sexta-feira, 23 de julho de 2010

LOMBADA NELES!



“O erro é a regra: a verdade é o acidente do erro...”.

Georges Duhamel (1884 - 1966)
Escritor francês


Confesso que não vi, porque o círculo de gente que estava ao redor não o permitiu, mas que alguém ou um corpo estava estendido no chão, como diz a canção, em pleno asfalto, entre uma faixa e outra, estava. Não tinha foto de gol, reza ou praga, nem, muito menos, um silêncio servindo de amém. Não tinha bar por perto, por isso não podia lotar. Não sei se o alguém ou o corpo era malandro ou trabalhador. Não houve discurso nem camelô vendeu coisa alguma. Tinha de um tudo, menos baiana para fazer pastel e um bom churrasco de gato. Não eram quatro horas da manhã nem nenhum santo baixou no porta-bandeira e ninguém tinha pressa de sair de perto para pensar em mulher ou time. Olhei de longe e atravessei a rua, deixando alguém ou um corpo para trás, estendido no chão. Fui embora...

Lembrei do fato descrito acima, que ocorreu, aliás, em junho de 2009, após a leitura do artigo A Punição sem educação, do ex-reitor da Universidade Estadual de Londrina, professor Wilmar Marçal, postado outro dia neste blog. Assim, como, à época, eu cheguei a fazer algumas anotações sobre o ocorrido, peguei a deixa do artigo do ex-reitor e busquei as tais informações em meus arquivos a fim de revê-las. O acidente, portanto, mencionado no primeiro parágrafo, tem sido, apenas, mais um de uma série incontável, de toda ordem, na rua Jaguarari, uma das principais vias de escoamento da cidade de Natal, que, por diversos motivos, não dá mais vazão à demanda de veículos que por ela trafega diariamente. O que é pior: os motoristas parecem incorporados pelo espírito de Airton Senna (1960 - 1994) ou o de algum kamikaze qualquer.




Sem falar nos que dirigem alcoolizados e nos que, por natureza ou circunstancialmente, desenvolvem instintos assassinos ou suicidas. E isso todos os dias. São colisões, atropelamentos etc. O trecho, por exemplo, onde alguém ou um corpo estava estendido no chão, é um dos mais perigosos da via, sobretudo se o motorista incauto vem das bandas do bairro de Candelária. Pensando que está em um autódromo, ele sai em disparada e, se pegar todos os sinais abertos, melhor ainda, devendo quem quiser escapar ileso, ficar longe do caminho do infeliz. É, infelizmente, as ocorrências não são poucas... A solução? Lombadas de betume, areia e brita. O velho quebra-molas, sim, embora muitos o tenham como ultrapassado. Não, os quebra-molas não estão ultrapassados. Ao contrário!



As lombadas talvez sejam a única solução para coibir certos abusos. Sim, porque, se mesmo colocando lombadas eletrônicas ou pardais, infrações são cometidas e a cobrança da multa chega, mas, logo, muitos dos infratores ou tentam subornar um funcionário do Departamento de Trânsito - Detran, para que ele libere-os da punição, ou liga para um amigo político, no caso de terem algum, e o dito cujo, por sua vez, por amizade ou já tendo em vista as eleições seguintes, também basta recorrer ao telefone para, não importa como, liquidar a dívida que lhe foi notificada, dando um jeitinho. E essa prática corrupta de há muito se tornou lugar-comum, não fazendo diferença alguma o lugar do Brasil onde ela ocorra. Em Brasília, por exemplo, solo capital, nem se fala! Com as suas vias largas, é um deus nos acuda.


Daí insistir nos considerados ultrapassados quebra-molas. E digo isso porque, eu mesma, já fui, e por diversas vezes, atemorizada por veículos conduzidos por insanos, que, por pouco, não me atropelaram. E isso é sério! Tanto que, dias após o acidente mencionado no início deste post, eu estava com um amigo quando encontrei três policiais em um posto de gasolina das redondezas onde o fato aconteceu. O meu amigo, indignado, comentou com os policiais sobre a balbúrdia do trânsito e pediu providências, reivindicando quebra-molas entre um sinal e outro da rua Jaguarari, coibindo, assim, que os motoristas acelerassem mais do que o permitido entre um e outro. Um dos policiais, contudo, no auge da estupidez, foi enfático ao dizer que era contra quebra-molas porque eles danificavam o seu carro.


Sei não, mas, quando me deparo com posturas como essa, fico a pensar nos critérios exigidos para que uma pessoa seja capaz e esteja apta para assumir não importa qual cargo ou função. No caso, a capacidade e a aptidão para vestir uma farda, representando uma força policial que, por sua vez, representa o terceiro poder, que, muitas vezes, indiscutivelmente, abriga uma moral extremamente duvidosa, sem preparo algum, já que, às vezes, nem cumpre devidamente as suas obrigações, que são as de proteger o cidadão. Certas vezes, é até conivente com os abusos e as infrações cometidas por gente sem a menor condição nem de tirar uma carteira de motorista, analfabeta no trânsito que é. Daí reivindicar: quebra-molas, sim! E mais ética para certos policiais que não fazem jus à função que exercem...





IMUNIDADE = IMPUNIDADE?


“Nós queremos a verdade para o nosso povo!”.

Cristiane Yared, mãe de Gilmar Yared, 26, um dos jovens mortos no acidente provocado pelo então deputado estadual Fernando Ribas Carli Filho (PSB/PR) (foto).


Na madrugada do dia 7 de maio de 2009, o carro dirigido pelo ex-deputado estadual Fernando Ribas Carli Filho (PSB/PR), 27, chocou-se violentamente com outro veículo, cujos ocupantes, Gilmar Rafael Souza Yared, 26, e Carlos Murilo de Almeida, 20, morreram no local do acidente, ocorrido em Curitiba. O mais assombroso, contudo, é que, no momento do acidente, além de completamente alcoolizado – foi acusado um nível de 7,8 decigramas de álcool por litro de sangue no momento do acidente, quatro vezes mais que o limite tolerado de 0,2, sendo que 6 decigramas de álcool já caracterizam crime –, Carli Filho dirigia a 191,52 km por hora.


O carro do deputado Carli Filho deixou o então deputado sem saída…


Detalhe: a carteira de habilitação de Carli estava suspensa. E exatamente porque contabilizava mais de trinta multas, sendo a maioria por excesso de velocidade, ou seja, ao todo, mais de 130 pontos na carteira de habilitação por uma série de infrações de trânsito. Não é preciso lembrar que o repúdio ao ex-deputado foi unânime.


E a família de Gilmar Yared fez adesivos.


Na iminência, portanto, de ter o seu mandato cassado por quebra de decoro parlamentar por dirigir com a carteira de motorista suspensa, Carli Filho renunciou ao cargo no dia 29 do mesmo mês, perdendo o foro privilegiado. Aberto, então, um inquérito para investigar as responsabilidades no acidente, ele foi indiciado por homicídio com dolo eventual, tendo de responder pela morte dos dois jovens na Justiça Comum. Falando nisso, a quantas anda o processo?

Segundo pude averiguar, tudo indica que o ex-deputado, atualmente sem partido, será interrogado pela juíza da Segunda Vara do Tribunal do Júri de Curitiba, Flávia da Costa Viana, no dia 10 de agosto, a partir das 13h30min. Que a Justiça brasileira, então, cumpra, agora, com o seu papel, embora digam que ela é cega. Eu, particularmente, acho que, além de cega, a Justiça é igualmente surda, muda, sem falar que não tem faro nem tato. E ainda mete o bastão!




LUZ NO FIM DO TÚNEL?



“O Brasil tem o quinto maior número de mortes no trânsito no mundo...”.

