quarta-feira, 30 de junho de 2010

O CHAMADO DO DNA

“A nuca é um mistério para os olhos...”.

Paul Valéry (1871 - 1945)
Escritor francês


À procura de um livro para ler, deparei-me, esta madrugada, com alguns dos meus exemplares dos romances policiais da escritora britânica Agatha Christie (1890 - 1976), lidos, inclusive, na adolescência. À época, ao adquirir todos os seus títulos disponíveis em livrarias e sebos, afora os ganhos de presente, adentrei no universo literário de outros autores do gênero, do qual Agatha Christie era única, embora, de vez em quando, relesse um ou outro romance daquela que ficou conhecida como a Rainha do crime, revivendo as aventuras de muitas das personagens criadas por ela, tipo Miss Marple, uma idosa, estudiosa da natureza humana, e o detetive belga Hercule Poirot, com a sua cabeça ovóide, bigode indefectível e brilhantes células cinzentas, capazes de desvendarem os casos mais intrigantes...

Porém, fico a imaginar como seriam, hoje, caso fosse viva, os enredos escritos por Agatha Christie. Digo isso porque, de uns tempos para cá, sem muita alternativa literária do gênero que seja do meu agrado, acompanho algumas séries televisivas americanas atuais de investigação criminal, nas quais detetives e policiais dispõem de uma evoluída ciência forense, de laboratórios de criminalísticas com tecnologia avançada e analistas de perfis para solucionar crimes com mais agilidade do que quando a escritora tecia as suas histórias – antes, por exemplo, da era do Ácido desoxirribonucleico - DNA, hoje figurinha fácil nas investigações criminais, possibilitando a identificação do autor de um crime, sendo, por muitos, chamado de impressão molecular, trabalhando, contudo, em parceria com a digital.

Retirado dos glóbulos brancos, o DNA é isolado a partir de uma gama de resíduos biológicos: sangue, esperma, saliva, raiz do cabelo, osso, dente, cera dos ouvidos, fezes e muco nasal, já que a seqüência nucleotídica da molécula é exclusiva de cada indivíduo, com exceção de gêmeos. Imagino, assim, que Agatha Christie teria utilizado esse e demais recursos, atualmente disponíveis, em suas tramas. Afinal, a utilização do DNA, com o objetivo de identificar criminosos – prova inconteste para a sua condenação –, é algo extremamente fascinante! Por outro lado, o teste de DNA pode ser, igualmente, de grande valia para inocentar quem, injustamente, foi julgado condenado por não importa qual crime. É o que dizem os advogados norte-americanos Barry Scheck e Peter Neufeld, co-diretores do Innocence Projet.

Organização de direitos civis norte-americana, criada em 1992, o Innocence Projet intercede junto a inocentes condenados por lei para que seja provada a sua inocência e conquistada a sua liberdade através de testes de DNA, os quais, para os advogados Scheck e Neufeld, “estão para a Justiça como o telescópio está para as estrelas”. Ou seja, para se fazer justiça, hoje, seja para condenar ou inocentar, basta, apenas, um simples cotonete. Quanto à Agatha Christie, a sua produção intelectual foi profícua: os romances, as memórias, as peças teatrais, os contos, os poemas... Sem contar os originais não publicados em vida. Calcula-se que mais de quatro bilhões de exemplares da sua obra já foram vendidos em diversas línguas, bem como muitas de suas histórias terem sido adaptadas ao cinema.

Além disso, a quantidade de traduções dos seus mais de cem livros é superada apenas pela Bíblia e pela obra do poeta e dramaturgo britânico Shakespeare (1564 - 1616). É, posso dizer que, pelo menos ficcionalmente, já vi bastante coisa, embora a realidade não seja muito diferente. Bom! Outro dia, contudo, assisti a um episódio de uma das tais séries televisivas e vi algo que achei exagerado, ou seja, o fato de, mesmo estando sob custódia da polícia, uma mulher, grávida, ser algemada a uma maca antes de ser transferida de uma cela de delegacia para um hospital penitenciário, a fim de dar à luz. Afinal, sentindo as dores do parto, com contrações e hemorragia, como, por mais que quisesse, a mulher poderia tentar fugir, ainda mais deitada, cercada de médicos, advogados e policiais?

O detalhe da algema teria sido uma falha no roteiro do episódio ou, de fato, faz parte do protocolo da polícia da vida dita real o excesso de prevenção, mesmo em casos como o da grávida, contra uma eventual fuga? Falando em fuga... Certa feita, em 1926, o carro de Agatha Christie foi encontrado abandonado, à beira de um lago, na Inglaterra, sem nenhum vestígio da escritora, muito menos uma pista do seu paradeiro, até que um funcionário de um hotel informou à polícia que uma das hóspedes assemelhava-se a mulher que aparecia nas fotos divulgadas da tida como desaparecida. Ao averiguar, a polícia confirmou tratar-se realmente de Agatha, que havia se registrado no hotel com o nome da amante do marido, o coronel britânico Archibald Christie (1889 - 1962), aviador da força aérea da Inglaterra.

O desaparecimento de Agatha Christie, contudo, nunca foi, de fato, esclarecido, elucidado satisfatoriamente. Nem mesmo por ela, fossem em declarações à polícia ou à imprensa, fossem em seus livros. Supõe-se, apenas, que, por causa da recente morte da mãe e, logo em seguida, da descoberta do adultério do marido, de quem se divorciou dois anos depois, estivesse deprimida e sofrendo de amnésia temporária. Ocorre que, até hoje, as especulações a respeito, são, provavelmente, o único mistério não solucionado pela escritora, que, aliás, em 1930, casa-se pela segunda vez com o arqueólogo britânico Sir Max Mallowan (1904 - 1978), quatorze anos mais jovem, que ela conheceu na Mesopotâmia, com quem compartilhou os mistérios ficcionais que criava e os da vida.

Enfim! Agatha Christie pode não ter criado histórias policiais na era do DNA, mas, com certeza, a mente fértil da escritora e as diversas viagens que realizou, inclusive as ao Oriente Médio, acompanhando o segundo marido, em função do seu trabalho, serviram como inspiração e cenário para vários dos seus romances. Todos, aliás, instigantes! Sim, com tramas bem elaboradas e muito bem escritas. Daí, fico a elocubrar, a importância que teria uma alma gêmea, ou melhor, de um DNA gêmeo para alguém. A escritora encontrou o seu, com quem – tudo indica – não teve mais problemas, pelo menos, de infidelidade. Tanto que, curiosamente, certa vez, ela disse: “O arqueólogo é o melhor marido que uma mulher pode ter”, acrescentando que, “quanto mais velha, mais interesse ele tem por ela”. E haja pesquisa!

Eu só acho que, em relação as séries televisivas, americanas ou de outra nacionalidade, de investigação criminal ou a filmes do gênero e a certos telejornais, deveria haver uma preocupação maior quanto à faixa etária advertida para assisti-los e ao horário de suas exibições. Sim, esses critérios tinham de ser muito mais rígidos e, de fato, cumpridos, sobretudo na televisão fechada, devido a cenas de fortes cargas de emoção de vários programas. Afinal, se já não são boas companhias nem exemplos a seguir por certos adultos, o que dirá por adolescentes e crianças! Ainda mais atualmente, quando o bom senso tem perdido cada vez mais espaço para o desequilíbrio mental e emocional da sociedade, que anda a fomentar toda sorte de violência, tornando-se algo estupidamente crescente e corriqueiro.

E isso é grave porque, ao mesmo tempo, a vida e os sentimentos também passam a ser banalizados, além da existência humana, que, parece, deixa de ter sentido, bem como os sonhos, a esperança, o amor... É, de fato, um problema, mas, principalmente, em função do preconceito da maioria em relação a ter cuidados com a sua saúde mental e emocional, embora, no mundo em que vivemos, o ideal seria que, sem exceção, todos tivessem um acompanhamento terapêutico para lidar com as adversidades. Ainda mais quando, cada vez mais, existe uma tendência de gente, aparentemente dita normal, manifestar uma dada psicopatia ou patologias que estimulam a violência. Enfim! Se a vida humana em si já é um grande e impenetrável mistério, o que dirá da natureza humana e dos seus fantasmas.

