quarta-feira, 28 de abril de 2010

28 DE ABRIL: DIA MUNDIAL DA EDUCAÇÃO


“A educação é a arma mais poderosa
que você pode usar para mudar o mundo...”.

Nelson Mandela
Político sul-africano e Prêmio Nobel da Paz de 1993

São muitas as frases que poderíamos usar como epígrafe para um post cujo tema é a educação. Daí que, para este, escolhi, digamos, duas, que, de certa forma, transmitem a mensagem que eu gostaria de passar no Dia Mundial da Educação – aquela sem a qual, igual o amor e arte, não somos nada. Sim, porque educação não é somente saber ler e escrever não. Isso se chama instrução, que, aliás, varia de grau. Educação é muito mais, engloba uma série de outros fatores. É como diria a educadora, escritora e feminista brasileira Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810 - 1885): “A educação, para ser perfeita, deve começar do berço”. Eu, particularmente, arriscaria dizer que a educação começa ainda enquanto o feto é gerado. Sim, porque – convenhamos – educar um ser envolve não somente valores morais, mas, também, emoções e sentimentos, que contribuem para a formação de um caráter e, me parece, podem já ser sentidos pelo ser em processo de gestação.

Além disso, em pleno séc. XIX, Nísia Floresta defendia, igualmente, algo que muito desconhecem ou, se conhecem, não compreendem a sua importância no processo de aprendizagem do ser humano, do mesmo modo que não compreendem a importância da moral, que é a prática da educação física, cujos benefícios para a saúde do corpo e da mente são inquestionáveis. Mas, para não me prolongar em um assunto que a maioria já sabe de cor e salteado, gostaria de fazer uma referência à Declaração de Jomtien, fruto da Conferência Mundial sobre Educação para Todos, ocorrida na cidade de Jomtien, na Tailândia, de 5 a 9 de março de 1990, que, por sua vez, foi norteada por uma afirmação/garantia contida na Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pela Assembléia Geral das Nações Unidas, em 10 de dezembro de 1948, ou seja, que “toda pessoa tem direito à educação”. Pode até ter, mas... E o acesso à educação? Esse é o real problema.

A Declaração de Jomtien ou Declaração Mundial sobre Educação para Todos: Satisfação das Necessidades Básicas de Aprendizagem foi proclamada, portanto, a partir das seguintes considerações:

1. A educação é um direito fundamental de todos, mulheres e homens, de todas as idades, no mundo inteiro;

2. A educação pode contribuir para conquistar um mundo mais seguro, mais sadio, mais próspero e ambientalmente mais puro, que, ao mesmo tempo, favoreça o progresso social, econômico e cultural, a tolerância e a cooperação internacional;

3. A educação, embora não seja condição suficiente, é de importância fundamental para o progresso pessoal e social;

4. O conhecimento tradicional e o patrimônio cultural têm utilidade e valor próprios, assim como a capacidade de definir e promover o desenvolvimento;

5. Em termos gerais, a educação que hoje é ministrada apresenta graves deficiências, que se faz necessário torná-la mais relevante e melhorar sua qualidade, e que ela deve estar universalmente disponível;

6. Uma educação básica adequada é fundamental para fortalecer os níveis superiores de educação e de ensino, a formação científica e tecnológica e, por conseguinte, para alcançar um desenvolvimento autônomo;

7. A necessidade de proporcionar às gerações presentes e futuras uma visão abrangente de educação básica e um renovado compromisso a seu favor, para enfrentar a amplitude e a complexidade do desafio.

Tudo muito lindo! Perfeito, eu diria. A questão, contudo, é que, no papel, os mais belos sonhos e os mais almejados podem até parecer cenas de filmes inesquecíveis de tão tocantes que são, mas, na prática, a realidade é outra. Imagino até que deve ser uma enorme frustração para quem, com as melhores das boas intenções, elabora declarações em prol da humanidade, pensando apenas em transformar a sociedade em um mundo melhor para se viver, e, de repente, se dar conta de que quase ou nenhuma das ações previstas em suas declarações são implementadas. Quando o são é como quando se dá um passo a frente e não sei quantos para trás. E haja declarações! Tal qual a que deve ser elaborada como resultado da Conferência Internacional O Impacto das Tecnologias da Informação e Comunicação - TICs na Educação, ocorrida nestes dois últimos dias, em Brasília, aproveitando o ensejo da data e, de certa forma, homenageando-a com mais uma declaração.

Organizado e promovido pela Representação da UNESCO no Brasil, pelo Escritório Regional de Educação para a América Latina e o Caribe - OREALC/UNESCO Santiago, e pela Secretaria de Educação a Distância do Ministério da Educação, com o apoio da Ordem dos Advogados do Brasil - OAB, Fundação Padre Anchieta/TV Cultura, Dell e Microsoft, o evento contou com a participação de autoridades nacionais e internacionais nas áreas em questão, tendo como objetivo a discussão de perspectivas e caminhos possíveis para alcançar a meta de uma educação de qualidade para todos, bem como a revisão das abordagens e das práticas de avaliação sobre impacto das tecnologias da informação e comunicação na qualidade da educação da América Latina e do Caribe e a discussão de métodos para formação de professores. Pois é! Mais uma declaração, intenções e ideais debatidos e postos no papel para, infelizmente – não nego meu ceticismo –, não darem em nada.

O problema é que as intenções e os ideais contidos no papel em nada sensibilizam os governantes que aí estão justamente para fazer algo de edificante para o povo. O fato é que não sensibilizam nem nunca vão sensibilizar, porque a educação, para esses governantes, é até um empecilho para os seus propósitos para lá de escusos. Afinal, instruído, consciente, o povo, com certeza, não os elegeria para governá-lo, já que a maioria dos políticos quer mesmo é manter o povo na mais completa ignorância. Sim, sem reação alguma, no mais letárgico dos conformismos e na mais ativa das apatias, sem interação, sem debate. É como diria a jornalista, escritora e feminista brasileira Heloneida Studart (1932 - 2007): “Quem não responde não discute: sem discussão não há educação”. De qualquer forma, reconheço que seja mais uma tentativa para se fazer algo pela educação no mundo. Nem que seja para continuar sonhando. Afinal, como diria um dos mais expressivos educadores brasileiros:




Nathalie Bernardo da Câmara


terça-feira, 27 de abril de 2010

27 DE ABRIL:
DIA DA EMPREGADA DOMÉSTICA



“A poetisa é a mulher-a-dias*/arruma o poema/
como arruma a casa/que o terremoto ameaça...”.

Adília Lopes, poetisa portuguesa


A lei de n° 5.859/72, alterada pela lei de n° 10.208/01 e, depois, pela lei de n° 11.324/06, dispõe sobre a profissão do empregado doméstico, que é considerado aquele que presta serviços de natureza contínua e de finalidade não lucrativa à pessoa ou à família no âmbito residencial destas. Já segundo o Ministério do Trabalho, empregados domésticos são considerados todos aqueles que prestam serviços que auxiliam nas tarefas do lar. Alguns exemplos são as governantas, faxineiras, motoristas particulares, jardineiros e babás, havendo, hoje, no Brasil, por exemplo, mais de cinco milhões de domésticos, sendo mulheres a grande maioria deste total.

Curiosamente, refletindo uma mania da Igreja católica, incansável em dar um sentido a todos os seus santos, Pio XVII (1876 - 1958), papa de 1939 a 1958, elegeu, ainda na década de cinqüenta, santa Zita (1218 - 1278) como a padroeira das empregadas domésticas. Canonizada em 1696, Zita nasceu em Monsagrati, na Itália, e, a partir dos doze anos de idade, começou a trabalhar como doméstica em casa de uma família italiana, função que exerceu por décadas. Em seu dia, portanto, prestamos uma homenagem as empregadas domésticas e afins, digamos assim, com o belíssimo poema Desculpa-me a ternura, da poetisa portuguesa Ana Luísa Amaral.


* Empregada doméstica.


Nathalie Bernardo da Câmara







Desculpa-me a ternura

Enternece-me pensar que estás aí,
não força de trabalho desigual
nem vida à pressa,
mas minha amiga.

Talvez as palavras que te digo
me transpareçam classe,
talvez nem te devesse dizer nada.
Porque és a mão que ampara o meu silêncio,
a minha filha, o meu cansaço
— à custa do teu cansaço, da tua filha,
do teu silêncio.

Não há homens-a-dias neste mundo,
mas tantas como tu,
a segurar nas mãos e no sorriso
algumas como eu.

Entraste há pouco a perguntar
se eu tinha febre
— a louça por lavar nas tuas mãos,
aspirando o cansaço dos meus ombros,
nos teus ombros o cansaço de mim
e o cansaço de ti.


Desculpa os meus silêncios,
o falar-me contigo como com mais ninguém,
desculpa o tom sem pressa
— e o meu dinheiro que não chega a nada,
comprando o teu trabalho
(o teu sorriso).


Ana Luísa Amaral, As Vezes o Paraíso
(2ª edição), Quetzal Editores, Lisboa, 1998: 72, 73.

domingo, 25 de abril de 2010

HÁ MUITO,
MUITO TEMPO ATRÁS...


... e
m uma galáxia já perdida, existia um planeta de nome Terra. Feliz, sorridente, de bem com a vida, a Terra possuía uma natureza diversificada e abundante, que, generosamente, disponibilizava a todos os seres vivos que nela habitavam, os quais, por sua vez, utilizavam-na para os mais diversos fins. Porém, ao longo do tempo, a cada evolução da espécie mais desenvolvida que vivia na Terra, a que, inclusive, passou a ser chamada de raça humana, o mau uso e o abuso das riquezas naturais do planeta aumentavam, tornando-se sempre mais aprimorados.


A tristeza da Terra era sem fim. E, apesar dos que lhe defendiam, os que lhe atacavam eram em maior número. Tanto que, à medida que medidas eram tomadas para proteger a sua natureza, ações agressivas contrárias tornavam-se cada vez maiores, mais requintadas e acintosas, chegando a ponto de seus adversários não respeitarem nem mesmo o aniversário do planeta, comemorado, todos os anos, sempre no dia 22 de abril.


O fato é que não tinha dia nem hora para a degradação dos bens da Terra, mas, isso, apenas porque os seus inimigos tratavam-na como um Zé Ninguém. Tanto que, sem o mínimo de pudor, eles chegaram ao cúmulo de fazê-la de privada, um esgoto de si mesma, onde já não cabia nada.


Pois é! Todo tipo de tranqueira poluía as suas águas, o seu solo, os seus ares, que, aliás, ardiam que nem fogueira, provocando dores de cabeça atrozes.



Um dia, contudo, sem menos esperar, a Terra viu os seus pulmões perderem a respiração.