Organização Mundial da Saúde - OMS


Há dez anos, no Rio de Janeiro, a prática do skate em túneis interditados para manutenção virou um hábito. Os túneis mais procurados pelos amantes do esporte, por sua leve ondulação, que facilita manobras radicais, são o Rebouças, o Zuzu Angel e o Acústico, na Zona Sul da cidade. Na madrugada da última terça-feira, 20, no Túnel Acústico, na pista sentido Gávea, que estava interditado, em função de uma manutenção de rotina no Túnel Zuzu Angel, o músico Rafael Mascarenhas, 18, filho da atriz e apresentadora brasileira Cissa Guimarães, 53, estava skateando com mais dois amigos quando foram surpreendidos pela presença de dois carros que invadiram a pista fechada após uma manobra proibida que lhes deu acesso a uma passagem de emergência no Túnel Zuzu Angel.

Um dos carros, cujo motorista era o estudante Rafael de Souza Bussamra, 25, atropelou o músico Rafael Mascarenhas, que foi encaminhado, ainda com vida, ao Hospital Miguel Couto. Com politraumatismo, o músico foi operado, mas, não resistindo aos ferimentos, faleceu às 8h da manhã. A polícia investiga se os dois carros estavam fazendo um pega. Assim, apesar de ser investigado por homicídio culposo (sem intenção), Bussamra foi intimado a depor e, logo em seguida, liberado. Porém, se comprovado que cometeu uma série de infrações que caracterizem falta de cautela, ele será indiciado por homicídio doloso (com intenção). A delegada Bárbara Lomba Bueno, por sua vez, responsável pela investigação, averigua, igualmente, a passividade dos policiais militares filmados abordando um dos carros logo após o acidente.

Já afastados das ruas, os policiais que, tudo indica, foram comunicados do atropelamento, não interceptaram os carros nem conduziram o motorista incauto à delegacia, que, apesar de já ter prestado depoimento, responderá ao processo em liberdade, contrariando a opinião pública. Só que, logo após a notícia acima, veiculada a 3x4 na imprensa brasileira, sai, em um telejornal, outra igualmente violenta. Ou melhor, bárbara, que é a do assassinato de Eliza Samudio, ex-amante de Bruno, goleiro do Flamengo. O infeliz, responsável pela morte de Eliza, ainda tem o desplante de dizer que irá processar o Estado “por tudo o que fizeram com ele”. Sei não, mas tem gente que perde a sanidade e quer continuar sendo tratada como alguém dentro dos ditos padrões de normalidade. Júri popular para ele!

Diante de informações tão surpreendentes, lembrei de um caso que, em maio do ano passado, aconteceu em São Gonçalo do Amarante, na Grande Natal, no Rio Grande do Norte, e que não se limitou as páginas da mídia local. Ao contrário! Ganhou repercussão nacional. Quiçá, até internacional! Preparemos o estômago?





O CRIME DE SÃO GONÇALO



"onde acaba o amor tem início o poder, a violência e o terror...".

Jung (1875 - 1961)
Psiquiatra suisso

Não, não é o que o caro leitor está pensando. Ou seja, o São Gonçalo ao qual me refiro não é o filho da Idade Média, que nasceu em Portugal, em 1187, e se tornou padre, além de ser um exímio tocador de viola, sendo, portanto, protetor dos violeiros – têm muitos que não saem de casa sem, antes, levar um dedinho de prosa com o santo. No entanto, após o seu falecimento – há dúvidas quanto ao ano, se 1259 ou 1262 –, tiveram início diversas peregrinações à Amarante, cidade onde, durante anos, viveu como eremita, construiu uma ponte e uma capela...

O fato é que eu estou me referindo a São Gonçalo do Amarante, na Grande Natal, onde é registrado um assassinato por dia. No caso, falo de um crime hediondo, que chocou pela brutalidade do agressor. Foragido da penitenciária de Rondônia por atentado ao pudor, bem como condenado pelo mesmo tipo de crime em Macapá, além de ser procurado pelas autoridades judiciais dos Estados de Pernambuco, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Goiás e Paraná, o vendedor ambulante Osvaldo Pereira de Aguiar, 55, natural do Maranhão, foi acusado de matar a adolescente Maisla Mariana dos Santos, que, ano passado, tinha, apenas, onze anos de idade.

Estuprada, Maisla teve o seu corpo apunhalado por mais de trinta golpes de uma arma branca qualquer – provavelmente uma faca –, no tórax e na cabeça, e, em seguida, esquartejado em onze partes. Segundo o depoimento dos legistas à imprensa, o assassino, estuprador e pedófilo – sabem-se lá mais o quê – “cortou a cabeça, os ombros e dividiu os braços em duas partes, na altura dos cotovelos. Já o tórax foi cortado na altura do umbigo, sendo divido em duas partes, das costelas para cima e até a metade do fêmur. Além disso, o homicida também dividiu as pernas em duas partes, cortando um pouco abaixo dos joelhos”.

Depois, segundo a polícia, o criminoso teria separado as partes do corpo em três sacos e os despejou em dois terrenos baldios próximos ao local onde a menina desapareceu, em Igapó. Com a prisão do suspeito, a polícia trabalhou para desvendar as circunstâncias do assassinato de Maisla. Em acareação realizada com os seus únicos dois amigos, Osvaldo ficou estupefato quando eles confirmaram que o suspeito sempre teve um comportamento de pedófilo. Obviamente que Osvaldo negou, mas o fato é que, a cada laudo, a certeza de que ele estuprou, esfaqueou e depois esquartejou a pequena Maisla ficou mais evidenciada.

O detalhe, contudo, das declarações, é que elas foram feitas não apenas por amigos, mas por duas pessoas da Igreja adventista do sétimo dia, congregação religiosa da qual o suspeito já fez parte, mas da qual foi expulso há alguns anos pelo pastor por conduta imprópria para um religioso e que, curiosamente, também era a Igreja que Maisla freqüentava. Enfim! Osvaldo foi abordado por policiais do Núcleo de Inteligência da Polícia no dia 14 e encaminhado ao Instituto Técnico-Científico de Polícia - ITEP, onde fez exames de corpo de delito e uma coleta de amostras de sangue.

Detido, o infeliz ficou a aguardar a prova que poderia ou não incriminá-lo. À época, o secretário estadual de Segurança e Defesa Social, Agripino Oliveira Neto, disse que, por ele, o suspeito teria sido considerado culpado e condenado, sobretudo por seus antecedentes criminais. Desde então, Osvaldo encontra-se sob a custódia do Estado e deve ser protegido. Agora, segundo matéria publicada pelo jornal Tribuna do Norte, no dia 11 de março deste ano...

 

Laudos incriminam Osvaldo Pereira


 

Segredos de uma investigação guardados a “sete chaves” foram revelados. Laudos e provas incontestes podem ajudar o Tribunal do Júri a decidir o destino do vendedor ambulante Osvaldo Pereira de Aguiar, 55, principal suspeito de ter matado e esquartejado a estudante Maisla Mariano dos Santos, no dia 12 de maio de 2009, em Igapó.

No inquérito policial de nº 033/2009 e no processo de nº 002.09.001.434-2 é possível encontrar provas captadas pela perícia técnica do Instituto Técnico Cientifico de Polícia (Itep) e por policiais civis que estiveram no suposto local do crime.

Maisla, assim que foi raptada teria sido atingida por um soco no rosto que pode ter colaborado para a menor ter sido levada desacordada até a casa onde foi morta (hipótese levantada por fontes da Tribuna do Norte), porém, consta, nos autos um laudo que revela: Exame realizado na cavidade oral, perda de vários elementos dentários (dentes) e laceração (corte) do tecido gengival. O que comprovaria que a vítima teve o maxilar quebrado.