Certas pessoas, por exemplo, igual o bem tem as suas faces e a violência pode metamorfosear-se, são arrogantes a ponto de interferirem na vida de terceiros, acreditando, piamente, que são donas da verdade, conseqüentemente, dos desejos alheios, violando, muitas vezes, os seus direitos, levando-as a cometer algum tipo de crime. E isso, apenas, porque, por motivos os mais diversos, elas apostam na tão decantada impunidade para os seus atos sombrios, alegando, inclusive – é comum –, que as vítimas fizeram por onde serem agredidas. Porém, os agressores, apesar da memória invariavelmente curta, não importa o tempo que leve, serão, de alguma forma, punidos. Pode nem ser com a cadeia, já que, desta, muitos costumam escapar, mas com algo, às vezes, muito pior, que é a indiferença...

Nathalie Bernardo da Câmara

terça-feira, 29 de junho de 2010

FOGOS DE ARTIFÍCIO E EXPLOSIVOS: UMA REGULAMENTAÇÃO NECESSÁRIA

“40% dos queimados pelo uso de fogos são menores entre 4 e 14 anos e uma em cada dez pessoas que manuseiam esse tipo de artefato sofre amputações...”.

Associação Brasileira de Cirurgia de Mão - ABCM

Segundo a Agência Senado, “A fabricação e a venda de fogos de artifício e pirotécnicos são disciplinadas pelo Exército Brasileiro, por meio do Regulamento para Fiscalização de Produtos Controlados (R-105), aprovado pelo Decreto 3.665, de 20 de novembro de 2000. (...) De acordo com a norma, os fogos de artifício são classificados em A, B, C, e D, conforme o poder de queima e explosão”. Porém, “as denúncias de venda ou uso irregular de fogos devem ser dirigidas às autoridades policiais”. Assim, conforme o Portal do Consumidor Blog, cuja atualização é feita pelo Inmetro, as classificações são:


Classe A (Infantil) – Pode ser vendido a menores e sua queima é livre (recomenda-se sempre a assistência de adultos);
Classe B (Juvenil) – Pode ser vendido a menores, mas a sua queima é proibida em terraços, portas ou janelas que estejam próximas de vias públicas (também recomenda-se a assistência de adultos);
Classe C (Adulto) – Venda proibida a menores de 18 anos;
Classe D (Profissionais) – Venda expressamente proibida a menores de 18 anos, sob qualquer hipótese. Só podem ser queimados com licença prévia das autoridades competentes.


Corroborando com o que se refere à classe A e B, ainda segundo a Agência Senado, “o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90) proíbe a venda, a criança ou a adolescente, de armas, munições e explosivos e fogos de estampido e de artifício, exceto os que, pelo seu reduzido potencial, sejam incapazes de provocar dano físico em caso de utilização indevida. A pena para quem descumprir a lei é de detenção de seis meses a dois anos, e multa (artigos 81, 242 e 244). Pelo Código Penal (Decreto-Lei 2.848/40), a pena por expor a perigo a vida, a integridade física ou o patrimônio de outrem mediante explosão, arremesso ou simples colocação de engenho de dinamite ou de substância de efeitos análogos, é de reclusão de três a seis anos, além de multa”.

Para o Portal do Consumidor Blog: “É importante que o consumidor verifique se o estabelecimento que está vendendo o produto possui autorização da Divisão de Armas, Munições e Explosivos – DAME – da Polícia Civil, Corpo de Bombeiros Militar e Exército Brasileiro”, e “nunca compre em lojas do tipo “fundo de quintal” e denuncie ao Corpo de Bombeiros, Divisão de Armas, Munições e Explosivos e ao Exército Brasileiro a sua existência, pois a loja clandestina oferece risco para a vizinhança ao entorno em relação ao produto comercializado”.

O consumidor, ainda, “deve observar se na embalagem do produto há todas as informações obrigatórias, como: nome do fabricante, nome e endereço da fábrica, data de fabricação e de validade, CNPJ e inscrição: Indústria Brasileira; Peso bruto e peso líquido, classe do produto, registro do Exército e instruções de uso. Isto indica o conhecimento e a preocupação do fabricante em se adequar às normas e aos regulamentos técnicos. Além disso, é importante que o consumidor faça uma avaliação das condições da embalagem. A embalagem não deve estar suja, amassada, deformada ou com rasgos. Ela também não deve apresentar sinais de deterioração pela ação do tempo, de agentes químicos, ou descolamento. No caso de artefatos importados, dê preferência aos produtos que contenham as informações exigidas nas embalagens em português e de maneira legível”.

Agora, quanto à prevenção de acidentes... “Algumas medidas de segurança podem e devem ser tomadas pelo usuário do produto, como: Armazene os fogos em local frio, seco e longe do alcance de crianças; Leia e siga as instruções na embalagem; No uso de bebida alcoólica, não solte fogos de artifícios, pois aumenta o risco de acidentes; Solte foguetes somente em locais abertos, longe de hospitais, escolas, igrejas e postos de combustíveis; Não reutilize os artefatos que tenham falhado; Nunca faça experiências, modifique ou tente fazer seus próprios fogos de artifícios; Se o foguete falhar, continue na mesma posição por pelo menos vinte segundos. Em seguida, deposite-o imediatamente na água, a fim de evitar riscos.

Em caso de acidentes... “As pessoas devem lavar o ferimento com água potável, evitar tocar na área queimada e não usar nenhuma substância sobre a lesão, cobrir o ferimento com pano úmido e limpo e procurar atendimento médico. Não aplique sobre o ferimento creme dental, manteiga, sabão, borra de café ou azeite. Vale lembrar que o uso de fogos de artifício pode causar queimaduras de segundo e terceiro grau, além de lesões lacerações, cortes, amputação dos membros superiores, lesões de córnea ou perda da visão e do pavilhão auditivo ou perda de audição. Portanto, é recomendável para evitar acidentes que o consumidor atente as recomendações de segurança”.

Então, se o perigo e os riscos de acidentes decorrentes da utilização de fogos de artifício e explosivos são comprovados, não há porque insistir em um erro...

Nathalie Bernardo da Câmara

BALÃO: PERSONA NON GRATA NOS CÉUS DO BRASIL



“Meu balão azul foi subindo devagar./O vento que soprou meu sonho carregou./Nem vai mais voltar...” – Sonho de papel.

Braguinha (1907 - 2006) e Alberto Ribeiro (1902 - 1971)
Compositores e cantores brasileiros



Há quem, ainda, se arrisca e, aqui e acolá, solta um balão, seja ou não período de festas juninas, julinas, agostinas, indiferente, inclusive, as conseqüências dos seus atos... De qualquer modo, eles têm sido raros. Segundo a Agência Senado: “A legislação brasileira proíbe a fabricação, a venda, o transporte e a soltura de balões que possam provocar incêndios nas florestas e demais formas de vegetação, em áreas urbanas ou qualquer tipo de assentamento humano. A pena para esse crime é de detenção de um a três anos ou multa, ou ambas as penas cumulativamente, conforme a Lei de Crimes Ambientais (9.605/98) e o Decreto 3.179/99, que a regulamentou. Incorre ainda na mesma pena quem, de alguma forma, concorre para a prática do crime ou deixa de impedir ou evitá-la”. E a informação prossegue: “O perigo imposto pelos balões às aeronaves não é citado na lei, mas o Código Penal prevê, em seu artigo 261, detenção de seis meses a dois anos para quem expuser a perigo embarcação ou aeronave, ou praticar qualquer ato tendente a impedir ou dificultar navegação marítima, fluvial ou aérea”. Sem levar em consideração a poesia que, muitas vezes, há quem atribua aos balões, alguém, ainda, atreve-se a soltá-los?


Nathalie Bernardo da Câmara

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A FOGUEIRA COMO ANUNCIAÇÃO

“Uma festa é um excesso permitido, ou melhor, obrigatório, a ruptura solene de uma proibição...”.