Instalaram-se, então, as doenças: bronquite, pneumonia... De repente, uma tosse, que, inicialmente esporádica, se tornou crônica, igual mania.


E, diante de tanta agonia, expondo as suas mazelas, fissuras e cicatrizes – vivia alquebrada –, a Terra perdia o vigor, tamanha era a sua dor.


Parecia a Idade Média, um retorno à Inquisição, já que as queimadas não cessavam e afetaram o seu coração.


A aflição era tamanha e a febre nunca a baixar que o corpo, de tão aquecido, se esvaia de tanto suar. Não adiantaram médicos, especialistas no paulatino e agressivo aquecimento da Terra, provocando danos irreversíveis em toda a sua natureza. O mais grave, entretanto, é que nada resolvia o mal que a combalia, deixando-a desidratada e inerte, sem forças para reagir.


Os aliados da Terra, por sua vez, pensaram em diversas soluções para tentar salvá-la, garantir a sua sobrevivência e, conseqüentemente, a da própria raça humana. No entanto, os aliados estavam em desvantagem. A luta, portanto, era desigual. Mesmo assim, eles não esmoreceram e reagiram como puderam para que a Terra repousasse e se regenerasse das feridas – sem falar nas seqüelas – que lhe foram causadas por seus inimigos, sempre movidos que eram pela ambição e ganância desenfreadas.


Engajados, contudo, em proteger a Terra, cuja saúde era, de fato, preocupante, os seus aliados revezavam-se dia e noite velando por sua integridade. E toda a sua natureza era devidamente protegida.


Ocorre que, apesar de todo o empenho dos seus aliados, a Terra não reagia aos cuidados que recebia. Debilitada, sem saúde para andar com os seus próprios pés, necessitando de muletas tal qual um manco, com deformidades físicas, a Terra deixou-se recolher, internar, sem reagir aos tratamentos intensivos aos quais teve de se submeter.


No entanto, sem manifestar nenhuma reação aos cuidados que recebia, a Terra, sem esperanças, pressentia o termo da sua existência. E chorava, sentindo que, por todos os seus poros, se esvaia a sua energia vital. E ela estava certa. Tão certa que, certo dia, em prantos, sucumbiu as suas próprias lágrimas, levando consigo toda espécie de ser vivo, já que o seu calor febril derreteu todas as calotas de gelo que lhes pertenciam. Porém, sabe-se lá como, um humano sobreviveu à hecatombe, provocada, aliás, por sua própria raça.


O que ninguém sabe, contudo, é como após o que poderíamos chamar de dilúvio, que foi a hecatombe, o único humano sobrevivente galgou à órbita da Lua e já foi aboletando-se, apossando-se de uma antiga conquista.


Curiosamente, o escritor e jornalista francês François Mauriac (1885 - 1970) certa vez disse: “De nada serve ao homem conquistar a Lua se acaba por perder a Terra...”. Teria sido uma profecia? A verdade é que, desde então, nada mais ouviu-se falar da raça humana...


Como eu sei dessa história? Não sei. Mas, como diria Chicó: "Só sei que foi assim"! Agora, quem quiser que conte outra...



Nathalie Bernardo da Câmara




sábado, 24 de abril de 2010

23 DE ABRIL:
DIA DO LIVRO



“Escrever é fácil:
você começa com uma letra maiúscula
e termina com um ponto final.
No meio você coloca as idéias...”.

Pablo Neruda (1904 - 1973), poeta chileno


Com um dia de atraso, homenageio aquele que, desde a minha infância, me é familiar. Um amigo íntimo, eu diria. E que sempre foi o leitmotiv da minha vida, já que, desde criança, sempre sonhei tornar-me escritora. Para a minha satisfação, o sonho tornou-se uma realidade, sendo hoje, aliás, a única coisa que dá sentido a minha existência. Nada mais. Porém, como não ando muito inspirada para tecer, eu mesma, escritos que reverenciem a data, resolvi transcrever algumas breves palavras do poeta português Fernando Pessoa (1888 - 1935) sobre o ofício de escrever e o seu entendimento da literatura, bem como – aproveitando o ensejo – para reverenciar os livros deste que considero um dos maiores escritores de todos os tempos.


Nathalie Bernardo da Câmara







“Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e, portanto, vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de idéias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso”.


F. P.


sexta-feira, 23 de abril de 2010

ECO DOS ECOS*




Mulher que é mãe: gera, cria.
Mulher que é natureza,
natureza que é canto,
canto que é mulher.
Sinônimos em harmonia,
que se tornam um eco lógico,
ecológico – manto dos mantos –,
onde o eco lúdico se perpetua...

Nathalie


*Escrito em Brasília, no ano de 1990, este poema é dedicado a minha mãe, Salete Bernardo, que, hoje, 23 de abril de 2010, completa setenta anos de idade.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

22 DE ABRIL:
DIA DA TERRA


“Quem ama cuida...”.

Dito popular




22 de abril de 1970. Estados Unidos. O senador norte-americano Gaylord Nelson (1916 – 2005) convoca o primeiro protesto nacional contra a poluição. A convocação surte efeito: mais de vinte milhões de pessoas nos EUA se engajam para manifestar a sua preocupação com a degradação ambiental. É criado, então, o Dia da Terra, que, a partir de 1990, passa a ser adotado em, praticamente, todos os países do mundo. A sua comemoração, portanto, torna-se um evento internacional – oportunidade, mais uma, de serem debatidas questões relacionadas não somente ao aquecimento da Terra e demais problemas que afetam o planeta, bem como o universo como um todo, mas, sobretudo, diante de um cenário tão desolador, à própria sobrevivência humana. Enfim! Abaixo, a título de ilustração, cópia da tão decantada Carta da Terra.


Nathalie Bernardo da Câmara



Carta da Terra



PREÂMBULO

Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro reserva, ao mesmo tempo, grande perigo e grande esperança. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio de uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos nos juntar para gerar uma sociedade sustentável global fundada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade de vida e com as futuras gerações.


TERRA, NOSSO LAR

A humanidade é parte de um vasto universo em evolução. A Terra, nosso lar, é viva como uma comunidade de vida incomparável. As forças da natureza fazem da existência uma aventura exigente e incerta, mas a Terra providenciou as condições essenciais para a evolução da vida. A capacidade de recuperação da comunidade de vida e o bem-estar da humanidade dependem da preservação de uma biosfera saudável com todos seus sistemas ecológicos, uma rica variedade de plantas e animais, solos férteis, águas puras e ar limpo. O meio ambiente global com seus recursos finitos é uma preocupação comum de todos os povos. A proteção da vitalidade, diversidade e beleza da Terra é um dever sagrado.


A SITUAÇÃO GLOBAL

Os padrões dominantes de produção e consumo estão causando devastação ambiental, esgotamento dos recursos e uma massiva extinção de espécies. Comunidades estão sendo arruinadas. Os benefícios do desenvolvimento não estão sendo divididos eqüitativamente e a diferença entre ricos e pobres está aumentando. A injustiça, a pobreza, a ignorância e os conflitos violentos têm aumentado e são causas de grande sofrimento. O crescimento sem precedentes da população humana tem sobrecarregado os sistemas ecológico e social. As bases da segurança global estão ameaçadas. Essas tendências são perigosas, mas não inevitáveis.


DESAFIOS FUTUROS

A escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida. São necessárias mudanças fundamentais em nossos valores, instituições e modos de vida. Devemos entender que, quando as necessidades básicas forem supridas, o desenvolvimento humano será primariamente voltado a ser mais e não a ter mais. Temos o conhecimento e a tecnologia necessários para abastecer a todos e reduzir nossos impactos no meio ambiente. O surgimento de uma sociedade civil global está criando novas oportunidades para construir um mundo democrático e humano. Nossos desafios ambientais, econômicos, políticos, sociais e espirituais estão interligados e juntos podemos forjar soluções inclusivas.


RESPONSABILIDADE UNIVERSAL

Para realizar estas aspirações, devemos decidir viver com um sentido de responsabilidade universal, identificando-nos com a comunidade terrestre como um todo, bem como com nossas comunidades locais. Somos, ao mesmo tempo, cidadãos de nações diferentes e de um mundo no qual as dimensões local e global estão ligadas. Cada um compartilha responsabilidade pelo presente e pelo futuro bem-estar da família humana e de todo o mundo dos seres vivos. O espírito de solidariedade humana e de parentesco com toda a vida é fortalecido quando vivemos com reverência o mistério da existência, com gratidão pelo dom da vida e com humildade em relação ao lugar que o ser humano ocupa na natureza.

Necessitamos com urgência de uma visão compartilhada de valores básicos para proporcionar um fundamento ético à comunidade mundial emergente. Portanto, juntos na esperança, afirmamos os seguintes princípios, interdependentes, visando a um modo de vida sustentável como padrão comum, através dos quais a conduta de todos os indivíduos, organizações, empresas, governos e instituições transnacionais será dirigida e avaliada.


PRINCÍPIOS

I. RESPEITAR E CUIDAR DA COMUNIDADE DE VIDA
1. Respeitar a Terra e a vida em toda sua diversidade.

a. Reconhecer que todos os seres são interdependentes e cada forma de vida tem valor, independentemente de sua utilidade para os seres humanos.
b. Afirmar a fé na dignidade inerente de todos os seres humanos e no potencial intelectual, artístico, ético e espiritual da humanidade.

2. Cuidar da comunidade da vida com compreensão, compaixão e amor.
a. Aceitar que, com o direito de possuir, administrar e usar os recursos naturais, vem o dever de prevenir os danos ao meio ambiente e de proteger os direitos das pessoas.
b. Assumir que, com o aumento da liberdade, dos conhecimentos e do poder, vem a maior responsabilidade de promover o bem comum.

3. Construir sociedades democráticas que sejam justas, participativas, sustentáveis e pacíficas.
a. Assegurar que as comunidades em todos os níveis garantam os direitos humanos e as liberdades fundamentais e proporcionem a cada pessoa a oportunidade de realizar seu pleno potencial.
b. Promover a justiça econômica e social, propiciando a todos a obtenção de uma condição de vida significativa e segura, que seja ecologicamente responsável.

4. Assegurar a generosidade e a beleza da Terra para as atuais e às futuras gerações.

a. Reconhecer que a liberdade de ação de cada geração é condicionada pelas necessidades das gerações futuras.
b. Transmitir às futuras gerações valores, tradições e instituições que apóiem a prosperidade das comunidades humanas e ecológicas da Terra a longo prazo.