Na casa do suspeito foi aplicado o luminol (substância que promove reação química diante de vestígios de sangue). O processo mostrou claramente que foram encontrados vestígios na sala de visita, no piso da sala para a cozinha, nos armários da cozinha (onde ficavam os talheres), no piso entre o quarto e o banheiro, na cama, no colchão, na parede do banheiro. Também foram encontradas substâncias compatíveis com sangue no colchão de Osvaldo e no veículo do acusado.

A delegada Adriana Shirley que presidiu o inquérito policial que apurou a morte da estudante disse que no corpo da Maisla havia inúmeras lesões com características de que a menina foi barbaramente torturada antes de morrer. “A tortura durou entre duas a três horas”.

Em uma das partes do laudo do exame necroscópico consta que: a vítima sofreu sevícias (tortura) antes do óbito. Sobre o provável estupro, um outro exame realizado na vítima aponta que havia uma equimose na região vaginal indicativa de agressão de natureza sexual. “Embora o hímen estivesse íntegro (não foi dilacerado), Osvaldo responde na justiça por atentado violento ao pudor”, explicou a delegada.

Adriana Shirley informou que não tem dúvidas que Maisla foi assassinada dentro da casa de Osvaldo e que a menina, possivelmente, foi esquartejada no banheiro.

No colchão periciado foram encontradas perfurações realizadas por um objeto perfurocortante. “Este foi um caso muito complexo. Não havia no RN registro de violência deste tipo”

Fontes da Tribuna do Norte que trabalharam no caso afirmaram que existem inúmeros indícios dentro dos autos de que o homem que matou Maisla não agiu sozinho. Situações ainda não reveladas apontariam para a participação de uma segunda pessoa no crime.



Memória



Dia 12 de maio de 2009, Maisla sai de casa, no Jardim Lola, em São Gonçalo do Amarante e segue em uma bicicleta de cor rosa até o trabalho do pai, no bairro de Igapó, na zona Norte para entregar o almoço. O trajeto era feito pela menor todos os dias. Por volta das 13h30, a garota desapareceu. No dia seguinte partes do corpo da estudante foram encontrados em um terreno baldio, no Igapó. No outro dia, outras partes do corpo de Maisla foram localizados em um terreno baldio. Osvaldo foi apontado pela família da menor com sendo o principal suspeito do crime.




Onde este mundo vai parar? E lembro do que disse a minha madrinha, a médica brasileira Laly Meignan, quando, um dia, ao visitá-la no hospital psiquiátrico Sainte-Anne, em Paris, onde ela trabalha há décadas... Após almoçarmos, fomos caminhar nos jardins do hospital e percebi que os seus portões estavam abertos, com os internos, diagnosticados com algum tipo de doença mental, indo e vindo por eles. Questionei o motivo para tal liberalidade, digamos assim. Laly disse que a política do hospital era essa. Ou seja, os ditos doentes mentais saiam a hora que quisessem do hospital, pois sabiam que, ao retornar, tinham cama e comida. Disse, ainda, que o pior eram os loucos que estavam na sociedade, livres, que cometiam e continuam cometendo horrores e que ninguém podia nem continua podendo fazer nada contra eles. Resumindo: a nossa sociedade é o próprio hospício... Pior: reconhecido por lei.



Nathalie Bernardo da Câmara

terça-feira, 20 de julho de 2010

A PUNIÇÃO PELO BOLSO


“Eduquem os meninos e não será preciso castigar os homens...”.

Pitágoras (650 - 570 a. C.)
Um dos sete sábios da Grécia




Recebo esta manhã um release do artigo A Punição sem educação, escrito pelo ex-reitor da Universidade Estadual de Londrina – UEL, o professor Wilmar Marçal, sugerindo leitura e eventual publicação. Fiz, então, a leitura e, agora, cedo este espaço para divulgar o referido artigo, questionando, tal qual o seu autor, para onde vai e a quem beneficia a punição, não importa se devida ou indevida, pelo bolso do cidadão...

Nathalie Bernardo da Câmara




A Punição sem educação

Por Wilmar Marçal*


Em outras épocas, quando educar era construir cidadania, a falha, o erro e as atitudes erradas, especialmente numa criança, eram corrigidas com a punição da palmada. O tempo passou, a população aumentou e os costumes mudaram. E como mudaram! Porém, cada pai e cada mãe sabem muito bem educar seus filhos. O estado não precisa interferir, exceto em situações onde as crianças correm riscos. Mas isso são outros quinhentos, como diziam nossos queridos antepassados.


O foco atualmente é debater outra situação, muito comum nas cidades hoje em dia, sobretudo nas grandes cidades, como é, por exemplo, o caso de Curitiba e região metropolitana. É preciso discutir e encontrar melhores soluções para uma situação muitas vezes injusta: a indústria das multas de transito. O que se percebe nos dias atuais é uma voraz intenção premeditada de punir, punir e punir. Porém punir com a força da arrecadação. Há centenas de radares na capital paranaense com o propósito evidente de arrecadar. Isso mesmo: arrecadar. Nada de educativo. Os “entendidos” em sistema viário só enxergam os ponteiros das cifras. Não são capazes de aceitar que há situações de risco, onde muitas vezes se acelera para fugir de perigos e assaltos. Não propagam campanhas educativas em localidades vulneráveis. Não divulgam ações que possam envolver as comunidades em mutirões de aprendizado. Só querem as faturas pagas e o dinheiro em caixa. Os “especialistas” do transito, muitas vezes com canetas pesadas, mas nenhuma experiência técnica, só elaboram as planilhas das previsões de arrecadação. Nada de prevenção. Esquecem ou fingem que não sabem que a cidade cresceu, o número de veículos muito mais ainda e que a geometria das ruas e avenidas são as mesmas. É um fluxo exagerado em locais estáticos. Não há milagres. Faltam consciência e paciência de nossos gestores. Acham que punir com multas vai melhorar a educação no transito. Ora, ledo engano. O próprio nome já diz: educação significa educar com ação. Enquanto tivermos as intenções obscuras das vultosas quantias nos cofres, originadas pelas incontáveis multas, sobretudo em épocas de eleições, não teremos sucesso em melhorias. Se ainda persistir essa demanda maldita de recolher, vamos reagir e também formar um mutirão do esclarecimento. Vamos recolher também. Recolher informações tais como: para onde vai todo esse dinheiro originado das multas? É bem possível que uma auditoria séria nas arrecadações e circunstancias que as mesmas são elaboradas possam responder a essa e tantas outras perguntas e dúvidas. A população deve se unir sim, cobrar dos representantes o destino dessa sangrenta e contundente mania de punir pelo bolso. Educação e bom-senso são fundamentais e nós gostamos. Honestidade com o dinheiro público, mais ainda.

*Wilmar Marçal é professor universitário e ex-reitor da Universidade Estadual de Londrina - UEL.

wilmar_pr2010@hotmail.com


domingo, 18 de julho de 2010

O DIA DE MANDELA


“Exemplo vivo dos principais valores das Nações Unidas e um cidadão global exemplar...”.

Ban Ki-moon
Secretário-geral da Organização das Nações Unidas - ONU


Instituído em novembro de 2009 pela Assembléia Geral da ONU, o Dia Internacional de Nelson Mandela é assinalado hoje, domingo, 18 de julho, dia do aniversário do advogado e líder pacifista sul-africano, que completa noventa e dois anos de idade, em todo o mundo. É a primeira vez que a ONU dá a uma pessoa esse tipo de reconhecimento, que, no caso de Mandela, Prêmio Nobel da Paz de 1993, deu-se, ainda segundo a Assembléia Geral da ONU, por sua dedicação “a serviço da humanidade na resolução de conflitos, nas relações entre etnias, na promoção e proteção dos direitos humanos, na igualdade entre os sexos e nos direitos das crianças e de outros grupos vulneráveis”, além da sua luta contra o regime de apartheid na África do Sul, que, tendo sido iniciado em 1948, encontrou a sua derrocada em 1994.

