, após deixar alguns pobres coitados em terra-firme, abandonados a sua própria sorte, já que, apesar de firme, a terra era totalmente desconhecida, Pedro Álvares Cabral lavou, literalmente, as mãos e partiu rumo às Índias, mas não sem antes, é claro, abastecer as suas naus com lenha, água doce e demais artigos básicos necessários à travessia. O curioso é que, apesar de passar apenas dez dias na Terra dos Papagaios, Cabral teve tempo suficiente para, em pouco tempo, fundamentar as bases de muitos dos estragos que, futuramente, seriam cometidos no Brasil.



Os fenícios.

Falando em Brasil, o fato é que existem controvérsias a respeito de quem primeiro chegou à Terra dos Papagaios, visto que, antes de Cabral, dois espanhóis, Vicente Pinzón e Diego de Lepe, já haviam navegado pela costa brasileira, mas, em função do Tratado de Tordesilhas, logo partiram. Então, quem chegou primeiro? A bem da verdade, nem espanhol nem português. Os pioneiros foram os fenícios, cuja primeira visita ao Brasil remonta aos idos de 1.100 a. C., embora, depois disso, “durante o reinado de Salomão (961 - 920 a.C.), cumprindo um acordo feito entre o rei de Judá, Davi, e o rei fenício Hirão II”(1) , tenham retornado outras vezes.

Tanto que foi com o ouro, demais metais preciosos e a madeira do Brasil que o rei Salomão construiu o Templo de Jerusalém(2). As viagens dos fenícios ao Brasil, juntamente com os hebreus, foram, então, registradas em documentos, guardados na biblioteca do Templo de Salomão. Tempos depois, encontrados pelos templários, após a fundação, no séc. XII, da Ordem dos Cavaleiros do Templo de Salomão, os documentos permitiram o nascimento do embrião das futuras “navegações e ‘descobertas’ empreendidas pelos reis-templários de Portugal”(3), cuja fundação, aliás, em 1143, bem como a sua localização, foi, de certa forma, motivadas pelos ideais milenaristas.

Fundado por São Bernard de Clairvaux (1090 - 1153), patrono da ordem dos templários, Portugal teve como seu primeiro rei o templário dom Afonso Henriques (1109 - 1185), sendo a sua localização considerada propícia aos descobrimentos almejados, já que “era o ponto geográfico mais próximo do caminho para as Américas, principalmente para o Brasil”(4). Dois séculos depois, em 1296, um outro rei templário, dom Diniz (1260 - 1325), criou, juntamente com a rainha Isabel de Aragão (1270 - 1336), o Projeto Áureo, que, entre outras ações, consistia em abrir “as portas do mundo para os descobrimentos e a modernidade”(5).



A rainha Isabel de Aragão e o rei dom Diniz.

Um dos cinco alicerces do Projeto Áureo era, inclusive, a “plantação de pinhais para as futuras naus dos descobrimentos”(6). Com a morte de dom Diniz, em 1325, assumiu o trono português o seu filho Afonso IV (1291 - 1357) – época em que surge a Carta Náutica, do cartógrafo genovês Angel Dalorto, descrevendo a localização precisa da Ilha Brasil. Em 1343, o papa Clemente VI oficializa a descoberta da Insula Brasil(7). O Brasil já era, portanto, desde os tempos mais remotos, o sonho de consumo dos templários, que, alimentando ideais milenaristas, tencionavam fazer do País o berço do Quinto Império, acalentado, ao longo dos séculos, por muitos humanistas.

Ou seja, equivalente à Terceira Era proposta pelo monge calabrês Gioachino di Fiori (1131 - 1202), milenarista por excelência, o Quinto Império seria “um período de apogeu para toda a humanidade”(8). No entanto, apesar de terem participado da aventura de 1500 – o rei dom Manuel I (1469 - 1521) pertencia à ordem de Cristo –, com a missão de fazer do Brasil o “celeiro da cultura universal”, nas palavras do filósofo e escritor indiano Rabindranath Tagore (1861 - 1941), Prêmio Nobel de Literatura, em 1913(9), os templários foram oficialmente “dispensados” do processo de colonização do Brasil pelo rei dom João III (1502 - 1557).

Às voltas com interesses de cunho políticos e econômicos, que contrariavam os ideais milenaristas, dom João III dissolveu, em 1521, a Ordem dos templários. Afinal, não precisava mais dos seus conhecimentos, visto que o Brasil já tinha sido “achado”. Nesse ínterim, a Terra dos Papagaios, chamada de Ilha de Vera Cruz, já havia mudado de nome duas vezes: Terra de Santa Cruz e, por fim, Brasil. Curiosamente, o processo de colonização do Brasil pelos portugueses só teve início, de fato, duas décadas depois do seu achamento. E apenas devido à constante presença de franceses, holandeses e ingleses no Brasil.



Antes disso, o domínio luso fez, sim, do Brasil um celeiro, mas um celeiro de pau-brasil, que os portugueses, num afã sem precedentes, já que as especiarias da Índia estavam em baixa, extraiam sem dó nem piedade. Com a colonização, então, iniciada, à medida que os portugueses avançavam em suas conquistas, a supressão das liberdades individuais e coletivas da maioria dos grupos indígenas do Brasil aumentava, o que lhes fez conhecer o Inferno, onde estão até hoje. Tudo matemático. Ou seja, a exploração dos indígenas era proporcional ao acúmulo de bens dos portugueses. Ou melhor, quanto maior era a riqueza de um, maior o sofrimento do outro...

Afinal, cordatos e generosos – qualidades que foram mal interpretadas como ingenuidade e burrice –, os índios foram presas fáceis para os portugueses. Ávidos por se apropriarem do que não lhes pertencia, os portugueses, na maioria das vezes, e sem o menor escrúpulo, recorriam as ações mais bárbaras e hediondas quando o assunto era o vil metal. Achando pouco, diante de tanta fartura, e sempre querendo mais, os colonizadores lusos logo se encarregaram de importar uma equipe de assessores, ou melhor, uma companhia de jesuítas, trazida, ao Brasil, pelo governador-geral Tomé de Sousa (1515 - 1579), em 1549.

A partir de então, os padres da Companhia de Jesus se tornariam os responsáveis pelo processo de submissão do povo supostamente arredio e bronco que, aqui, encontraram. E isso até 1591, quando foram expulsos das terras brasileiras. A variedade de adjetivos, contudo, atribuídos aos índios, traduziu-se, de certa forma, em uma incoerência dos portugueses. Mas, àquela época, quem se importava em ser ou não coerente? De qualquer modo, foi uma incoerência até compreensível, já que, quando lhes convinha, os nativos eram ora gentios, cordatos e generosos, ora ingênuo, burro arredio e bronco. Pode?