II. INTEGRIDADE ECOLÓGICA
5. Proteger e restaurar a integridade dos sistemas ecológicos da Terra, com especial atenção à diversidade biológica e aos processos naturais que sustentam a vida.

a. Adotar, em todos os níveis, planos e regulamentações de desenvolvimento sustentável que façam com que a conservação e a reabilitação ambiental sejam parte integral de todas as iniciativas de desenvolvimento.
b. stabelecer e proteger reservas naturais e da biosfera viáveis, incluindo terras selvagens e áreas marinhas, para proteger os sistemas de sustento à vida da Terra, manter a biodiversidade e preservar nossa herança natural.
c. Promover a recuperação de espécies e ecossistemas ameaçados.
d. Controlar e erradicar organismos não-nativos ou modificados geneticamente quecausem dano às espécies nativas e ao meio ambiente e impedir a introdução dessesorganismos prejudiciais.
e. Administrar o uso de recursos renováveis como água, solo, produtos florestais e vida marinha de forma que não excedam às taxas de regeneração e que protejam a saúde dos ecossistemas.
f. Administrar a extração e o uso de recursos não-renováveis, como minerais e combustíveis fósseis de forma que minimizem o esgotamento e não causem dano ambiental grave.

6. Prevenir o dano ao ambiente como o melhor método de proteção ambiental e, quando o conhecimento for limitado, assumir uma postura de precaução.

a. Agir para evitar a possibilidade de danos ambientais sérios ou irreversíveis, mesmo quando o conhecimento científico for incompleto ou não-conclusivo.
b. Impor o ônus da prova naqueles que afirmarem que a atividade proposta não causará dano significativo e fazer com que as partes interessadas sejam responsabilizadas pelo dano ambiental.
c. Assegurar que as tomadas de decisão considerem as conseqüências cumulativas, a longo prazo, indiretas, de longo alcance e globais das atividades humanas.
d. Impedir a poluição de qualquer parte do meio ambiente e não permitir o aumento de substâncias radioativas, tóxicas ou outras substâncias perigosas.
e. Evitar atividades militares que causem dano ao meio ambiente.

7. Adotar padrões de produção, consumo e reprodução que protejam as capacidades regenerativas da Terra, os direitos humanos e o bem-estar comunitário.

a. Reduzir, reutilizar e reciclar materiais usados nos sistemas de produção e consumo e garantir que os resíduos possam ser assimilados pelos sistemas ecológicos.
b. Atuar com moderação e eficiência no uso de energia e contar cada vez mais com fontes energéticas renováveis, como a energia solar e do vento.
c. Promover o desenvolvimento, a adoção e a transferência eqüitativa de tecnologiasambientais seguras.
d. Incluir totalmente os custos ambientais e sociais de bens e serviços no preço de venda e habilitar os consumidores a identificar produtos que satisfaçam às mais altas normas sociais e ambientais.
e. Garantir acesso universal à assistência de saúde que fomente a saúde reprodutiva e a reprodução responsável.
f. Adotar estilos de vida que acentuem a qualidade de vida e subsistência material num mundo finito.

8. Avançar o estudo da sustentabilidade ecológica e promover o intercâmbio aberto e aplicação ampla do conhecimento adquirido.

a. Apoiar a cooperação científica e técnica internacional relacionada à sustentabilidade, com especial atenção às necessidades das nações em desenvolvimento.
b. Reconhecer e preservar os conhecimentos tradicionais e a sabedoria espiritual em todas as culturas que contribuem para a proteção ambiental e o bem-estar humano.
c. Garantir que informações de vital importância para a saúde humana e para a proteção ambiental, incluindo informação genética, permaneçam disponíveis ao domínio público.

III. JUSTIÇA SOCIAL E ECONÔMICA
9. Erradicar a pobreza como um imperativo ético, social e ambiental.

a. Garantir o direito à água potável, ao ar puro, à segurança alimentar, aos solos não contaminados, ao abrigo e saneamento seguro, alocando os recursos nacionais e internacionais demandados.
b. Prover cada ser humano de educação e recursos para assegurar uma condição de vida sustentável e proporcionar seguro social e segurança coletiva aos que não são capazes de se manter por conta própria.
c. Reconhecer os ignorados, proteger os vulneráveis, servir àqueles que sofrem e habilitá-los a desenvolverem suas capacidades e alcançarem suas aspirações.

10. Garantir que as atividades e instituições econômicas em todos os níveis promovam o desenvolvimento humano de forma eqüitativa e sustentável.

a. Promover a distribuição eqüitativa da riqueza dentro das e entre as nações.
b. Incrementar os recursos intelectuais, financeiros, técnicos e sociais das nações em desenvolvimento e liberá-las de dívidas internacionais onerosas.
c. Assegurar que todas as transações comerciais apóiem o uso de recursos sustentáveis, a proteção ambiental e normas trabalhistas progressistas.
d. Exigir que corporações multinacionais e organizações financeiras internacionaisatuem com transparência em benefício do bem comum e responsabilizá-las pelasconseqüências de suas atividades.

11. Afirmar a igualdade e a eqüidade dos gêneros como pré-requisitos para o desenvolvimento sustentável e assegurar o acesso universal à educação, assistência de saúde e às oportunidades econômicas.

a. Assegurar os direitos humanos das mulheres e das meninas e acabar com toda violência contra elas.
b. Promover a participação ativa das mulheres em todos os aspectos da vida econômica, política, civil, social e cultural como parceiras plenas e paritárias, tomadoras de decisão, líderes e beneficiárias.
c. Fortalecer as famílias e garantir a segurança e o carinho de todos os membros dafamília.

12. Defender, sem discriminação, os direitos de todas as pessoas a um ambiente natural e social capaz de assegurar a dignidade humana, a saúde corporal e o bem-estar espiritual, com especial atenção aos direitos dos povos indígenas e minorias.

a. Eliminar a discriminação em todas as suas formas, como as baseadas em raça, cor, gênero, orientação sexual, religião, idioma e origem nacional, étnica ou social.
b. Afirmar o direito dos povos indígenas à sua espiritualidade, conhecimentos, terras e recursos, assim como às suas práticas relacionadas com condições de vida sustentáveis.
c. Honrar e apoiar os jovens das nossas comunidades, habilitando-os a cumprir seupapel essencial na criação de sociedades sustentáveis.
d. Proteger e restaurar lugares notáveis pelo significado cultural e espiritual.

IV. DEMOCRACIA, NÃO-VIOLÊNCIA E PAZ
13. Fortalecer as instituições democráticas em todos os níveis e prover transparência e responsabilização no exercício do governo, participação inclusiva na tomada de decisões e acesso à justiça.

a. Defender o direito de todas as pessoas receberem informação clara e oportuna sobre assuntos ambientais e todos os planos de desenvolvimento e atividades que possam afetá-las ou nos quais tenham interesse.
b. Apoiar sociedades civis locais, regionais e globais e promover a participação significativa de todos os indivíduos e organizações interessados na tomada de decisões.
c. Proteger os direitos à liberdade de opinião, de expressão, de reunião pacífica, de associação e de oposição.
d. Instituir o acesso efetivo e eficiente a procedimentos judiciais administrativos e independentes, incluindo retificação e compensação por danos ambientais e pela ameaça de tais danos.
e. Eliminar a corrupção em todas as instituições públicas e privadas.
f. Fortalecer as comunidades locais, habilitando-as a cuidar dos seus próprios ambientes, e atribuir responsabilidades ambientais aos níveis governamentais onde possam ser cumpridas mais efetivamente.

14. Integrar, na educação formal e na aprendizagem ao longo da vida, os conhecimentos, valores e habilidades necessárias para um modo de vida sustentável.

a. Prover a todos, especialmente a crianças e jovens, oportunidades educativas que lhes permitam contribuir ativamente para o desenvolvimento sustentável.
b. Promover a contribuição das artes e humanidades, assim como das ciências, na educação para sustentabilidade.
c. Intensificar o papel dos meios de comunicação de massa no aumento da conscientização sobre os desafios ecológicos e sociais.
d. Reconhecer a importância da educação moral e espiritual para uma condição de vida sustentável.

15. Tratar todos os seres vivos com respeito e consideração.

a. Impedir crueldades aos animais mantidos em sociedades humanas e protegê-los de sofrimento.
b. Proteger animais selvagens de métodos de caça, armadilhas e pesca que causem sofrimento extremo, prolongado ou evitável.
c. Evitar ou eliminar ao máximo possível a captura ou destruição de espécies não visadas.

16. Promover uma cultura de tolerância, não-violência e paz.

a. Estimular e apoiar o entendimento mútuo, a solidariedade e a cooperação entre todas as pessoas, dentro das e entre as nações.
b. Implementar estratégias amplas para prevenir conflitos violentos e usar a colaboração na resolução de problemas para administrar e resolver conflitos ambientais e outras disputas.
c. Desmilitarizar os sistemas de segurança nacional até o nível de uma postura defensiva não-provocativa e converter os recursos militares para propósitos pacíficos, incluindo restauração ecológica.
d. Eliminar armas nucleares, biológicas e tóxicas e outras armas de destruição emmassa.
e. Assegurar que o uso do espaço orbital e cósmico ajude a proteção ambiental e a paz.
f. Reconhecer que a paz é a plenitude criada por relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, outras culturas, outras vidas, com a Terra e com a totalidade maior da qual somos parte.


O CAMINHO ADIANTE

Como nunca antes na História, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo. Tal renovação é a promessa destes princípios da Carta da Terra. Para cumprir esta promessa, temos que nos comprometer a adotar e promover os valores e objetivos da Carta.

Isto requer uma mudança na mente e no coração. Requer um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal. Devemos desenvolver e aplicar com imaginação a visão de um modo de vida sustentável nos níveis local, nacional, regional e global. Nossa diversidade cultural é uma herança preciosa e diferentes culturas encontrarão suas próprias e distintas formas de realizar esta visão. Devemos aprofundar e expandir o diálogo global que gerou a Carta da Terra, porque temos muito que aprender a partir da busca conjunta em andamento por verdade e sabedoria.

A vida muitas vezes envolve tensões entre valores importantes. Isto pode significar escolhas difíceis. Entretanto, necessitamos encontrar caminhos para harmonizar a diversidade com a unidade, o exercício da liberdade com o bem comum, objetivos de curto prazo com metas de longo prazo. Todo indivíduo, família, organização e comunidade tem um papel vital a desempenhar. As artes, as ciências, as religiões, as instituições educativas, os meios de comunicação, as empresas, as organizações não-governamentais e os governos são todos chamados a oferecer uma liderança criativa. A parceria entre governo, sociedade civil e empresas é essencial para uma governabilidade efetiva.

Para construir uma comunidade global sustentável, as nações do mundo devem renovar seu compromisso com as Nações Unidas, cumprir com suas obrigações respeitando os acordos internacionais existentes e apoiar a implementação dos princípios da Carta da Terra com um instrumento internacionalmente legalizado e contratual sobre o ambiente e o desenvolvimento.

Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, a intensificação dos esforços pela justiça e pela paz e a alegre celebração da vida.