A iniciativa visa, assim, a promoção dos valores da cultura, do pacifismo e da liberdade. Neste dia, portanto de festa, a ONU estará em diversos países, organizando debates sobre a figura de Mandela e exibindo o filme Invictus, dirigido pelo norte-americano Clint Eastwood, que mostra como, em 1995, o então presidente da África do Sul (1994 - 1999), interpretado pelo ator norte-americano Morgan Freeman, usou o time sul-africano Rúgbi em seu processo de unificação nacional. O título do filme, por sua vez, foi inspirado no poema homônimo do escritor britânico William Ernest Henley, que o escreveu em 1875, cuja leitura tornou-se a única companhia de Mandela em seus vinte e sete anos de cárcere em Robben Island. Parabéns, Madiba! E como diz um dos versos do poema: dono e senhor do seu destino...

Nathalie Bernardo da Câmara

sábado, 17 de julho de 2010

O PROTETOR DAS FLORESTAS



“Em todas as lendas temos uma mensagem positiva, educativa: ou de como se portar em grupo ou da importância da proteção as florestas...”.

Tonico Nascimento
Blogueiro brasileiro


“(...) Um dia, no meio do mato, dei de repente com o Curupira. Era ele mais feio que o índio mais pavoroso de todas as tabas de Pindorama. Tinha cabelos cor de fogo das fogueiras de guerra. Trazia na mão um maracá, que sacudia como um desesperado, deixando a gente zonza e surda. Olhei para os pés da aparição. Eram torcidos, voltados para trás. Não havia dúvida. Era mesmo Curupira. Aprontei arco e flecha e disparei o tiro. Pobre de mim! A flecha caiu a dois passos de meus pés, mole e sem força. Curupira matraqueava, matraqueava como um louco. Seus cabelos chispavam. Seu corpo era uma piorra. Seus olhos, dois vaga-lumes de brilho verde. Fiquei tão assustado que saí a correr e a gritar. Cheguei sem fala à taba...”.

A passagem acima é do livro As Aventuras de Tibicuera que são também as do Brasil, do escritor brasileiro Érico Veríssimo (1905 - 1975), publicado pela primeira vez em 1937, na qual o autor descreve essa figura do folclore brasileiro, que é o Curupira, considerado o protetor das florestas, cujo dia é comemorado nacionalmente hoje, 17 de julho, embora a data também seja chamada de Dia de Proteção as Florestas. É função, portanto, do Curupira espantar, com sons e assovios agudos, os predadores das florestas, protegendo, assim, as suas matas e habitantes, sendo os seus pés tortos um recurso que ele utiliza para obter sucesso em sua missão. Sim, os pés do Curupira, apesar de virados para trás, são ágeis e velozes.

Assim, o Curupira, que significa menino travesso, deixa falsos rastros para confundir caçadores e lenhadores, cujas técnicas para fazer presas animais e pôr árvores abaixo estão, hoje, cada vez mais sofisticadas. Esperto que só ele, o Curupira, costuma, ainda, pregar peças em muitos que adentram nas florestas, além de recorrer a encantamentos só para se divertir. O encantado, por sua vez, tece um novelo a partir de um cipó, escondendo, contudo, a ponta, e o joga ao Curupira, que fica a se entreter com o brinquedo, esquecendo, desse modo, a sua vítima, que consegue escapar, saindo da floresta. Essa personagem mítica e lúdica também aprecia descansar à sombra das mangueiras e brincar com os animais, seus amigos.

Segundo estudiosos, a lenda do Curupira e de demais personagens folclóricas existe desde o período da colonização do Brasil, tendo o jesuíta José de Anchieta (1534 - 1597), inclusive, escrito ao rei de Portugal, narrando, assustado, os relatos que ouvia a respeito. Infelizmente, tudo não passa, como o nome já diz, de lenda. Afinal, em tempos de aquecimento global, até que não seria má idéia que o Curupira existisse de verdade. E não apenas um, mas toda uma legião dessas criaturinhas fantásticas, espalhadas não somente nas florestas, mas, também, em parques urbanos, nas reservas ecológicas brasileiras e em todos os lugares onde houver verde, produzindo o oxigênio tão necessário para a nossa sobrevivência e a do planeta.

Nathalie Bernardo da Câmara

quarta-feira, 14 de julho de 2010

LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE


La Liberté guidant le peuple (1830) – Delacroix (1798 - 1863) – Louvre, Paris

« Nenhum homem recebeu da natureza o direito de comandar outros... ».

Dennis Diderot (1713 - 1784)
Escritor e filósofo francês

Quando o escritor e filósofo francês Jean-Jacques Rosseau (1712 - 1778) deu à luz a famosa frase que intitula este post não deve ter imaginado que ela se tornaria o lema da Revolução Francesa, um conjunto de movimentos cujo début teve início com a reunião dos Estados gerais, em Versailles, no dia 5 de maio de 1789, e a tomada da Bastilha, em Paris, no dia 14 de julho do mesmo ano, até o golpe de Estado do 18 Brumário, no dia 10 de novembro de 1799, que sacudiu para valer a França, pondo fim ao chamado Antigo Regime, calcado na autoridade da nobreza e na do clero, legando à História da França e a da humanidade um dos seus mais importantes acontecimentos. Influenciada pelo Iluminismo e pela Independência Americana, ocorrida em 1776, a Revolução Francesa é considerada o evento histórico que deu início à Idade Contemporânea. Inspirada, portanto, nos princípios universais ditados por Rosseau, foi elaborada a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que estabeleceu uma gama de direitos naturais individuais e coletivos, adotados, definitivamente, no dia 26 de agosto de 1789. Et vive la France !


Nathalie Bernardo da Câmara

terça-feira, 13 de julho de 2010

DECLARAÇÃO DE VOTO



"Depois de tantas esperanças, não imaginávamos que escândalos de corrupção tomassem o governo Lula, que representava uma luz nova para um mundo cada vez mais mergulhado em interesses mesquinhos. Ele não poderia ter admitido a corrupção, e não consegue mais combatê-la."

José Saramago (1922 - 2010)

Escritor português


Por Frei Betto, escritor brasileiro

Voto este ano, para presidente da República, no candidato decidido a implementar reformas estruturais tão prometidas e jamais efetivadas: agrária, tributária, política, judiciária. E que a previdenciária e a trabalhista não sejam um engodo para penalizar ainda mais os trabalhadores e aposentados e beneficiar grandes empresas.

Voto em quem se dispõe a revolucionar a saúde e a educação. É uma vergonha o sucateamento do SUS e do ensino público. De 190 milhões de brasileiros, apenas 30 milhões se agarram esperançosamente na boia de salvação dos planos privados de saúde. Os demais são tratados como cidadãos de segunda classe, abnegados penitentes de filas hospitalares, obrigados a adquirir remédios onerados por uma carga tributária de 39% em média.

Segundo o MEC, há 4,1 milhões de brasileiros, entre 4 e 17 anos de idade, fora da escola. Portanto, virtualmente dentro do crime. Nossos professores são mal remunerados, a inclusão digital dos alunos é um penoso caminho a ser percorrido, o turno curricular de 4 horas diárias é o verniz que encobre a nação de semianalfabetos.