Freud (1856 - 1939)
Médico austríaco, fundador da psicanálise

Segundo pesquisei, além de Maria, a mãe de Jesus Cristo, que foi gerado nem sei como, São João é o único membro do panteão católico cujo nascimento, enaltecido, é comemorado, ou melhor, cultuado, pela Igreja católica, no dia do seu nascimento, 24 de junho, contrariando algo que, a priori, deveria ser uma regra para a instituição, já que os seus membros, acobertados por um falso moralismo extremado e estúpido, demonstram ser tão rígidos, ou seja: a de que os dias consagrados a homenagens aos santos são aqueles em que, quando os mesmos eram humanos, ocorreram a sua morte.

Tais comemorações, contudo, no caso do Brasil, foram, provavelmente, limitadas aos adros da Igreja católica até o início do séc. XVII, quando surgem os primeiros registros de festas populares de São João na então colônia portuguesa. Acredita-se, portanto, que, apenas tempos depois, levando em consideração a data da morte, no mês de junho, de outras duas criaturas, cultuadas, no caso, pela Igreja, ou seja, Santo Antônio, no dia 13, e São Pedro, no dia 29, a cultura popular uniria as três datas – incluso o nascimento de João, também em junho –, transformando-as em festas juninas.

Falando nisso – parênteses –, hoje já tem até festas julinas, agostinas... Daqui a pouco inventam as festas setembrinas, outubrinas... Bom! Profanas, as festas juninas seriam, para o povo, o equivalente ao culto, considerado sagrado, da Igreja aos dias dos ditos santos. Enfim! Uma lenda relacionada ao homem que se tornou um dos santos mais populares entre os católicos, que foi João Batista, considerado o elo entre a Antiga e a Nova Aliança de Deus – haja anel –, conta que a sua mãe, Isabel, para anunciar o seu nascimento à prima Maria, futura mãe de Jesus, acendeu uma fogueira. E que fogueira!

Daí que, nas festas de São João, a fogueira – o elemento mais importante e o mais significativo de tais festejos – ser arredondada na base, formando uma pirâmide, enquanto na Festa de Santo Antônio é quadrangular e na Festa de São Pedro triangular. Além disso, os fogos de artifício, utilizados nos festejos, seriam para despertar São João, chamando-o para comemorar o seu aniversário, e o barulho das bombas e rojões para espantar os ditos maus espíritos. O costume de soltar balões, por sua vez, teria a função de levar pedidos dos devotos aos céus e a São João... Opa!

Tem algo errado aí. Afinal, que eu saiba, os balões são proibidos pela Lei de Crimes Ambientais, regulamentada em 1999, e a venda de fogos de artifício e explosivos também já foi regulamentada pela legislação brasileira desde 2000. Enfim! Não é de hoje, as festa juninas, generosas, contemplam, sem maiores conflitos, o paganismo da sua origem e os aspectos religiosos que, de há muito, têm sido introduzidos pela Igreja nos festejos, já que estes são comumente visitados por religiosos ávidos para tentar resgatar prováveis ovelhas desgarradas do seu rebanho e, de repente, angariar outras.

De qualquer modo, o ponto alto do ciclo junino é a sua porção recreativa e cultural, que, dependendo da região brasileira, difere em alguns atrativos, apesar da sua maior parte está presente, visto lhe ser inerente, em todas as versões das festas, proporcionando diversão. Exemplo disso, como já foi dito – tirando o inconveniente da fumaça –, são as fogueiras, bem como demais elementos, tipo as bandeirolas coloridas, o levantamento de mastro, as quermesses, as barraquinhas com jogos, outras com comidas típicas, doces e salgadas, a maioria à base de milho...

Sim, um grão em alta, o milho, neste período do ano, pois é o da colheita – vegetal sobre o qual, inclusive, falarei em outro post, pois, apesar de não gostar nem um pouco do seu cheiro, muito menos das comidas feitas com ele, com exceção da pamonha salgada, que aprendi a apreciar no Distrito Federal, considero-o extremamente necessário à dieta humana, sobretudo para as mulheres, pois, pelo que sei, ajuda na reposição hormonal. Bom! Noutras barraquinhas, então, já que estávamos a falar das que serviam comidas, são servidas as bebidas, sobretudo o típico quentão.

Agora, além das barraquinhas, a oferta de uma diversidade incrível de danças, já que a Festa de São João, por exemplo, é tida como a mais alegre das juninas: quadrilha, forró, baião, xaxado, fandango, xote... O fato notório é que, de todos os ritmos dançantes que caracterizam as festas juninas, a quadrilha, em particular, é o mais tradicional. O compositor, cantor e escritor brasileiro Chico Buarque, inclusive, em sua canção intitulada Quadrilha, tece um verso que, de repente, traduz o espírito festivo dos festeiros durante o ciclo junino, ou seja: “Salvo chuva e salvo engano, a satisfação é geral”.

Quem se atreve a dizer que não o é? Afinal, em noites de junho, o único fogo que se apaga, se chove, é o da fogueira. E, se há engano, nem que seja porque Santo Antônio não deu uma força em alguma conquista amorosa, parte-se para outra, tirando alguém, por exemplo, para dançar quadrilha...





Bom! Tudo indica que a quadrilha é oriunda da França, tendo surgido em fins do séc. XVIII, sendo que, em seus primórdios, era executada por quatro grupos de dançarinos. O nome quadrilha, então – quadrille, em francês –, deve-se as suas personagens lembrarem a formação militar de uma squadra – soldados perfilados em quadrado –, ao mesmo tempo em que, ao se popularizar, acompanhou o diminutivo de quadrado – cuadrilla, em espanhol –, e, segundo o folclorista brasileiro Luís da Câmara Cascudo (1898 - 1986), praticada, inicialmente, em meios aristocráticos, ou seja, uma dança palaciana.

Então... A quadrilha aportou no Brasil com a família real portuguesa e membros da sua corte, bem como através das diversas missões culturais francesas que estiveram no país ao longo do séc. XIX. Assim, introduzida nos salões brasileiros através do modelo francês da contradança por maestros franceses, não demorou muito, a quadrilha caiu no gosto do povo e passou por transformações, com as suas evoluções sendo modificadas e outras acrescidas, mudando até a sua música e os seus comandos, tornando-se uma dança folclórica, embora os comandos continuem sendo afrancesados.

Ocorre que, se, antes, a quadrilha costumava apenas ser dançada durante a Festa do Divino – uma festa móvel, por ser realizada ou fins do mês de maio ou início do mês de junho –, de há muito só é associada as festas juninas. Tanto que, por isso, muitos, inclusive, arriscam até dizer que São João sem quadrilha não é São João. Porém, atualmente, a dança, cujos instrumentos musicais que, de costume, a acompanham, são a sanfona, o triângulo e a zabumba, apesar de também serem comuns a viola e o violão, é conhecida por vários nomes. Vejamos, então, alguns, pois devem existir outros...

Em praticamente todo o Nordeste, por exemplo, quadrilha é quadrilha, embora, na Bahia, seja chamada de baile sifilítico; em Campos, no Rio de Janeiro, é conhecida como Mana-Chica; em São Paulo, quadrilha caipira; no Brasil Central, tipo Distrito Federal, saruê, uma variação da palavra francesa soirée... E, por aí, vai. Então! A priori, a dança deve consistir em um conjunto de cinco partes, ou de escalas, como se diz no teatro. Curiosamente, no Brasil, a quadrilha teve o acréscimo de um elemento cômico devido à incompreensão da língua francesa pela gente simples dos nomes das partes da dança.

Ou seja, alavantu (en avant tous), giro (tour), balanceio (balancé), caminho da roça (chemin du bois) e volta que está chovendo! ou olha a chuva! (retournez! il pleut!). Agora, quanto ao figurino dos participantes da quadrilha... Ao contrário da formalidade de outrora, a indumentária deve, de preferência, conter retalhos diversos e distintos, assemelhando-se, de certa forma, ao jeito caipira de ser. Quero dizer, rural e genuína, embora criativa. Sim, quanto mais caracterizado melhor, embora, eu, particularmente, não tenha andado muito chegada as chamadas festas de santo, ou melhor, a festas em geral.