*
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A Comissão da Carta da Terra, formada no início de 1997 como um organismo internacional independente pelo Conselho da Terra e pela Cruz Verde Internacional (Green Cross International), supervisionou o processo de consulta e elaboração da Carta da Terra, aprovou o texto final do documento e o divulgou em 2000. A Comissão mantém a autoridade sobre o texto da Carta da Terra, aconselha os membros da Carta da Terra Internacional a que ajam como embaixadores. No entanto, a Comissão não se envolve na supervisão da Iniciativa da Carta da Terra, considerando que esta é uma responsabilidade do Conselho da Carta da Terra Internacional.


A Comissão da Carta da Terra*

África/Oriente Médio

Amadou Toumani Touré (Malí) (Co-chair)
HRH Princess Basma Bint Talal (Jordânia)
Wangari Maathai (Quênia)
Mohamed Sahnoun (Argélia)


Ásia e Pacífico
A.T. Ariyaratne (Sri Lanka)
Kamla Chowdhry (Índia) (Co-chair) in memoriam
Wakako Hironaka (Japão)
Pauline Tangiora (Nova Zelândia)
Erna Witoelar (Indonésia)


Europa
Mikhail Gorbachev (Russia) (Co-chair)
Pierre Calame (França)
Ruud Lubbers (Holanda)
Federico Mayor (Espanha)
Henriette Rasmussen (Groenlândia)
Awraham Soeterndorp (Holanda)


América Latina e Caribe
Mercedes Sosa (Argentina) (Co-chair)
Leonardo Boff (Brasil)
Yolanda Kakabadse (Equador)
Shridath Ramphal (Guiana)


América do Norte
Maurice F. Strong (Canadá) (Co-chair)
John hoyt (Estados Unidos)
Elizabeth May (Canadá)
Steven C. Rockefeller (Estados Unidos)
Severn Cullis Suzuki (Canadá)

* Possivelmente, a lista dos membros necessita de atualização.




quarta-feira, 21 de abril de 2010

TORTURA NUNCA MAIS?


“A tortura é o crime mais cruel
e bárbaro contra a pessoa humana...”.

Philip Potter
Ex-Secretário-Geral do Conselho Mundial de Igrejas


Brasília, 17 de abril. Câmara Legislativa do Distrito Federal. Enquanto, reunidos em plenário, deputados estão prestes a eleger, pelo voto indireto, o novo governador do Distrito Federal, que assumirá o governo interinamente, exercendo o que se chama de mandato-tampão até o dia 31 de dezembro do corrente, do lado de fora, reunidos nos gramados, em vigília desde a noite anterior, integrantes do Movimento Fora Arruda e Toda Máfia, impedidos de entrar nas galerias, protestam contra a eleição indireta, cuja legitimidade é questionada, do seu novo governante.

As eleições, por sua vez, foram convocadas a fim de evitar uma intervenção federal, cujo pedido, feito pela Procuradoria Geral da República, encontra-se em tramitação no Supremo Tribunal Federal. Ocorre que muitos dos deputados envolvidos no esquema do Mensalão dos Democratas estavam entre os vinte e quatro parlamentares supostamente aptos a elegerem o novo governador do Distrito Federal. Um deles, inclusive, é o deputado Geraldo Naves, sem partido, recém-saído da prisão, onde esteve por tentativa de suborno a uma testemunha do escândalo.

Afinal, como é público e notório, o Mensalão dos Democratas, que envolvia diretamente o então governador José Roberto Arruda, à época do DEM, e que foi desmantelado pela Operação Caixa de Pandora, deflagrada pela Polícia Federal, em novembro de 2009, caracterizou-se um esquema para lá de criminoso. Denunciado e ameaçado de impeachment, Arruda renuncia ao cargo, assumindo o vice Paulo Octávio, que também pertencia ao DEM. No entanto, em fevereiro, acusado de obstruir as investigações, Arruda tem a sua prisão decretada. Nesse ínterim, Paulo Octávio renuncia.

O presidente da Câmara Legislativa, por sua vez, o deputado Wilson Lima, do PR, se afasta da função para, interinamente, assumir o governo do distrito Federal. Arruda, que, inclusive, passou o carnaval e a semana santa vendo o sol nascer quadrado, é solto após dois meses na cadeia, no último dia 12. Dias depois, no sábado, 17, é eleito, por voto indireto, à revelia da população, o novo governador interino do Distrito Federal. Só que se engana quem pensa que, com a eleição de Rogério Rosso e da vice, Ivelise Longhi, ambos do PMDB, está descartada a possibilidade de uma intervenção federal.

Porém, se não houver, eles ficam no governo até a posse do governador eleito nas eleições de outubro. O fato é que, quando os manifestantes demonstram interesse em assistir, das galerias da Câmara Legislativa, à votação que se desenrola no plenário para eleger o novo governador do Distrito Federal, a polícia desanda a agredi-los, verbal e fisicamente, revelando descaso e desrespeito à integridade de todos os presentes. Daí um episódio, do qual tomei conhecimento através de um e-mail que me foi enviado, destacar-se dos demais ocorridos em meio aos protestos.

O referido episódio, que, aliás, nos reporta as aberrações cometidas nos porões da ditadura militar no Brasil (1964 - 1985), foi a tortura, tornada pública, de um dos manifestantes presentes ao protesto, o estudante Diogo Ramalho, membro do Movimento Fora Arruda e Toda Máfia, por policiais que, abusando da autoridade que lhes é conferida, não são dignos da farda que vestem, devendo, por isso, serem punidos por seus atos criminosos, incluindo, aí, a sua exoneração. A ironia é que o episódio da tortura à qual foi submetido o estudante aconteceu justo as vésperas do aniversário de Brasília.

Sim, no dia 21 de abril de 1960, por ordem e graça do presidente Juscelino Kubitschek (1902 - 1976) e dos candangos que arriscaram as suas vidas na aventura de um sonho, Brasília foi inaugurada, sendo, hoje, o seu cinqüentenário. O triste episódio da tortura ocorreu também as vésperas do feriado nacional em homenagem à memória do inconfidente mineiro Tiradentes, enforcado no dia 21 de abril de 1792. Enfim! O fato é que ninguém esquece uma tortura, não importa a sua natureza nem os motivos que a engendrou... Eis, portanto, abaixo, a transcrição do e-mail que recebi. Ele fala por si.


Nathalie Bernardo da Câmara


P.S.: As ilustrações foram escolhas minhas.






Do protesto à tortura

Por Diogo Ramalho*



Sábado, dia 17 de Abril de 2010, foi mais um dia que entrou para a História do Distrito Federal, dentro do contexto da maior crise institucional-política já enfrentada pela Capital desde sua fundação, cinqüenta anos atrás. Os protestos se iniciaram na sexta-feira a noite, através de uma vigília convocada pelo Movimento Fora Arruda e Toda Máfia em frente à Câmara Legislativa do Distrito Federal. Na vigília houve músicas, brincadeiras como mímica e reflexões.

O sábado começou agitado. Das cerca de trinta pessoas que dormiram na vigília, às 14h, o número saltou para quase trezentas pessoas, uma hora antes de iniciar a sessão da Câmara que elegeu o escolhido de Arruda pra governar interinamente o Distrito Federal até 31 de dezembro. Estudantes, trabalhadores e cidadãos vieram de toda parte do DF protestar contra uma eleição totalmente ilegítima, já que, dos vinte e quatro votantes do seu colégio eleitoral, dez parlamentares e suplentes foram flagrados na Operação Caixa de Pandora: a Eurides da Bolsa, o Geraldo Naves que saiu da Penitenciaria quatro dias antes da votação, entre outros.

Às 15h, quando iniciava-se a seção dentro da Câmara, na rua que dá acesso à CLDF manifestantes atearam fogo em pneus interditando por dez minutos a via. Às 16h, dezenas de manifestantes tentaram entrar na galeria para garantirem o ideal democrático de que na casa do povo, o povo não pode ser impedido de entrar, ainda mais quando, em nome dele, corruptos decidem. A resposta imediata da polícia militar, sob o comando do Coronel Silva Filho (aquele que em 09 de Dezembro, a mando de Arruda, massacrou com cavalaria e muita violência cinco mil cidadãos que protestavam em frente ao Palácio Buriti) foi de repressão violenta, cacetadas para todo lado, gás de pimenta, socos e pontapés. Vinte pessoas ficaram feridas, oito tiveram que ser atendidas em hospitais, dois policias se feriram e seis pessoas foram presas. Eu fui o segundo a ser preso.

Quando prenderam o primeiro companheiro, eu era um dos que gritavam para soltá-lo, e gritei bem forte várias vezes: “Vocês têm que prender os filhos da puta que estão aí dentro votando em nosso nome”. No meio do caos, muita confusão, um tenente, já conhecido meu de outros protestos, olhou no meu olho enfurecido e disse que prenderia a mim. Eu disse: “Prende, então! Não estou fazendo nada”. Fui preso por desacato a autoridade.

A PM estava enfurecida, mas fui conduzido primeiro para a 2ª DP, onde já encontrei rapidamente com o advogado do Movimento Fora Arruda e Toda Máfia, que me orientou a ficar em silêncio até a chegada dele na DRPI, para onde eu estava sendo transferido, pois era um direito constitucional meu. Fiquei trinta minutos na viatura, sem sofrer qualquer violência dos Policiais Militares. Chegando na DRPI, ainda sozinho, na presença apenas de três policiais militares e três policiais civis, sentei-me no banco e aguardei. Começou, então, a tortura moral. O policial civil agente Barcelar, que me torturou fisicamente momentos adiante, iniciou o diálogo com os policias militares dizendo que esses baderneiros deviam ser todos veados, porque, ao invés de estarem em casa fudendo uma mulher, estavam nas ruas protestando. E, aí, se seguiram as ofensas verbais. Eu, calado.

Num dado momento o agente Barcelar me perguntou se minha identidade era do Distrito Federal. Eu disse que era de Minas Gerais. Aí, mais ofensas: “O que você tá fazendo aqui seu merda? Você nem de Brasília é, seu bosta, e tá protestando, puta que pariu etc”. Em seguida, perguntou meu nome para puxar minha ficha. Eu disse: “Só vou falar quando meu advogado chegar”. Isso foi o suficiente para dar início a tortura.

O agente Barcelar (ex-carcereiro por mais de quinze anos, agora trabalhando no “Administrativo”), após a minha simples frase de que estava aguardando meu advogado, deu a volta no balcão de atendimento, foi até a cadeira em que eu permanecia sentado, me pegou pela camisa, jogando-me com violência no chão, rasgando toda a lateral da camisa e já iniciando uma série de murros na cabeça, chute, me arrastou pelos cabelos junto a outro agente da polícia civil, que eu não soube identificar posteriormente, porque eu estava no chão, e as duas mãos do agente Barcelar e a mão do outro agente me arrastaram pelos cabelos, pelos corredores da DRPI, até chegar na cela, onde, por estar sendo arrastado, lesionei a coluna na barra de ferro do chão da cela.

