quarta-feira, 31 de março de 2010

PELO SINAL DA SANTA CRUZ...




”A Bíblia é um livro que glorifica o genocídio...”.

Chomsky, lingüista norte-americano


Distanciada dos noticiários televisivos, entediada com a mesmice de sempre, além de não cultivar o hábito de ler jornais – suja as mãos –, somente na semana passada tomei conhecimento de um fato, ocorrido no início deste mês, que, por sua singularidade, chamou a minha atenção. Ou seja, uma respeitável instituição de ensino laica de Roma, o Liceu Keplero, instalou máquinas para a venda de preservativos a preço de custo nos banheiros reservados aos seus alunos. Espalhando-se feito pavio de pólvora, a notícia chegou ao Vaticano, que, em mais um gesto de sandice, repudiou a iniciativa do estabelecimento de ensino.

Ocorre que, um bem necessário, a medida, profilática, foi tomada em comum acordo entre o conselho de pais e professores da escola, a fim de evitar que os alunos entrem em contato com o vírus HIV e demais doenças sexualmente transmissíveis, bem como evitar a gravidez precoce. Infelizmente, defensor de uma lógica obtusa, o cardeal Agostino Vallini, vigário do papa Bento XVI para a diocese de Roma, censurou a iniciativa do Liceu. Para ele, os educadores desvirtuaram-se da sua verdadeira função – a de rezar na cartilha do Vaticano, por exemplo? –, já que, com essa medida, eles só estão contribuindo com a banalização do sexo. Santa ignorância!

O diretor do Liceu, por sua vez, Antonio Panaccione, declarou à imprensa que a intenção da medida foi a de simplesmente preservar a saúde dos alunos, não a de estimular relações sexuais nem, muito menos, causar polêmicas. O Vaticano, contudo, intransigente que é, nunca aceitando ser voto vencido, prometeu tomar providências, já que, desde 1968, quando Paulo VI publicou a encíclica Humanae Vitae, a Igreja católica condena veementemente todas e quaisquer ações que possam impedir a gravidez. Ora, a questão não é procriar ou não procriar, mas sim evitar a disseminação do vírus HIV e de demais doenças sexualmente transmissíveis.

Polêmicas à parte, o fato é que a iniciativa – louvável – do Liceu Keplero foi bem recebida e apoiada por estudantes de demais escolas de Roma, que saíram pelas ruas da cidade portando cartazes e distribuindo preservativos. O episódio em questão, contudo, não é um caso único, isolado. Alguns países europeus e os Estados Unidos, por exemplo, já adotaram medidas iguais ou semelhantes em diversas das suas escolas, enquanto que, no Brasil, desde 2008, o Ministério da Saúde – referência no mundo na profilaxia da AIDS – determinou que fossem instalados dispensadores de camisinhas em escolas de vários estados do país.

Por isso que, para o diretor do Liceu Keplero, nada justifica a polêmica desencadeada pelo Cardeal, a não ser o fato de o episódio ter ocorrido em Roma, onde – a seu ver – falar de sexo é tabu, já que o Vaticano tenta abafar até mesmo os casos de sacerdotes pedófilos – um empenho desnecessário, visto que a dimensão dos escândalos é aterrorizante. Um dos casos, por exemplo, que anda recebendo tratamento vip da imprensa mundial, chocado a opinião pública e tirado o sono de Bento XVI, diz respeito a um relatório elaborado pela Comissão de Inquérito sobre Abusos de Crianças na Irlanda, presidida pelo juiz Sean Ryan, da Suprema Corte de Justiça irlandesa.

Recebendo o nome de Relatório Ryan, o documento, divulgado em maio de 2009, foi fruto de nove anos de investigações e, segundo comunicado do Movimento Internacional Nós Somos Igreja, “retrata um quadro de violência institucional sistêmica e descreve um conjunto arrepiante de abuso emocional, físico e sexual de crianças internadas em instituições pertencentes a determinadas ordens religiosas durante várias décadas” – ao todo, são dezoito ordens apontadas no relatório, que trouxe a tona um escândalo sem precedentes: menores vítimas de surras, trabalho escravo e violência sexual por sacerdotes da Igreja católica durante todo o séc. XX.



Assim, para os crimes de abusos sexuais, as instituições religiosas visadas no relatório terão de indenizar as vítimas, sendo a maior das indenizações a da Congregação Irmãos Cristãos. Porém, um segundo relatório, divulgado em novembro passado, acusa a Igreja católica da Irlanda de ter, durante décadas, acobertado, com a conivência de autoridades do Estado, casos de pedofilia no país. E, se agora, as indenizações são exigidas pela Justiça, até então vigorava a compra do silêncio das vítimas por quantias exorbitantes. Bento XVI, por sua vez, ao tomar conhecimento da gravidade do escândalo, disse se sentir “angustiado e indignado”.

Quiçá, talvez tenha sido esse o motivo que o levou a escrever uma Carta aos católicos da Irlanda, datada do dia 19 de março, na qual ele pede perdão pelos desvios de conduta de sacerdotes pedófilos na Irlanda. Ao redigir o documento, contudo, teria ele, por acaso, pensado que iria minimizar os danos e os prejuízos físicos e morais causados pelos abusos cometidos por seus pares? Afinal, existem coisas na vida para as quais não tem perdão. Assim, interessada em conhecer o teor da tal carta, acessei o site oficial da Santa Sé na internet e a li na íntegra, apesar de em nenhum momento acreditar na suposta sinceridade dos sentimentos do Papa.

Sim, nem mesmo quando ele disse sentir indignação diante dos abusos sexuais cometidos por padres na Irlanda. O fato é que, por conhecer a vida pregressa de Bento XVI, nada me demove das minhas opiniões em relação ao seu cinismo, como bem o disse o escritor português José Saramago, ao seu caráter duvidoso e ao seu alto grau de periculosidade. Afinal, durante quase longos vinte e quatro anos (1981 - 2005), ele foi o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano. Instituída pelo papa Paulo VI (1897-1978), em 1965, e considerada o quarto e atual estágio da Inquisição, a referida Congregação tem um passado sombrio.