Voto no candidato disposto ao controle rigoroso de emissão de gás carbônico das indústrias, dos pastos e das áreas de preservação ambiental, como a Amazônia. Não se pode permitir que o agronegócio derrube a floresta, contamine os rios e utilize mão de obra desprotegida da legislação trabalhista ou em regime de escravidão.

Voto em quem se comprometer a superar o caráter compensatório do Bolsa Família e resgatar o emancipatório do Fome Zero, abrindo a porta de saída para as famílias que sobrevivem à custa do governo, de modo que possam gerar a própria renda.

Voto no candidato disposto a mudar a atual política econômica que, em 2008, canalizou R$ 282 bilhões para amortizar dívidas interna e externa e apenas R$ 44,5 bilhões para a saúde. Em termos percentuais, foram 30% do orçamento destinados ao mercado financeiro e apenas 5% para a saúde, 3% à educação, 12% a toda a área social.

Voto no candidato contrário à autonomia do Banco Central, pois a economia não é uma instância divorciada da política e do social. Voto pela redução dos juros, a desoneração da cesta básica e dos medicamentos, o aumento real do salário mínimo, a redução da jornada semanal de trabalho para 40 horas.

Voto na legalização e preservação das áreas indígenas, de quilombolas e ribeirinhos, no diálogo permanente com os movimentos sociais e repúdio a qualquer tentativa de criminalizá-los, nas iniciativas de economia solidária e comércio justo, na definição constitucional do limite máximo de propriedade rural.

Voto no candidato convicto de que urge reduzir as tarifas de energia destinada ao consumo familiar e de uso de telefonia móvel. Disposto a valorizar fontes alternativas de energia, como a solar, a eólica, a dos mares e lixões etc. E que seja contrário à construção de termoelétricas e hidrelétricas nocivas ao meio ambiente.

Voto no candidato que priorize o transporte coletivo de qualidade, com preços acessíveis subsidiados; exija a identificação visível dos alimentos transgênicos oferecidos ao consumidor; impeça a participação e uso de crianças em peças publicitárias; e condene veementemente o trabalho infantil.

Voto no candidato decidido a instalar a Comissão da Verdade, de modo a abrir os arquivos das Forças Armadas concernentes ao período ditatorial e apurar os crimes cometidos em nome do Estado, bem como o paradeiro dos desaparecidos.

Voto em quem dê continuidade à atual política externa, de fortalecimento da soberania e independência do Brasil, diversificação de suas relações comerciais, apoio a todas as formas de integração latino-americana e caribenha sem a presença dos EUA; direito de o nosso país ter assento no Conselho de Segurança da ONU; de repúdio ao criminoso bloqueio dos EUA a Cuba e à instalação de bases militares estadunidenses na América Latina.

Voto, sobretudo, em quem apresentar um programa convincente de redução significativa da maior chaga do Brasil: a desigualdade social.

Este, o meu voto.

Resta achar o candidato.


Obs: O texto transcrito acima foi publicado no blog de Frei Betto no dia 5 de maio de 2010. Pelo seu teor, o escritor continua um idealista. Eu, particularmente, não tenho mais certas ilusões. A ilustração do post, portanto, bem como a epígrafe, são idéias minhas, pois sei que o candidato ideal não existe, concedendo-me, assim, o direito de me abster, sem que isso implique em alienação política. Pelo contrário! Afinal, eu só não quero vir a ser conivente com os erros de outrem...


Nathalie Bernardo da Câmara

sábado, 10 de julho de 2010

NATAL, A CIDADE


“Tu és um berço de poesia...”.

Sueldo Varela
Poeta brasileiro



Ainda revirando o baú, encontrei o poema que segue abaixo. Infelizmente, sem data, fugindo ao meu costume de datar os meus escritos. Porém, acho que o escrevi há alguns anos atrás, em uma das minhas viagens a Natal. Sei, apenas, que não faz muito tempo, embora não saiba o motivo para escrevê-lo, se é que um poema precisa de algum motivo para ser criado. Inspiração? Deve ter sido, após, talvez, ter sentido um aroma familiar, uma paisagem, qualquer coisa. Então...



DIA

Mira e sente a maresia,
incenso e mirra,
nossa poesia...
Sol dourado na pele,
botão de ouro a brilhar,
prenda de uma alegria.
Somos santos,
somos reis
e uma estrela nos guia,
cincos pontos alumia.
Natal, cidade da luz,
nascendo na boca da barra,
a beira rio,
a beira mar.
Mar de tantas conquistas,
passado que nos foge de vista,
presente e futuro
se fundindo ao nascer.
Natal, noite de sinos,
canção de ninar,
cantiga de roda,
ciranda dos sonhos
nos vendo crescer.

Nathalie

sexta-feira, 9 de julho de 2010

AINDA É CEDO


“O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever...”.

José Saramago (1922 - 2010), escritor português, referindo-se ao avô, analfabeto, ao receber o  Nobel de Literatura de 1998.


ainda é cedo. muito cedo. a noite acabou de chegar. no ar, um convite velado à liberdade.
sem destino, repudiamos belas mentiras. desafiamos verdades. violamos segredos.
ainda é cedo. muito cedo para chorar. tarde demais para se arrepender. o tempo certo para partir da severa tarefa de esperar. quem vem lá?
ainda é cedo. muito cedo para esquecer. não entendes a confidência das meninas. choras. sangro por todos os poros. testemunho o súbito e solitário pranto que te revela a síntese imaculada do amor.
ainda é cedo. muito cedo para comprar ou roubar estrelas. estamos feridas demais. é necessário voltar à infância. a pureza reside na ânima virgem das crianças.
é a vida. tudo passa. até a estrela que contemplamos da casa ainda sem teto. lá, o céu nos lega conflitos. aflitas, refugiamos no mar os nossos bons corações – quando o Outono expurga todos os pecados que cometemos em nome do amor.
ainda é cedo. muito cedo para amar. a manhã acabou de chegar. estamos mais fortes e mais delicadas. nos protegemos: cúmplices de nós mesmas...

Nathalie
1992
UMA MULHER...

“O barroco foi qualquer coisa,
assim, sabe como é que é...”.

Cláudio Paiva
Jornalista brasileiro


Dando uma geral em meus arquivos do computador, encontrei uma pérola de poema, que escrevi quando tinha apenas dezenove anos. Não sei de onde tirei essas idéias, mas sei que escrevi o poema, lido, inclusive, em voz alta durante uma comemoração do Dia Internacional da Mulher de 1987, em Natal, e, diga-se de passagem, aplaudida a minha recitação. Hoje, não faria isso, pois sou tímida, apesar de não parecer. Mas, àquela época, nos arroubos da idade, enfrentei certo público. Vi, inclusive, anos atrás, que o mesmo encontra-se no livro A História oficial omite, eu conto: mulheres em luta no Rio Grande do Norte – de 1980 a 2000, da escritora norte-rio-grandense Rizolete Fernandes, publicado pela Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Vamos, então, ao mesmo...


























quinta-feira, 8 de julho de 2010

VIDA CÃO


“Quando o sangue começa a ferver
é tolice desligar o coração...”.

Nelson Mandela
Advogado e político sul-africano
Prêmio Nobel da Paz de 1993

Ontem, na hora do almoço, quando falei para a minha irmã olhar o meu blog, pois eu tinha escrito sobre os vinte anos da morte de Cazuza (1958 - 1990), ela tomou um susto, aparentando espanto pelo fato de o tempo passar tão rápido. É, cara irmã, o pior é que passa mesmo. Se outro dia tínhamos vinte anos de idade, recém-saídas da universidade e, antes mesmo disso, já tendo entrado no mercado de trabalho, somos, hoje, quarentonas. Jovens, digamos, mas quarentonas. Não há como negar... Eita! Espera. Ela, a minha irmã, acaba de me corrigir, pois chegou agora e tomou conta do meu computador.