O agente bateu a porta da cela e disse que eu era um merda e que iria apanhar mais.

Dez minutos depois, o advogado e minha namorada chegaram. De dentro da cela eu escutava o agente Barcelar dizer que eu tinha me jogado no chão. De lá da cela eu gritava que tinha sido espancado. Quando o advogado chegou diante da cela, lhe disse que fui espancado. O agente chegou a admitir na frente do advogado, dizendo que me puxou pelos cabelos porque eu não quis fornecer os dados que me solicitou. Mais adiante, conforme mais pessoas chegaram, o agente passou a dizer que nada aconteceu, que eu estava com a camisa rasgada e com visíveis marcas de agressão porque me joguei no chão.

Depois, fui conduzido enjaulado em uma viatura da Polícia Civil até o Instituto Médico Legal, onde foram constatadas todas as agressões que sofri na DRPI. O mesmo agente Barcelar tomou meu depoimento e se negou a colocar no inquérito as agressões que sofri, colocando a si próprio como vitima, me acusando de ter resistido a prestar informações.

Eis o Estado de Direito, onde Parlamentares corruptos nunca vão, e quando vão, nunca permanecem presos. Eis o Estado de Direito, onde você vai preso por desacato por protestar, e quando chega sozinho na Delegacia de Polícia, é ofendido verbalmente e em seguida espancado covardemente na presença de seis polícias.

Parabéns Brasília? Cinqüenta anos de quê?



* Estudante de Letras Espanhol da Universidade de Brasília; membro do Movimento Fora Arruda e Toda Máfia e coordenador executivo e editor político do Jornal O Miraculoso.


terça-feira, 13 de abril de 2010

ALELUIA, SENHOR, ALELUIA!
PARTE II
UM SALTO NO ESCURO...


“Até hoje, as esperanças dos jovens nunca conseguiram tornar o mundo melhor e o sempre renovado azedume dos velhos nunca foi tanto que chegasse para torná-lo pior...”.

José Saramago
Escritor português


Ano bissexto, de acordo com o calendário gregoriano, 1968 foi decretado o Ano Internacional dos Direitos Humanos pela Organização das Nações Unidas – ONU. Tal decisão, contudo, deu-se no dia 12 de maio, dez dias após ser desencadeado, em Paris, o movimento que ficou conhecido por Maio de 68. Porém, antes de comentarmos sobre o levante que sacudiu a capital francesa, embora repercutindo internacionalmente, e de fazermos uma retrospectiva dos principais acontecimentos ocorridos nesse ano, tentemos primeiro entender, a partir de uma análise feita pelo sociólogo francês Edgar Morin, em seu livro Introdução a uma política do homem, as causas que fizeram de 1968 um ano de singular efervescência, entrando para a História.

Para Edgar Morin, 1968 foi o ano de convergência de quatro crises, sendo a revolta estudantil internacional testemunha de cada uma das sociedades, de cada um dos sistemas e da crise planetária-antropológica. Ou seja:

1. A regressão de fórmulas liberais ou sem-liberais em proveito de ditaduras militares na órbita ocidental (Argentina, Peru, Bolívia, Brasil, Nigéria etc);

2. A tendência de generalização de sistemas bastardos de nacional-socialismo e de socialismo nacional espalhados pelo planeta;

3. A crise de desenvolvimento no sentido restrito do termo, com as dificuldades geográficas, nutricionais, econômicas e sociais do Terceiro Mundo e a crise de desenvolvimento no sentido amplo do termo (desenvolvimento do homem) que se desenrola nas sociedades ditas desenvolvidas;

4. A crise da modernidade (o bang da onda de choque cultural) e já a crise da civilização.

Enfim! Crises geram mudanças. E as crises mencionadas pelo sociólogo francês traduziram-se no leitmotiv que fez de 1968 um dos mais controvertidos anos do séc. XX. Segundo Marcelo Nogueira de Siqueira, pesquisador do Arquivo Nacional do Brasil, no Rio de Janeiro: “O ano de 1968, tido por muitos como o ano zero de uma nova modernidade, foi rico em fatos que transformaram o Brasil e o mundo. Na luta por direitos civis, nas artes e nos costumes, a década de 60 teve em 1968 seu ápice”. Vejamos, então, apenas a titulo de ilustração, alguns dos acontecimentos ocorridos nesse período, lembrando que, durante o desenrolar de 1968, o mundo vivia sob constante tensão, já que a guerra no Vietnã (1954 - 1975), que parecia não ter fim, inspirava em todos certa apreensão.







Janeiro: Antecipando a bela iniciativa da Organização das Nações Unidas - ONU de decretar 1968 o Ano Internacional dos Direitos Humanos, o papa Paulo VI (1897 - 1978), em mensagem lida no dia 8 de dezembro de 1967, propunha que, a partir do ano seguinte, ou seja, 1968, o dia 1° de janeiro passaria a ser reconhecido como o Dia Mundial da Paz, devendo, portanto, ser comemorado todos os anos subseqüentes, ad aeternu. Curiosamente, desde então, os papas têm o costume de, a cada ano, escolher um tema e de redigir uma mensagem a ser lida nesse dia. Assim, para 2010, Bento XVI escolheu o tema Se quiser cultivar a paz, preserve a criação. Porém, o que nem ninguém sabe é à qual paz e à qual criação o papa se referiu... Bom! Estava aberta, então, iniciado 1968, a porta para um ano que poderíamos chamar de sui generis. Afinal, só para termos uma idéia, mal começa o ano e já é realizado, no segundo dia de janeiro, na cidade do Cabo, na África do Sul, o primeiro transplante de coração do mundo considerado bem sucedido. Três dias depois, no dia 5, o mundo é surpreendido pela Primavera de Praga, um ousado gesto de rebeldia liderado pelo comunista tcheco Alexander Dubček (1921 - 1992), a fim de humanizar o Partido Comunista da Tchecoslováquia, desagradando, obviamente, os partidários do ex-ditador linha-dura soviético Joseph Stalin (1879 - 1953). Infelizmente, sete meses e quinze dias depois, no dia 20 de agosto, uma intervenção militar soviética põe fim ao sonho, à Primavera de Praga.






Braço, mão e relógio são do fotógrafo tcheco Josef Koudelka, que registrou o deserto da paisagem a sua frente, precisamente às 6h do dia 21 de Agosto de 1968, minutos antes dos tanques militares entrarem em alta velocidade nas ruas de Praga, abortando a tentativa dos comunistas renovadores tchecos, liderados por Alexander Dubcek, para porem termo ao regime de partido único, abrindo a sociedade ao pluralismo cultural e político. Foi tudo muito rápido. Até então deserta, a paisagem logo ganhou novos elementos e contornos: o embate de energias opostas e forças antagônicas, instaurando o caos.


O Brasil, por sua vez, no dia 15, sob a batuta de dois polêmicos brasileiros, assiste a estréia, no Rio de Janeiro, da peça Roda Viva, de autoria do multifacetado Chico Buarque de Holanda e dirigida pelo inquieto e irreverente José Celso Martinez Corrêa, que injeta certa rebeldia no palco, fazendo do espetáculo um libelo contra a ditadura militar (1964 - 1985). Porém, meses depois, no dia 18 de julho, após uma apresentação, em São Paulo, adeptos do Comando de Caça aos Comunistas - CCC invadiram o teatro e, encapuzados, armados de cassetetes e soco inglês sob as luvas, destruíram o cenário, invadiram os camarins, espancaram e abusaram dos atores e da equipe de produção, destruindo, ainda, figurinos e distribuindo pancadaria. O fato terminou por fazer da peça um símbolo de resistência contra a ditadura militar aos desmandos militares.

Fevereiro: De volta à Europa... No dia 5, estudantes ocupam universidades na
Espanha e na Itália, enquanto um consulado americano é invadido na Alemanha e, no dia 18, em Berlim, uma grande manifestação estudantil protesta contra a guerra no Vietnã.

Março: Não demora muito, no dia 7, é desencadeada a primeira batalha em Saigon e, em Cuba, no dia 15, são desapropriados os últimos estabelecimentos privados do país: bares, livrarias, oficinas... No dia seguinte, militares norte-americanos massacram cerca de cento e cinqüenta civis vietnamitas na aldeia de My Lai – episódio conhecido como a Matança de My Lai –, certos de que estavam atacando o Viet Kong, a guerrilha comunista. No mês anterior, quarenta mil soldados norte-vietnamitas haviam cercado a base americana de Khe Sanh, com os seus seis mil fuzileiros. Rompendo o cerco, mais de sete mil e quinhentas missões americanas descarregaram, em três semanas, quase 700 mil toneladas de bombas, em um ritmo de duas mil explosões por segundo. Na França, no dia 22, liderados por Daniel Cohn-Bendit, judeu franco-alemão, estudantes ocupam a torre administrativa da universidade de Nanterre, nas cercanias de Paris, e criam o Movimento 22 de Março – o embrião dos protestos de Maio de 68. No Brasil, no dia 28, o secundarista paraense Edson Luís de Lima Souto é assassinado pela polícia militar durante um confronto no
restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, tornando-se o primeiro dos estudantes a ser morto pela ditadura militar.


Abril: Cinco dias depois do ocorrido no
restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, ou seja, no dia 2, uma missa é realizada na Candelária, no Rio de Janeiro, em prostesto ao atentado contra a vida do estudante Edson Luís. Porém, finda a celebração, a cavalaria da polícia militar cercam todos que estavam no evento. O saldo do cerco abusivo? Dezenas de pessoas feridas. Em São Paulo, no dia 4, aos setenta e cinco anos, morre um dos maiores empreendedores brasileiros, o jornalista, empresário e político Assis Chateaubriand, detentor do maior império das telecomunicações no país. Endividado e tendo sofrido uma trombose, que o deixou paralisado, Chatô, como era conhecido, passou a se comunicar através de uma máquina de escrever adaptada as suas necessidades. Pertenciam-lhes os Diários Associados e a TV Tupi, ocupando, ainda, a cadeira de n° 37 da Academia Brasileira de Letras - ABL. Idealista, costumava dizer que amava três coisas na vida: o poder, a arte e a mulher.