E isso, apenas, porque, com o passar do tempo, tenho evitado aglomerações. Elas me sufocam, atemorizam... As pessoas excedem em tudo, até mesmo nas emoções, e, quando você menos espera, sai um doido do meio da multidão e... Bom! No entanto, antropologicamente falando, os festejos populares têm os seus encantos. São envolventes, promovendo congraçamento e sociabilidade. A quadrilha, por exemplo, que até eu já dancei, quando criança, tem a sua magia, sendo, ainda, onírica e lúdica. Outro exemplo disso é a Festa do Divino, que pesquisei durante anos e aprendi a admirar.

Enfim! É como diria a antropóloga brasileira Rita Amaral, autora da tese de doutoramento Festa à brasileira – Sentidos do festejar no país que “não é sério”, que li durante a minha pesquisa sobre a Festa do Divino: “Divertimento é coisa séria e pode ser entendido até mesmo como a segunda finalidade do trabalho, vindo logo após a necessidade de sobrevivência”. Só que, cara amiga, em ano de Copa do Mundo, a diversão, para muitos, termina, nem que seja aparentemente, sendo dupla! Ou melhor, exacerbada. E, por isso mesmo, é preciso estabelecer limites, senão o bicho pega...


Nathalie Bernardo da Câmara


sexta-feira, 18 de junho de 2010

NADA A DECLARAR!



“O mundo ficou ainda mais burro e ainda mais cego hoje...”.

Fernando Meirelles, cineasta brasileiro


Ainda sob o impacto da morte, ocorrida hoje, sexta-feira, 18 de junho de 2010, pela manhã, do escritor português José Saramago (1922 - 2010), por quem eu nutria - e ainda nutro - a mais profunda admiração, confesso que, pela primeira vez, em toda a minha vida, nunca, até então, tinha enfrentado tanta dificuldade em escrever um texto - tentei o dia inteiro e... nada!

Vai ver que, devido à emoção provocada pela perda irreparável do escritor, que se deu em sua casa, na ilha espanhola de Lanzarote, embotei, sentindo-me impotente em tecer nem que fossem algumas linhas para falar do viajante que ele era, cuja mente muitos consideraram e ainda consideram como sendo uma das mais lúcidas e brilhantes da era contemporânea. O que dizer? Não consigo.

Quem sabe amanhã, depois de amanhã... Ainda bem que, em alguns lugares, muitos já decretaram luto por três dias pela morte do escritor. Pelo menos, assim, ainda tenho alguns dias para escrever a minha poesia, enaltecendo o humanista que foi Saramago.

Adeus, camarada! Ou melhor, até breve... Sim, porque, se, aos oitenta e quatro anos, em 2007, você criou um blog - inspiração para o meu -, logo vai encontrar um meio, onde quer que esteja, para se comunicar, dizendo, pelo menos, como é a vida do outro lado...



Nathalie Bernardo da Câmara

LIBERTAS QUAE SERA TAMEN

“A imprensa é a luz da liberdade...”.

Milton (1608 - 1674)
Poeta inglês

No Dia Nacional de Luta pela aprovação da Proposta de Emenda Constitucional n° 386/09, ou PEC dos Jornalistas, que prevê o retorno da obrigatoriedade do diploma de curso superior de jornalista e, conseqüentemente, do registro profissional para o exercício regular da profissão, ocorrido nesta quinta-feira, 17 de junho, o presidente da Associação Brasileira de Imprensa - ABI, jornalista Maurício Azêdo, bateu três vezes na madeira ao se referir à decisão que, acatando o parecer do ex-presidente do órgão, Gilmar Mendes, o Supremo Tribunal Federal - STF tomou há exatamente um ano contra a sua categoria, que foi a de pôr um termo nesses dois pré-requisitos para que alguém possa exercer o jornalismo. Bom! Se superstição ajuda...

À oportunidade, além de Azêdo, de demais jornalistas e representantes de entidades da categoria, estiveram reunidos na sede da ABI, no Rio de Janeiro, os deputados federais Hugo Leal (PSC-RJ), Arolde de Oliveira (DEM-RJ) e Chico Alencar (PSOL-RJ), que integram a Comissão Especial da Câmara dos Deputados, encarregada de emitir o parecer sobre a PEC n° 386/09. O relator da proposta, por sua vez, deputado Hugo Leal, declarou que a PEC dos Jornalistas deverá ser entregue para votação ainda este mês: “A expectativa é apresentarmos o relatório dia 30 de junho, já com uma redação que possa acomodar todas as circunstâncias que estamos ouvindo. Vamos preparar um substitutivo para o autor da emenda, deputado Paulo Pimenta (PT-RS), e talvez levar a plenário já nas duas sessões seguintes, até o dia 15 de julho”, afirmou.

À espera, portanto, dos parlamentares membros da Comissão Especial da Câmara dos Deputados, que analisam a PEC dos Jornalistas e que visitariam à sede da ABI, integrantes da Campanha em Defesa do Diploma realizaram uma manifestação diante da entidade, coincidindo com o Dia Nacional de Luta promovido pela Federação Nacional dos Jornalistas - FENAJ, comemorado, ainda, em demais cidades do Brasil. Para o presidente da ABI, as manifestações têm como objetivo “o restabelecimento dos direitos dos jornalistas sonegados e eliminados pelo Supremo Tribunal Federal” – direitos esses violados sem a menor consideração pela categoria e pela sociedade brasileira, que, por sua vez, tem o direito a uma imprensa livre, comprometida com uma informação de qualidade, com a verdade e com a democracia.


Nathalie Bernardo da Câmara

quinta-feira, 17 de junho de 2010

UM VERSO...





“Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraçá-la...”.

Clarice Lispector (1920 - 1977) Escritora brasileira nascida na União Soviética


quarta-feira, 16 de junho de 2010

QUAL SERIA
O INFERNO DO ATEU?


“Toda virtude tem os seus privilégios. Por exemplo: o de levar seu próprio feixezinho de lenha à fogueira do condenado...”.

Nietzsche (1844 - 1900)
Filósofo e filólogo alemão


Costumo escrever em meu blog sobre temas os mais diversos. Basta despertar-me algum tipo de interesse, qualquer que seja ele. Na maioria das vezes, por exemplo, escrevo por considerar um assunto pertinente, merecedor de ser abordado, pesquisado, divulgado; noutras, apenas para arejar a mente, passar o tempo, como agora, não importando se o texto possa ou não ser considerado um absurdo. Vejamos... Outro dia, casualmente, deparei-me com uma piada postada no blog de um conhecido. Intitulada O Inferno dos ateus, a historieta fez-me rir, embora discorde em relação aos moldes na qual ela foi ambientada.

Afinal, a idéia que se tem do ficcional Inferno é a de algo perverso. Porém, na piada, o Inferno se traduz em um lugar idílico, aprazível, no qual os que não vão para o também ficcional Céu vivem na mais completa harmonia. Então... Impedido de entrar no Céu por São Pedro, um ateu, resignado, desce, humildemente, as profundezas do Inferno, privilegiado, inclusive, com uma generosa natureza. Assim, acompanhado de Satanás, que lhe oferece uma caminhada de cortesia pelas dependências do Inferno, o ateu espanta-se com a presença, em sua nova morada, de algumas mentes brilhantes.

Entre as quais, o filósofo alemão Nietzsche, autor da epígrafe deste post, o escritor francês Voltaire (1694 - 1778), o político norte-americano Thomas Jefferson (1743 - 1826), o filósofo italiano Giordano Bruno (1548 - 1600), o filósofo alemão Karl Marx (1818 - 1883) e o físico alemão Albert Einstein (1879 - 1940). De repente, enquanto caminham e conversam pelas veredas do lugar, que mais se assemelha ao Jardim do Éden, Satanás e o ateu são surpreendidos por relâmpagos, que ofuscam os seus olhos, e trovões, que estouram os seus tímpanos. Tudo escurece e uma ventania tremula o lugar.

O chão abre-se em fendas, expelindo labaredas, como se quisessem sugá-los para as profundezas, e, em um relance, um homem surge do nada, aos gritos. Ardendo em chamas, ele cai em uma das fendas, logo sendo tragado pelas labaredas. Assim, quando isso acontece, tudo volta ao que era antes, como se nada tivesse acontecido. Impactado com o episódio, o ateu questiona a Satanás o que fora tudo aquilo. Com um sorriso largo nos lábios, habituado a cenas como a recém-presenciada, Satanás, tranquilamente, responde:


— Era um evangélico. Eles preferem o Inferno desta maneira...