Diz que eu mude o termo quarentonas por quarentinhas... Por mim, tudo bem. Tanto faz. Afinal, já estamos mesmo na casa dos quarenta. Que diferença faz quarentona ou quarentinha? Mas, e se o tempo passa assim mesmo tão rápido, logo chegaremos aos sessenta. Eu odeio a idéia, mas... É a lógica desta vida sem sentido, já que o seu único futuro é a morte. Falando nisso, ninguém, até hoje, nunca me explicou o motivo de viver. Se só for para morrer, ao final, como acontece com todos, é a coisa mais sem graça que tem. Nunca gostei dessa linha de raciocínio... Ou seja, levar alguém a lugar nenhum.

Só que, diferentemente de mim, que sou ariana, igual a Cazuza – daí entender a sua lógica de vida –, sobretudo porque também sou uma artista, a minha irmã é aquariana. Um desastre! Esse povo de aquário vive voando, no ar. Áries, não. O fogo, que rege Áries, já quer um movimento mais dinâmico dos seus nativos, pois é explosivo, impaciente que é. Sim, carrego a maldição de ter nascido sob a regência de Marte. Vou fazer o quê? Só carregar a sina e pronto. Sim, porque a gente não muda o mundo e tem de se conformar com o fardo de que tem de fazer algo para mudar. Infelizmente, não muda.

Mudou o mundo Hitler (1889 - 1945), um ariano do mal, que, a exemplo de outros ditadores, independentemente de signo, nos mostraram a maldade. Que coisa feia! O pior é que a maldade sempre tem mostrado que ganha da bondade. Falei isso para a minha irmã e ela quase me bateu, igual fazia quando éramos crianças... Ou seja, ela é mais velha um ano do que eu, mas sempre me tiranizou. Bom! A minha irmã, hoje educadora, disse que o bem sempre vence. Nossa, que clichê! Igual as histórias em quadrinhos de todos os meus heróis fictícios, tipo o Homem Aranha, Batman, Fantasma...

O que dizer, então, de outros heróis que tenho, feito Lênin (1870 - 1924), Fidel Castro, cujas idéias eu sigo? Haja quadrinhos! Mas, voltando ao assunto, qual moral a minha irmã tem para falar disso? De qualquer modo, será que, de fato, o bem sempre vence? Não é isso o que temos visto... Mesmo porque, logo depois do comentário sobre o meu blog, ela começou a falar de um crime, envolvendo um goleiro, acho que era de um goleiro que ela falava, do Flamengo, um time brasileiro de futebol. Parece que o dito está acusado de algo bárbaro que teria cometido. Não sei, pois não assisto a Rede Globo.

Bom... Assisto, mas apenas a reprise da novela Sinhá Moça, pois adoro tudo o que diz respeito ao século XIX. Assisto, ainda, a uma série policial que anda a passar. A tal série, inclusive, é exibida todas as terças e tem como protagonista a atriz Ana Paula Arósio, que interpreta uma promotora do bem, querendo vingar o assassinato do grande amor e lutar pela justiça de um modo em geral. Ah! Assisto, ainda, a novela das 18h, pois quero ver até onde eles vão chegar com essa história de anjos, de céu azul, cheio de nuvens, com mortos por todos os lados, a nos guardar ou, de repente, amaldiçoar.

Mas, quanto ao crime que a minha irmã mencionou durante o almoço, o provocado pelo tal goleiro... A única coisa que eu tenho a dizer é que outra mulher pagou pela psicopatia de um dito ser humano. E entrou nas estatísticas. Afinal, se, no Brasil, dez mulheres são assassinadas por dia... Quanto ao assunto, vejam o texto que postei em meu blog no dia 5 de julho deste ano. Para acessá-lo, eis o link:



http://abagagemdonavegante.blogspot.com/2010/07/rastros-de-covardia-violencia-e-o.html




Enfim! Coitada da mulher. Ela foi, apenas, mais uma vítima de algo escabroso. E fico a pensar qual o sentido disso tudo. Nenhum. Talvez, o melhor fosse mesmo nem nascer. Afinal, nascer, apenas, para o grande final, que é a morte? Não vejo sentido algum... Sim, só muda o jeito de morrer. Por morte morrida, por velhice ou não, ou ocasionada. E, aí, pelo visto, tem muito jeito para acontecer, dependendo da criatividade do matador. Sei não, mas acho que nem vai nascer quem me explique isso. É muita violência a troco do quê? As pessoas não percebem que o segredo da felicidade está no gesto...


Nathalie Bernardo da Câmara




P.S.: A foto que ilustra este post é do cachorro da minha irmã. Ele, que se chama Nero – olhe o nome! –, apesar de feio de cara, é muito gentil. E o fotografei em uma noite fria, na nossa casa da praia. Tanto que o agasalhei. Eu tinha medo dele, mas, depois que descobri que ele adora o meu cheiro, sempre que posso lhe dou um abraço...


quarta-feira, 7 de julho de 2010

O BEIJA-FLOR


“Como é estéril a certeza de quem vive sem amor...”.

Cazuza (1958 - 1990)
Compositor e cantor brasileiro


Ele pautou a sua vida naquilo que, em uma sociedade, balizada por certa moral, se chama transgressão. Fez de um tudo! Chegou a dizer que não se arrependia de nada. Acredito. O fato é que, há exatos vinte anos, Cazuza voou deste mundo para não mais voltar. Se vivo, teria cinqüenta e dois de idade. Nascido em um 04 de abril, ele era ariano, literalmente exagerado, de rompantes. Mas, como a maioria dos arianos, embora sempre saísse na frente, costumava chegar por último, considerando que, na estrada da vida, durante não importa qual o trajeto, da origem ao destino, o bom mesmo é se aventurar, sem medo de se perder ao pegar atalhos, paralelas, marginais... Em encruzilhadas, então, não vacilar. Seguir a intuição, que, por não ser perfeita, às vezes também falha. Mas, ele chegava. Sim, sempre atrasado, mas terminava chegando, carregando na bagagem a emoção de uma nova canção, sem complicação. Afinal, como ele próprio, Cazuza, já dizia: “Tudo é tão simples que cabe num cartão postal”. E também na gota de orvalho que pousa na flor...

Nathalie Bernardo da Câmara


Para quem gosta, algumas pérolas de Cazuza...



Codinome beija-flor:
http://www.kboing.com.br/cazuza/1-90174/


Preciso dizer que te amo:
http://www.kboing.com.br/cazuza/1-1046668/


O Mundo é um moinho:
http://www.kboing.com.br/cazuza/1-81732/


Maior abandonado:
http://www.kboing.com.br/cazuza/1-46912/


Vida louca vida:
http://www.kboing.com.br/cazuza/1-50415/


Exagerado:
http://www.kboing.com.br/cazuza/1-70179/


Burguesia:
http://www.kboing.com.br/cazuza/1-48392/


Brasil:
http://www.kboing.com.br/cazuza/1-1028634/


Pro dia nascer feliz:
http://www.kboing.com.br/cazuza/1-43424/


Ideologia:
http://www.kboing.com.br/cazuza/1-42263/


Todo o amor que houver nessa vida:
http://www.kboing.com.br/cazuza/1-1027956/


Boas novas:
http://www.kboing.com.br/cazuza/1-47733/


O Tempo não para:
http://www.kboing.com.br/cazuza/1-42170/

terça-feira, 6 de julho de 2010

A PRINCESA ASTECA


“Quisera que a minha obra contribuísse
para a luta do povo pela paz e pela liberdade...”.