Nesse mesmo dia, em Memphis, Tenessee, nos Estado Unidos, é morto, a tiros, com apenas trinta e nove anos de idade, o líder pacifista negro norte-americano Martin Luther King, Prêmio Nobel da Paz de 1964. No dia seguinte, eclodem conflitos raciais por quase todos os Estados Unidos, que, no dia 11, presenciam a assinatura da lei a favor dos direitos civis dos seus cidadãos pelo presidente norte-americano Lyndon Johnson (1908 - 1973). Em Paris, no dia 13, eu nasci. No Brasil, no dia 17, os militares determinam que mais de cinqüenta municípios passam a ser considerados área de segurança nacional, sendo suspensas, portanto, nesses municípios, as eleições de novembro daquele ano. No dia 20, um atentado a bomba destrói a entrada do edifício do jornal O Estado de São Paulo. Focos de tensões alastram-se mundo afora. Em Nova York, no dia 28, cerca de sessenta mil manifestantes protestam no Central Park, exigindo o fim da guerra no Vietnã. No dia seguinte, Nova York é palco – no caso, literalmente – de um outro acontecimento que, inquestionavelmente, divide a opinião pública: na Broadway, estréia o musical Hair, cuja letra é de autoria dos norte-americanos Gerome Ragni (1942 - 1991) e James Rado e música do compositor e pianista canadense Galt MacDermot. Dirigida por Tom O’Horgan (1926 - 2009), Hair escandaliza a sociedade não somente por exaltar a cultura hippie, com cenas de nudez e apologia as drogas, mas, também, por protestar contra o racismo e a guerra no Vietnã.

Maio: No dia 2, tem início o movimento que, execrando o statu quo da época, entrará para a História como os acontecimentos de Maio de 68. A seguir, portanto, um capítulo à parte, digamos, dedicado, exclusivamente, a esse período histórico.


DÉFENSE D’INTERDIRE!

OU

É PROIBIDO PROIBIR!

“As transformações necessárias do homem e da sociedade vão infinitamente mais longe do que as mais loucas das utopias nunca ousaram imaginar...”.

Jean-Marc Coudray
Pseudônimo do filósofo, crítico social e psicanalista grego Cornelius Castoriadis (1922 - 1997)



Posso dizer que, no dia 2 de maio de 1968, quando, na Universidade de Nanterre, nos arredores de Paris, apelidada de Feudo esquerdista, eclodiu aquele que viria a se tornar um dos mais emblemáticos acontecimentos históricos não somente do ano de 1968, mas, sobretudo, do séc. XX, eu estava não muito distante, na capital francesa. Infelizmente, não tinha idade o suficiente para participar do movimento, que, aliás, no dia seguinte, invadiu a Universidade da Sorbonne, no Quartier Latin, pertinho do Boulevard du Montparnasse, onde minha família morava. O bom mesmo, contudo, deve ter sido quando surgiram as famosas barricadas... E eu lá, no berço, sob o olhar atento da minha mãe, protegida. No entanto, no lugar dela, eu teria saído as ruas, não hesitando em levar minha filha recém-nascida nos braços, nem que fosse para, em meio ao tumulto, esbarrar, quiçá, no filósofo Jean-Paul Sartre (1905 - 1980). Porém, apesar de estar no cerne dos acontecimentos, não cheguei sequer a testemunhá-los de verdade.

Afinal, eu tinha, apenas, dezenove dias de nascida – o que não impediu, contudo, de ser contaminada pelo espírito contestador reinante. Assim, apesar de conhecer a História e dispor de livros, documentos e demais registros sobre os já mencionados acontecimentos para escrever um texto a respeito, achei que seria mais interessante transcrever um artigo de alguém que tenha vivenciado esse dado momento histórico. Daí optar por um artigo, contendo um breve texto de abertura, do jornalista e escritor francês Guy Sorman, que, à época, tinha vinte e poucos anos e pode, com autoridade, analisar os acontecimentos que se desenrolaram em Paris. Não obstante, a tradução que disponho é de autoria do poeta e compositor brasileiro Rodrigo Garcia e foi publicada no Diário do Comércio, no dia 7 de maio de 2008, quando dos quarenta anos de Maio de 68. De qualquer modo, as idéias do autor continuam bem-vindas, ressaltando que a ilustração da Mafalda, personagem do argentino Quino, foi iniciativa minha, substituindo a exclamação de igual fala, escrita no artigo, que diz a mesma coisa. E voilà!

Um dos primeiros cartazes
espalhados por Paris durante a revolta.



Foi há 40 anos, mas os que, como eu, participaram ativamente daqueles acontecimentos, a lembrança continua viva, como uma fotografia. Todo o processo durou três semanas, o equivalente a uma piscada na grande escala da História. Como qualificar esse período? Ainda não se sabe. Não era uma revolução, não foi um acontecimento político, houve pouca violência. Essa revolução, que quando foi produzida não tinha nome, não tinha líderes e não tinha programa, continua na eterna busca de uma designação. Vamos ficar então com o que é aceito convencionalmente:



Acontecimentos de Maio de 68


Por Guy Sorman
Filósofo e escritor francês

Em Paris, naquelas três semanas, basicamente não ocorreu grande coisa, e fora de Paris, menos ainda: os acontecimentos foram um não-acontecimento considerável, mas, apesar de tudo, o mundo inteiro acompanhava o que se passava em Paris. Sem dúvida nenhuma, o mais singular desse período foram as frases pichadas nas paredes, a invasão cartazes surrealistas. As mais populares declaravam que estava proibido proibir. Outros, enigmáticas, anunciavam Debaixo do chão, a praia, Corra, o velho mundo está atrás de você (pega na ideologia maoísta, em moda na época). Todas essas mensagens, que muitas vezes eram usadas por nós como um projeto, conclamavam a liberdade individual, a anarquia, a não-violência, o prazer imediato. A colocação de cartazes não era espontânea, mas obra de grupelhos de intelectuais que tiravam sua inspiração da poesia de André Breton, do anarquismo e do maoismo revisado em Saint-Germain-des-Prés. Mas o sucesso desses slogans vinha de como eles refletiam o espírito da época e as aspirações de uma geração.




E já não querem viver como seus pais - em 1789, em 1830 ou em 1968. Os acontecimentos de Maio de 1968 acabaram de uma forma tão inesperada como haviam surgido: no espaço de três semanas, aparentemente tudo voltou à ordem anterior. Os estudantes voltaram à universidade, os operários às fábricas, os padres às paróquias e o general De Gaulle à Presidência. Na verdade, tudo tinha mudado. E não só na França.


De fato, cada país viveu um Maio de 68 a seu jeito. Nos EUA, o pacifismo dos estudantes contra a guerra do Vietnã iria desembocar, cedo ou tarde, na retirada norte-americana. Em Varsóvia e em Praga, os levantes estudantis contra a ocupação soviética deixavam claro como o comunismo da Europa do Leste era apenas um frágil verniz. Na América Latina, veteranos de 68 voltaram para casa a fim de promover as revoluções sociais. Entretanto, além dessas circunstâncias locais, o balanço do Maio de 68 se traduz, sobretudo, em uma considerável transformação dos costumes no Ocidente, dos valores e das relações sociais: essencialmente, uma sociedade individualista substituiu uma sociedade hierárquica.

Esse individualismo se manifesta na vida privada: Maio de 68 foi uma liberalização sexual que coincidiu com a pílula anticoncepcional. Lembremos como anedota que os acontecimentos de Paris foram inicialmente provocados por uma discussão sobre a proibição da permanência de rapazes à noite nos dormitórios femininos das universidades entre um líder estudantil, Daniel Cohn Bendit, e o ministro da Educação. Essa liberalização sexual, por sua vez, levou a uma relativização do casamento: constituíram-se outras formas de casais e o divórcio perdeu importância.

O autoritarismo também caiu nas empresas, nas quais os métodos de administração mais participativos substituíram a hierarquia empresarial. Obviamente, contribuiu para essa mudança de rota o fato de que muitos os chefes atuais vieram da geração de 68. As igrejas cristãs evoluíram na mesma direção, ampliando a liberalização que o Concílio Vaticano II havia esboçado. As universidades e as sociedades ocidentais nunca restabeleceram a hierarquia do mandarinato. Em todas as partes foi preciso dar lugar a uma educação mais participativa e consultar os estudantes. Por fim, a vida política registrou o terremoto, adotando um estilo mais relaxado, mais próximo das preocupações diárias: o gaullismo, herdeiro da tradição monárquica francesa, não sobreviveu ao trauma de Maio de 68, já que o próprio De Gaulle decidiu renunciar um ano depois.

No mundo ideológico, a vítima mais visível foi o marxismo: os líderes do Maio de 68 eram anarquistas e, conseqüentemente, anticomunistas. Os que recorriam ao maoísmo, sem conhecer sua verdadeira natureza, eram sobretudo anti-stalinistas (da mesma forma, a ressurreição do trotskismo foi uma transformação desse anti-stalinismo). As revoltas no Leste Europeu, mais significativas do que esse debate teórico, anunciavam também a obsoleta letargia do marxismo como ideologia e, às vezes, como exercício do poder. Seriam necessários 20 anos para que os partidos comunistas desaparecessem realmente, mas a semente de sua morte anunciada foi lançada em 68.

A tradução para a realidade dessa mensagem política antitotalitária do Maio de 68 foi lenta e progressiva porque o movimento, com a exceção de poucos desvios (as Brigadas Vermelhas na Itália, a Facção do Exército Vermelho na Alemanha e as guerrilhas da América Latina), era essencialmente não-violento - um cruzamento dos hippies com Mahatma Gandhi. Foi relevante que em Paris não se teve de lamentar nenhuma vítima, apesar das três semanas de confrontos com a polícia: uma teatralização da Revolução, como dizia Raymond Aron, muito hostil aos estudantes porque afetavam sua dignidade de professor.

No geral, 40 anos depois desses acontecimentos, os protagonistas do Maio de 68 têm um sentimento de satisfação: nas sociedades ocidentais os objetivos foram alcançados genericamente. Muitos líderes do movimento se reciclaram em atividades prósperas, com certeza porque tinham alguma qualidade de líder. Mas os inimigos de Maio de 68 não desistem. É partir daí que se considera que a civilização ocidental se desmoronou nessas três semanas fatídicas. Por isso, na campanha eleitoral, o presidente Nicolas Sarkozy atacou violentamente a herança do Maio de 68 como origem do relativismo moral que acabaria tomando conta do Ocidente. Como interpretar tal saída do tom? Está justificada? De minha parte, vejo nela uma saudade do autoritarismo político: Sarkozy não poderá ser Napoleão, como qualquer dirigente político francês sonha em ser. E Sarkozy tem razão: uma sociedade francesa não tolera mais Napoleão.

Relativismo moral? Com certeza, o Ocidente não se reconhece mais como uma majestade imperial de potência colonial que impõe sua civilização ao mundo. O Ocidente agora está mais preocupado com seus próprios valores e respeita mais sua diversidade e a dos outros.