O fato é que, com a chegada da Companhia de Jesus, tudo se tornou uma grande confusão! Era jesuíta para lá, jesuíta para cá... Liderados, então, pelo padre Manoel da Nóbrega (1517 - 1570), os primeiros jesuítas que vieram ao Brasil, cuja Ordem, de clérigos regulares, foi criada pelo basco Inácio de Loyola (1491 - 1556), no ano de 1539, em Paris, até que se empenharam em sua missão. Afinal, até açoitar índios eles açoitaram! Sim, como se a sua verdade fosse a única e todos, querendo ou não, tivessem de abraçá-la – de preferência, sem arco e flecha. Um dos casos mais famosos, mas pouco divulgado, foi o do jesuíta José de Anchieta (1534 - 1597).

Por mais incrível que pareça, o padre Anchieta acreditava, entusiasmado que estava com o ouro e com a sua fácil exploração, que, através de relatos sobre o metal, encaminhados ao rei, convenceria este a enviar uma esquadra unicamente para destruir os “perversos que resistem à pregação do evangelho e submetê-los ao jugo da escravidão”(10). Que paradoxo! A verdade é que faltou bom senso aos jesuítas. Ao invés de se irritarem com a nudez e as práticas de canibalismo e poligamia dos índios, eles pecaram por não terem aproveitado a sua permanência nos Trópicos para se despojarem das longas vestes, nada apropriadas ao clima local.

Quanta pequenez de espírito! Sim, porque os jesuítas também sentiram inveja da influência e do poder dos curandeiros, com a sua farmacopéia rica em ervas e chás. E, para piorar a situação, os missionários religiosos, juntamente com os demais colonizadores portugueses, dependentes que eram das suas próprias leis, cegos pela fé absoluta no catolicismo e subjugados ao rei que os dominavam, contribuíram, e muito, para disseminar, mundo afora, que os indígenas não tinham lei, fé nem rei. Diziam, por exemplo, que os índios precisavam de uma organização social, de lei – daí negarem a cultura indígena e reprimirem os seus hábitos e costumes, tidos como “selvagens”.

Achando pouco, disseram que os índios precisavam, igualmente, de uma religião, de fé – daí tentarem, a ferro e fogo, catequizá-los. Por fim, disseram, também, que os índios não tinham senhores soberanos, um rei – daí a escravidão a que muitos foram subjugados, em nome da Coroa Portuguesa. De novo, como podemos ver, eles se valeram da propaganda enganosa – sempre tão útil, quando convém. Acontece que os portugueses não entendiam que os indígenas tinham, sim, uma lei, mas não a do branco; que tinham, também, uma fé, só que em Tupã, não em Cristo; bem como tinham um rei, só que chamado de cacique.

Desse modo, os portugueses é que passaram a se comportar como verdadeiros selvagens, massacrando tribos e dizimando inúmeros povos indígenas, à revelia do direito destes à vida. Foi o quê, a exemplo de outras terras, aconteceu no Rio Grande do Norte...


Os Potyguara (11)




Foto: Nathalie Bernardo da Câmara
Índio que atuou como figurante no filme Batalha dos Guararapes, de Paulo Thiago, lançado em 1978, que retratou a luta entre holandeses e luso-brasileiros, nos arredores de Recife, em Pernambuco, no início do séc. XVII.



Segundo o folclorista Luís da Câmara Cascudo (1898 - 1986), após a chegada dos portugueses no Rio Grande do Norte, três séculos foram suficientes para que a região perdesse a sua população aborígine, basicamente constituída por três grandes grupos: os gê, os cariri e os potyguara(12). Todavia, neste genuíno artigo, nos reservarmos a falar dos índios potyguara, que, até hoje, mesmo não mais existindo sequer um autêntico exemplar no Rio Grande do Norte, ainda dá nome a quem nasce no Estado. Vamos tentar, então, definir os potyguara.

Para Cascudo, “poti é camarão e guar, particípio nominal, significa oriundo, vindo de, o que é de, o que é com etc. (...) Daí potiguar ser procedente do camarão ou comedor de camarão, se tomarmos o particípio como sendo nominal, no primeiro caso, ou tempo do verbo comer, no segundo”(13). No entanto, para o desembargador Luiz Manoel Fernandes Sobrinho (1856 - 1935), potyguar em hipótese alguma pode significar comedor de camarão. Afinal, na língua tupy, “para significar comedor temos a palavra quar ou quara, de maneira que comedor de camarão seria potyquar e não potyguara ou potyguar”(14).

E o desembargador vai mais longe quando afirma que o correto seria petyguares, ou melhor, “amigos do fumo”, já que este era o verdadeiro nome dos aborígines em questão, antes da chegada dos portugueses no Rio Grande do Norte(15). Acontece que, ainda segundo Luiz Fernandes, cronistas e historiadores da época deram aos índios que habitavam o litoral do Rio Grande do Norte, “por manifesta confusão de idéias, o nome de potyguares ou potyguaras”, que, para ele, significa “amigos de poty”, nome que, por sua vez, significa “camarão”(16).

Para o desembargador, o equívoco deu-se porque, em meados de 1600, existiu um índio, de nome Poty, que cedeu aos encantos dos portugueses e se aliou a eles, logo se convertendo ao catolicismo. Assim, batizando-se no dia 4 de Março de 1612, o índio Poty passou a se chamar dom Antonio Felippe Camarão, destacando-se na guerra contra os holandeses e se tornando um herói(17). Desse modo, para agraciarem o tal índio por sua conversão e bravura, e porque eles não tinham muita familiaridade com a língua Tupy, os portugueses passaram a chamar petyguar de potyguar.

O fato é que até bem pouco tempo depois da chegada do homem branco às terras que, hoje, vão da Paraíba até o Maranhão, os potyguara falavam a língua Tupy, habitavam o litoral, viviam da pesca e da agricultura, plantando grãos e raízes, comiam frutas, se deliciavam com mel e apreciavam a carne de animais ditos de caça. Além disso, quando, após alguma luta, com tribos vizinhas, faziam algum prisioneiro, eles realizavam certos rituais, em cujo cardápio constava carne humana – a carne do prisioneiro –, embora, vale salientar, não sem antes darem um trato no mesmo.


Ritual de canibalismo.

Sim, apesar da propaganda de que os potyguara não eram hospitaleiros, as índias até que se esforçavam. Asseadas e vistosas, elas sabiam que higiene era fundamental, sobretudo para agradar as suas narinas. Desse modo, nos dias que antecediam ao sacrifício, elas se dedicavam de corpo e alma ao prisioneiro, cobrindo-o de afagos, dando-lhe comida e deixando o seu corpo lavado e sem impurezas, satisfazendo, portanto, todas as exigências de um rigoroso controle de qualidade, o qual era feito pelo chefe da tribo, que autorizava ou não o consumo do produto.