À época da sua indicação para o cargo, aliás, por João Paulo II (1920 - 2005), de quem foi mentor intelectual durante o seu pontificado, de 1978 a 2005, Bento XVI era o cardeal Joseph Ratzinger, então arcebispo de Munique, na Alemanha. Assim, não é de se estranhar muitas das suas posições enquanto Papa – o 8° de origem alemã e o 265° da História –, já que, desde o início do seu pontificado, tem dado provas de que continua pensando como um inquisidor. Enfim! No documento destinado aos irlandeses, Bento XVI ainda propôs aos religiosos da Irlanda, independentemente de hierarquia, o retorno ao que ele chamou de “caminho de cura, renovação e reparação”.

E eu questiono: Existe reparação para não importa qual abuso sexual, sobretudo quando a vítima é uma criança indefesa? Existe reparação para os traumas provocados por tamanha violência? Bom! Em outra passagem da carta, o Papa garantiu que, para evitar o que ele considera pecado, mas que na lei dos homens chama-se crime, a Igreja católica passará a ser mais rigorosa quanto à idoneidade dos candidatos à vida religiosa. Perda de tempo! Afinal, uma das soluções para evitar crimes sexuais cometidos por sacerdotes seria a abolição do celibato, algo, inclusive, que, dependendo do ponto de vista, também pode ser considerado um crime.



Nesse caso, um crime contra a natureza humana. Sem falar que o voto de castidade é não somente uma fraude, mas, também, uma hipocrisia, a exemplo dos demais votos, o de pobreza e o de obediência, embora cada um tenha a sua função e importância para a manutenção de um statu quo caduco. Impossível, portanto, não perceber que a motivação da Igreja católica para criar tais votos foi apenas para encobrir interesses escusos. Não, como se alega, para os sacerdotes reproduzirem o modus vivendi de Jesus, que teria sido pobre, obediente a um suposto deus e supostamente casto, apesar da versão de que ele foi amante de Maria Madalena.

Ou seja, fazendo o voto de pobreza, por exemplo, um sacerdote se despoja dos seus bens – não são poucas as vezes em que ele os transfere para a Igreja –, tornando-se em seguida não obediente, mas submisso a dogmas que, tudo indica – qualquer um percebe –, são frutos de uma mente esquizofrênica. Passando, então, a se comportar como se tivesse sido exposto a uma lobotomia, o sacerdote sequer questiona o voto de castidade e, tacitamente, sem reflexão, o aceita. É como se esquecesse de que o sexo é uma necessidade fisiológica do ser humano, assim como dormir, comer, beber, urinar e defecar, independentemente da sua profissão.

Ocorre que a imposição do voto de castidade não tem nada a ver com a ficcional castidade de Jesus nem é sinônimo de dedicação exclusiva a deus. Nunca o foi. Ao contrário! Sempre foi apenas um pretexto para que se, porventura, o sacerdote casasse no civil, a sua esposa não tivesse direitos aos seus bens. Isto é, caso ele tivesse algum. Procriando, então, o sacerdote teria herdeiros, que, por sua vez, teriam ainda mais direitos ao patrimônio do pai do que a mãe. Assim, sem a criação do voto de castidade, o patrimônio da Igreja católica não seria o que é hoje. Estaria lapidado. Ou seja, tudo foi muito bem planejado – obviamente que por uma mente ambiciosa.

O fato é que, por ser o celibato uma novidade, o sacerdote até pode permanecer casto no início da vida religiosa, mas, não demora muito, a necessidade de sexo se manifesta. O sacerdote, por sua vez, resiste. Uma vez, duas, três... Certo dia, contudo, não mais resistindo ao desejo sexual, que termina por falar mais alto, ele finda, como se diz, por cair em tentação. Só que, por mais incrível que pareça, é que tal realidade é uma regra, não uma exceção. Daí a implosão de escândalos envolvendo sacerdotes pedófilos, embora, por ser uma patologia, a pedofilia não se restringe apenas aos adros da Igreja católica. Está por toda parte.

No entanto, quando um sacerdote é acusado de pedofilia, o escândalo ganha uma dimensão maior não somente por se constituir um crime, mas, também, por envolver uma autoridade religiosa, que, a priori, deveria orientar espiritualmente os fiéis, não desvirtuá-los. Além disso, revela, igualmente, a hipocrisia do sacerdote, já que ele se diz instrumento da palavra de deus, bem como a hipocrisia da Igreja católica – uma Igreja, aliás, que nem vergonha tem do seu passado maculado de sangue, que a condena: as Cruzadas, as Inquisições, que levaram à fogueira milhares de inocentes, e quantas mais aberrações cometidas em nome de uma abstração: Deus.

Assim, com um histórico desse, capaz de embrulhar o mais saudável dos estômagos, é até compreensível a Igreja acobertar – e não é de hoje – os crimes de pedofilia cometidos por seus sacerdotes. Porém, uma notícia boa: de uns tempos para cá, graças as denúncias das vítimas, à imprensa e as autoridades civis competentes, providências têm sido tomadas no sentido de coibir a prática da pedofilia na Igreja. Uma prática, aliás, impregnada não mais apenas nas batinas dos sacerdotes, mas no seio de toda a Igreja. Isso porque é humanamente impossível cumprir com o voto de castidade. Daí a hipocrisia de todos os que fazem a Igreja católica.




Sim, porque todo ser humano – faz parte da sua condição – tem necessidades sexuais, que são fisiológicas e, portanto, devem ser satisfeitas. E o padre é um ser humano. Seja ele pedófilo, hetero, homossexual ou qualquer outra coisa que o valha, não cumprindo, como eu já disse, com o voto de castidade que fez. No caso dos pedófilos, parece até que eles levam ao pé da letra uma das máximas de Jesus: “Deixai vir a mim as criancinhas...” (Lucas 18,15 – 17). Pois é! Como disse o sábio filósofo italiano Giordano Bruno (1548 - 1600), queimado vivo na fogueira da Inquisição: “A Igreja mente, é corrupta, cruel e sem piedade”. Não poderia ser diferente.

Afinal, desde os seus primórdios, a sua base de sustentação nunca foram os dogmas que os católicos apregoam com tanto fervor, mas que não passam de puro marketing, ou melhor, de propagandas enganosas. A bem da verdade, a base de sustentação da Igreja católica sempre foi, inquestionavelmente, a tríade dinheiro, poder e sexo. Por isso a criação dos votos de pobreza, obediência e castidade – condição sine qua non para a garantia de um dado statu quo. Enfim! Em uma das passagens da Carta aos católicos da Irlanda, Bento XVI diz sentir vergonha e remorso pelo constrangimento passado pelas vítimas, decorrente dos abusos sofridos.