Enfim! Eu, particularmente, se fosse criar um Inferno para os ateus e para os que, apesar de crentes em Deus, desagradaram-no em algum momento das suas vidas e, por isso, tiveram as portas do Céu fechadas por São Pedro, escolheria a Idade Média como cenário e daria a Satanás o nome de Inquisidor. Afinal, quer período histórico mais entrevado do que quando a Igreja católica queimava a 3x4, nas fogueiras da Inquisição, aqueles considerados hereges pela instituição? Sim, de fato, seria a Idade das Trevas, que queimou milhares de inocentes vivos, a representar o meu Inferno.

Sei não, mas, se a História que é a História da dita civilização humana está recheada de maldade – visto que nem todos são civilizados e muitos apenas aparentam ser humanos –, ateus e congêneres nunca ficariam a salvo, porque, quando não estivessem temendo e fugindo do Inquisidor, da sua insanidade e torturas, para não padecerem nas chamas da fogueira – quiçá até mesmo empalados –, estariam, o resto do seu tempo, vulneráveis as almas penadas do Purgatório, por este fazer fronteira com o Céu e o Inferno, tentando driblá-las, com o intuito de evitar outros fins de natureza trágica.

Consideradas a escória da raça humana, destituídas, portanto, de humanidade, iguais ao Inquisidor em crueldade, mais desprezíveis do que baratas, mas que, por autodenominarem-se crentes em Deus, proferindo o seu nome a cada novo crime cometido, as almas penadas, também conhecidas como as bestas do Purgatório, teriam escapado ao Inferno, ficando a vagar: corruptos, déspotas, ditadores, tiranos, terroristas, facínoras, nazistas, fascistas, torturadores, assassinos, genocidas, criminosos de todos os matizes... Sem dúvida alguma, as qualificações são muitas e a lista é grande!

Tanto que, para não pecar por omissão, é melhor nem citar nomes. Sem falar que não quero poluir este post citando criaturas tão indigestas. Porém, o estúpido é que, como a morte, arbitrariamente, já põe termo à vida, qual o sentido de morrer de novo, seja no Inferno, no Purgatório ou no Céu? Afinal, cada uma dessas dimensões, digamos assim, teria as suas próprias formas de eliminar qualquer tipo de existência e sempre haveria de ter uma persona non grata para cada uma delas. Enfim! Eis a minha versão para um Inferno dos ateus, embora fique a indagar quem, da raça humana, estaria habilitado para ascender ao Céu...


Nathalie Bernardo da Câmara

quinta-feira, 10 de junho de 2010

UM BARATO QUE
CUSTA CARO A TODOS NÓS



"O futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia...".

Jornalista e escritor brasileiro



De quatro em quatro anos, o enjôo volta! Não que eu não goste de esporte. Ao contrário! Em tempos remotos, até já fui atleta – pratiquei ginástica olímpica, basquete, tênis, natação... –, considerando toda e qualquer atividade física, aliás, extremamente benéfica e necessária para a saúde humana. Na verdade, o que me irrita são os ânimos inflamados e o fanatismo das pessoas durante uma partida de futebol, que, de há muito, se tornou um objeto de devoção, igual a um ritual religioso qualquer. Imagine, então, o transtorno mental e emocional que afeta os torcedores em uma Copa do Mundo! Dá até medo.

Daí o evento ser indigesto, pelo menos para mim. Sim, algo que realmente me embrulha o estômago e do qual eu quero distância, sobretudo da energia perniciosa que rola igual uma bola no gramado durante o período da sua realização. E o horror é que, mesmo se a criatura tiver um alto grau de capacidade para se abstrair, não há como não sentir os seus inconvenientes respingos. De qualquer modo, sinto-me uma privilegiada, pois não estou incluída nas estatísticas que, na Copa do Mundo, contemplam as vítimas da repulsiva lavagem cerebral que é engendrada pela mídia.

Parece até pardal, a mais familiar das aves, que, aliás, só nidifica em habitações humanas, sendo a espécie de maior distribuição geográfica do planeta, presente em todos os continentes. E, tal qual o pardal, me perdoem os torcedores de plantão, o futebol – não é de hoje – tornou-se uma praga e, como toda praga, provoca desequilíbrios ambientais, não se caracterizando, portanto, como sendo algo saudável, provocando danos, inclusive colaterais, muitos dos quais, aliás, imperceptíveis. Ocorre que, como a dita democracia ampara a prática do futebol não importa em quais moldes, mesmo os fraudulentos...

Quando se fala em futebol – não há como negar –, eu penso logo em máfia, já que o esporte, não mais apenas recreativo, tornou-se um instrumento de poder, através do qual é praticado um sem fim de atividades escusas, mais sujas, inclusive, do que qualquer lixão a céu aberto. Totalmente desprovido de ética, o futebol, hoje, resume-se a ser, apenas, mais um tentáculo do capitalismo, sendo, portanto, um mal a ser combatido. Mas, que luta desigual... Como combatê-lo, igual se combate os pardais, eliminando os seus efeitos nocivos, se a corrupção adentrou nas entranhas da indústria que o fomenta?

Assim, para driblar o estresse promovido pelo evento, sobretudo nos dias dos jogos do Brasil, o aconselhável é evitar locais públicos. De preferência, não sair nem de casa, valendo-se do controle remoto da televisão para mudar de canal. Agora, se for para sair, o ideal é um cinema, um museu, uma biblioteca, já que o acesso a ilhas não é fácil. É, um local tranqüilo pode ser a solução para escapar do burburinho das aglomerações, visto ser humanamente impossível isolar a euforia coletiva despertada por uma alienada e alienante Copa do Mundo – este ano, na África do Sul, de 11 de junho a 11 de julho –, a poluir o mais aprazível dos ambientes.


Nathalie Bernardo da Câmara

terça-feira, 8 de junho de 2010

140 CARACTERES E NADA MAIS!


“O mais feliz é aquele de quem o mundo fala o menos possível:
seja bem ou seja mal....”.

Thomas Jefferson (1743 - 1826)
Político norte-americano



Quando do advento do computador em minha vida, em 1994, presenciei consideráveis mudanças em meus hábitos. Daí, antes, ter relutado em abrir as portas do meu cotidiano ao invento revolucionário – eu pressentia as mudanças. Na seqüência, tomei coragem e enfrentei a internet, não resistindo aos encantos de uma desconhecida. Desde então, há mais de dez anos, sou uma usuária desse mundo sem fronteiras. Tenho, ainda, várias contas de e-mails, embora a apenas uma eu seja fiel, bem como costumo acessar o MSN para me comunicar com as pessoas e, desde janeiro de 2009, mantenho um blog, espaço onde pratico o ócio criativo, escrevendo sobre temas os mais diversos.

Há alguns meses, contudo, uma amiga jornalista demonstrou enorme espanto, quando, ao sugerir que eu aderisse ao twitter, perguntei do que se tratava, pois, até então, apesar de eu já navegar na internet e de essa ferramenta de comunicação rápida e concisa datar de 2006, nunca havia, realmente, atentado para a sua existência. Sei que parece estranho, sobretudo por eu ser da área de comunicação social, mas... O fato é que, quando pesquisei a respeito, não fiquei nem um pouco interessada no twitter, considerado, aliás, um microblog, no qual, inclusive, são permitidos, apenas, cento e quarenta caracteres – a barra de espaço também conta – por cada mensagem.

E não é devido o twitter, desde o seu début, continuar em crescente boom de acessos e de novas contas que sou obrigada a usá-lo, não vendo, portanto, motivo algum para quem quer que seja achar estranho o fato de alguém não querer recorrer a ele para a transmissão de uma informação. No meu caso, por exemplo, já me é suficientemente útil dispor da internet como fonte de pesquisa e recreação, ter os meus e-mails, acessar o MSN e manter um blog, não sentindo empatia nem a menor necessidade de também ser usuária do twitter, que, aliás, a meu ver, nada mais é que apenas mais uma ferramenta da internet, como outra qualquer. E sem maiores atrativos. Ou melhor, nenhum.