Mas, práticas de canibalismo à parte, já que se os potyguara comiam a carne dos adversários era porque acreditavam que os tornariam fracos, presas fáceis numa próxima batalha, ou qualquer outra sorte de aberração que o valha, os comedores de camarão, segundo o folclorista Câmara Cascudo, eram, decididamente, um povo livre e feliz. Porém, no séc. XVI, quando o Brasil passou a ser dividido em Capitanias Hereditárias, a liberdade e a felicidade dos índios, de uma maneira em geral, passaram a ter os seus dias contados.



Tratado de Tordesilhas, 1494.

A bem da verdade, àquela época, a Capitania do Rio Grande começava na Baía da Traição, hoje pertencente à Paraíba, e ia até onde, hoje, o Rio Grande do Norte faz fronteira com o Ceará(18). Unindo as duas extremidades, uma enorme extensão de terras cobertas de mata virgem, a qual passou a ser acintosamente violada não somente pelos portugueses, mas, também, por corsários franceses, holandeses e ingleses – excluídos do Tratado de Tordesilhas –, que extraiam um sem fim de pau-brasil, utilizado para tingir tecidos, construir navios e fabricar móveis preciosos.

Tal prática, ao longo dos séculos, deu início ao processo de devastação da Mata Atlântica na região, assim como em todo o litoral brasileiro – atualmente, existem, no País, apenas, 7% do que ela já foi um dia –, e privou, paulatinamente, os potyguara do seu habitat, fazendo-os se refugiaram e se concentraram na Baía da Traição, na Paraíba, cujo nome original, segundo os pesquisadores consultados, era Akajutibiro, que significa terra dos cajus amargos(19). Já o nome Baía da Traição foi dado, obviamente, pelos portugueses. E três versões tentam explicar o motivo da escolha de tal nome.

Ou seja, o fato de muitos portugueses terem sido tragados pelas águas ditas traiçoeiras do mar do lugar, que possui longos e escorregadios arrecifes, da costa até o alto-mar; as alianças firmadas pelos potyguara com franceses e holandeses e o canibalismo então praticado pelos índios da região – um dos primeiros grupos, aliás, a serem contatados pelo colonizador luso. Só que, como era de praxe, os potyguara, bem como muitos outros grupos indígenas do País, sofreram, inevitavelmente, a interferência e a influência dos portugueses, além de demais povos europeus.

Inicialmente colonizados pelos portugueses, seguidos dos franceses, de quem, em um dado momento histórico, se tornaram aliados, os potyguara derrotaram os primeiros. Em 1584, contudo, os portugueses expulsam os franceses do lugar e, em 1591, chega a vez dos jesuítas serem expulsos do País. Feitas as pazes, então, com os portugueses, em 1599, os potyguara passam a ser catequizados por uma missão carmelita enviada ao Brasil. Em 1625, os holandeses fazem uma rápida e informal visita à Baía da Traição.

Ao partirem, levam consigo alguns índios, que, anos depois, quando do domínio holandês no País, voltaram falando a língua dos dominantes, bem como convertidos ao calvinismo. O tempo passa e, com a expulsão dos holandeses pelos portugueses, em 1654, os potyguara são induzidos pela missão carmelita, que continuava na região, catequizando e convertendo – não arredava pé! – a formarem as aldeias da Baía da Traição e as da Preguiça – olhe o nome! –, no atual município de Mamanguape, também na Paraíba, bem como a elegerem padroeiros para as tribos.

Resultado: São Miguel foi eleito o santo protetor da Baía da Traição e Nossa Senhora dos Prazeres a santa protetora da Preguiça... Curiosa, não, a relação de prazeres com preguiça? Mas, bom! Um belo dia do séc. XIX, movido, quiçá, por algum sentimento ufanista, dom Pedro II (1825 - 1891) decidiu fazer uma “boa ação”, garantindo aos potyguara o direito a um pedaço de terra. No dia 27 de dezembro de 1859, o monarca doou aos potyguara “a sesmaria de Baía da Traição – na realidade, uma re-doação, porque a sesmaria já era deles há muito tempo”(20).

Ou seja, as terras dos potyguara, transformadas em sesmarias, antes mesmo de serem sesmarias já lhes pertencia. Porém, os documentos que poderiam comprovar o nobre gesto “nunca foram encontrados e deve ter sido destruídos pelos invasores das terras indígenas”(21). O tempo passou e, no séc. XX, na década de trinta, sob os auspícios do então Serviço de Proteção ao Índio - SPI, criado em 1910, foi fundado, na aldeia São Francisco, na Baía da Traição, o Posto Indígena - PI Nísia Brasileira, cujo objetivo era o de assistir os potyguara, posteriormente, transferido para a aldeia do Forte.

O Serviço de Proteção ao Índio - SPI, contudo, foi extinto em 1967, sendo substituído, em suas atribuições, pela Fundação Nacional do Índio - FUNAI. À época, o Posto Indígena - PI Nísia Brasileira passou, então, a se chamar PI Potiguara. Atualmente, é chamado de PIN Potyguara, tornando-se uma referência para os potyguara, que, aliás, ao longo dos séculos, a exemplo dos demais grupos indígenas existentes no País, oscilaram entre momentos de guerra e de paz, ora vindo à tona leis e alvarás, prejudicando-os, ora bulas papais, subjugando-os ainda mais.

Nos dias de hoje, contudo, os pouco mais de dez mil remanescentes de potyguara, segundos dados da Fundação Nacional de Saúde - FUNASA, obtidos em 2004, ocupam 333.757 hectares, distribuídos em uma área que abrange os municípios de Baía da Traição, Rio Tinto e Marcação. Os potyguara do início do séc. XXI, aliás, em nada lembram os seus valorosos e guerreiros ancestrais, na luta diária pela sobrevivência, no seu modus vivendi. Sim, porque, apesar de viverem a beira-mar, eles preferem pescar em rios e mangues.

Só que, devido à poluição produzida pelas usinas de álcool e de cana-de-açúcar de regiões limítrofes, que despejam os dejetos nos rios, cujo curso passa pelas aldeias, a atividade pesqueira dos potyguara, que inclui os mangues, a coleta de crustáceos e moluscos e as suas criações de camarão – está seriamente comprometida(22). No entanto, esse povo “arretado” vive, também, da agricultura de subsistência, plantando mandioca – o principal produto agrícola da região –, cana-de-açúcar, milho, feijão e hortaliças, bem como colhendo frutos e ervas.


Foto: Nathalie Bernardo da Câmara
Além disso, os potyguara perderam o hábito de comer carne humana na brasa e substituíram a carne dos animais de caça – até mesmo porque estes não mais existem –, por carne de porco, galinha, pato e boi. No entanto, eles continuam, apesar dos pesares, sendo um povo feliz, enfrentando e tentando superar com dignidade e altivez, qualidades que lhe são inerentes, as adversidades. Curiosamente, os brancos – parece – não sabem viver sem os índios – no caso, os potyguara –, contaminando-os até com a sífilis e o vírus HIV.