(1907 - 1954)
Pintora mexicana


Caso a mentira que ela mesma contava tivesse colado, hoje estaria sendo comemorado o centenário do nascimento, em Cayoacán, da pintora mexicana Frida Kahlo. Comunista, ela costumava dizer que tinha nascido em 1910, ano em que eclodiu a Revolução Mexicana, a primeira das grandes revoluções do séc. XX, que se opunha à ditadura do general mexicano Porfírio Díaz (1830 - 1915). Nascida Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón, Frida, ou Friducha, apelido que apreciava, era filha do casal Wilhelm Kahlo (1876 - 1932), fotógrafo e pintor judeu alemão de origem húngara, e Matilde Calderón y González (1872 - 1941), mexicana de origens espanhola e indígena.

Uma vida atormentada, a de Frida, recheada de tragédias desde a infância, quando, aos seis anos de idade, contrai poliomielite, herdando, como seqüela, uma atrofia na perna direita, deformações e limitações de movimentos, passando a mancar. Aos dezoito, ela sofre um acidente de trânsito, ficando gravemente ferida. Além de lesões na coluna vertebral, na clavícula, em algumas costelas e na pélvis, teve fraturas na perna direita, o pé direito esmagado, o ombro esquerdo deslocado e uma perfuração no abdômen, devido uma barra de ferro, que atravessou o seu útero e saiu pela vagina. Os longos meses de cama, contudo, iriam, definitivamente, mudar o curso da sua vida.

Convalescente, Frida desiste da medicina e descobre a pintura, transpondo para as telas o seu sofrimento. As cores, por sua vez, aos poucos vão suplantando as dores, reaproximando a artista da vida. Tempos depois, já casada com o pintor mexicano Diego Rivera (1886 - 1957), novos tormentos, que foram os sucessivos abortos que teve, sem falar das cirurgias as quais tinha de se submeter, ainda em decorrência do acidente, do colete, das amputações... Nesse ínterim, a pintura, antes um lenitivo, torna-se um ofício, com as suas telas a retratar a sua angústia, refletindo o tempo que passava sobre uma cama, tendo como companhia pincéis, tintas, cavaletes, sendo ela própria a sua inspiração e modelo.

Tendo pintando mais de setenta auto-retratos, perdendo apenas pelo pintor neo-holandês Rembrandt (1606 - 1669), Frida expressou em suas telas a dor de toda uma vida, a sua desintegração, como ela costumava dizer, amortecida, contudo, pela morfina, da qual tornou-se dependente, e pelos vários amores que teve, embora o maior de todos tenha sido, de fato, Diego, por quem ela sempre nutriu uma enorme paixão. Não pretendo, contudo, prolongar-me a falar sobre Frida porque, no dia 4 de julho do ano passado, escrevi um longo texto sobre ela, intitulado ¡Pasion por la vida!, postado neste blog (ver aquivo), sendo o link para o mesmo...


A novidade é que foi recém-lançado um livro sobre a artista: Frida Kahlo – Suas fotos, organizado pelo fotógrafo mexicano Pablo Ortiz Monastério e publicado, no Brasil, com tiragem única, pela Cosac Naify. As mais de quatrocentas fotografias contidas no livro fazem parte do acervo pessoal de Frida, que, após a sua morte, o seu companheiro Diego Rivera doou ao Banco do México. Outra publicação, relançada recentemente, foi Diego e Frida, do escritor francês Le Clézio, Prêmio Nobel de Literatura de 2008, publicado pela Editora Record, que descreve o polêmico relacionamento de Frida com Diego, que, junto com a pintura e o comunismo, se traduziu na razão de viver da artista.


Nathalie Bernardo da Câmara
DE OLHO NELES!

“A liberdade de eleição permite que você escolha o molho com o qual será devorado...”.

Eduardo Galeano
Jornalista e escritor uruguaio




Nesta terça-feira, 06 de julho, têm início, oficialmente, as campanhas dos candidatos a cargos eletivos do Poder Executivo e do Legislativo no Brasil para as próximas eleições de outubro, já sendo permitido, inclusive, a partir de hoje, comícios e propaganda eleitoral legal nas ruas, embora as propagandas nas emissoras de rádio e TVs só terão início a partir do dia 17 de agosto. A novidade é que, para este ano, já está vigorando a decisão do Tribunal Superior Eleitoral - TSE de impedir que políticos condenados por decisão colegiada, antes e depois da publicação, em junho passado, da Lei Complementar 58/10, mais conhecida como Ficha Limpa, possam se candidatar, tornando-os inelegíveis. Fruto de uma campanha de iniciativa popular, lançada em 2008, o referido projeto foi proposto pela Ordem dos Advogados do Brasil - OAB, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB e demais entidades que compõem o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral - MCCE. Será que a peneira vai mesmo surtir efeito?


Nathalie Bernardo da Câmara

segunda-feira, 5 de julho de 2010

RASTROS DE COVARDIA

“A violência é o último refúgio do incompetente...”.

Isaac Asimov (1920 – 1992)
Escritor russo, naturalizado norte-americano


Mapa da violência 2010 – Anatomia dos homicídios no Brasil. Este é o titulo de um estudo dirigido pelo sociólogo argentino Julio Jacobo Waiselfisz, diretor de pesquisa do Instituto Sangari, divulgado em março deste ano, sendo um dos seus aspectos curiosos a análise feita dos homicídios de mulheres no Brasil. De acordo com o documento: “No qüinqüênio 2003/2007, segundo dados do Subsistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde, que faz uma tabulação nacional das Certidões de Óbito, foram registrados 19.440 homicídios de mulheres. Algo perto de 4.000 homicídios ao ano. Isto dá uma média nacional de 4.2 homicídios em 100 mil mulheres”. Resumindo: dez mulheres são assassinadas por dia no Brasil... De fato, tem muito psicopata e muita gente doida por aí!

O estudo completo e demais informações a respeito podem ser encontrados no site: http://www.institutosangari.org.br/mapadaviolencia/

Nathalie Bernardo da Câmara

domingo, 4 de julho de 2010

AMÉRICA: SONHO OU PESADELO?


“A falta de amor é a maior de todas as pobrezas...”.

Madre Teresa de Calcutá (1910 - 1997)
Missionária albanesa
Prêmio Nobel da Paz de 1979


Até quem possui apenas dois neurônios sabe reconhecer um covarde... O ex-presidente norte-americano George W. Bush é um caso. Afinal, exalando uma profunda apatia, sem carisma algum, precisou recorrer a não sei quantas artimanhas para ser eleito e se manter no poder por longo oito anos, alcançando, assim, objetivos para lá de escusos. A invasão do Iraque, em 2003, por exemplo, por tropas norte-americanas, que o diga. Sim, porque, valendo-se de um falso pretexto, que foi acusar o ex-ditador Saddam Hussein (1937 - 2006) de desenvolver e armazenar armas de destruição em massa – fato nunca comprovado –, como se o restante do mundo fosse idiota para acreditar em tal engodo, Bush comportou-se como uma criança mimada, manipulando soldadinhos de chumbo e brincando de guerra.

Desse modo, revelou, apenas, certa esquizofrenia, já que todo conflito, sobretudo o bélico, é fruto de mentes altamente perturbadas. Agora, mesmo se, de fato, Saddam tivesse culpa no cartório, desenvolvendo e armazenando armas de destruição em massa, qual a autoridade do governo dos Estados Unidos para invadir o Iraque se o governo norte-americano é que foi o responsável, por exemplo, pelo lançamento das bombas atômicas nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, em 1945, além de outras aberrações cometidas pelo mundo afora? Parece piada! Ocorre que Bush enganou-se se chegou a pensar que o mundo não sabia que o seu verdadeiro leitmotiv para autorizar a invasão do Iraque foi a ganância aparentemente desenfreada que sempre contaminou a maioria dos presidentes norte-americanos.

No caso, a ganância pelo petróleo iraquiano, que, desde então, só tem aumentado ainda mais o saldo bancário dos EUA, que, aliás, tem o péssimo hábito de não respeitar a autonomia de nação alguma, violando, arrogantemente, quando bem querem, a soberania de um povo. E ai de quem se opuser ao tirano SAM. Ou seria tiranossauro? Bom! Não foi a toa que, em janeiro de 2006, ano da execução de Saddam, após um controverso julgamento, Bush disse que “os Estados Unidos estão viciados em petróleo”. Os Estados Unidos povo ou o governo, em um sonho de consumo a mais, já que o petróleo, uma riqueza natural, gera altíssimos dividendos para quem o controla? Sinceramente, não vejo diferença alguma entre as matanças promovidas por Saddam e as desencadeadas por Bush.

Um, contudo, acusado de genocídio, entre outros crimes, é executado; o outro fica impune, como também ficaram impunes vários outros presidentes dos EUA, que, ao longo da História do país, fomentaram crimes hediondos, ceifando milhares de vidas. Exemplo disso foi o ex-presidente Harry S. Truman (1884 - 1972), que determinou o bombardeamento do Japão. Não foi punido e ainda terminou sendo reeleito. Sinceramente, eu só não tenho mais desprezo pelos Estados Unidos porque uma parcela do seu povo é do bem e condena certas atitudes de muitos dos seus governantes, que, se preciso fosse, seriam capazes – não duvido – de matar a própria mãe para conseguir o que querem, mantendo-se como a maior potência econômica e militar do planeta, apenas alimentando os seus egos inflados por se acharem os donos do mundo.

Sem falar que boa parte da riqueza dos EUA foi conquistada a força, arrancada de outros povos. Neste dia 4 de julho, portanto, quando muitos comemoram a independência do país, que se deu em 1776, só desejo que os americanos decentes tenham a sorte de, um dia, serem agraciados com um governante mentalmente equilibrado e pacifista – ideal, aliás, que deveria ser o verdadeiro sonho americano. Enfim! Quanto a Barack Obama, eu só espero que, durante o seu mandato de presidente, ele não tenha um surto qualquer, a exemplo dos seus antecessores, e, alegando justa causa, resolva invadir o Brasil para nos confiscar a Amazônia, visto que, não é de hoje, esse nosso bem maior vem sendo cobiçado por todos os que governam os EUA. Isso, sim, seria uma grande maldade contra o povo brasileiro e contra a democracia...

Nathalie Bernardo da Câmara

sexta-feira, 2 de julho de 2010

OS DOIS LADOS DA MOEDA

“A globalização é um totalitarismo. Totalitarismo que não precisa nem de camisas verdes, nem castanhas, nem suásticas. São os ricos que governam e os pobres vivem como podem...”.

José Saramago (1922 - 2010)
Escritor português




Já dizia o sociólogo brasileiro Herbert de Souza (1935 - 1995), o Betinho, sábio e humanista exemplar, que o maior crime moral que uma sociedade pode cometer é fomentar a pobreza e a miséria, ambas, para ele, imorais. Afinal, como também bem o disse o advogado e pacifista indiano Mahatma Gandhi (1869 - 1948), se a própria natureza produz alimentos o suficiente para a nossa sobrevivência diária, o ideal seria se cada um tomasse para si apenas o extremamente necessário para se manter vivo a cada dia, evitando, assim, a pobreza no mundo e a morte em conseqüência da fome – questões tão básicas –, decorrentes das desigualdades sócio-econômicas que estão por toda parte.





ENQUANTO ISSO,
NA ÁFRICA DO SUL...


“A chuva que irriga os centros de poder imperialista afoga os vastos subúrbios do sistema. Do mesmo modo, e simetricamente, o bem-estar de nossas classes dominantes – dominantes para dentro, dominadas para fora – é a maldição de nossas multidões, condenadas a uma vida de bestas de carga...”.

Eduardo Galeano
Jornalista e escritor uruguaio



Segundo um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico - OCDE, publicado fins de Janeiro de 2009, “o fosso entre ricos e pobres na África do Sul aumentou no período entre 1993 e 2008”. Tal situação, inclusive, “coloca a África do Sul no grupo dos países com os maiores índices de desigualdade do mundo”. Uma organização internacional que ajuda os governos a resolver os desafios econômicos, sociais e de governabilidade postos por uma economia globalizada, a OCDE conclui, ainda, que, “para qualquer parâmetro da pobreza, os africanos são mais pobres que os mistos, que, por seu turno, são mais pobres que os indianos e estes mais pobres que os brancos”.

Mas, como dizem que a pobreza é um negócio extremamente lucrativo, ou seja, gera satisfatórios dividendos para quem a explora... Não duvidava disso o jornalista, escritor e dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues (1912 - 1980), que, com a sua mordacidade habitual, chegou a dizer: “Uns morrem de fome, outros vivem dela com generosa abundância”. Outros, por sua vez, terminam por engendrar polêmicas por declarações que dão a respeito da fome. Dá até para criar uma historinha quando, por exemplo, é questionada a capacidade de discernir de uma pessoa com fome:




Jean de La Fontaine (1621 - 1695), poeta francês, diria: — Barriga vazia não tem ouvidos.




Virgínia Woolf (1882 - 1941), escritora britânica, justificaria: — Não se pode pensar bem, amar bem, dormir bem, quando não se jantou bem.




Benjamin Franklin (1706 - 1790), jornalista norte-americano, entre outras muitas coisas, que, por sua vez, retrucaria: — É melhor ir deitar-se sem jantar que se levantar com dívidas.



Bertolt Brecht (1898 - 1956), escritor e autor dramático alemão, seria conclusivo: — Para quem tem uma boa posição social, falar de comida é coisa baixa. É compreensível: eles já comeram.


E então?














Enfim!















LES BLANCS ET LES NOIRS







“O preconceito da raça é injusto e causa grande sofrimento as pessoas...”.

Voltaire (1694 - 1778)
Escritor francês


Zezé Motta, uma das mais expressivas e competentes atrizes brasileiras, em uma entrevista sobre a sua condição de negra, considerou que “os homens precisam viver em harmonia. O racismo é o grande obstáculo para a busca da felicidade. Não dá para ser livre enquanto ele existir. Há também negros que não gostam de brancos. Esse recado vai para eles: o mundo ficará mais bonito sem discriminações”.

Quisera que essa mensagem bonita alcançasse algo bonito, uma mente aberta, eu diria, mas, acho que esse entendimento só será possível, por exemplo, no dia em que – no mínimo – tomarmos conhecimento, por meio de registros iconográficos, que, ao longo da História da humanidade, a exemplo das inúmeras amas-de-leite negras, alimentando crianças brancas, quantas mulheres brancas já tiveram em seus braços um recém-nascido negro? Faço essa pergunta porque, em meus mais de vinte anos de jornalismo e pouco mais de quarenta e dois de vida, nunca vi um caso. Nem uma diminuta imagem que o fosse, no caso, atualmente, na era da net, disponibilizada no Google... Nem em algum livro disponível de História da arte, muito menos em todas as pesquisas que já fiz. Tanto que, ao pesquisar, a mais marcante que eu encontrei foi a que se segue abaixo...





Até quando será assim?


E o pior é que, em relação à pobreza, à miséria e ao racismo, a criança é sempre a maior das vítimas...


Nathalie Bernardo da Câmara