Mas, o que é o Ocidente senão esta capacidade para a autocrítica e uma permanente reinvenção de si mesmo? Maio de 68 nos abriu as janelas para nós mesmos e para o mundo: está bem assim. E, sobretudo, é irreversível!




Ainda as voltas no redemoinho do tempo, eis que, casualmente, pesquei, digamos, um texto divulgado no site oficial do Parlamento Europeu, no dia 16 de maio de 2008, intitulado O Legado de 1968 na Europa, produzido, tudo indica, pela assessoria de comunicação da instituição, já que não tem registro do autor. Ei-lo!


1968 foi um ano célebre pelos acontecimentos que o marcaram. Em França, o mês de Maio caracterizou-se por uma série de manifestações estudantis que contribuíram para as reformas sociais que se vieram a verificar em muitos países europeus. A Primavera de Praga, na Checoslováquia, foi um período de liberalização política e em Março de 1968 os estudantes universitários polacos revoltaram-se a favor de reformas e da liberdade de expressão.

"Tinha 24 anos e acabara de terminar os meus estudos no Instituto de Ciências Políticas de Paris (...). Morava no Quartier Latin e estava grávida da minha filha, com nascimento previsto para o início de Julho. Naturalmente, vivi esse mês mais como uma espectadora atenta e interessada do que como uma participante activa" relatou a eurodeputada francesa Nicole Fontaine, Presidente do Parlamento Europeu entre 1999 e 2002.

"O radicalismo dos slogans e o estilo revolucionário, muitas vezes criativo, que irritava e continua a irritar as pessoas demasiado bem-educadas, tinha por objectivo provocar e agitar uma sociedade francesa onde as normas sociais e morais, arcaicas e insuportáveis, eram transmitidas durante a juventude. O Maio de 1968 teve um efeito essencialmente catártico. Sem ele, a evolução dos costumes teria acontecido na mesma, mas provavelmente de uma forma mais conturbada", acrescentou Nicole Fontaine.

Em 1968, o eurodeputado alemão Milan Horáček (Grupo dos Verdes/Aliança Livre Europeia) emigrou da Checoslováquia para a então República Federal da Alemanha e participou no movimento estudantil de Frankfurt. "Enquanto refugiados políticos checoslovacos, fomos simultaneamente apoiados pelos defensores do capitalismo e do comunismo. Claro que o nosso entusiasmo relativamente ao idealismo de esquerda era muito inferior ao de alguns activistas, porque já sabíamos como é que o socialismo funcionava na prática. Na Alemanha, os acontecimentos de 1968 permitiram uma alteração das mentalidades, o que fez com que hoje seja possível ter um presidente de câmara homossexual".

Para o eurodeputado polaco Bronislaw Geremek, historiador, ex-deputado e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros polaco (Grupo da Aliança dos Democratas e Liberais pela Europa) "é muito difícil encontrar um denominador comum entre os movimentos de 68 na Europa Ocidental e na Europa Oriental. Os acontecimentos e objectivos que os motivaram não foram os mesmos. No entanto, todos os movimentos estiveram relacionados com a liberdade. Na Polónia, os acontecimentos de 1968 decorreram de uma iniciativa puramente intelectual e os outros grupos sociais não os apoiaram".

As alterações decorrentes dos acontecimentos de 1968 desempenharam um papel importante na construção da Europa actual, representada no Parlamento Europeu. O debate sobre o legado de há 40 anos continua aberto, mas muitos defendem que está na hora de olhar para o futuro.

O eurodeputado Daniel Cohn-Bendit, do Grupo dos Verdes - Aliança Livre Européia, um dos principais líderes dos movimentos estudantis da época, acredita que a questão deve ser encerrada. "Tudo isto para dizer que 1968 aconteceu há muito tempo. Continuar incessantemente o debate sobre 1968 não nos leva a lado nenhum. 1968 mudou o mundo, mas a sociedade dos nossos dias está diferente e é necessário outro tipo de debate".
Los Angeles, na Califórnia, vindo a falecer no dia seguinte. Ele tinha apenas quarenta e três anos e era o irmão caçula do ex-presidente John Kennedy (1917 - 1963), que também, anos antes, em 1963, morreu vítima de um atentado.
De fato!


Curiosamente, outro dia, lendo uma entrevista concedida pelo escritor português José Saramago ao jornalista e escritor também português João Céu e Silva, que resultou no livro Uma longa viagem com José Saramago, publicado em 2009, deparei-me com uma passagem onde o nobre Nobel, ao justificar ao entrevistador a sua opção por não ter tido filhos com a sua atual companheira, a jornalista espanhola Pilar Del Río, fez referência ao slogan É proibido proibir, bradado aos quatro cantos em maio de 1968, sobretudo em Paris, revendo, inclusive, de certa forma, a partir de um dado ponto de vista, o seu conceito a respeito.

Disse Saramago: “Educar um filho hoje, tentar educá-lo e depois sair-nos um problema era um risco...”. E ele prossegue: “Eu não quero dizer que o Maio de 68 tenha a culpa de todos os males que, neste particular, estamos a sofrer, mas, no fundo, uma palavra de ordem – para dizer assim – que era comum e foi enaltecida como algo transcendente para a sua realização era essa frase que dizia É proibido proibir, pois chegamos exatamente à situação em que isso está instalado na cabeça dos jovens, é proibido proibir, mesmo que eles não tenham lido nada sobre o Maio de 68. Só que não é proibido proibir! Em nome de quê é que se diz que é proibido proibir? De um ideal de sociedade tipo anarquista, libertário? Em que todas as vontades individuais se reuniam harmoniosamente no mesmo projeto... É isso? Sabemos que não é. Se é proibido proibir eu embebedo-me, eu drogo-me, dou um pontapé no rabo do professor e não acontece nada, porque se o professor me castigar até pode acontecer que o meu pai vá pedir contas à escola e, então, têm de repreender o professor, porque me deu um puxão de orelhas ou porque me castigou. O que é isto?”.

Curiosa reflexão, a de Saramago, que, em um rompante, me fez lembrar de um verso do poeta e diplomata brasileiro Vinícius de Moraes (1913 - 1980), que diz: “Filhos, melhor não tê-los, mas, se não os temos, como sabê-lo?”. Mas, antes de nos questionarmos a respeito de tê-los ou não tê-los – filhos, claro –, de como ou não sabê-lo, retomemos a nossa cronologia do ano de 1968, ainda no mês de maio, mais especificamente ao dia 26, quando, em São Paulo, é realizado, pelas mãos do cirurgião brasileiro Euryclides de Jesus Zerbini (1912 - 1993), o primeiro transplante de coração feito no Brasil. Zerbini torna-se, assim, o quinto médico a realizar um transplante de coração no mundo e o primeiro na América Latina.

Junho: O Brasil ainda não sabia, mas, no dia 5, nascia Sandra Annenberg, que se tornaria uma das suas mais simpáticas e competentes jornalistas. Porém, nos Estados Unidos, o candidato à presidência dos Estados Unidos, senador Robert Kennedy é atingido por tiros no Hotel Ambassador, em


(...) Das luas de rua no Rio
em 68, que nos resta
mais positivo, mais queimante
do que as fotos acusadoras,
tão vivas hoje como então,
a lembrar como a exorcizar? (...)

Julho: No dia 1°, é assinado o Tratado Sobre a Não-Proliferação de Armas Nucleares. No dia 13, a brasileira


No dia 13, no Brasil, morre o escritor Manuel Bandeira e, no dia 20, na Grécia, eis que se revela ao mundo o casamento do ano: o do magnata grego Aristóteles Onassis (1906 - 1975) com a norte-americana Jacqueline Kennedy (1929 -94), ex-primeira dama dos Estados Unidos e símbolo mundial de elegância e glamour.

Novembro: No dia 5, o republicano Richard Nixon (1969 - 1974) é eleito presidente dos EUA. No Brasil, no dia 21, o presidente Costa e Silva (1902 - 1969) aprova a lei de censura de obras de teatro e cinema, criando, também, o Conselho Superior de Censura. No dia 22, na Inglaterra e nos Estados Unidos, chega as lojas o Álbum branco (Whrite album), dos Beatles.




Dezembro: No dia 10, o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina é concedido ao indiano Har Gobind Khorana e aos norte-americanos Robert W. Holley (1922 - 1993) e Marshall Nirenberg W. (1927 - 2010), devido a interpretação dos três do código genético e a sua função na síntese protéica. Para maiores informações sobre os prêmios Nobel, bem como sobre o seu criador, Alfred Nobel (1833 - 1896), industrial e químico sueco, inventor da dinamite, cuja patente foi obtida em 1866, sugiro a leitura do texto Nobel: o detonador, postado neste blog no dia 26 de junho de 2009, logo em seguida a um texto sobre dom Hélder Câmara (1909 - 1999), intitulado Vai um Nobel?, que pode ser acessado através do link abaixo:
http://abagagemdonavegante.blogspot.com/2009/06/vai-um-nobel-eu-nao-tento-convencer-mas.html

Dom Hélder, aliás, cuja opção e militância pela defesa dos oprimidos e pela justiça social, bem como por seu engajamento político, articulando movimentos de resistência à ditadura militar, já havia posto o religioso em maus lençóis, ficava cada vez mais exposto à intolerância da direita e da extrema-direita. O jornal francês La croix, por sua vez, ciente das represálias sofridas pelo então arcebispo de Olinda e Recife, que, inclusive, havia sido fichado como “agitador” pelos órgãos de repressão do governo, constantemente denunciava que o bispo vermelho, como os seus opositores costumavam chamá-lo, já havia, de há muito, sido “totalement censuré” pela ditadura militar, inclusive recebendo ameaças.


Outro religioso que atuou em defesa das vítimas da repressão e dos direitos humanos foi dom Paulo Evaristo Arns, principalmente durante os chamados anos de chumbo, que teve início com a edição, pelo marechal Costa e Silva (1902 - 1969), em 13 de dezembro de 1968, do AI-5 – instrumento jurídico que suspendeu as liberdades democráticas e os direitos constitucionais e individuais dos cidadãos brasileiros, além de fechar o Congresso Nacional e censurar a liberdade de imprensa no Brasil.