No entanto, o que mais me chocou foi ele absurdamente comparar as chagas dessas mesmas vítimas com as de Jesus. Pior! Depois desse delírio, sugeriu que as vítimas se reconciliem com a Igreja – imagino que perdoando os seus algozes – e tentem encontrar a paz interior. Ninguém merece! Por isso que, das duas, uma... Ou Bento XVI está esclerosado ou, então, ele é mesmo muito cara de pau – abusando da nossa boa fé – ao sugerir tal reconciliação. Já na passagem dedicada aos sacerdotes pedófilos, quando diz que a fragilidade da condição humana nunca foi tão claramente revelada, ele praticamente inocentou os autores dos abusos sexuais.

Não satisfeito, garantiu-lhes que, se houver um arrependimento honesto da sua parte, deus lhes concederia o perdão... Não acreditei! Foi como se eu estivesse em um filme do italiano Fellini (1920 - 1993), surreal por excelência, sobretudo porque, na semana passada, o New York Times divulgou que, nos últimos dez anos, três mil denúncias de abusos sexuais cometidos por sacerdotes contra menores foram encaminhadas ao Vaticano. Entre eles, o norte-americano Lawrence Murphy, morto em 1998, que, ao longo de vinte e quatro anos, molestou cerca de duzentas crianças de uma escola para surdos no Estado americano de Wisconsin.

Já na cidade italiana de Verona, dezenas de alunos do Instituto Antonio Provolo para a Educação dos Surdos-Mudos vieram a público denunciar abusos sexuais praticados por dezenas de sacerdotes ao longo de mais de trinta anos. Um dos nomes citados, por exemplo, é o de um bispo que, já falecido, se encontra, atualmente, em processo de beatificação... Sei não, mas, diante de acontecimentos tão emocionantes, a Igreja católica está mais para Casa Pia do que para Casa do Senhor. Só que Casa Pia à italiana, embora não negue as semelhanças com a Casa Pia de Lisboa, envolvida em uma rede de pedofilia que, em 2002, foi denunciada em Portugal.


Quanta pouca vergonha a da Igreja católica apostólica romana! Depois o Papa, os seus colaboradores e fiéis ainda se sentem no direito de criticar Saramago quando ele diz que “a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana”. Estaria, por acaso, o nobre Nobel dizendo alguma mentira? Em entrevista concedida à BBC Brasil, o teólogo italiano Marco Politi, um dos maiores conhecedores da política interna da Igreja Católica, questionou: “O que aconteceu com estas denúncias? Quantas foram julgadas? Quantos religiosos foram considerados culpados e quantos foram punidos?”.

Para ele, “o Papa está numa encruzilhada e terá que abrir os arquivos secretos da Congregação para a Doutrina da Fé se quiser ser coerente com a transparência que defende”. Prosseguindo, o teólogo disse: “É preciso dar explicações e não admitir mais que os casos sejam ocultados”. L'Osservatore Romano, por sua vez, jornal oficial da Santa Sé, acusa o New York Times de ter publicado uma reportagem apenas com o “ignóbil objetivo de atingir o Papa e seus colaboradores”. O fato é que o furacão da pedofilia chegou ao Vaticano. E chegou para ficar até que Bento XVI tenha a decência de abrir os tais arquivos, dando uma resposta ao mundo.

O que não se concebe mais é a Igreja católica fazer de conta que nada viu, nada ouviu e nada sabe dos abusos sexuais praticados por seus sacerdotes, querendo, ainda, que o mundo faça o mesmo. Ai, ai, ai... Uma Igreja de faz de conta. Sim, é isso que a Igreja católica é. Afinal, todo o seu histórico tem sido pautado pela hipocrisia. Estranhamente, sabe-se lá por quais motivos, Bento XVI elegeu 2010 como o Ano do Padre. Qual deles? O padre pedófilo ou o não pedófilo? Falando nisso, sempre tive uma curiosidade, a de saber se quando os abusos sexuais dos sacerdotes pedófilos envolvem penetração eles usam ou não camisinha.

Afinal, é pública e notória a posição contrária do Vaticano em relação ao uso do preservativo e a sua profilaxia. Ou seja, uma posição extremamente criminosa. Ninguém esquece, por exemplo, as declarações estapafúrdias do ardiloso Bento XVI sobre a distribuição e o uso do preservativo durante a viagem apostólica, que, em março de 2009, ele realizou a Camarões e a Angola. Alegando que o uso da camisinha não resolve o problema da AIDS na África – conseqüentemente, no mundo –, só o agrava, o Papa desencadeou polêmicas de repercussão internacional, apenas revelando a sua alienação em relação à saúde pública.



E isso porque, “em toda a História, segundo Saramago, a Igreja vem se metendo onde não é chamada e opinando sobre coisas que não tem capacidade de compreender”. Afinal, atentando contra a saúde pública, apesar de ser considerado o maior teólogo católico vivo, intelectual, erudito, poliglota e sete doutorados honoris causa, Bento XVI assinou um atestado de ignorância. Pior do que muito analfabeto, que, hoje em dia, já sabe que o preservativo é o método mais eficaz para combater a disseminação do vírus HIV. Infelizmente, o Papa só enxerga o seu dogmatismo, sem a menor consideração pela vida humana, que, aliás, ele banaliza sempre que pode.

Assim, não é de se estranhar a repulsa de muita gente ao Papa. Em carta aberta a Bento XVI, publicada no jornal francês Le Monde, no dia 25 de março de 2009, cientistas franceses da área da saúde afirmaram que “ainda é tempo” de o Papa rever as suas declarações contra o uso dos preservativos. Entre os cientistas que assinaram a carta estava Françoise Barré-Sinoussi, Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2008, exatamente pela descoberta do vírus da imunodeficiência humana - HIV, em 1983, considerada pelo Conselho do Nobel como “essencial para a compreensão atual da biologia da doença e para seu tratamento”.

Segundo a carta, os cientistas franceses afirmaram que “o uso regular do preservativo permite reduzir em pelo menos 90% o risco de transmissão do HIV, assim como o de outras doenças sexualmente transmissíveis”. Essas pesquisam mostram, também, que o uso do preservativo e as campanhas de prevenção sexual foram e continuam sendo o principal freio à difusão da epidemia em todo o mundo. A carta diz, ainda, que a declaração de Bento XVI revela um cinismo irresponsável e que “as suas opiniões deveriam ter evitado esse posicionamento de conseqüências dramáticas que, seguramente, marcará o seu pontificado”.