Sim, uma rede social virtual que as pessoas utilizam mediante os seus interesses, sendo, de certa forma, válida, apesar das mudanças radicais de comportamento que a ferramenta engendra. Tanto que, por sua proposta inicial, a de promover a interação através de uma idéia simples, como diz a jornalista brasileira Carla Martins, e, segundo ela, com “frases curtas, rápidas, ágeis” – daí o limite de caracteres –, o twitter tornou-se um sucesso mundial, sobretudo para empresas, artistas, políticos e formadores de opinião. Enfim! Pelo que eu entendi, é saber usufruir dos seus benefícios. E, como tudo na vida, com moderação, evitando usá-lo indiscriminadamente.

Digo isso porque tem quem divulgue no twitter a primeira coisa que lhe vem à cabeça, sem nem mesmo se preocupar com a repercussão da informação. Sem tato, tornam públicas, inclusive, as suas agendas, dando, muitas vezes, dicas para roubos, seqüestros e demais inconvenientes decorrentes da precipitação e do mau uso da ferramenta, que termina por transformar a vida do usuário em um livro aberto, destituindo-a de privacidade. Quanto a mim... Não digo que jamais vou me tornar uma usuária do twitter. Afinal, ninguém sabe do dia de amanhã. Sei apenas que, atualmente, não existe a menor das possibilidades em aderir as suas proezas. Quanto a ter seguidores, termo tão em voga...

Não sou nenhum líder religioso ou político para tê-los em meu encalce. Agora, se fizesse questão de seguidores, criaria cachorros... Ah! Em entrevista recente sobre a necessidade de sermos sintéticos no twitter, sem prolixidade, o escritor português José Saramago disse que “os tais cento e quarenta caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido”. Com essa, o camarada exagerou! Devia, por exemplo, ter falado gorjeio, canto curto dos pássaros, a tradução em português para twitte.
E, para os twitteiros que usam mal a ferramenta:



O fato de se expor,

abrindo mão da privacidade,
não é sinônimo de liberdade...



Nathalie Bernardo da Câmara

segunda-feira, 7 de junho de 2010

7 DE JUNHO:
DIA DA LIBERDADE DE IMPRENSA



“É próprio das censuras violentas
tornarem credíveis as opiniões que elas atacam...”.

Paul Valéry (1871 - 1945)
Escritor francês



Atualmente, no Brasil, apesar de certas restrições – algumas explícitas, outras veladas – ao seu exercício, a liberdade de imprensa é comemorada duplamente, ou seja, no dia 3 de maio, quando o mundo rende-lhe homenagem, e no dia 7 de junho, quando é homenageada nacionalmente. Sem falar que, ainda em junho, no dia 1°, é comemorado o Dia da Imprensa e, no dia 7 de abril, o Dia do Jornalista. As honras são tantas que, de repente, quem vê de fora pode até ter a impressão de que o povo brasileiro admira a liberdade da sua imprensa e respeita os seus jornalistas, não podendo viver sem eles...

Bom! O fato é que, durante a ditadura militar no Brasil (1964 - 1985), mais precisamente nos anos de chumbo, desencadeados pelo marechal Costa e Silva (1902 - 1969), quando, em 13 de dezembro de 1968, editou o AI-5 – instrumento jurídico que suspendeu as liberdades democráticas e os direitos constitucionais e individuais dos cidadãos brasileiros, além de fechar o Congresso Nacional e censurar a liberdade de imprensa no País –, os jornalistas foram amordaçados e a imprensa, por sua vez, silenciada, sofrendo constante monitoramento por parte do governo ditatorial, que mandava e desmandava por estas bandas.

Mas, como dizem que tudo na vida passa, eis que, após uma geração de torturas e desaparecimentos, o Brasil vê-se saindo de um pesadelo, inserindo-se... Como é mesmo que se diz? Ah! Em um regime democrático de direito, que, aliás, nunca entendi direito o que isso quer dizer. Enfim! O tempo volta a passar e, quando menos se espera, desponta 2009 – ano, aliás, ingrato para todos, já que o senador José Sarney (PMDB-AP) captalizou os holofotes para si, tipo um artista circense, em suas tentativas de manipular o público, tornando-se protagonista de um show bis horripilante, arrepiando até a nossa medula.

Nunca, inclusive, se viu – nem à época da ditadura militar – um engodo político tão escandaloso, como foi Sarney ludibriar, ou melhor, driblar a todos: poder executivo, legislativo, judiciário... Algo, diga-se de passagem, indecente. A imprensa, por sua vez, denunciou. O povo? Limitado a assistir apenas a uma única versão dos fatos, exibida pela Rede Globo de Televisão – a dubiedade em pessoa. Assim, diante de um absurdo inaceitável, fico a pensar em dona Kiola, a mãe de Sarney, que, aos oitenta anos – a idade que, hoje, ele tem – chegou a pedir ao filho político: “Não deixe de ajudar os velhinhos”...

Sarney ajudou, sim, dona Kiola. Só que apenas a um único velhinho: ele. E ajudou tanto que, além de fazer o povo brasileiro de tolo, calou a boca do jornal O Estado de São Paulo. Do alto do seu pedestal, pois se acha um intocável, Sarney valeu-se da sua influência no Judiciário e, no dia 31 de julho de 2009, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal, passando por cima de leis e ignorando a liberdade de imprensa, proibiu um dos mais importantes periódicos brasileiros de publicar reportagens sobre as falcatruas do seu filho, o empresário Fernando Sarney, que administra os negócios da família.

Falcatruas essas, aliás, investigadas pela Polícia Federal, sendo a operação batizada de Operação Factor, cujos registros, inclusive, basearam as reportagens publicadas pelo jornal em questão. Então, onde fica, mesmo, esse tal de regime democrático de direito? O curioso é que, no mês anterior, no dia 17, outro ensandecido já havia desrespeitado os jornalistas, que foi o presidente do Supremo Tribunal Federal - STF, ministro Gilmar Mendes, que decidiu pelo fim da exigência do diploma de jornalista e do devido registro no Ministério do Trabalho e Emprego - MTE para o exercício regular da profissão.

Os demais ministros – só para avivar a memória –, que votaram contra a exigência do diploma e do registro profissional, foram: Carmén Lúcia, Ricardo Lewandowsk, Eros Grau, Carlos Ayres Britto, Cezar Peluzo, Ellen Gracie e Celso de Mello. A única exceção, contudo, à votação foi o ministro Marco Aurélio Mello, que não concordou com a alegação simplista dos demais colegas de que uma série de escritores exerceu a profissão de jornalista sem diploma e que o melhor caminho para os veículos de comunicação é a auto-regulamentação. Quanta arrogância a de alguns ministros do STF...

Bom! O fato é que a Federação Nacional dos Jornalistas - FENAJ e a Coordenação da Campanha em Defesa do Diploma, bem como demais entidades, estão organizando um Dia Nacional de Luta, com manifestações públicas nos Estados da Federação, pela aprovação da Proposta de Emenda Constitucional n° 386 – mais conhecida como a PEC dos jornalistas –, que prevê o retorno da obrigatoriedade do diploma de jornalismo e do registro profissional para o exercício da profissão, marcado para o próximo dia 17, um ano depois do estupro sofrido pela categoria.

Além disso, estão previstas duas audiências públicas para, ainda em junho, debater a constitucionalidade e a juridicidade da PEC n° 386. A primeira no próximo dia 9, com a presença do ministro Marco Aurélio Mello, do STF, e do presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil - OAB, Ophir Cavalcante, e a segunda no dia 22, com a presença do presidente da Federação Nacional dos Jornalistas - FENAJ, Sérgio Murillo de Andrade, dos jornalistas Audálio Dantas, Alberto Dines e Lúcio Flávio Pinto, além da presidente da Associação Nacional dos Jornais – ANJ, Judith Brito.