Sim, porque gripe não é mais novidade! Nem para os potyguara nem para a maioria dos demais grupos indígenas do País, afetados, inclusive, pela mortalidade infantil, casos de emigração e discriminação. No caso dos potyguara, a pobreza é, também, um grave problema. Para tentar minimizá-la, os índios, sempre que podem, praticam o escambo, assim como produzem artesanato, que, se antes era exclusivo para uso cotidiano, passou a ser comercializado dentro e fora das suas aldeias, aumentando, de certa forma, a renda familiar.



O Toré da pajé

Foto: Tânia Costa
A pajé da reserva indígena da Baía da Traição com a jornalista.

Aceitando o convite da pajé para passar o réveillon de 1999/2000, na Baía da Traição, que, até então, eu não conhecia, tive a oportunidade, durante dois dias e duas noites, de verificar, in loco, tudo o que eu já tinha ouvido falar da descaracterização da cultura dos potyguara, ou melhor, do que sobrou das suas tradições e costumes. Obviamente que isso só me foi possível porque, além de amiga da pajé, eu era sua hóspede. E foi exatamente em sua casa, na aldeia São Francisco – olhe a influência católica! –, que tive a oportunidade de presenciar mudanças de hábitos tão radicais, motivadas, ao longo dos tempos, pela aculturação, mas, sobretudo, como já dissemos, pela pobreza.

A mesma pobreza que, aliás, aflige milhares de trabalhadores rurais de todo o Brasil e que – parece – não tem fim. Sim, o que antes era apenas um drama cultural, porque os portugueses negavam todas e quaisquer tradições que não fossem as suas, muito menos as dos aborígines que, aqui, encontraram, passou a ser também um drama social e econômico. Felizmente, esse drama não é pior porque os índios, ao contrário do que tem dito a maioria dos historiadores oficiosos, nada têm de preguiçosos. Pelo que vi, os índios são pessoas dinâmicas, criativas, enérgicas, determinadas, corajosas e, sobretudo, dispostas ao trabalho, coisa que muito europeu nem sabia o que era.

E basta ir a uma aldeia indígena para se ter noção da bravura e integridade desse povo. Um povo, aliás, que continua desafiando os desmandos de autoridades que reproduzem atos e leis de quinhentos anos atrás – instrumentos de força já utilizados pelos portugueses para negarem ao índio, como já dissemos, o seu direito à liberdade e à vida. Mas, apesar de pobres e restritos a um pedaço de terra, vivendo em precárias condições habitacionais e sobrevivendo basicamente do que eles plantam e pescam, os potyguara, hoje, são um exemplo de resistência, embora os mais velhos sintam dificuldades em transmitir para as novas gerações o que restou da sua cultura e das suas tradições.


Foto: Nathalie Bernardo da Câmara
Curumim potyguara.

Bom! Ao percorrermos uma das aldeias da Baía da Traição, a impressão que tivemos foi a de que estávamos em uma pequena cidade interiorana, porque, de há muito, ninguém mais mora em oca ou taba, mas em casas de alvenaria ou cobertas de palha e piso de terra batida. Além disso, todos andam vestidos. Nada de mostrarem as suas “vergonhas”... Para completar, a televisão está em todos os lugares. Só que tudo isso apenas contribui para reforçar o que os mais velhos de há muito já sentem na própria pele, ou seja, a ausência de uma identidade indígena, que os una ao Presente e os ligue ao Passado, visto que é através da língua que um povo mantém a sua identidade cultural.

Infelizmente, os potyguara não mais falam a sua língua de origem, o tupy-guarany, mas, sim, a língua portuguesa; não cultuam mais os seus deuses, com exceção de Tupã, e passaram a freqüentar rituais religiosos de terceiros – rituais esses, aliás, que nada têm a ver com os dos seus antepassados, como assim queriam os primeiros jesuítas que, aqui, puseram os seus insolentes pés, desrespeitando e desmantelando uma cultura que, até a sua chegada, com terços e exemplares do evangelho, era soberana. Falando em soberania, a Igreja Católica também perdeu a sua, já que diversos outros templos, de demais religiões, são, igualmente, encontrados nas diversas aldeias dos potyguara.

Enfim! Não podemos esquecer a música do branco, invadindo as casas dos índios, expostos ao que há de pior nas rádios e televisões brasileiras. E a coisa é tão grave que, certa hora, chegamos a pensar que estávamos em um pé sujo qualquer, ouvindo lamúrias de bêbados abandonados e apelações sexuais de alguns grupos de forró, para quem, aliás, erotismo é falar de sexo de maneira vulgar, citando trechos da anatomia humana como se fossem bolas de bilhar. Infelizmente, são coisas desse tipo, de tão baixo calão, que os índios têm ouvido, dia após dia, em todo o País, que, inclusive, prejudica não somente a formação de crianças e jovens indígenas, mas, também, a de crianças e jovens negros e brancos.


Foto: Nathalie Bernardo da Câmara
Cunhãs potyguara.

E o que fazem as autoridades ditas competentes para coibir esses abusos? Nada! No entanto, essas mesmas autoridades bem que podiam criar uma lei, estabelecendo critérios e horários para a veiculação dessas músicas, assim como para determinados programas televisivos, poupando, assim, a audição e a visão de todos, de maneira geral. É! Não tem sido fácil para os potyguara, embora esses sejam apenas alguns dos muitos dramas que presenciamos durante a nossa permanência na Baía da Traição. Outro drama, por exemplo, são as queimadas, devastando quilômetros e mais quilômetros de mata, transformando o verde num cenário desolador. E, o que é pior, sem que os responsáveis sejam punidos.

Felizmente, da mesma forma que existem as desgraças da vida, existem as graças. Uma das nossas graças, portanto, foi a satisfação da pajé em nos receber, comermos com ela, nos fundos de sua casa, sentados no chão de terra batida, uma comida feita em um fogareiro e, depois, durante a tarde, nos vermos instalados em agradáveis e confortáveis redes. Sim, a hospitalidade dos potyguara continua sendo a mesma de quinhentos anos atrás, ou seja, exemplar. Mas, vale salientar, só para quem eles acham que a merece. Tanto é verdade que demorou mais de um ano para a pajé autorizar a minha ida à tribo dos potyguara na qual ela vive, de onde saí inteira e, agora, cá estou eu, contando história.

Foto: Nathalie Bernardo da Câmara
Forno da casa de farinha na Baía da Traição.

Por falar nisso, a única carne de quatro patas que comemos, nos dias em que passamos com os potyguara, foi a carne de uma galinha, ou melhor, a de um frango, e com direito à hormônios, visto que o mesmo foi comprado em um supermercado fora da aldeia. E só não digo a marca do produto para não fazer propaganda. Bom! Além do frango, degustamos o feijão e o arroz da pajé, cuscuz, cabeça de peixe com farinha de mandioca, pé-de-moleque e biju. Os dois últimos, além de outras iguarias, foram feitos na casa de farinha, e constaram, também, do menu do nosso réveillon, abrilhantado, diga-se de passagem, com a presença do cacique, que, junto com a pajé, comandou uma representação do Toré – ritual de passagem votado a Tupã.

Com os índios dançando, cantando e tocando maracás, o Toré também pode ser realizado para receber o espírito de uma pessoa querida, ou, ainda, nas comemorações do Dia do índio, no dia 19 de abril, data em que os potyguara, caracterizados, com pinturas no corpo, poucas vestes e adereços, seguem, solenemente, e em silêncio, sem cantar – o único som que se ouve, além do canto dos pássaros, do vento e do estalar de gravetos quebrados pelos pés dos índios, durante a sua caminhada, é o dos instrumentos: zabumba, maracás... –, em direção ao ouricouri, no alto de um monte, próximo à aldeia São Francisco, para a festa propriamente dita, sendo encontradas, no local, duas grandes ocas.

Em uma das ocas, os potyguara recebem os convidados e aproveitam para venderem camisetas e o artesanato que produzem (colares, brincos, anéis, flechas, arcos etc), além de exposições de fotografias, enquanto na outra oca são depositadas e guardadas as comidas preparadas pelas mulheres das aldeias e as bebidas a serem servidas durante a festa. O curioso é que o Dia do índio, criado, em 1943, pelo decreto-lei nº 5.540, assinado pelo então presidente do Brasil Getúlio Vargas (1882 - 1954), passa a idéia, mesmo não sendo essa a intenção, de algo alegórico, uma data folclórica. Não vejo, portanto, sentido algum esse tipo de comemoração, já que, antes disso, “todo dia era dia de índio”, como bem disse a cantora Baby Consuelo.


Foto: Nathalie Bernardo da Câmara
Cacique dos índios potyguara da Baía da Traião, na Paraíba, e a mãe.


Outras datas, inclusive, que – fiquei sabendo – são comemoradas pelos potyguara chamaram a minha atenção e me causou espanto. Ou seja, as festas de santo, tais como a festa de São Miguel, o padroeiro dos potyguara, celebrada, efusivamente, no dia 29 de setembro, e a festa de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, padroeira da aldeia São Francisco, onde mora a pajé, comemorado no dia 12 de outubro, sempre seguidos de novenas. Sem falar que quase todas as aldeias têm o seu santo padroeiro. Que esquisito! Sim, já que religião não é coisa de índio. Bom! Além dessas duas festas, todas as aldeias festejam São João e São Pedro, no mês de junho, Senhora Santana, no mês de julho, e Nascimento, que é o Natal, no mês de dezembro, bem como o Dia de finados...

Por mais incrível que pareça, os potyguara comemoram, sim, o Dia de finados. À oportunidade, aproveitam para visitar o cemitério dos índios, que fica ao lado da igreja da aldeia de São Miguel... Sei não, mas, confesso, acho tudo isso muito estranho. Ao mesmo tempo, até entendo, considerando a forte influência que foi para os potyguara, durante quinhentos anos, a presença católica na região. Mas, rituais à parte, quaisquer que sejam eles, a noite de réveillon que passei no terreiro da pajé foi, no mínimo, curiosa, regada, aliás, com as mesmas bebidas alcoólicas consumidas pelos brancos, culminando com rajadas e mais rajadas de fogos. Um espanto para nós, os convidados, já que explosão de fogos – convenhamos – também é coisa de branco.

Não obstante, mesmo querendo experimentar o cauim, bebida de origem indígena, que eu não conheço, à base de milho e mandioca, antes uma tradição, mas que, de há muito, deixou de ser consumida – vai ver, os potyguara nem sabem mais como prepará-la –, tivemos, diga-se de passagem, um réveillon incomum, ali, no meio do mato, longe da dita civilização, apenas observando. Eu, particularmente, observei tanto que, quando já estava dormindo, acordei sufocada. Para espantar os mosquitos, a pajé detonou quase um tubo de Baygon pelos cômodos da casa, que, detalhe, estava toda fechada. Assustada, com falta de ar, eu perguntei: “Fafá, você quer nos matar? Não tem nenhum incenso, aqui?”. Não tinha. Levantamos e abrimos portas e janelas.

A Respeito de um porto inseguro...

Foto: Lula Marques
Protesto de índio nas comemorações dos 500 anos do
descobrimento do Brasil, em Porto Seguro, na Bahia.

Na maioria dos casos, a historiografia dita oficial do Brasil peca por ser tendenciosa, ocultando, em suas entrelinhas, a verdade de certos fatos históricos. Resultado: a nossa História foi mal contada. E ai de quem conteste! Curiosamente, dizem que, agora, vivemos em uma democracia e que podemos contestar. Será que podemos? Até mesmo porque não foi isso que vimos, em abril de 2000, durante as comemorações oficiais dos quinhentos anos do achamento do Brasil, quando representantes de comunidades indígenas, em Porto Seguro, na Bahia, foram sumariamente reprimidos, apenas porque protestavam contra as comemorações. Afinal, eles, os índios, não tinham nada para comemorar. E com toda razão.

Acontece que todos continuam, ainda, querendo a sua parte do bolo, o que implica em novos sacrifícios. Infelizmente, os sacrificados de hoje são as crianças e os jovens. Os únicos, aliás, que poderiam resgatar a cultura dilacerada de um povo que, há quinhentos anos, não fazem outra coisa a não ser suportar, com dignidade, os sacrifícios que, ao longo dos séculos, lhes foram impostos, e continuam sendo, por todos aqueles que, de 1500 para cá, passam pelo poder, detendo, cada um a seu modo, o controle do gigante, do belo, do forte e do impávido colosso que passaram a chamar de Brasil, dilapidando as suas riquezas e repartindo fatias do bolo com o capital estrangeiro.

Só que, a bem da verdade, o gigante, em 1500, era o povo indígena. Com o seu brado retumbante, o índio habitava as terras garridas, de lindos campos floridos, não fugindo à luta nem mesmo com a chegada dos portugueses. Resistiram. Porém, apesar do tamanho e da força que tinha, o gigante se viu, de uma hora para outra, com as suas pernas e braços atados. Sem perspectivas e, sobretudo, sem grandeza, visto a emboscada na qual tinha caído, ele só viu como alternativa se recolher a sua ini(23) – o seu berço esplêndido, onde, até hoje, sem o som do mar e sem a luz do céu profundo, ele permanece deitado, como queriam os portugueses e como persistem querendo os que se dizem filhos deste solo.

Infelizmente, estes últimos só estão realmente interessados nas riquezas do país, esquecendo que, em cada tribo indígena do Brasil, muitos acreditam, ainda, em um futuro melhor. Mas, não o futuro que os políticos planejam para eles em seus gabinetes, em reuniões de portas fechadas, sem nem mesmo ouvi-los, mas um outro, independente dos rumos da História. De qualquer forma, nunca é tarde para repararmos certos erros, sobretudo num país de crianças e jovens – não importa se indígenas, negras ou brancas –, em nome das quais o Brasil precisa, urgentemente, adquirir uma identidade – coisa que, aliás, ele nunca teve.


Índio em Brasília, no Distrito Federal.

Vai ver, quem sabe, está na hora de termos uma identidade! Só que não é reprimindo as diferenças que conseguiremos isso, mas somando e multiplicando. Por tudo isso e muito mais é que o Brasil só será um país realmente digno de respeito no dia em que uma pajé potiguar – a minha amiga – não mais tiver de passar pelo vexame de ver um dos seus apanhando e sendo arrastado por policiais, colocado às pressas numa ambulância e levado para o hospital – aconteceu em Porto Seguro. Caso contrário, não nos resta que cultivar um único sentimento pelo Brasil, ou melhor, pelos que governam este Brasil, que é o sentimento de vergonha...

Bibliografia consultada

1. SCHWENNHAGEN, Ludwig. Fenícios no Brasil (Antiga história do Brasil de 1.100 a.C. a 1.500 d.C.). In: PACHECO, Cláudia Bernhardt de Souza. História secreta do Brasil – O Millennium e o homem universal. São Paulo: Editora próton, 2000, p. 21.
2. Idem, p. 21.
3. PACHECO, op. cit., p. 8.
4. Idem, p. 108.
5. Ibidem, p. 156.
6. QUADROS, António. Portugal, razão e mistério – O Projeto Áureo ou Império do Espírito Santo. In: PACHECO, op. ci.t, p. 158.
7. PACHECO, op. cit., p. 152.
8. Idem, p. 9.
9. PACHECO, op. cit., p. 19.
10. LEITE, Serafim. Monumenta Brasiliae. Roma, 1956, 2:196. In: DEAN, Warren. A Ferro e fogo - A História e a devastação da Mata Atlântica brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 76.
11. Segundo o antropólogo José Glebson Vieira, o grupo indígena potyguara está reivindicando o resgate da língua dos seus antepassados, ao mesmo tempo que reivindicam, também, o reconhecimento do seu tronco lingüístico, que é o tupy-guarany. Daí utilizar, neste artigo, a grafia potyguara.
12. CASCUDO, Luís da Câmara. O Povo do Rio Grande do Norte, In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Volumes XXXII a XXXVII. Anos 1935 – 1937. Natal. Tip. Santo Antônio, 1940, páginas 69 e 70.
13. Idem.
14. FERNANDES, Luiz. Estudos Potyguares, História Colonial do Rio Grande do Norte no Século XVI. P. 8 e 9.
15. Idem.
16. Ibidem. P. 6.
17. Ibidem. P. 9.
18. Ibidem. P. 11.
19. SOUZA, Gabriel Soares de. Tratado Descriptivo do Brazil em 1587. Typographia Universal de Laemmert, 1851. P. 27.
20. MOONEN, Frans e MAIA, Luciano Mariz. Etonografia dos Índios Potiguaras. Procuradoria da República na Paraíba, Secretaria de Educação e Cultura do Estado da Paraíba. João Pessoa, 1992. P. 99.
21. Idem.
22. Santos, Tânia Mara dos e Costa, Francisco Xavier Pereira da. GT Indígena e o povo potiguara, p. 115. Disponível em: . Acesso em: 04/04/2007.
23. Rede, na língua tupy-guarany.


Foto: Nathalie Bernardo da Câmara
ALDEIA QUE TE QUERO ALDEIA


Globais ou não, as trinta e uma aldeias dos potyguara estão distribuídas em 33.757 hectares, pertencentes às Tribos indígenas - TI: TI Potyguara, TI Jacaré de São Domingos e TI Potyguara de Monte-Mór. Segundo os pesquisadores Tânia Mara dos Santos e Francisco Xavier Pereira da Costa, a TI Potyguara, com 21.238 hectares, homologados em 1991, situa-se nos municípios da Baía da Traição, Rio Tinto e Marcação, na Paraíba, embora a presença indígena na região tenha sido reconhecida, oficialmente, em 1930, passando a ser beneficiada pela política indigenista nacional. A TI Jacaré de São Domingos, em Marcação, por sua vez, teve os seus 5.032 hectares homologados em 1993. No entanto, em 2005, alguns usineiros da região questionaram a decisão judicial e a homologação foi suspensa.

Já a TI Potyguara de Monte-Mór, em Marcação e Rio Tinto, reconhecida apenas no início do séc. XXI, está, ainda, com os seus 7.487 hectares sendo identificados, para, em seguida, serem demarcados e, posteriormente, homologados(i). Segundo dados da III Assembléia Indígena do Povo Potiguara, realizada em 2004, são vinte e sete as aldeias das três Tribos Indígenas: Forte, Galego, Lagoa do Mato, Cumaru, São Francisco, Vila São Miguel, Laranjeira, Santa Rita, Tracoeira, Bento, Silva, Acajutibiró, Jaraguá, Silva de Belém, Jacaré de São Domingos, Jacaré de César, Estiva Velha, Lagoa Grande, Grupiúna, Brejinho, Tramataia, Camurupim, Caieira, Nova Brasília, Vila de Monte-Mór e Três Rios. Ainda segundo os dados da referida Assembléia, “Monte-Mór e Três Rios passaram a ser consideradas como aldeias há pouco tempo”(ii).



i. Santos, Tânia Mara dos e Costa, Francisco Xavier Pereira da. GT Indígena e o povo potiguara, p. 114. Disponível em: . Acesso em: 04/04/2007.
ii. Potyguara, Caboquinho; Sobrinho, José Ciríaco; Rodrigues, Manoel Eufrásio; Silva, Luiz Benedito da. III Assembléia Indígena do Povo Potiguara – Juventude e reconquista. Cimi – Setor de documentação. 2004.





Nathalie Bernardo da Câmara
Registro profissional de jornalista:
578 - DRT/RN, desde 1989

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

ATA-ME...



“A natureza nada vale
sem o clarão da sensibilidade humana...”.

Luis da Câmara Cascudo (1898 - 1986)
Folclorista e escritor brasileiro

Uma relação atávica, a da poeta brasileira Zila Mamede com o mar – ela não gostava do termo poetisa. Porém, o encontro com o mar de todas as possibilidades demorou um pouco a acontecer, já que Zila da Costa Mamede nasceu no sertão, no sítio do seu avô materno, Francisco Bezerra de Medeiros, no dia 15 de setembro de 1928, em Nova Palmeira, na Paraíba. Então um povoado, fundado por seu Caçote, como era conhecido o avô da futura poeta, juntamente com o seu padrinho de batismo, Francisco de Medeiros Dantas, Nova Palmeira foi o berço esplêndido daquela que, um dia, o poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto (1920 - 1999) elegeria como um dos maiores nomes da poesia nacional.

Antes disso, contudo, Zila deu duro, porque, criança e adolescente – que paradoxo! – não era afeita a livros. No máximo, parcos folhetos de literatura de cordel e versos de Olavo Bilac (1865 - 1918), lido à luz de uma lamparina a noite pela mãe, a costureira e doceira Elydia Bezerra de Medeiros. Os seus primeiros estudos? Em Currais Novos, no Rio Grande do Norte, onde moravam os avós paternos e o pai, Josafá Gomes da Costa Mamede, passou a trabalhar em uma oficina da família, que prestava serviços para firmas de beneficiamento de algodão instaladas na região. Os livros, emprestados de dona Suetônia, vieram juntos. Do Almanaque Capivarol as histórias de Monteiro Lobato. E o mar?

O mar ela só conheceria anos depois, quando, em uma viagem a Pernambuco, se viu frente a frente com aquele que, um dia, desposaria “como o canto das estrelas”... Um misto de paraibana e norte-rio-grandense – o avô materno era de Jardim do Seridó e o pai de Caicó, localidades do Rio Grande do Norte – Zila passou a morar em Natal a partir de dezembro de 1942, quando, aos quatorze anos, ela chegou, junto com a mãe, ainda desconhecendo o papel que a poesia e o mar exerceriam em sua vida. O seu pai, por sua vez, já trabalhava em Parnamirim, próximo a capital, onde fora instalada uma base da aeronáutica brasileira – trampolim entre os Estados Unidos e a Europa quando da Segunda Guerra Mundial.

Enquanto isso, prosseguindo com os estudos, Zila foi matriculada em uma escola da cidade de tradição religiosa, o que a fez despertar para uma eventual vocação. Em 1949, aos vinte e um anos, viajou de férias com o padrinho Dantas. Foi para João Pessoa e Recife. Homem culto, humanista e marxista, Dantas descobriu que a afilhada pouco sabia de literatura e passou a incentivá-la a ler. E ela leu. Lia. O português Eça de Queiroz (1845 - 1900); o brasileiro Machado de Assis (1839 - 1908); o francês Jacques Maritain (1882 - 1973); o russo Leon Tolstoi (1828 - 1910)... Zila, contudo, apesar do súbito despertar da sua porção intelectual, continuava a acalentar a aspiração em ser freira, gerando conflitos interiores.

Uma forte angústia existencial, contudo, a fez escrever e publicar na imprensa local. No início, timidamente, sobretudo após o poeta e crítico literário Antônio Pinto de Medeiros ter dito que ela escrevia bobagens. Nascido em Apodi, no Rio Grande do Norte, mas radicado em Natal, Antônio Pinto era uma referência intelectual da época. Zila não esmoreceu diante as críticas. Um dia, em uma festa, o próprio Antônio Pinto de Medeiros a tirou para dançar e elogiou o poema Mar Morto, alegando que, com esse soneto, um divisor de águas em sua produção, Zila se impunha como uma verdadeira poeta. Os versos foram publicados pela autora no jornal Tribuna do Norte, com data de 26 de maio de 1952.

MAR MORTO

Parado morto mar de minha infância
sem sombras nem lembranças de sargaços
por onde rocem asas de gaivotas
perdendo-se num rumo duvidoso.

Pesado mar sem gesto, mar sem ânsia,
sem praias, sem limites, sem espaços,
sem brisas, sem cantigas, mar sem rotas,
apenas mar incerto, mar brumoso.

Criança penetrando no mar morto
em busca de um brinquedo colorido
que julga ver no morto mar vogando.

Infância nesse mar que não tem porto,
Num mar sem brilho, vago, indefinido,
Onde não há nem sonhos navegando.

Em 1953, publicou o primeiro dos livros de poemas que escreveu: Rosa de pedra. De certa forma, apesar de visto pela autora como “intuitivo”, o livro recebeu influências da Geração de 45, registrou a pesquisadora brasileira Nelly Novaes Coelho, em seu Dicionário crítico de escritoras brasileiras. Além disso, Rosa de pedra foi considerado pelo poeta modernista brasileiro Manuel Bandeira (1886 - 1968) como “um dos melhores livros de versos” produzido, até então, no país. E foi exatamente através do amigo Bandeira, que, em 1955, Zila, que depois viria a atuar como jornalista, inclusive como correspondente internacional do jornal O Globo, conseguiu uma bolsa de estudos para estudar biblioteconomia na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, curso que concluiu em 1956.

“Nunca fui herege em minha poesia,
mas nunca fui mística”.

Zila Mamede

Depois disso, estudou administração de bibliotecas nos Estados Unidos e na Universidade de Brasília, justo durante aquele que seria o primeiro de mais de vinte anos de uma atroz e indigesta ditadura militar. Antes, contudo, publicou o livro de poemas Salinas, 1958. Laureado com o Prêmio Vânia Souto Carvalho, conferido pela Academia Pernambucana de Letras de Recife, Salinas foi definido como sendo uma transição da autora. Segundo o poeta brasileiro Paulo de Tarso Correia de Melo, em um ensaio de sua autoria, uma “transição para o canto agro-lírico de O Arado”, 1959, o terceiro livro da poeta, que, apesar do seu fascínio pelo mar, a fez falar da terra. Prefaciado pelo folclorista brasileiro Luís da Câmara Cascudo, o livro teve quatro edições: 1959, 1978, 2003 e 2005.




No dia 1° de fevereiro de 2009, o cinqüentenário de O Arado. Porém, como aniversário de livro se comemora o ano inteiro... Rendo, então, esta sucinta homenagem não somente aos poemas arados com o sabor da terra, mas, sobretudo a sua agricultora, que, inclusive, quando eu era ainda apenas uma adolescente, ávida por livros e já cometendo travessuras poéticas, tive o privilégio de conhecer, chegando a lhe dedicar dois poemas de minha autoria. Em O Arado, portanto, Zila tece versos sobre enxadas, capoeiras, açudes, rios e pastos. Decanta a casa de farinha, a plantação, a cacimba, a ovelha e o algodão, sem esquecer-se das redes, das candeias, do barro e do pão. Do medo infante no sereno da lua. Relembra as cabaças, as roças, as tabocas, os capinzais e as ravinas.

As lavras, as eiras e o sol. As lavouras, as colheitas, as espigas e a moenda. Os mourões e os bois. O da cara preta também... Mas, recordando a fazenda do avô, o sertão de Nova Palmeira – depois Vila e, hoje, município, Zila revive as colinas, os lírios, os pastos e os penedos. Sente o gosto das frutas, dos peixes do rio. Dos pássaros e dos feixes de luz tirando os passarinhos dos seus ninhos... Reminiscências de um tempo distante, tal qual o suor do rosto de quem ara a terra, de quem tece versos e do labor que emprega nesse nem sempre fácil ofício. Em seu prefácio de O Arado, Câmara Cascudo diz que, ao escrever o livro, “Zila Mamede sentiu a voz irresistível da terra, onde vivem marujos sem mar”, dedicando-o ao avô Caçote e à Nova Palmeira.