Sem sombras de dúvidas! Tanto que, à época, o New York Times, em um dos seus editoriais, foi enfático, dizendo que “o Papa não merece crédito quando distorce pesquisas científicas sobre a importância do preservativo em diminuir a disseminação do vírus”. Já em Haia, o ministro do Desenvolvimento da Holanda, Bert Koenders, confessou a sua perplexidade diante das declarações de Bento XVI, que, inclusive, ele acusa de ter “perdido o sentido das realidades”, enquanto o ex-primeiro-ministro francês, Alain Juppé, disse que “o Papa começa a ser um verdadeiro problema, dado que ele vive em uma situação de total autismo”.

Em editorial intitulado Redenção para o Papa?, a britânica Lancet, uma das mais conceituadas revistas médicas do mundo, acusou Bento XVI de distorcer evidências científicas, a fim de promover a doutrina católica, e que as suas declarações foram irrealistas, não-científicas e perigosas, acrescentando que não ficou claro se o seu erro “deveu-se à ignorância ou a uma tentativa deliberada de manipular a ciência”. Por fim, a Lancet exigiu que o Papa se retratasse – coisa que, até hoje, ele não fez. O teólogo alemão Hans Küng, por sua vez, sentenciou: “Bento XVI será julgado pela História como responsável pela maior propagação do vírus da AIDS”...


Nathalie Bernardo da Câmara




domingo, 28 de março de 2010

NÃO SOMOS
BUCHA DE CANHÃO!


“Cidadania é a condição da democracia...”.

Herbet de Souza, o Betinho (1935 - 1997), sociólogo brasileiro



Realizando uma pesquisa na internet, deparei-me, meramente por acaso, com o artigo Voto obrigatório x Consciência Política, de autoria de Giovana Barbosa, formada em Ciências Contábeis, pós-graduada em Direito Eleitoral e Direito Processual Eleitoral, além de repórter de Política. Postado no dia 26 de março de 2008 no blog Jornal Comunicação – laboratório do curso de jornalismo da Universidade Federal do Paraná –, o artigo continua bastante atual. Decidi, então, pela lucidez política da autora e pela pertinência da abordagem dada ao tema, sobretudo quando este ano de 2010 haverá eleição no Brasil, transcrever o referido artigo em meu blog, contribuindo, a meu ver, com a sua tão necessária divulgação.

Nathalie Bernardo da Câmara







VOTO OBRIGATÓRIO
X
CONSCIÊNCIA POLÍTICA



por Giovana Barbosa


Estamos em ano eleitoral. No próximo mês de outubro estaremos novamente frente à urna eletrônica, com ou sem candidatos pré-definidos.

Diante do descaso político, das constantes denúncias e, principalmente, da impunidade que nos agride diariamente, é possível observar um processo de cada vez menos interesse da população por seus eleitos. É mais fácil sabermos quem são os candidatos à presidência americana do que quem são os paranaenses que deverão disputar uma vaga na assembléia a partir de 2009.

Nossa carta Magna nos impõe, entre outras responsabilidades, a obrigatoriedade do voto. É simples. É concreto. Não vote, não compareça, não justifique sua ausência e você terá uma série de complicações perante a justiça, entre elas, por exemplo, problemas com passaporte, CPF, concursos públicos. Em contrapartida, usufruir do direito de votar nos garante o quê, diante de tanto descrédito político?

Várias pessoas são escutadas à beira da eleição e colocam sua indignação e sua posição contrária a essa obrigatoriedade. O dia de eleição nada mais é que um dia em que se encontram os amigos na porta das escolas, das igrejas, dos locais de votação. A importância política é a mesma que se dá a um acidente de trânsito que não comprometeu nenhum de nossos amigos ou parentes.

Vivemos um processo democrático. Precisamos de representação política diante de vários assuntos que afetam o bem estar comum e a sociedade em que estamos contextualizados. Mas existe uma carência, um vácuo nos princípios básicos constitucionais: se lida com miséria, fome, sede, ignorância escolar. Obrigações e deveres do Estado são trocados por outras responsabilidades que não deixam alternativas para quem quer exercer o bem pela pátria.

A consciência do voto, seja ele branco, nulo ou direcionado, tem um preço. Tem um valor, seja para quem dá, seja para quem recebe. Quem anula o voto, diminui as chances de ter uma representação. Quem o deixa em branco, permite que sua voz também seja um eco no espaço. Quem se ausenta, é como se não se importasse com quem habita as cadeiras legislativas de sua cidade, estado e nação. Mas quem responde ao chamado da justiça eleitoral consciente de sua obrigação, e a encara como uma responsabilidade, e não como um fardo, tem a chance de permanecer vivo nesse mundo brasileiro que parece tão inalcançável.

Ter o voto obrigatório pode parecer injusto numa democracia. Talvez, fosse ele facultativo estaríamos nós, brasileiros, numa situação mais cômoda e inerte (do tipo 'tô nem aí') e ainda os eleitos teriam que brigar de uma forma mais convincente pelos possíveis eleitores. Temos sim alguns disparates na Constituição que permite aos analfabetos o voto facultativo. A sua grande incoerência é não permitir que sejam eleitos. É como ter uma voz surda. Defeitos de um país que quer abraçar todas as formas possíveis de paternalismo. Um dia vão se dar conta deste antagonismo. Enquanto isso não acontece, nos cabe refletir sobre as conseqüências da ausência de um esclarecimento dos deveres e dos direitos políticos. Da importância da brasilidade, da força da discussão em grupo, da união de pensamentos.

Enquanto não acontece o milagre da educação, enquanto não formos uma nação forte em letras e números, em sentenças e valores, teremos que ser tudo ao mesmo tempo: educadores, salvadores, gerenciadores de opiniões e não simplesmente opressores e críticos.
Enquanto não temos o milagre do voto facultativo, obrigamo-nos a comparecer às urnas e brigar por um número que não é único, mas que é sólido, forte e consciente.
Consciência política começa em casa, começa no berço. Consciência política é saber defender o que é seu e diferenciar o que é do vizinho, desde a bola, a grama, a vaga de garagem. Pense nisso, discuta isso. Fortaleça as opiniões e elas terão capacidade de mostrar que votos só são votos quando são unidos, conscientes e preparados para direitos e deveres do cidadão brasileiro.





sexta-feira, 26 de março de 2010

ARMA BRANCA


“Como vivemos em uma democracia e como os dirigentes precisam de votos, eles vão perceber que, quando vocês começam a se manifestar, eles próprios têm de mudar, porque se não mudam são mudados...”.

Mário Soares, político português



Em meu último post, intitulado Aquecimento global, defendi abertamente a anulação do voto em não importa qual eleição, justificando, contudo, a minha decisão: não confio nos políticos que aí estão. Ao mesmo tempo, questionei a obrigatoriedade do comparecimento as urnas. Afinal, se vivemos em uma suposta democracia, nada mais coerente do que garantir ao povo o direito à decisão de comparecer ou não as urnas. Para isso, seria necessária uma mudança na legislação eleitoral – já tão caduca –, que seria a do Brasil adotar o voto facultativo.

O escritor português José Saramago, por sua vez, que critica duramente as instituições, os partidos políticos e as autoridades governamentais, questionando a sua credibilidade, defende explicitamente o voto em branco – não a anulação do voto – posição que expôs claramente em seu livro Ensaio sobre a lucidez, publicado em 2004. Afinal, Saramago repudia a atual dita democracia que, para ele, apenas respalda políticos cuja idoneidade é duvidosa, já que, ao serem eleitos, fazem exatamente o contrário daquilo que foi prometido aos eleitores.

O fato é que votos anulados ou em branco em não importa qual eleição nada mais é que o reflexo da decepção, da indignação e do esgotamento da paciência dos eleitores devido à má conduta e o descrédito da maioria dos políticos, independentemente de seus partidos e das suas ideologias. Tal decisão, portanto, representaria uma tomada de consciência da população, que, a seu modo, teria curado-se da cegueira e, a tempo, recuperado a lucidez. No livro Uma longa viagem com José Saramago, do jornalista e escritor português João Céu e Silva, publicado em 2009, Saramago destila:

“A direita para governar não precisa de idéias, só precisa de autoridade e se puder confirmar essa autoridade com uns resultados eleitorais democráticos, uns votos que lhes sejam favoráveis, então fica encantada. Mas de ideias não precisa! Já a esquerda não pode viver sem ideias. Aristóteles já dizia no seu Tratado político que num governo democrático os pobres deviam ser maioria, porque o são na sociedade. Não é que os ricos não devessem estar representados no governo da Polis, mas, dizia ele, teria de ser em proporção. Então, se isso tivesse sido feito ou se tivesse sido possível fazer – foi uma loucura de um filósofo – teríamos num governo de vinte membros logicamente dezessete pobres e três ricos. E essa continua sendo a realidade porque os pobres são a maioria! A esquerda e a direita são conceitos ou topografias que nos vêm da Revolução Francesa – chamou-se assim porque eles se sentaram naqueles lugares, à esquerda ou à direita – sem que houve a ideia de uma espécie de auto-definição ideológica. Mas a esquerda necessita de ideias, de as ter e de as discutir constantemente. (...) Nós vivemos num mundo, pelo menos na parte a que chamamos de democrática, em que tudo é possível. Tudo tem discussão possível. Pode discutir-se tudo e neste momento ao redor do mundo há congressos, mesas redondas, simpósios e não sei que mais em que se debate tudo o que é científico mais isto e aquilo. Estranhamente, há uma coisa que não se discute, que é precisamente a democracia. Considera-se a democracia uma espécie de paradigma, que está aí e acabou-se. E va,os seguindo com um regime absolutamente hipócrita, a chamar democracia a uma situação em que os cidadãos não têm outro papel senão o de votar. Nenhum outro papel mais: e votam tirando um governo para pôr outro no seu lugar, que pode parecer diferente mas vai dar na mesma”.

A coisa é tão séria que, no Brasil, por exemplo, o artigo 1° do parágrafo 1° da Constituição Brasileira de 1969, ou seja: Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido, foi alterado na Carta Magna de 1988, atualmente vigente. Os constituintes – imagino por quais motivos – decidiram substituí-lo por: Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição (artigo 1°, parágrafo único). Resumindo: é como se o povo tivesse passado uma procuração em branco nomeando outrem para agir em seu nome.

Como diriam os gaúchos:
Quanta barbaridade, tchê!



Nathalie Bernardo da Câmara

terça-feira, 23 de março de 2010

AQUECIMENTO GLOBAL


"Para dizer o que vai acontecer
é preciso entender o que já aconteceu...".

Maquiavel (1469 - 1527), político, escritor e filósofo italiano



Nunca uma saudade bateu tão forte quanto a que ando sentindo do frio e dos dias cinzentos de Paris. Afinal, o calor que anda fazendo é para tirar o juízo de qualquer um, sobretudo para quem não suporta altas temperaturas, que é o meu caso, e nem de sol gosta. Os seus raios envelhecem e irritam, sem falar no excesso da sua luminosidade. Ninguém merece tanta luz. A não ser a luz do conhecimento, que, aliás, nunca é demais.

Para se ter uma idéia, o calor tem sido tanto que, parece, está por afetar o discernimento de certas pessoas. Dias atrás, por exemplo, ao saber da minha intenção de anular o meu voto nas eleições de 2010, uma amiga quase me crucificou, como se, além de ser obrigada a comparecer as urnas, a gente também fosse obrigada a votar não importa em qual político. Ora, cadê a democracia? Mesmo porque votar ou não é uma questão de foro íntimo.

Como eu disse... Sou obrigada a comparecer as urnas? Sou, infelizmente, já que, no Brasil, o voto não é facultativo. Assim sendo, já saio de casa contrariada. Afinal, quem é que gosta de fazer alguma coisa obrigada? Isso sem falar que, não é de hoje, quem assume o poder, qualquer que seja ele, sempre deixa um lastro de corrupção, desprovido que é de ética. E eu não me permito mais ser conivente com nenhum tipo de irregularidade política.

Sim, porque quando elegemos um político qualquer e esse político comete crimes contra o erário, por exemplo, somos co-responsáveis por isso, já que o elegemos. Assim, como todos, sem exceção, em algum momento traem a confiança dos seus eleitores, de há muito decidi não votar em mais ninguém. E esse direito ninguém me tira. Nem sob a mira de um canhão. Ainda bem que, felizmente, não vivemos mais subjugados à maldita ditadura militar.

A minha amiga, então, estranhando a minha posição, como se só eu pensasse assim na face da terra e a sua forma de pensar fosse a única válida, disse que, após refletir, vai votar para a presidência do país, por exemplo, no candidato que, a seu ver, é o menos ruim, declarando o seu voto, que, aliás, não vem ao caso eu dizer qual será. Afinal, não tenho nada a ver com isso nem me interessa saber do voto de ninguém. Só me importa anular o meu voto.

Enfim! Além de me criticar, a minha amiga citou o líder pacifista norte-americano Martin Luther King (1928 - 1968), que, em 1964, recebeu o Prêmio Nobel da Paz e que teria dito: “O que me preocupa não é o grito dos maus, é o silêncio dos bons”, como se anular voto fosse silenciar. Ao contrário! Anular voto é uma postura política extremamente consciente. Revela a nossa insatisfação com muita coisa. A começar pelos candidatos que aí estão.

Vejamos... Meses atrás, até cheguei a fazer campanha antecipada para Dilma Rousseff – recebi críticas por isso –, mas, devido algumas posturas assumidas por ela diante de certos temas, fui, aos poucos, perdendo o encanto. Depois, surgiu a ambientalista Marina Silva, aparentemente, a salvação literal da lavoura, sobretudo em tempos de aquecimento global, fazendo-me vislumbrar uma alternativa viável para curar os males da política brasileira.

Ocorre que, ao pesquisar sobre a biografia de Marina, fiquei sabendo que ela tornou-se evangélica. Desisti, portanto, de apoiar a sua candidatura. Não que eu tenha preconceito de credo, mas não simpatizo com os evangélicos contemporâneos, orientados que são pelo bispo Edir Macedo, cujo caráter me dá arrepios, diferentemente do idealismo do teólogo alemão Martinho Lutero (1483 - 1546), que, em 1517, desencadeou a Reforma, fundando o protestantismo.

Tanto que não gosto nem de pensar, caso Marina Silva seja eleita, na influência que Edir Macedo terá em seu governo. Quanto aos demais candidatos, prefiro nem cogitar a possibilidade de votar em um deles. Nenhum me apetece. Assim, diante do caos na política brasileira, talvez o melhor a fazer seja nos preocuparmos com as tragédias ambientais e buscar alternativas para tentar minimizar os efeitos do aquecimento global. Isto é, se quisermos nos salvar...


Nathalie Bernardo da Câmara

domingo, 21 de março de 2010

AMOR DANTESCO


“O amor sempre vive em tormento...”.

Giordano Bruno (1548 - 1600), filósofo italiano,
autor do livro Heróicos furores – uma elegia ao amor.


Outro dia, ao arrumar alguns dos meus livros, aproveitei para folhear as duas traduções que disponho, em francês, da Divina comédia, do escritor italiano Dante Alighieri (1265 - 1321) - incrível e surreal viagem onírica ao Inferno, ao Purgatório e ao Paraíso, cujo último verso é uma espécie de sentença: “O amor é que faz mover o sol e as estrelas”. Seria mesmo? Tenho as minhas ressalvas. O título do livro, por sua vez, não sugere nada de cômico. Ao contrário! A narrativa é extremamente trágica, tal qual a mais sombria das florestas medievais...


Nathalie Bernardo da Câmara

quinta-feira, 18 de março de 2010

A POESIA FAZ-SE NECESSÁRIA?



A poesia é algo mais filosófico e mais nobre do que a História...”.

Aristóteles (384 - 322 a.C), filósofo grego


Tentarei responder a questão apresentada traduzindo e transcrevendo uma passagem de um texto escrito pelo sociólogo francês Edgar Morin sobre o amor, encontrado em seu livro Introdução a uma política do homem, cuja edição que disponho foi publicada em 1969 pela editora Éditions du Seuil. Afinal, não ando inspirada nem com motivação para escrever. O que dirá refletir sobre a poesia e, aproveitando o ensejo, nem mesmo sobre o amor...

Nathalie Bernardo da Câmara


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O AMOR



(...) O amor (e eu não busco aqui interrogar as suas fontes, os seus componentes, as suas formas diversificadas) é a experiência fundamentalmente positiva do ser humano. Ela é a única reação imediata (não resposta) à angústia; a única reação imediata (não resposta) à morte. Se o amor não se fecha na possessividade; se ele não se fixa no fetiche e se manifesta seu caráter oblativo (de alguma forma o dom, a troca supera ou domina a possessão), é ressentido como comunicação e autenticidade, poesia e verdade. O amor porta em si uma fantástica virtude, que demanda se desvencilhar dos seus entraves, a transbordar a esfera da vida privada na qual ele é limitado e intensificado, entregando-se à espécie e ao mundo... (...)

E. M.

quinta-feira, 11 de março de 2010

FAST-FOOD: O ÓPIO DO POVO

“O povo que subjuga outro forja as suas próprias cadeias...”.

Karl Marx (1818 -1883), filósofo alemão



Não há nada mais pernicioso do que a dita – ou seria maldita? – sociedade de consumo, impondo mudanças de hábitos e valores que só induzem à alienação. Pensei nessa questão devido um fato ocorrido outro dia, uma noite de domingo. De passagem por Natal, no Rio Grande do Norte, senti vontade de comer quibe cru e consultei a lista de telefone da cidade, à procura de um restaurante árabe. Não encontrei nenhum, apenas um fast-food, que se diz de origem árabe e que só digo o nome porque fui tão bem tratada que nunca mais coloco os meus pés lá nem o recomendarei para ninguém.

Bom! O tal fast-food (comida rápida, em inglês) ao qual me refiro é o Habib’s, a maior rede de lanchonetes do gênero de nacionalidade brasileira, cuja primeira loja foi inaugurada na cidade de São Paulo, em 1988. Em Natal, o Habib’s fica na Avenida Senador Salgado Filho, 2815, que, para minha surpresa – soube –, anda tendo muita aceitação, coisa que só posso atribuir a uma moda imbecil, como todos os modismos. Tanto que, a princípio, senti certa repulsa em ter de entrar em um fast-food – não sou afeita ao seu descontrole de qualidade –, mas, como eu não tinha opção...

Assim, ao entrar no tal estabelecimento, contrariada por estar em um templo do mau gosto culinário, dirigi-me a um garçom qualquer, fazendo o meu pedido. O despreparado funcionário, contudo, pareceu nem conhecer quibe cru, já que, de supetão, me perguntou:

— Com gergelim?

Ora, quem conhece a culinária árabe sabe que quibe é feito basicamente de carne e trigo. Daí que, ao ouvir tal disparate, pensei que estava tendo um pesadelo. Afinal, comer bem é algo que eu prezo. E o maluco foi que o jovem teimava comigo, insistindo no gergelim como ingrediente do quibe. Perdi a paciência. Ele, então, conduziu-me ao que eu poderia deduzir de chef, que, por sua vez, tentou desfazer o mal entendido, explicando-me que o funcionário tinha se equivocado – até parece! Disse-me, portanto, que o quibe do Habib’s era feito com carne e trigo, que não levava gergelim.

Mesmo assim, eu pensei em desistir e ir embora. Afinal, nem de gergelim eu gosto. Porém, como estava com tanta vontade de comer quibe cru – que eu adoro –, fiz o meu pedido, pagando, por ele, R$ 9,50. Porém, esperei, ainda, uns quinze minutos até o garçom entregar-me uma caixa, contendo o meu objeto de desejo, e fui para casa. Quando cheguei, sentei-me à mesa e, ao me deparar com a embalagem transparente que trazia o quibe, já achei estranho. A carne estava com um vermelho que não era normal em um quibe e mal se via o trigo. De qualquer modo, arrisquei experimentá-lo.

Não devia tê-lo feito, pois o quibe tinha gosto de apresuntado. Agredi o meu paladar e quase tive uma crise de refluxo. Nem imagino o que colocaram naquela coisa. Imediatamente, fechei a embalagem e a caixa, retornando ao Habib’s. Lá chegando, reclamei a qualidade do quibe ao garçom que tinha me atendido e ele disse que lamentava muito, porque aquele era o quibe que a lanchonete costumava fazer. Pedi que chamasse o gerente, que, prontamente, veio ter comigo. Voltei a reclamar e ele aceitou a devolução, ressarcindo-me com uma nota de R$ 10,00. Terminei ganhando R$ 00,50... Grande coisa!

O fato é que, voltando para casa, tirei um disco de pizza pré-cozido da geladeira e montei uma maguerite. Dias depois, no supermercado, comprei os ingredientes de uma receita que tenho de quibe. Ficou só faltando a carne, que tem de ser fresca e, de preferência, comprada em um açougue. Comprei. Em casa, pude, finalmente, preparar o prato que eu tanto desejava. E degustá-lo, óbvio, com cebolas em concha e azeite de oliva extra-virgem. Um detalhe: deve-se comer quibe cru com as mãos, bem gutural. No máximo, usa-se uma faca, mas apenas para colocar o quibe na cebola em concha.

Falando nisso, aproveitei e enrolei uns quibes para fritá-los – outra delícia, que costumo saborear com algumas gotas de limão e azeite. Tudo de bom! E, como diz uma expressão francesa, eu tive un repas de roi, ou seja, uma refeição de rei. Enfim! O fast-food, sinônimo de um estilo de vida movido pelo estresse, sendo criticado desde o final do séc. XX, não é nenhuma novidade e teve início com os irmãos McDonald, em 1940, nos Estados Unidos – só podia ser –, um país capitalista por excelência, cuja maioria da população vive um engodo em todas as esferas da sociedade.

Sim, tal qual um fast-food, cujas refeições rápidas apenas enganam. Não alimentam nem saciam a fome. Sem falar que se, por um acaso, eu sentisse vontade de tomar uma coca-cola, em situação alguma eu entraria, por exemplo, no McDonald, onde, por mais incrível que pareça, nem o referido refrigerante, que surgiu nos Estados Unidos, presta. Uma vez, experimentei e deixei o copo com a bebida pela metade. A sua qualidade é inferior ao contido nas tradicionais garrafinhas de vidro que estamos acostumados a ver e a tomar, sendo, portanto, os produtos servidos em um fast-food = vácuo.

Ainda mais considerando o excesso de embalagens descartáveis dos produtos dos fast-foods, não importa a sua nacionalidade nem especialidade dita culinária, que causa graves danos à saúde humana e ao meio ambiente. Enfim! O fast-food, qualquer que seja ele, é tão nocivo que até chega a ser uma afronta ser um adepto desse tipo de serviço, já que, consumir produtos como os disponíveis nesses estabelecimentos, não combina com nada, muito menos com as campanhas nacionais e internacionais, que, de uns tempos para cá, apregoam a busca por uma melhor qualidade de vida.

Afinal, sabemos, conquistar e manter a tão decantada qualidade de vida passa, em primeiro lugar, pela alimentação, por uma dieta balanceada, já que, não podemos negar, somos o que comemos, sejam alimentos sólidos ou líquidos. Isso sem falar no ar que respiramos, repleto de gás carbônico e demais toxinas, inclusive as emitidas pelo cigarro. Eu mesma, por exemplo, que sou fumante desde 1987, estou fazendo de um tudo, como dizem os goianos, para deixar de fumar: o meu presente de aniversário de quarenta e dois anos, no próximo dia 13 de abril. Corpo e mente agradecem...


Nathalie Bernardo da Câmara






segunda-feira, 8 de março de 2010

GOIÂNIA É POESIA...


“Goiás é mulher; Goiânia é menina...”.

Borgha, poeta brasileiro
Doce poesia


Goiânia, em Goiás, no Brasil, é tão impressionante que, recentemente, para descansar, estive lá, de passagem, e achei que estava vendo o mar. Sim, porque só deve ser isso que falta para a cidade se tornar ainda mais especial. E, para minha surpresa, voltei a confirmar a tão decantada hospitalidade de um povo excepcional e generoso, apesar de um desgosto emocional que senti tão logo eu cheguei e do grande susto que passei por quase ter sido atropelada. E duas vezes, no mesmo dia, de noite, quando tive de atravessar a Avenida Anhanguera, que, fiquei sabendo depois, é a mais “importante” e, como não poderia deixar de ser, a mais perigosa e a mais desordenada, devido muitos motoristas de carros de passeio e de ônibus incorporarem, ao volante, verdadeiros kamikazes.

E tudo isso apenas porque, segundo um médico que consultei em Brasília, quando, uma semana antes, tive um pico de pressão arterial, eu teria, um dia sim e um dia não, durante quinze dias, de verificar a minha pressão, para poder acompanhá-la e saber se eu estava ou não desenvolvendo hipertensão. Assim, como no dia em que cheguei a Goiânia era dia da tal verificação, informei-me onde ficava a farmácia autorizada mais próxima de onde estava hospedada para tal procedimento. Infelizmente, a dita cuja estava localizada exatamente nas proximidades da tal avenida. Resumindo: nas duas vezes, achei que não ia escapar e, por não querer sentir a dor de um iminente impacto, de repente fatal, fechei os olhos e me abstrai, esperando sabe-se lá o quê.

Afinal, no Brasil, só em Brasília os carros param antes da faixa, dando preferência aos pedestres. E eu estou acostumada a isso, coisa que, em Goiânia, não existe. E nem adianta pedir ao motorista para parar. Ele não para. Aí, salve-se quem puder! Afora isso, Goiânia é do bem. Mas, afinal, como nasceu Goiânia? Quem teve a inusitada idéia de construir essa cidade no meio do nada, em solo inóspito, pleno Cerrado? Segundo dados históricos, a Pedra Fundamental de Goiânia foi lançada no dia 24 de outubro de 1933, data em que se comemora o aniversário da cidade, fundada pelo médico e jornalista goiano Pedro Ludovico Teixeira (1891 - 1979), à época, governador de Goiás. No entanto, Goiânia só é oficialmente inaugurada no dia 5 de julho de 1942.

Porém, o grande mentor intelectual da criação e divulgação da nova cidade que emergia foi o engenheiro agrônomo e jornalista norte-rio-grandense Joaquim Câmara Filho (1899 - 1955), braço direito do próprio Pedro Ludovico, que o considerava “a alma da propaganda de Goiás”. Por sua atuação a frente do Departamento de Propaganda e Expansão Econômica de Goiás – DPEE, que assumiu em 1933, Câmara Filho revolucionou o marketing, a propaganda e a comunicação no Estado, sendo responsável, ainda, por inúmeros feitos e empreendimentos nas mais diversas áreas. Em seu livro Câmara Filho: o revoltoso que promoveu Goiás, publicado pela Organização Jaime Câmara, em 1989, o jornalista e historiador goiano José Asmar (1924 - 2006), reconheceu...

O seu biografado sempre foi “o maior comunicador do Brasil Central”, sobretudo porque, em 1938, juntamente com os irmãos Jaime (1909 - 1989) e Rebouças (1898 - 1973), ele fundou o jornal O Popular, embrião da Organização Jaime Câmara, maior complexo de comunicação do Centro-Oeste. Pois é! C’est l’Histoire... O fato é que, apesar dos poucos dias que passei em Goiânia, acatei a recomendação de uma amiga jornalista, que, certa tarde, através de um e-mail, me sugeriu comer costelinhas fritas de caranha, um tipo de peixe de água doce, que, até então, eu nunca tinha ouvido falar, preparadas por um senhor jornalista, amigo seu, dono de um estabelecimento que leva o seu nome: Bar do Elpídio, que fica no Mercado Popular da Rua 74, no centro de Goiânia.

Ocorre que, justo naquele dia – pasmem! –, fazia 40 graus. Assim, chegando no tal bar, as famosas costelinhas de caranha – especialidade da casa – foram-me fartamente servidas, acompanhadas de uma cerveja gelada, e devidamente degustadas por mim. Imperdível! Do mesmo modo que recomendo, também no centro, na Rua 4, n° 134, loja 11/12, a Natural Alimentos, que oferece aos seus clientes, habitués ou não, os mais diversos tipos de produtos naturais – não preciso dizer que fiz amizade com o casal dono da loja, que, inclusive, me indicou uma massoterapeuta, com quem fiz uma sessão de shiatsu, acupuntura e reike para enfrentar as adversidades emocionais e jurídicas que me esperavam em Brasília, que, aliás, quando retornei, estava com uma temperatura climática extremamente baixa.

Sim, por mais incrível que possa parecer, dormi, em Brasília, com cobertor, diferentemente da sua vizinha Goiânia, onde eu dormia pelada... Mas, bom! Conhecida, igualmente, por suas esculturas a céu aberto, monumentos e prédios de estilo arts déco, Goiânia teve vinte e duas das suas edificações tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN em 2003, com destaque para o monumento As Três raças, criado em 1968 pela escultora goiana Neusa Moraes. Com sete metros de altura e pesando trezentos quilos, a escultura se encontra na Praça Cívica, no centro da cidade, e representa o negro, o branco e o índio, raças que fundaram o povo goiano – acolhedor por excelência. Um detalhe, inclusive, da referida escultura, pode ser observado ilustrando a abertura do presente post.

Enfim! Aproveitando o Dia Internacional da Mulher, comemorado 8 de março, gostaria de lembrar quatro mulheres em especial, ressaltando que todas as demais, no mundo inteiro, sintam-se, igualmente, homenageadas. A primeira das mulheres, portanto, para quem desejo manifestar a minha lembrança é a minha mãe, Salete Bernardo, que, no próximo dia 23 de abril, completa setenta anos de idade; a segunda, por sua vez, é Simone Gorria, uma amiga francesa que, no dia 5 de maio, completa oitenta anos de idade. Já a terceira mulher é a minha avó materna, dona Conceição, que, no dia 1° de abril completa noventa anos de idade, enquanto a quarta mulher é a poetisa e doceira brasileira Cora Coralina, que, se viva, completaria, em 2010, cento e vinte e um anos de idade.

A minha homenagem à Cora Coralina, nascida na Cidade de Goiás, no dia 20 de agosto de 1889, deve-se, portanto, a beleza da sua poesia e a musicalidade dos seus versos, a sua trajetória de vida e a sua origem goiana, além do meu apreço pelos seus versos desde criança, diante da sua força e ousadia em publicar o seu primeiro livro de poemas – Poemas dos becos de Goiás e estórias mais – aos setenta e cinco anos de idade, em 1965. O desfecho ideal, eu diria, para este post, que nada mais é que uma reverência a Goiânia, onde, aliás, a poetisa veio a falecer no dia 10 de abril de 1985. Daí fazer minhas as palavras do poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade (1918 - 1930), um mineiro de nascimento, gestos e atitudes: “Não morre quem passou cantando pela vida a música de seus versos”...

Nathalie Bernardo da Câmara