Paralelamente, serão realizadas visitas à Associação Brasileira de Imprensa - ABI, favorável ao restabelecimento da exigência de habilitação em curso superior de jornalismo para o exercício da profissão, e à Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão - Abert, contrária ao diploma. O relator da PEC dos Jornalistas, deputado Hugo Leal (PSC-RJ), por sua vez, deverá concluir o seu parecer final ainda – tudo indica – este mês. Outra preocupação da FENAJ, aliás, é a violência contra jornalistas, denunciada, anualmente, no relatório Violência e Liberdade de Imprensa da instituição.

Recentemente, contudo, os sindicatos dos jornalistas do Piauí, do Rio Grande do Norte, de Pernambuco e do Paraná denunciaram agressões cometidas contra profissionais da comunicação. Daí, segundo a FENAJ, a urgência da “votação de uma nova e democrática Lei de Imprensa que substitua o texto revogado pelo STF, protegendo o princípio da liberdade de imprensa associado a salvaguardas para a profissão e assegurando direitos e garantias à cidadania”. Curiosamente, não escapam da violência nem os blogueiros. Afinal, por ferir princípios democráticos, como a liberdade, a censura é violenta.

Foram, então, censurados judicialmente, de novembro de 2009 para cá, dois blogueiros brasileiros, a economista Adriana Vandoni, do blog Prosa e Política, e o advogado Enock Cavalcanti, do Página E. Ambos censurados pelo juiz Pedro Sakamoto, da 13ª Vara Cível de Cuiabá, que cobrou dos blogueiros mais respeito com o deputado estadual José Riva (PP-MT) e exigiu que posts considerados “ofensivos” fossem retirados do ar, embora seja público e notório que o deputado, presidente da Assembléia Legislativa do Mato Grosso, tem, com todo o respeito, a ficha mais suja do que pau de galinheiro.

Afinal, são, ao todo, mais de noventa ações civis públicas por improbidade administrativa e mais de quinze ações por formação de quadrilha e peculato movidas contra o deputado estadual. Quanto fôlego! Sem falar que, mais recentemente, o Diário do Grande ABC, em São Paulo, foi censurado por liminar concedida pelo juiz Jairo Oliveira Junior, da 1ª Vara Cível de Santo André. O motivo? No dia 24 de fevereiro deste ano, o jornal publicou uma reportagem sobre o desnecessário descarte, para reciclagem, de carteiras escolares pela prefeitura de São Bernardo do Campo.

Segundo o jornalista Ricardo Noblat, o prefeito da cidade, Luiz Marinho (PT-SP), ex-ministro do MTE, “recorreu à Justiça solicitando direito de resposta ao jornal, pedindo indenização por danos morais e obrigação de não fazer, com pedido de tutela antecipada – expressão jurídica que significa impedir a publicação, neste caso, de reportagens que associem o tema ao nome do prefeito”. O jornal, por sua vez, recorreu da decisão, contando com apoio da Associação Paulista de Jornais - APJ e da Associação Nacional de Jornais - ANJ, que foram taxativas ao condenar a decisão da Justiça.

Há cinco anos, no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas - ONU, Kofi Annan, fez referência à Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada e proclamada pela instituição em 1948. Para ele, sendo o direito de investigar, receber e difundir informações e opiniões por qualquer meio de expressão consagrado pelo artigo 19° do documento, “a censura, a supressão de informação, a intimidação e a interferência constituem uma negação da democracia e são um obstáculo para o desenvolvimento e uma ameaça para a segurança de todos”. Sem mais comentários...


Nathalie Bernardo da Câmara

sábado, 5 de junho de 2010

5 DE JUNHO:
DIA DO MEIO AMBIENTE



“Só uma sociedade bem informada a respeito da riqueza,
do valor e da importância da biodiversidade é capaz de preservá-la...”.

Washington Novaes
Jornalista brasileiro



O tema do Dia Mundial do Meio do Ambiente de 2010 – Muitas espécies. Um planeta. Um futuro. – reflete o fato de este ser o Ano Internacional da Biodiversidade, ressaltando, assim, a preocupação da Organização das Nações Unidas - ONU, através de um programa para o meio ambiente, o PNUMA, com a proteção e preservação das espécies da natureza, traduzindo-se em um apelo em prol da conservação das diversas formas de vida existentes em nosso planeta.

Estabelecido em 1972, ano em que foi criado o Dia Mundial do Meio Ambiente, e com sede em Nairobi, no Quênia, o PNUMA é a principal autoridade global em meio ambiente, cabendo à agência da ONU promover a conservação do meio ambiente e o uso eficiente de recursos no contexto do desenvolvimento sustentável. Entre os seus principais objetivos:


A manutenção do estado do meio ambiente global sob contínuo monitoramento;

O alerta de povos e nações sobre problemas e ameaças ao meio ambiente;

A recomendação de medidas para aumentar a qualidade de vida da população sem comprometer os recursos e serviços ambientais das futuras gerações.


2010, portanto, sendo o Ano Internacional da Biodiversidade, eis a oportunidade para:



Expressar a importância da biodiversidade para o bem-estar das populações;

Refletir sobre as conquistas alcançadas até agora para preservar a biodiversidade;

Dobrar os esforços para reduzir o índice de perda da biodiversidade.


Para o PNUMA “O ponto focal para o Ano Internacional da Biodiversidade é o Secretariado da Convenção em Diversidade Biológica. Estabelecida na Conferência Mundial Rio 92 [Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992], a Convenção em Diversidade Biológica [Convention on Biological Diversity - CBD] é um tratado internacional para a conservação e o uso sustentável da biodiversidade e o compartilhamento igualitário dos seus múltiplos benefícios. Com 191 integrantes, a CBD tem quase uma participação universal. Esta campanha é um desafio significante e, para que seja bem sucedida, precisamos criar e promover ações vindas de todos os setores e de vários países. Portanto, precisamos trabalhar juntos!”.

E mais: “O Ano Internacional da Biodiversidade 2010 visa refletir sobre as ações já realizadas, além de celebrar os sucessos alcançados até agora. Para isso, pretendemos construir uma plataforma de conhecimento sobre o que significa a biodiversidade e sobre porque preservá-la seja tão importante. Esta plataforma fornecerá meios para que você, internauta, possa enviar sua própria mensagem. Queremos ajudar todos aqueles que trabalham na proteção da biodiversidade. Acima de tudo, queremos garantir que todos os chamados para agir sejam de fato eficientes e que todos os planos para proteger a biodiversidade após 2010 comecem com força suficiente para continuar”.

Voilà, então, a minha mensagem, a partir do tema do Dia Mundial do Meio Ambiente de 2010...


O segredo do futuro do planeta
reside nos reinos mineral, vegetal e animal.




Nathalie Bernardo da Câmara






sexta-feira, 4 de junho de 2010

JUSTIÇA SEJA FEITA!



“Poder não é só o bônus, mas também os ônus...”.

Ulisses Guimarães (desaparecido)
Político brasileiro




Após ter sido aprovado no Congresso Nacional, o Projeto de Lei Complementar 58/10, mais conhecido como Ficha limpa, que contempla a vida pregressa dos candidatos a cargos políticos eletivos, propondo critérios mais rígidos para o registro de suas candidaturas, foi sancionado hoje pelo presidente Lula sem alterações. Fruto de uma campanha de iniciativa popular, lançada em 2008, retomando a discussão sobre os casos de inelegibilidades na política nacional, o referido projeto foi proposto pela Ordem dos Advogados do Brasil - OAB, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB e demais entidades que compõem o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral - MCCE.

Curiosamente, como era de se esperar, o Ficha Limpa sofreu mudanças no Congresso Nacional e a sua versão final evidencia dúvidas quanto a sua aplicação, ou seja, se as novas regras já serão ou não válidas para as próximas eleições, que serão realizadas em outubro. Fazer o quê? Afinal, era de se esperar, já que surpresa seria se o projeto tivesse sido aprovado na íntegra, nos termos em que foi proposto. Uma das alterações, por exemplo, remarcando, contudo, a sua natureza capciosa, foi a de que, em todas as hipóteses de condenação, o tempo verbal foi modificado, passando a ser no futuro, tipo: “os que forem condenados” ou “os que renunciarem”...

O presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil - OAB, por sua vez, Ophir Cavalcante, ao comentar a sanção pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Ficha Limpa, que deve ser publicada na edição do Diário Oficial da União da próxima segunda-feira, 7, enfatizou que a nova lei já “vale para as eleições deste ano”, acrescentando que “a sanção do Ficha Limpa sem vetos demonstra que o presidente da República, tal e qual o Congresso Nacional, interpretou o sentimento de quase dois milhões de eleitores, que, por ele, disseram: basta de corrupção! Basta de usar os mandatos como instrumento da impunidade! Basta de tratar a política como um negócio privado!”.

Segundo Ophir Cavalcante: “A entrada em vigor da lei para estas eleições repete o que aconteceu com a Lei das Inelegibilidades, em 1990, que entrou em vigor no mesmo ano. Portanto, esse procedimento encontra total amparo na história constitucional do país”. Para o presidente do Tribunal Superior Eleitoral - TSE, ministro Ricardo Lewandowski: “Essa lei permite que a cidadania e o eleitor se entendam com essas questões e possam fazer a melhor escolha possível. Independentemente do prazo de vigência da lei, se ela vale daqui para frente ou se atinge situações passadas, os partidos políticos estão na obrigação moral de escolher os melhores candidatos em termos de antecedente”, afirmou.

De fato, o projeto Ficha Limpa envolveu, comoveu, sensibilizando todos que desejam que o Brasil supere a crise ética sem precedentes na qual está atolado. No dia 28 de maio, por exemplo, em reunião do Colégio de Presidentes das Seccionais da OAB, realizada em Fortaleza, no Ceará, a maioria presente ao evento já havia defendido que Lula sancionasse, com celeridade e sem vetos, o Ficha Limpa. À oportunidade, o representante baiano, Saul Quadros, que também defende a validade da lei já para as eleições de outubro, foi taxativo ao dizer: “Se o presidente Lula não sancionar essa lei, cometerá um crime de lesa-pátria à cidadania brasileira”. Não cometeu, por sorte dele.

Já o presidente da OAB do Rio Grande do Sul, Claudio Lamachia, disse que a sanção da lei representava “um avanço para a sociedade brasileira” – um avanço, aliás, que a maioria, de há muito, sonha. Inclusive eu, que, também, de há muito, já desisti até de votar. E desisti não porque sou alienada politicamente, mas porque não vislumbro quem possua os predicados necessários para ser um político honesto e cumpra com os seus compromissos perante o povo, não querendo, portanto, caso vote, ser conivente com a corrupção de ninguém. Daí apregoar a anulação do voto. Infelizmente, temos de comparecer as urnas, visto ser o gesto obrigatório...


Nathalie Bernardo da Câmara

quinta-feira, 3 de junho de 2010

2 MALES DO CÉREBRO


“As doenças do espírito são mais funestas
e mais numerosas do que as do corpo...”.

Cícero (106 - 43 a.C.)
Homem político, orador e escritor romano



No dia 5 de maio passado, postei em meu blog o texto A Bruxa e o mago: os dois lados da mesma moeda?. Iniciei-o dizendo: “Quanto mais longínquos estão no tempo determinados acontecimentos, sobretudo os que vivenciamos em tenra idade, o tempo encarrega-se de diluí-los em nossa memória. E, para isso, não precisamos ter Mal de Parkinson”. Uma leitora, contudo, através de um comentário, corrigiu-me. A bem da verdade, eu quis me referir ao Mal de Alzheimer, patologia cunhada em 1910, a partir de descobertas científicas do médico alemão Alois Alzheimer (1864 - 1915), que as iniciou em 1901, mas, por engano, terminei escrevendo Mal de Parkinson, que, aliás, foi descrita, em 1817, pelo médico inglês James Parkinson (1755 - 1824). Agradeço, portanto, a observação da leitora, cujo comentário li apenas outro dia, embora já tenha tido o cuidado de fazer a alteração necessária. No comentário, ainda, ela preocupou-se em fazer uma breve descrição dos dois males, além de me enviar o link para dois sites que tratam de aspectos relacionados a eles...



Mal de Parkinson: doença degenerativa da parte motora, que causa tremores, lentidão de movimentos, rigidez muscular e desequilíbrio no caminhar, além de alterações na fala e na escrita.

http://www.parkinson.org.br/




Mal de Alzheimer: tem como sintoma primário mais comum a perda de memória, acomete inicialmente a parte do cérebro que controla a memória, o raciocínio e a linguagem.

http://www.abraz.com.br/


Nathalie Bernardo da Câmara


quarta-feira, 2 de junho de 2010

ABRE ALAS, QUE EU QUERO PASSAR...



“Nós somos nós e as nossas circunstâncias...”.

Ortega y Gasset (1883 - 1955)
Escritor espanhol

A impressão que eu tenho é a de que nunca se falou tanto em assepsia como de uns tempos para cá. O exagero é tamanho, daqueles que a propagam, que, se brincar, está beirando à neurose. Afinal, é assepsia não somente de pessoas e de ambientes, mas, também, ética e moral, social, política, fiscal e, uma das mais curiosas, assepsia de emoções. Parece até que as bactérias metamorfosearam-se. É como se, de micro-organismos unicelulares, com membrana e citoplasma, sem núcleo definido e DNA disperso, esses microscópicos seres tivessem adquirido novas formas, constituições e características, embora, obviamente, costuma-se muito falar em metáfora. Que o seja!

O fato é que muitos têm pensado e sonhado tanto em assepsia, bem como praticado-a de maneira compulsiva, que findam por ficar obcecados. É assepsia para lá, assepsia para cá... Só que, pelo andar da carruagem, ou melhor, da vassoura, do sabão e da água, aqueles com mania de assepsia é que vão terminar precisando de uma: mental. Eu, particularmente, acho as bactérias extremamente necessárias. Além do mais, no mundo, há espaço para todo e qualquer organismo vivo. Sem paranóia! Caso contrário, ou seja, se as pessoas ficarem o tempo todo preocupadas em eliminar as bactérias, evitando entrar em contato com elas, que não são poucas, nem viver vão mais.

Falando nisso, a enxurrada de propagadas na televisão, por exemplo, de produtos de limpeza de ambientes, bucal, congêneres etc faz-me até sentir dó das bactérias, as quais, inclusive, são atribuídas diversas doenças adquiridas pelo ser humano. Uma propaganda, inclusive, pela repetição da sua exibição, divulgando um sabonete, líquido e em barra, chega a ser enervante. Acho, aliás, que, se o tal produto não alcançar o seu objetivo, que é o de minimizar a proliferação das bactérias e a contaminação humana por elas, no mínimo provocará um Transtorno Obsessivo Compulsivo - TOC – tão em voga – nos consumidores e, de repente, também, nos telespectadores.

Ocorre que as bactérias estão por toda parte: no ar, na água, no solo, nos objetos, em nossos corpos e em outros seres vivos, embora nem todas sejam nocivas. E, independentemente da sua natureza, se benéfica ou não, elas encontram no ser humano não somente um excelente anfitrião, mas, igualmente, um meio de transporte, no qual, quando querem, pegam carona para, rapidamente, interagirem com outros organismos, reproduzindo-se. Descobertas pelo naturalista holandês Leeuwenhoek (1632 - 1723), em 1683, as bactérias foram estudadas pelo químico e biologista francês Louis Pasteur (1822 - 1895), que, em 1865, descobriu como elas se multiplicam e causam doenças.

Outro que, ainda, estudou as bactérias foi o médico e microbiologista alemão Robert Koch (1843 - 1910), Prêmio Nobel de 1905, que as coloriu e as manteve vivas em uma espécie de geléia que ele próprio inventou para análises mais aprofundadas do seu organismo. Daí que, diante de todas as suas características, o melhor mesmo é ter as bactérias como amigas, ao nosso lado, dentro de nós, proporcionando-nos, no mínimo, anticorpos. Isso mesmo! E, com mais uma pitada de ironia, fica a sugestão: @dote uma bactéria – quiçá, a única cultura que um ser humano possui. Enfim! Parafraseando o filósofo e economista alemão Karl Marx (1818 - 1883)...

Bactérias de todo o mundo: uni-vos!

Nathalie Bernardo da Câmara