“Os responsáveis pela grandeza poética de Zila Mamede: a liberdade sintática, a linguagem inusitada e, em muitas vezes, repentino acento metafísico...”.

Paulo de Tarso



Para Zila, o sítio do avô era a sua “terra mãe, fonte raiz, chão do meu chão”, que ela deixou, por entre caminhos ocultos, na firmeza dos cascos do cavalo... Certo dia, outros tempos, confessou: “É o chão onde nasci, e eu gostaria que ela [Nova Palmeira] fosse no Rio Grande do Norte, porque me sinto tão norte-rio-grandense que tenho susto quando olho a minha carteira de identidade”, costumando comparar-se à muda de alguma flor: “Fui transplantada muito pequena, a tempo de me sentir enraizada no Rio Grande do Norte”. E foi mesmo, transplantada e enraizada ainda menina na paisagem litorânea que não somente recorta Natal, mas, também, imprime uma espécie de marca registrada, inebriando, sobretudo os sentidos dos poetas.

Foi o caso de Zila, que, desde o seu primeiro encontro com o mar, intuiu que, nele, encontraria a redenção por cometer poemas em seu nome. Começou, então, naquele momento, uma história de amor... Depois de O Arado, contudo, Zila fez uma pausa nas publicações, mas sem deixar de lado a poesia. Dedicou-se à pesquisa e publicou: Bibliografia sobre Chico Santeiro, 1966; Luís da Câmara Cascudo: um pesquisador, 1968; Luís da Câmara Cascudo: cinqüenta anos de vida intelectual (1918 - 1968), 1970. Com o folclorista norte-rio-grandense, Zila manteve uma relação atávica, igual a que mantinha com o mar – mar esse que ela clamava por seus ventos, pretendendo desposá-lo, “como o canto das estrelas”. Em 1974, publicou, ainda, Os Vários caminhos de Maria Alice Barroso.



Câmara Cascudo e Zila Mamede

No ano seguinte, Zila lançou o Exercício da palavra, um “doce-amargo livro” de poemas, nas palavras do poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987). O tempo passou e, em 1978, saiu Navegos, que reuniu os seus quatro primeiros livros de poemas, acrescidos de um quinto, Corpo a corpo. Em 1984, é a vez de A Herança e, postumamente, em 1987, foi publicado, de sua autoria, Civil e geometria: bibliografia crítica e anotada de João Cabral de Melo Neto. Em 2003, em um único volume, a Editora da UFRN reeditou Navegos e A Herança. Em 2005, o historiador Claudio Galvão publicou uma biografia da poeta, intitulada Zila Mamede em sonhos navegando. No ano seguinte, Alexandre Alves lançou Silêncio, mar – A Poesia de Zila Mamede nos anos 50.

O poema Banho (rural) é um dos que constam no livro O Arado e está na seleção de Os Cem melhores poemas brasileiros do século [XX], publicada pela Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2001, pág. 141, organização de Ítalo Moriconi.

BANHO (RURAL)


De cabaça na mão, céu nos cabelos
à tarde era que a moça desertava
dos arenzés de alcova. Caminhando

um passo brando pelas roças ia
nas vingas nem tocando; reesmagava
na areia os próprios passos, tinha o rio

com margens engolidas por tabocas,
feito mais de abandono que de estrada
e muito mais de estrada que de rio

onde em cacimba e lodo se assentava
água salobre rasa. Salitroso
era o também caminho da cacimba

e mais: o salitroso era deserto.
A moça ali perdia-se, afundava-se
enchendo o vasilhame, aventurava

por longo capinzal, cantarolando:
desfibrava os cabelos, a rodilha
e seus vestidos, presos nos tapumes

velando vales, curvas e ravinas
(a rosa de seu ventre, sóis no busto)
libertas nesse banho vesperal.

Moldava-se em sabão, estremecida,
cada vez que dos ombros escorrendo
o frio d'água era carícia antiga.

Secava-se no vento, recolhia
só noite e essências, mansa carregando-as
na morna geografia de seu corpo.

Depois, voltava lentamente os rastos
em deriva à cacimba, se encontrava
nas águas: infinita, liquefeita.

Então era a moça regressava
tendo nos olhos cânticos e aromas
apreendidos no entardecer rural.


Zila Mamede


Em 2008, se viva, Zila Mamede teria completado oitenta anos. Porém, ela não quis esperar data tão memorável e, no dia 13 de dezembro de 1985, com apenas cinqüenta e sete anos, na Praia do Forte, em Natal, partiu, provavelmente serena, com os “cabelos de musgos lavados de espuma”, nos braços daquele que a conquistou: o mar – um fim, contudo, não tão surpreendente assim, mesmo para uma exímia nadadora, que via nos sargaços a mortalha dos seus sonhos...
Nathalie Bernardo da Câmara


terça-feira, 1 de setembro de 2009

O SOM DAS LETRAS


“Não há bem que sempre dure nem mal que ature...”.

José Saramago, escritor português


Os alfabetos gritaram, gritaram e ela atendeu ao chamado. Da terra, do ar, dos ventos e dos mares. Sinceramente? O Brasil precisa de um ser humano como Maria Osmarina Marina da Silva Vaz de Lima – um poema épico, o nome. Uma romaria... Ou, simplesmente, Marina Silva. Militante do PT por trinta anos, filiou-se ao PV outro dia. Fez jus as causas ambientais que defende. E outras mais. Mulher, quis ser freira, mas virou marxista e hoje é evangélica – só não gosto disso. Sim, tirando a sua opção religiosa – também sou marxista, mas atéia –, Marina Silva seria a candidata ideal – pelo menos, para mim – para presidir o Brasil.

Segundo a jornalista Ruth de Aquino, Marina é “filha de seringueiros migrantes cearenses, analfabeta até os 16 anos, aprendeu a ler quando trabalhava como empregada doméstica. A mãe tinha morrido. Pelo Mobral, fez em quatro anos o primeiro e o segundo graus. Contraiu cinco malárias, duas hepatites. Formou-se em história”. Uma vida recheada de dramas. E o povo gosta. Candidata à presidência da república, ganha. E imunidade ela tem de sobra! Para enfrentar todo tipo de adversidade. Só não me venha, depois, com demagogia. Igual Lula, que sensibilizou o Brasil e, depois, deu no que deu. Quanto a mim, posso até votar nela!


Quero o meu ambiente inteiro. Não pela metade...


Nathalie Bernardo da Câmara
Registro profissional de jornalista:
578 - DRT/RN, desde 1989