O peso dos anos de chumbo seria sentido, ainda, até o final do governo do general Emílio Garrastazu Médici (1905 - 1985), em março de 1974 – anos de chumbo esses que o próprio dom Hélder sentiu nos ombros, quando, por exemplo, em 1970, o religioso teve a sua candidatura ao Prêmio Nobel da Paz prejudicada pelo então presidente da República Emílio Garrastazu Médici, que, além de considerar o religioso hostil ao regime, o tinha como persona non grata. O pior é que o boicote a dom Hélder não parou por aí. O episódio voltou a acontecer pelos três anos subseqüentes, ou seja, 1971, 1972 e 1973, anos em que dom Helder voltou a ser candidato ao mais prestigiado dos prêmios do planeta – em 1972, por exemplo, foi o único candidato e o prêmio não foi atribuído. Bom! Resta-nos pensar o quão, sem exceção, eram insanos e periculosos, sem exceção, os ditadores militares, bem como aqueles que os apoiaram... Enfim! Após algumas tentativas frustradas, o ser humano consegue pelo menos ver a lua de perto. O feito, atribuído aos tripulantes da Apollo 8, os astronautas norte-americanos Frank Borman, o comandante, James Lovell e William Anders, nascido em Hong Kong, teve início no dia 21, quando a nave decolou da base de lançamento do Centro Espacial Kennedy, nos Estados Unidos, saiu da órbita terrestre, entrou na órbita da lua, contornando-a, e, por fim, retornou à terra no dia 27. A missão, por sua vez, fez parte do projeto americano Apollo, que era o de uma nave espacial pousar na lua e o ser humano písar em solo lunar, façanha que somente no ano seguinte, em 1969, foi realizada – dizem – com êxito.

Com três tripulantes a bordo, a nave Apollo 11 pousou na lua no dia 20 de julho, sendo o primeiro ser humano a pisar no tão almejado solo o astronauta norte-americano Neil Armstrong, que, à época, não se fez de rogado e formulou uma frase de efeito, tornando-se uma das mais famosas já proferidas da História, que diz mais ou menos assim: “Um pequeno passo para o homem; um salto gigantesco para a humanidade”. Ocorre que, desde então, esse mesmo homem tem desafiado os seus próprios limites, tornando-se não somente um desbravador do espaço, mas, também, do universo como um todo, esquecendo, contudo, que o universo, ou seja, a natureza, o nosso meio ambiente – considero um sinônimo do outro – tem, igualmente, os seus limites. Daí que, não é de hoje, por um afã que invade e consome as suas estranhas – afã esse de novas conquistas, de tudo o que vê pela frente, marcando território –, o homem é uma ameaça a si mesmo, pondo em risco que está todas as suas possibilidades de sobrevivência. Os reveses ambientais, por exemplo, que temos testemunhado – falar do aquecimento global já virou redundância –, são a prova inconteste da iminente derrocada do planeta no qual vivemos, bem como será o de qualquer um que, porventura, o homem, um dia, sonhe habitar. Afinal, está mais do que claro que o maior predador que já existiu, pelo menos na face da terra, é o homem, insensível a tudo que está ao seu redor, salvo quando, raríssimas vezes, um sentimento puro de afeição lhe toca o coração, a exemplo da fotografia abaixo, considerada um ícone do amor romântico do séc. XX.



13 DE ABRIL:
DIA DO BEIJO




A história, contudo, da referida fotografia, intitulada Le Baiser de l’Hotel de Ville, Paris, 1950, do francês Robert Doisneau (1912 - 1994), é, entretanto, curiosa. Assim, sendo 13 de abril o Dia do Beijo, criado em 1982, homenageamos a data contando – para quem não sabe – os detalhes do caliente beijo, que, na verdade, foi quem fez a fama da fotografia. Ei-los... Certo dia, apesar de pautado para fazer uma reportagem para a revista francesa Life Magazine sobre apaixonados em Paris, Doisneau sentiu-se intimidado para adentrar na intimidade de casais que se abraçavam e se beijavam à céu aberto ou não. A opção, então, foi abordar dois belos jovens namorados que estavam a flanar e pedir que eles simulassem uma cena romântica. Daí o beijo. Nada, portanto, espontâneo. Muito menos, um flagrante, embora, de certa forma, o amor que, à época, sentiam um pelo outro tenha sido registrado pela lente do fotógrafo. O fato é que, esquecida nos arquivos da revista por mais de trinta anos, a fotografia foi casualmente descoberta e uma empresa de comercialização de posters adquiriu os direitos de utilização da imagem, visto ter percebido o seu potencial comercial. Divulgada no mundo inteiro, ganhou fama, tornando-se um sucesso de vendas. Ocorre que, de uma hora para outra, vários casais reivindicaram ser os protagonistas da fotografia, interessados nos dividendos que poderiam render os direitos autorais postos em questão. Foi aí, então, que, em 1992, durante uma entrevista, Doisneau decidiu revelar que tudo não passou de uma encenação, de uma fraude. E que, na verdade, o casal da fotografia eram dois estudantes de artes dramáticas: Françoise Bornet e Jacques Carteaud. Meses depois, contudo, de feita a fotografia, o romance dos dois acaba. O tempo passa e, em 2005, já casada e arrependida por ter posado para a fotografia, Françoise decide leiloar um dos seus originais, formato 18cm x 20cm, enviados à ela pelo próprio Doisneau, pondo-o à venda por 20 mil euros. Ao final do leilão, uma surpresa: a fotografia foi comprada por 155 mil euros, sem que fosse identificado o seu comprador, que a arrematou por telefone. C'est ça!




Pode parecer brega, mas, outra homenagem ao Dia do Beijo é a lembrança do bolero Bésame mucho, composição da pianista e cantora mexicana Consuelo Velázquez (1916 - 2005) – antes mesmo, segundo ela, de ter beijado alguém –, que, no dia 21 de fevereiro deste ano, completou setenta anos. Traduzida em mais de vinte idiomas, a composição é um ícone da música popular do mundo inteiro. Inspirada na ária Quejas, La Maja y el Ruiseñor, da ópera Goyescas, do espanhol Enrique Granados (1867 - 1916), o bolero, por exemplo, se popularizou nos Estados Unidos porque a canção foi associada as mulheres que esperavam os maridos de volta da II Grande Guerra Mundial (1939 - 1945). Então! São muitas as versões de Bésame mucho, mas, uma das poucas conhecidas é a dos Beatles, que gravou o bolero em 1969, incluindo-o no repertório de Let it be, último álbum produzido pelo grupo.

Assim, abaixo, para quem se interessar, disponibilizo três links de interpretações de Bésame mucho. Nos dois primeiros, Consuelo Velázquez pode ser vista interpretando o bolero em sua versão original, bem como instrumental, respectivamente. Já o terceiro link é o da versão dos Beatles. Sintam-se, então, à vontade. Ah! E um grande beijo...
http://www.youtube.com/watch?v=MJVL1wQby_8&feature=related


Bésame mucho (instrumental) – Consuelo Velázquez
http://www.youtube.com/watch?v=k7w0jgrHKDg&feature=related


Bésame muchoBeatles
http://www.youtube.com/watch?v=LzfUDt_5L-s&feature=related


Bésame muchoConsuelo Velázquez




Nathalie Bernardo da Câmara


"A memória, onde cresce a história, que, por sua vez, a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro. Devemos trabalhar de forma a que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens".

Jacques Le Goff
Historiador francês











No dia 26, no Rio de Janeiro, estudantes realizam a Passeata dos Cem Mil, encabeçada por Vladimir Palmeira, então presidente da União Metropolitana de Estudantes - UME, em memória da morte de Edson Luís, morto em março, refletindo uma insatisfação popular diante das arbitrariedades da ditadura militar. O protesto, que reuniu cerca de cem mil pessoas, contou com a participação maciça de artistas, intelectuais, religiosos dos mais diversos credos e demais representantes da sociedade civil. O acontecimento, até então inédito na História do Brasil, inspirou o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987) a criar o poema Diante das fotos de Evandro Teixeira, autor da fotografia acima, considerada a mais famosa e badalada do evento. Transcrevemos, portanto, alguns dos versos do poema, que pode ser encontrado no livro Amar se aprende amando, publicado em 1985:

Martha Vasconcellos é eleita Miss Universo. No Vaticano, no dia 25, o papa Paulo VI publica a encíclica Humanae Vitae, segundo a qual todo ato de relação sexual dentro do casamento deve estar aberto à transmissão da vida, isto é, todos os métodos artificiais de controle de natalidade, ou seja, são proibidos o uso de anticoncepcionais.

Agosto: No dia 24, no oceano Pacífico a França explode a sua primeira bomba de hidrogênio.

Setembro: No dia 3, o
jornalista e deputado federal Márcio Moreira Alves (1936 - 2009), do MDB carioca, discursa no Congresso Nacional, em Brasília, criticando as Forças Armadas e a ditadura militar. Em dado momento, Márcio ironiza os militares, pedindo para as jovens moças evitarem dançar com cadetes. O discurso irrita os generais e Márcio é processado. No dia 11, é lançada a primeira edição da revista Veja, da Editora Abril, cuja manchete de capa foi O Grande duelo no mundo comunista.

Outubro: No dia 2, no México, o exército mata quarenta e oito pessoas durante manifestação estudantil na Praça das Três Culturas, ficando o episódio conhecido como o Massacre de Tlateloco. Ainda no dia 2, bem como no dia seguinte, em São Paulo, estudantes de esquerda da Universidade de São Paulo - USP, os conservadores da presbiteriana Mackenzie e integrantes do CCC entram em confronto, ficando o episódio conhecido como a Batalha da Maria Antônia, por ser o nome da rua que dividia as duas universidades. Também no dia 3, o general peruano Juan Velasco Alvarado (1910 - 1977) lidera um golpe de estado, dando início a um regime militar que duraria até 1980. No dia 12, cerca de mil e duzentos estudantes são presos em Ibiúna, São Paulo, quando, clandestinamente, realizavam o 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes- UNE, o mesmo dia em que é declarada a independência da
Guiné Equatorial. Um fato, contudo, ocorrido do dia 12 ao dia 27, marca o meio esportivo: pela primeira vez, os jogos olímpicos são realizados na América Latina, tendo como sede a Cidade do México.
Maio de 68 foi, antes de mais nada, uma obra espontânea dos que tinham 20 anos em maio de 1968, uma revolução mais geracional do que política. O que significava ter 20 anos em maio de 1968? Em primeiro lugar, uma negação da autoridade em qualquer de suas formas. Rechaçava-se a autoridade dos professores, dos pais, dos governantes, dos mais velhos, dos chefes. Essa reprovação, muito além das alusões pessoais, como as feitas a de Gaulle ou ao papa, questionava o princípio da autoridade e de todas as ideologias que legitimizavam a autoridade.

Assim, acusavam os partidos políticos, o Estado (personificado na ocasião pela grande figura tutelar e paternalista do general de Gaulle), o Exército, os sindicatos, a Igreja e a universidade. Isso era muito original? A Revolução Francesa, em 1789, foi obra de jovens de 20 anos, o romantismo de 1820 também, a revolução surrealista, da mesma forma. O esquema desses acontecimentos históricos é espantosamente repetitivo: após um longo período de dificuldades sociais, militares e econômicas, uma nova geração se subleva e diz: