segunda-feira, 22 de novembro de 2010


DENGUE²



“No Brasil, a saúde é vista como um setor de gastos em vez de ser visto como gerador de emprego e renda...”.

Maria Alicia Ugá
Pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz



Deu no jornal: Brasil já registra quase o dobro do número de casos de dengue em relação ao ano passado. E que, para combater o mosquito aedes aegipty, é preciso mobilização, já que até mesmo um buraco em uma árvore ou uma tampinha de refrigerante pode servir de criadouro, visto que espaço não é problema para o inseto, e que qualquer quantidade de água parada, sobretudo no período de chuva, é suficiente para estimular a sua proliferação – situação que se agrava porque se sabe que os ovos postos por uma fêmea pode variar de oitenta a cem unidades. E o mais curioso é que as fêmeas, por mais incrível que pareça, também possuem instinto maternal, já que só ponhem os seus ovos em águas onde elas sabem que há alimento para as suas crias, que são as larvas.

De fato, a situação tem tudo para ser preocupante, considerando que agentes de zoonoses da prefeitura de Belo Horizonte, por exemplo, até subindo em telhados atrás de larvas do mosquito estão. Afinal, em um ano, as mortes em Minas Gerais aumentaram quatro vezes mais – imagine, então, nos demais estados brasileiros! O fato é que, uma questão de saúde pública, a dengue mata, sem piedade. E cabe aos governos, em âmbito municipal, estadual e federal, intensificarem o combate aos focos do mosquito, encontrando outros meios, além dos familiares carros fumacê. À população, evitar a criação de focos, tomando os cuidados necessários sempre tão divulgados pela mídia e, provavelmente, já assimilados.






Ah! E não custa nada acender velas! Só que não para rezar pedindo proteção a um santo qualquer, mas para ajudar a afastar o mosquito com a fumaça. Ou, o que é mais agradável, alguns incensos. Agora, em lugares ermos, uma fogueira até que cai bem...







Cartas para Papai Nöel
já chegam aos Correios


 “Não sou Papai Noel, mas ando de saco cheio...”.

Frase de pára-choque de caminhão



Lá pelas tantas, lendo o jornal, tomo conhecimento de que já começam a chegar à Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos - ECT cartinhas de crianças escritas para Papai Nöel, como fruto de uma campanha social, de iniciativa da instituição, considerada uma das maiores do país durante o período natalino, que teve início há mais de vinte anos, em parceria com escolas da rede pública de ensino do país, creches, abrigos, orfanatos e congêneres, que atendem crianças com vulnerabilidade social, a fim de que pessoas físicas e jurídicas adotem uma das cartas selecionadas e se responsabilizem em presentear quem as escreveu. De qualquer modo, a ECT também contempla cartas de crianças que escrevem para Papai Noel mesmo que os seus pedidos não tenham sido enviados por nenhum dos parceiros da instituição.

A novidade, contudo, da campanha Papai Noel dos Correios deste ano, com prazo de encerramento para o envio de cartas previsto para o dia 17 de dezembro, é a recente parceria da ECT com a Organização das Nações Unidas - ONU, que viu nos propósitos da instituição brasileira um alinhamento com um dos seus objetivos do milênio, denominado Educação básica de qualidade para todos, estimulando a redação manuscrita e o uso correto do Código de Endereçamento Postal – o famoso CEP – e do selo postal. Bom! Até aí, tudo bem! Eu só fiquei intrigada com o fato da meta institucional da campanha não ser a distribuição de presentes para crianças carentes ou não, mas a disseminação, em todo o país, de valores ditos natalinos, como, por exemplo, o amor ao próximo, a solidariedade e a felicidade, bem como a difusão da magia e do encantamento do Natal...

Ora! Que eu saiba, amor ao próximo e solidariedade não são valores – são sentimentos (no caso da felicidade, estado de espírito) – e, muito menos, prerrogativas exclusivas do período natalino. Além do mais, sentimentos não são racionais. Brotam – quando brotam –, espontaneamente, do coração de cada um, diferentemente de uma equação matemática qualquer, meramente cerebral. Outra coisa esquisita dessa campanha da ECT é querer difundir – ou impor – uma suposta magia ou um dito encantamento que, porventura, tem o Natal. Isso é coisa de cristão! E, convenhamos, nem todo o mundo tem a obrigação de sê-lo. Eu, particularmente, sempre achei o Natal uma festa extremamente maçante. E hipócrita, já que as pessoas passam o ano inteiro puxando o tapete das outras e, de repente, no período natalino, se tornam cordeiros de bondade e afeto.

Sem falar no consumismo desenfreado que anestesia as pessoas quando o final do ano aproxima-se e no componente brega que é a aura de toda a decoração natalina, com luzes coloridas piscando, presépios... Sei não, mas a única coisa que escapa é a tal da ceia de Natal, já que, como aprecio uma boa comida, aproveito para me fartar. Quanto a escrever cartas para Papai Nöel... Acho estranho porque, em toda a minha infância, nunca escrevi sequer uma linha para o dito bom velhinho pedindo o que quer que fosse para ele. E nunca alimentei a fantasia da existência de uma fábrica de brinquedos no Pólo Norte, onde duendes empacotam brinquedos para as crianças que os pediram, mas apenas para as bem comportadas, a serem entregues por um idoso altruísta voando em um trenó puxado por renas capazes de darem a volta ao mundo em apenas uma noite. Ninguém merece!

E garanto que essa minha descrença em nada me impediu de desfrutar da ludicidade inerente à infância. Eu, simplesmente, nunca acreditei em Papai Nöel. Impossível! Afinal, como acreditar em um idoso obeso passar por uma chaminé – a maioria nem tem uma – carregando um saco repleto de presentes? É demais! Nem a mente fértil de uma criança seria capaz de criar algo tão inverossímil. Tanto que eu sempre soube que quem nos davam presentes no dia de Natal eram os nossos pais, que ficavam a nos olhar abrindo os nossos respectivos presentes, provavelmente achando, pelo menos no meu caso, que eu acreditava naquela encenação. Assim, para não frustrá-los - os meus pais -, eu fazia de conta que acreditava, embora, rindo, eu pensasse: — Eles acham que eu sou idiota? Enfim! Eu acredito em Papai Nöel tanto quanto acredito em Dilma Rousseff...








Na Cidade do Medo



“Os homens não têm muito respeito pelos outros porque não têm por si...”.

Leon Trotsky (1879 - 1940)
Líder político e revolucionário russo



O mundo anda mesmo perdido... Nesta segunda-feira, 22, após seis meses de investigações, uma ação policial civil prende suspeitos de esquema para recrutar idosos a serviço do tráfico de drogas na Cidade de Deus, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Segundo o delegado da 32ª DP (Taquara), João Luiz Costa, os idosos transportavam drogas para outras comunidades, como, por exemplo, o complexo do Alemão, no subúrbio do Rio. Cerca de sessenta agentes participaram da ação, que contou com o apoio de agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) e de policiais militares que atuam na Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Cidade de Deus. Sei não, mas, se dizem que Deus protege, talvez seja melhor mudar o nome do lugar onde se desenrolou a ação policial, garantindo aos idosos a segurança necessária para a sua idade, bem como a dos demais moradores... Que tal Cidade do Medo? 



Nathalie Bernardo da Câmara


domingo, 21 de novembro de 2010

SAVOIR-FAIRE?


“Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai!...”.

Vanessa da Mata
Cantora brasileira



Ignorância é uma coisa triste! Isto é, quando não se trata, no caso do papa Bento XVI, de senilidade – nada contra a terceira idade. Pelo contrário! Eu só não entendo como, até hoje, esse senhor insiste na sandice de proibir o uso de preservativos. Sei não, mas acho que Lula devia fazer uma boa ação e presentear Bentinho com uma Bolsa Escola. Afinal, mesmo depois de todas as polêmicas já desencadeadas por causa dessa alienação teimosa de Bento XVI, ele não se convence que, apregoando, onde quer que vá, contra o uso de camisinha, continua, por isso, condenando, deliberadamente, à raça dita humana à extinção – uma irresponsabilidade social.

Digo isso porque, na próxima terça-feira, 23, na Alemanha, o religioso pretende lançar o livro Luz do mundo: O papa, a Igreja e os sinais do tempo. Uma conversa com o santo padre Bento XVI, baseado em vinte horas de entrevistas feitas pelo jornalista e escritor alemão Peter Seewald. Editado pela Libreria Editrice Vaticana e vendido por € 19,50, o livro aborda, entre outros temas, a liberação do uso do preservativo exclusivamente para as prostitutas. Que nome ingrato... Enfim! O papa acredita que, liberando o uso de preservativos para as prostitutas, elas estariam dando um possível “passo para a moralização”.

STOP! De qual moralização o papa fala? E do ponto de vista de quem? O dele ou o das prostitutas? Ou melhor, qual o entendimento que Bento XVI tem por moralização? Falando nisso, aproveito o ensejo para dizer que, pelo menos no Brasil, as profissionais do sexo têm organizações de classe, representantes no Congresso Nacional... Existe até uma Rede Brasileira de Prostitutas, cuja missão, entre outras, é a de promover a articulação política do movimento organizado de prostitutas e o fortalecimento da identidade profissional da categoria, visando, entre outras coisas, a redução do estigma e da discriminação.

Da Rede Brasileira de Prostitutas faz parte, por exemplo, a DaVida – Prostituição, direitos civis e saúde, organização da sociedade civil fundada pela socióloga brasileira Gabriela Leite em 1992 – ano em que a entrevistei –, a fim de serem criadas oportunidades para o fortalecimento da cidadania das prostitutas por meio da organização da categoria, da defesa e promoção de direitos, da mobilização e do controle social. Um trabalho exemplar! Tanto que, em 2002 – não foi à toa –, a Davida ganhou o Prêmio Ações Sustentáveis em HIV/AIDS do Programa Nacional DST e Aids do Ministério da Saúde, conquistando respeito e credibilidade.

Isso sem falar que a organização tem até uma griffe de moda, a Daspu, criada em 2005 – com as estampas, frases e designers das suas peças inspiradas no universo da prostituição –, cujo objetivo é o de gerar visibilidade e recursos para projetos sociais e culturais da Davida, que mantém, ainda, um jornal impresso, que é o Beijo da rua, publicado desde 1988, disponível em versão eletrônica. Apoiado pelo Programa Nacional de DST e Aids, do Ministério da Saúde, e pela UNESCO, o jornal é editado pelo meu colega jornalista brasileiro Flávio Lenz, que também entrevistei em 1992, irmão da poetisa brasileira Ana Cristina César (1952 - 1983).

Sei não, mas, caso Bento XVI volte ao Brasil, ele bem que poderia agendar, por exemplo, uma visita à sede da Davida, no Rio de Janeiro, e conhecer, de perto, o belíssimo trabalho realizado há quase duas décadas por Gabriela Leite e toda a sua equipe. Bom! O curioso é que já andam a dizer que Bento XVI evoluiu... Ora, só porque ele fez uma única concessão para o uso de preservativos? Uma concessão com caráter depreciativo? E os homens prostitutos, profissionais do sexo, como ficam? Não são contemplados por tamanha liberalidade? Bizarro... Mas, em minha opinião, liberar, no caso, o uso de camisinha para as prostitutas não tem nada a ver com evolução.

Pelo contrário! Revela, apenas, o conservadorismo medieval do papa e de como a categoria das profissionais do sexo é estigmatizada por ele e por seus pares de batina. Sim, como se as mulheres que trabalham prestando serviços sexuais fossem um foco potencialmente transmissor de doenças e de sabe-se lá mais o quê, devendo, portanto, como Bento XVI mesmo disse, serem moralizadas... Ai! O fato é que, no palco dessa esquizofrenia papal, chego até a pensar que Joseph Ratzinger – nome de batismo do atual papa – está começando a manifestar os primeiros sintomas do Mal de Alzheimer, necessitando de cuidados médicos.



 


De qualquer modo, integralista como Ratzinger sempre foi, sem falar na sua condição de inquisidor, durante quase longos vinte e quatro anos (1981 - 2005) como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, considerada o quarto e atual estágio da Inquisição, essa sua inesperada e súbita mudança de entendimento acerca do uso de preservativos não me parece nada normal, sobretudo porque, em março de 2009, na África, as declarações levianas que fez a respeito mais pareceu praga ao continente africano e ao seu povo, ambos já tão devastados pela fome e pela miséria, além de também devastados pela AIDS, mais do que qualquer outra coisa...

À época, por suas posições retrógadas, o papa provocou reações internacionais. Uma delas foi a do bispo das Forças Armadas e de Segurança do Ministério da Defesa de Portugal, médico Januário Torgal Ferreira, que ficou estarrecido com a irresponsabilidade de Bento XVI, dizendo: “Do ponto de vista médico, não tenho dúvida de que proibir o preservativo é consentir na morte de muitas pessoas”. Membro da Comissão Nacional da Luta contra a AIDS de Portugal e da Associação Cidadãos do Mundo, a médica Ana Filgueiras, de renome internacional, rejeitou a posição do chefe da Igreja católica, considerando-a “absolutamente criminosa”.

Ao mesmo tempo, de Haia, o então ministro da Cooperação para o Desenvolvimento da Holanda, Bert Koenders, confessou a sua perplexidade diante das declarações de Bento XVI, que, inclusive, ele acusou de ter “perdido o sentido das realidades”. Em editorial intitulado Redenção para o papa?, a britânica Lancet, uma das mais conceituadas revistas médicas do mundo, acusou o papa, quando ele declarou que os preservativos aumentam a disseminação do vírus HIV e do aumento dos casos de AIDS, de distorcer evidências científicas a fim de promover a doutrina católica, exigindo a sua retratação, que, até hoje, não aconteceu.

Em editorial, o jornal New York Times foi enfático, dizendo que “o Papa não merece crédito quando distorce pesquisas científicas sobre a importância do preservativo em diminuir a disseminação do vírus”. Já o ex-primeiro-ministro francês Alain Juppé não hesitou, com toda razão, em dizer que “o papa começa a ser um verdadeiro problema, dado que ele vive em uma situação de total autismo”. Da Bélgica, a então ministra da Saúde, Laurette Onkelinx, disse, duramente, que a posição de Bento XVI “reflete uma visão doutrinária perigosa que pode demolir anos de prevenção e educação e colocar em risco muitas vidas humanas”.

Que o diga o teólogo alemão Hans Küng, antigo conhecido de Ratzinger: “Bento XVI será julgado pela História como responsável pela maior propagação do vírus da AIDS”. Assino embaixo! E, sinceramente, quem quiser que leia o livro do papa, mas que só não fique entalado com as duzentas e oitenta e quatro páginas, que, divididas em três partes: Os Sinais do tempo; O Pontificado e Sobre aonde vamos, apenas reforçam o que qualquer pessoa de bom senso sabe: Bento XVI não é confiável. Sem falar que, nesse livro de entrevistas, fica registrada – nenhuma novidade – a sua conivência com a pedofilia no seio da Igreja católica... É muita hipocrisia!


Nathalie Bernardo da Câmara


sábado, 20 de novembro de 2010

A FLORA E A FAUNA NÃO SÃO MÍOPES E ESTÃO DE OLHO!



“A prova de que a natureza é sábia é que ela nem sabia que iríamos usar óculos e notem como colocou as nossas orelhas...”.

Jô Soares
Humorista brasileiro



Na semana passada, uma equipe do Greenpeace, organização não governamental de envergadura mundial, que atua em favor do meio ambiente, testemunhou, durante um vôo nos ares dos estados do Pará, do Mato Grosso e do Maranhão, atividades ilegais de extração de madeira na TI Caru, no município de São João do Caru, no noroeste do Maranhão, onde fica localizada a tribo indígena, que, desde a sua criação, em 1982, vem presenciando um desmatamento acelerado na região, sem que nem mesmo o fato da TI receber proteção oficial tenha freado a agressão dos fazendeiros e das madeireiras, que exploram a madeira irregularmente.

Tanto que pelo menos 9% das suas matas já foram derrubados – total esse que corresponde a quinze mil hectares da suas terras, vizinhas, inclusive, de mais duas outras duas tribos indígenas, a do Alto Turiaçu e Awá-Guajá, além da Reserva Biológica do Gurupi. À oportunidade, ainda durante o vôo, foram registrados, no interior da TI Caru, dois caminhões carregados de toras de madeira, algumas estradas estreitas abertas na floresta para o seu escoamento e um acampamento improvisado, que, segundo uma das fotografias feitas pela equipe do Greenpeace, se encontra discretamente protegido por uma espécie de clareira.



Photo: Bruno Kelly


Só que, a bem da verdade, a clareira onde foi registrado um acampamento resume-se a uma pequena área desmatada, cujo acesso dar-se por uma trilha, que, aliás, sai da via, ainda segundo registra a mesma imagem fotográfica, na qual trafega um caminhão transportando várias das já mencionadas toras de madeira. O fato é que, nesta sexta-feira, 19, munido das imagens aéreas colhidas pelos ambientalistas e de demais documentos, o Greenpeace encaminhou respectivas denúncias ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - IBAMA e à Fundação Nacional do Índio - FUNAI.

O objetivo, portanto, do Greenpeace é o que os referidos órgãos competentes tomem as devidas providências a fim de coibir tamanho crime ambiental, embora a organização tenha receio de que, apesar das denúncias feitas, novamente se repita o que aconteceu no segundo semestre do ano passado, após o término das ações da Operação Arco de Fogo na região, uma força tarefa que, entre outros, envolveu agentes do IBAMA, FUNAI, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Força Nacional de Segurança e o Exército, que deu apoio à operação, visando debelar um já acelerado processo de degradação para a extração da madeira.






À época, toras de madeira, maquinários, armamentos, frota de veículos foram apreendidos; serrarias e fornos ilegais de carvão fechados; empresas autuadas, embargadas; pessoas presas... Enfim! Com o desfecho positivo da Operação Arco de Fogo e a retirada dos seus agentes da região – TI do Caru, do Alto Turiaçu e do Awá-Guajá, além da Reserva Biológica do Gurup – um dos pontos críticos do Maranhão, que, por sua vez, naquele período, era – diga-se de passagem – considerado um dos estados da Amazônia Legal cuja taxa de desmatamento era a que mais estava avançado, tudo, então, voltou a ser como era antes.

Daí, hoje, a preocupação do Greenpeace ser a de que, apesar das denúncias que fez ao IBAMA e à FUNAI da continuidade da extração ilegal de madeira, sobretudo na TI Caru, medidas não sejam tomadas a fim de ser dada uma solução para tão grave problema, como fiscalização, apreensão da madeira extraída e identificação e punição dos infratores, protegendo definitivamente a área – habitat, por direito, dos índios. A FUNAI, por sua vez, em nota ao Greenpeace, informou que tem conhecimento do que anda acontecendo na região e que já está tomando “as devidas providências para conter o desmatamento ilegal nessas terras”.






Prosseguindo, a FUNAI adiantou que agentes do próprio órgão, do IBAMA, da Polícia Federal, da Força Nacional de Segurança já estão reunidos no Maranhão e exatamente com o objetivo de realizar outra operação, a exemplo da do ano passado, garantindo, inclusive, que as fiscalizações dos agentes na TI Caru já têm o seu início previsto para os próximos dias. Que, assim, o seja! Afinal, convenhamos, toda sorte de abuso contra a Amazônia tem de ter um fim. Só que, para isso, temos de ser ágeis e garantir a preservação da sua floresta. Ah! Para não nos prolongar, cito, apenas, três dos exemplos de quem defende o nosso bem maior.

Para o ex-ministro do Meio Ambiente, o deputado estadual Carlos Minc (PT-RJ), que, em 2009, acompanhou, de perto, a Operação Arco de Fogo: “O crime ambiental e a impunidade não vão prosperar no Brasil. O nosso sonho é que as pessoas vivam com dignidade”... Para a também ex-ministra do Meio Ambiente, a senadora Marina Silva (PV-AC), que defende o desenvolvimento sustentável, como a Operação Arco de Fogo: “A Amazônia está acima de nós”... O Greenpeace, por sua vez, cuja vocação é a ambiental, diz: “O desmatamento está caindo, ninguém nega, mas os velhos problemas da Amazônia estão bem longe de serem solucionados”...








Quem planta, colhe...




Oexiste porque este planeta frágil merece ter uma voz. Ele precisa de soluções. Ele precisa de mudanças. Ele precisa de ação...”.


Vindo ao mundo no dia 15 de setembro de 1971 por iniciativa de dozes pessoas, entre ambientalistas e jornalistas, o Greenpeace é nativo do Canadá e do signo de Virgem. E ele só existe, segundo mensagem de um dos seus vários blogs, “para expor criminosos ambientais e desafiar governos e corporações onde eles falham em manter suas promessas de proteger o meio ambiente e o nosso futuro”, acreditando que a luta para preservar o futuro do nosso planeta não diz respeito somente à organização, mas, também, a todos nós, sendo o intuito do seu trabalho em favor do meio ambiente temas tipo florestas, clima, energia, oceanos, agricultura sustentável (transgênicos), tóxicos e desarmamento/promoção da paz, que, a partir de objetivos e estratégias, se transformam em campanhas – “um trabalho de investigação, exposição e confronto a partir das demandas da organização em cada país onde ela atua”.

A missão do Greenpeace, por sua vez, é a de “proteger a floresta amazônica, bioma de grande biodiversidade, hábitat de milhares de espécies, milhões de pessoas e fundamental para o equilíbrio climático do planeta; estimular o investimento em energia renovável e eficiência energética, reduzindo as emissões de gases do efeito estufa, que causam aquecimento global; defender os oceanos com a criação de uma rede de unidades de conservação e o estímulo da pesca sustentável; trabalhar pela paz, enfrentando as causas de conflito e eliminando a produção de energia e armas nucleares, e incentivar a agricultura segura e sustentável, rejeitando os organismos geneticamente modificados.

 
 



Quando da ECO-92, no Rio de Janeiro – oportunidade na qual cento e oitenta países admitiram os danos que causavam ao meio ambiente –, o Greenpeace adotou o Brasil, que, vítima de ações internacionais predatórias, não dispunha de ambientalistas de peso para protegê-lo. Foi assim que, durante o encontro, no dia 26 de abril, aniversário da explosão da usina nuclear de Chernobyl, a tripulação do navio do Greenpeace Rainbow Warrior rumou para Angra dos Reis, onde oitocentas cruzes foram afixadas no pátio da usina nuclear, simbolizando o número de mortes ocorridas no trágico acidente na Ucrânia. O evento marcou oficialmente a inauguração do Greenpeace no Brasil.

Enfim! O Greenpeace tem como uma das suas maiores bandeiras a frase do chefe índio norte-americano Seattle: “Quando a última árvore for cortada, o último rio envenenado, e o último peixe morto, descobriremos que não podemos comer dinheiro...” Eu, particularmente, quero o meu ambiente por inteiro. Não pela metade...



Nathalie Bernardo da Câmara








sexta-feira, 19 de novembro de 2010

OS SEGREDOS DE UM BAÚ...


“Esse continua sendo um tema tabu, aqui, no Brasil...”.

Wadih Damous
Presidente da seção Rio de Janeiro da Ordem dos Advogados do Brasil - OAB, se referindo ao direito das famílias dos desaparecidos de saber o seu paradeiro, bem como ao direito do país em conhecer a sua História, quando do lançamento da Campanha Nacional pela Memória e pela Verdade, no dia 16 de abril de 2010, com o objetivo de pressionar o governo a abrir os arquivos da ditadura militar.


Outra omissão do governo Lula, e que está diretamente ligada à da não punição dos militares da ditadura, bem como à da sua anistia, é a de até hoje, pouco mais de um mês do fim do seu mandato, ele não ter autorizado a abertura dos arquivos secretos de um dos períodos mais macabros da História do Brasil, sobretudo porque, ainda em sua campanha para presidente do país, em 2002, ele prometeu – e todo o mundo ouviu – que, tão logo fosse eleito, essa seria uma das primeiras medidas do seu governo. Enfim! Cansada deste assunto, que, pelo visto, não vai ter o desfecho esperado pelo povo brasileiro, pelo menos não em 2010, levando em consideração o término do seu segundo mandato, achei melhor transcrever uma passagem de um texto, de minha autoria, no qual, outro dia, fiz referência a esse tema.

Ou seja, o ano de 2002 transcorreu sem nenhuma alusão a tal da promessa e, em 2003, cometendo outro deslize, quiçá de memória, em relação ao compromisso assumido publicamente, omissão total, já que, à época, segundo declaração à imprensa do ministro-chefe da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da presidência em 2008, jornalista Paulo Vannuchi, Lula teria dito que 'aquele [a abertura dos tais arquivos] não era um assunto importante, que deveria ser deixado para depois'. Em 2004, 2005, 2006, 2007, nada também! Quando, então, da mencionada entrevista de Vannuchi, em dezembro de 2008, detalhes das hesitações de Lula são reveladas.

E ficamos sabendo que a intenção do governo era a de executar um pacote de medidas para aquele ano, mas que, dissuadido pelo ministro-chefe da secretaria de Comunicação Social da presidência, jornalista Franklin Martins, que argumentou que as festas de fim de ano ofuscariam o pacote, este seria adiado para janeiro de 2009, quando seria elaborado um projeto de lei para que os arquivos secretos fossem abertos, bem como o lançamento de um edital, que convocaria ex-militares a entregarem ao governo federal todo e qualquer documento, referente à ditadura, que possuíssem em casa. À oportunidade, Vannuchi relatou, ainda, uma conversa que teve com Lula, na qual alertou que ele não poderia concluir o seu segundo mandato de presidente sem uma solução para o problema.

Segundo o ministro, poderia nem ser uma solução ideal, mas que havia, sim, a necessidade de uma solução nem que fosse para não manchar a biografia de Lula... Como diria a cantora brasileira Vanessa da Mata: Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai. O pior ainda foi que, em represália ao pacote de medidas anunciado, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, e os comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica discordaram da iniciativa e colocaram os seus respectivos cargos à disposição do presidente Lula, que, por sua vez, tentou amenizar o impasse prometendo ao quarteto alterar alguns pontos da proposta de Criação da Comissão da Verdade, cujo papel seria o de analisar os casos de violações de direitos humanos na ditadura militar.

Ô cabra frouxo, que nega as origens! Sim, porque, de nordestino arretado, como se costuma dizer, Lula não tem nada, já que – virou Lesão por efeito repetitivo - LER – ele nunca ouve nem vê nada, ou seja, não sabe de nada, parece até cego em tiroteio, com a vantagem, contudo, de nem mesmo ouvir o estrondo das balas. Enquanto isso, cerca de um ano depois, o advogado e tutor do Portal Educação, Carlos Eduardo Gomes Figueiredo, enfatizou que os direitos humanos devem ser resguardados, garantindo à população o direito de acesso aos acontecimentos ocorridos durante o regime militar. Para ele, 'qualquer barreira na liberdade à informação e história pode configurar uma negação desta fase, que faz parte do desenvolvimento político-jurídico do país', afirmou.

À época, as palavras de Gomes Figueiredo foram exemplarmente corroboradas pelas do então presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil - OAB, Cezar Britto, que disse ser a abertura dos arquivos da ditadura a única medida capaz de evitar erros cometidos no passado. E foi somando forças nesse sentido que o ex-ministro-chefe da Secretaria Especial dos Direitos Humanos e atual presidente da Fundação Perseu Abramo, o jornalista Nilmário Miranda, autor, inclusive, do projeto que criou a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, afirmou que o que de fato ocorre é que alguns militares têm medo de serem punidos casos os polêmicos arquivos sejam abertos, já que, alegando estarem restaurando a democracia no Brasil, eles instauraram foi uma ditadura.

Para Nilmário Miranda, a abertura dos arquivos só depende, agora, do poder Executivo, visto que 'o Judiciário já abriu, com sentença transitada em julgado (NR: sentença contra a qual não cabem mais recursos) sobre a Guerrilha do Araguaia', por exemplo. E é inadmissível, em sua opinião, que as Forças Armadas insistam em dizer que não dispõe de um documento sequer referente ao movimento armado que ocorreu no início da década de setenta ao longo do rio Araguaia, na Amazônia, ainda mais porque a operação militar desencadeada para coibi-lo foi considerada a maior já ocorrida no país desde então. Segundo o jornalista, os documentos existem, sim, e são os únicos que faltam vir à tona, bem como os que dizem respeito aos casos de tortura ocorridos no Brasil.

Bom! Diante da omissão de Lula, espero que o próximo presidente deste país não hesite e, enfim, abra os (mal) ditos arquivos secretos, calando, assim, a boca dos que, apesar dos inúmeros testemunhos e documentos que atestem o contrário, insistem em negar que a tortura existiu na Terra dos Papagaios.





Sei não, mas eu diria que apenas um dos interessados na abertura dos tais arquivos ditos secretos da ditadura – se é que de fato há algum interesse nisso – terá rompido o seu silêncio... Ou seja, apesar de Lula já ter dito que “boa parte dos arquivos da ditadura inexiste” – coisa que não duvido –, ele prometeu que iria autorizar a abertura de todos os arquivos, sem exceção, ainda em seu primeiro mandato. Não apenas de um. E nada justifica o não cumprimento de uma promessa. Digo isso porque, esta semana, dia 16, depois de passadas as eleições, o Superior Tribunal Militar - STM liberou o acesso ao processo aberto durante a ditadura contra a presidente eleita Dilma Rousseff.

Segundo o jornal O Estado de São Paulo, há 476 dias sob censura, “a consulta à ação estava indisponível por determinação do presidente do STM, Carlos Alberto Soares, que dizia temer o uso político das informações durante o período eleitoral. Por 10 votos a 1, o plenário do STM autorizou o acesso amplo e irrestrito ao processo instaurado em 1970, quando Dilma militava em movimentos contrários à ditadura militar”. Ainda segundo o Estadão, desde agosto que o jornal Folha de São Paulo havia protocolado um mandado de segurança solicitando que as informações fossem liberadas, mas, desde então, o acesso as mesmas estava proibido. Pois é! Um jogo de interesses escusos inacreditável.

Porém, justiça seja feita ao ministro José Coelho Ferreira, que era favorável à liberação das informações do referido processo antes das eleições. Segundo o Estadão, o ministro teria dito: “Uma pessoa que deseja servir o país não pode querer que fatos históricos ligados a sua vida e a sua saúde sejam subtraídos da informação do povo”... O que me espanta, contudo, é o fato de uma pessoa, no caso, da presidente eleita Dilma Rousseff, antes mesmo de tomar posse e assumir o seu mandato, já obter certas regalias que pobres mortais nunca obteriam... Bom! Se eu já não confiava em Lula, agora é que não confio em Dilma.






Afinal, com o seu gesto – conivente que com certeza foi com o STM –, Dilma Rousseff já revelou certa covardia na condução, após a sua posse, de questões que devem ser de interesse do povo brasileiro, o qual, aliás, de há muito já reivindica, por exemplo, a abertura dos arquivos secretos da ditadura. Enfim! Eu gostaria de perguntar a Lula qual das duas imagens acima ele gostaria de legar ao povo brasileiro após dois mandatos repletos de omissões... Isso sem falar no tamanho da mancha que ficará impregnada em sua biografia após ele deixar a presidência do Brasil! Possivelmente, não será uma mancha pequena, assim como não o foi a do sangue inocente derramado pelos militares ao longo de tristes vinte anos.


Nathalie Bernardo da Câmara




O BRASIL NO BANCO DOS RÉUS!


“Que país é esse?...”.

Renato Russo (1960 - 1996)
Compositor brasileiro, vocalista da banda Legião urbana



2008. Organização dos Estados Americanos - OEA. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos recomenda que o governo brasileiro investigue e puna os responsáveis por detenções arbitrárias, torturas, assassinatos, desaparecimentos forjados, privações as mais diversas e exílios durante a ditadura militar (1964 - 1985), práticas consideradas uma grave violação aos direitos humanos.


2009. Ignorando a recomendação da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, o governo brasileiro sequer se posiciona a respeito e a OEA decide julgá-lo por crimes contra a humanidade.


2010. 29 de abril. O Supremo Tribunal Federal - STF rejeita, majoritariamente, uma ação impetrada pela Ordem dos Advogados do Brasil - OAB, solicitando uma revisão da aplicação da Lei de Anistia, já que, quando criada, em 1979, visava apenas beneficiar as vítimas injustamente acusadas de cometerem crimes políticos simplesmente porque elas queriam a derrocada do regime militar. Não erroneamente beneficiar os torturadores e assassinos da ditadura. Ocorre que, ao rejeitar a ação da OAB, o STF ao mesmo tempo rejeitou, ou melhor, desdenhou a recomendação da OEA, que, nesse mesmo sentido, já havia, inclusive, pedido que tal questão fosse resolvida antes mesmo das últimas eleições presidenciais.





Insanamente – não há outra forma de definir o ocorrido –, os sábios magistrados do STF decidem, sem hesitar, que a tortura, por exemplo, não pode ser considerada crime hediondo nem crime contra a humanidade. No dia seguinte, igualmente sem hesitação, a Organização das Nações Unidas – ONU ataca duramente a decisão do STF e exige do governo brasileiro o fim da impunidade no Brasil, que poderá, caso seja condenado internacionalmente, não mais usar a Lei de Anistia para isentar de punição os acusados de crimes cometidos contra a humanidade durante a ditadura. Em Bogotá, também no dia 30 de abril, o Centro Internacional para a Justiça Transicional - ICTJ (sigla em inglês), que combate as violações aos direitos humanos, buscando soluções integrais para a construção de sociedades justas e pacíficas, repudia, solenemente, a decisão do STF. E quem não repudiaria?




Voa canarinho, voa...


“Se você, assim como eu, treme de indignação
perante uma injustiça, então, somos companheiros...”.

Che Guevara (1928 – 1967)
Médico e revolucionário argentino naturalizado cubano


Indignada até a medula, mal conseguindo tecer algumas linhas a respeito da decisão do STF, quando essa vergonhosa instituição, em abril deste ano, defendeu a anistia para um bando de celerados, que foram os responsáveis pelas torturas, assassinatos e congêneres durante a ditadura militar, lhes dando asas, conseqüentemente, lhes deixando livres, impunes, a jornalista brasileira Niara de Oliveira solicitou ao cartunista brasileiro Carlos Latuff uma charge que, à época, traduzisse a sua indignação e, sobretudo, a sua revolta, que ela findou por divulgar em seu blog, o Limão com pimenta, ilustrando o post, de sua autoria, intitulado STF institucionaliza a tortura no Brasil.

Assim, considerando que uma imagem vale por mil palavras, aproveitei a referida charge para igualmente ilustrar a segunda parte do presente post, escrevendo sobre a polêmica da anistia aos militares, que permanece em pauta – impossível não permanecer! Afinal, diante do absurdo cometido pelo STF, apesar da orientação da OEA para que o governo federal se posicionasse sobre a punição dos militares, e isso ainda antes das últimas eleições presidenciais – o que não aconteceu nem vai acontecer –, a situação tende a se agravar, já que, na iminência de concluir o seu segundo mandato, Lula continua omisso em relação a essa grave questão. Mas, para muitos, isso não é nenhuma novidade.

Agora, para um presidente que ressuscitou a Legião Brasileira de Assistência - LBA, pois os seus dois mandatos resumem-se a programas não sociais, mas assistencialistas – é bolsa de tudo o quanto é jeito, com designers e matizes os mais diversos – eu aconselharia que Lula garantisse um malote de Bolsas Escolas para todos os membros do STF, já que, pelo andar da carruagem, está mais do que comprovado de que eles são completamente analfabetos. Enfim! Lula não sabe que crimes contra a humanidade não são prescritos? Desse modo, anistiar criminosos é assinar um atestado de burrice. E é por isso que a OEA e a ONU vão terminar condenando o Brasil por sua omissão... Quem não condenaria?


Nathalie Bernardo da Câmara




quarta-feira, 17 de novembro de 2010

UMA COISA É POLÍTICA;
OUTRA POLITICAGEM!


“A corrupção não é uma invenção brasileira,
mas a impunidade é uma invenção muito nossa...”.

Jô Soares
Humorista brasileiro


 
O legislativo brasileiro esquece que os jornalistas, quando querem, também comparecem as urnas e votam, elegem. Ou não! Digo isso porque a votação da Proposta de Emenda Constitucional nº 33/2009, de autoria do senador Antônio Carlos Valadares (PSB-SE), que restabelece a exigência do diploma de nível superior para o exercício da profissão, prevista para esta terça-feira, 16, foi, pela terceira vez, adiada por falta de quorum. Quanto desrespeito com a categoria! Segundo o site da Associação Brasileira de Imprensa - ABI, outra matéria sobre o mesmo tema aguarda igualmente ser votada na Câmara dos Deputados, que é a PEC º 386/2009, de autoria do deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS).

Tudo isso porque, no dia 17 de junho de 2009, o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal - STF, juiz Gilmar Mendes, votou pelo fim da mencionada exigência do diploma de jornalista e do devido registro no Ministério do Trabalho e Emprego - MTE para o exercício regular da profissão, cuja matéria ele foi o relator, apoiado pelos magistrados Carmén Lúcia, Ricardo Lewandowsk, Eros Grau, Carlos Ayres Britto, Cezar Peluzo, Ellen Gracie e Celso de Mello – todos, sem exceção, comprometidos apenas com o retrocesso da sociedade brasileira, menosprezando, e por completo, princípios considerados democráticos, bem como desrespeitando a liberdade de expressão e as conquistas da categoria dos jornalistas.

Ocorre que, com essa decisão, recheada de fascismo – uma prática típica dos regimes ditatoriais –, os magistrados desrespeitaram o direito do povo brasileiro a uma informação de qualidade. O único, contudo, que não foi conivente com o estupro cometido contra os jornalistas foi o ministro Marco Aurélio Mello, votando politicamente correto, ou seja, pela obrigatoriedade do diploma e do registro profissional da categoria no MTE. Enfim! À época, o presidente da Federação Nacional dos Jornalistas - FENAJ, Sérgio Murillo, considerou a decisão do STF “um prejuízo histórico” para o Brasil. Sem falar que Gilmar Mendes comparou a nossa categoria à dos cozinheiros e à dos costureiros, nivelando as três por baixo.






Desse modo, além de afrontar os jornalistas, o então presidente do STF, revelando, se não ignorância, puro reacionarismo, afrontou os que se dedicam à gastronomia e ao corte e à costura. O pior é que a influência nociva da sua decisão permeia, até hoje, o Congresso Nacional, já que a maioria dos seus parlamentares parece ignorar a aprovação das PECs que garantem o resgate dos direitos trabalhistas dos jornalistas, restituindo a nossa cidadania. Que a batata, então, esteja estupidamente quente quando Gilmar Mendes comer o purê, queimando a língua e calando as suas cordas vocais, um castigo devidamente merecido por ter indecente e gravemente – um abuso de poder – querido calar a boca da imprensa.

O mais grave é que quando isso aconteceu, o STF recebeu apoio do presidente do Senado, o senador José Sarney (PMDB-AP) – um dos mais favorecidos com a arbitrária decisão –, e do presidente Lula. Os dois, unha e carne, um sublime par de jarros, a conspirar contra a liberdade de expressão, a democracia e o povo brasileiro. Tanto que – é público e notório – por ter divulgado informações referentes a investigações, até hoje em andamento, realizadas pela Polícia Federal contra o empresário Fernando Sarney, filho do nada simpático senador, acusado de inúmeras falcatruas, o jornal O Estado de São Paulo está há 474 dias sob censura. Isso, sim, é que é exemplo de um governo ético e transparente!

Sei não, mas, certas pessoas insistem, teimosamente, em acobertar a verdade, esquecendo que mentiras têm pernas curtas. Falando nisso, ou seja, em um tema correlato, os repórteres Rodrigo Rangel, Rosa Costa e Leandro Colon, do Estadão, foram, no último dia 10, com a reportagem Senado usou 300 atos secretos para beneficiar amigos – Caso Sarney, os vencedores do 12º Prêmio Imprensa Embratel, recebendo o Troféu Barbosa Lima Sobrinho, a maior premiação do evento. Justiça seja feita! Só falta agora – não duvido de mais nada desse governo corrupto que aí está – Lula, Sarney e congêneres processarem a Embratel por conceder o prêmio e confiscarem o troféu dos jornalistas que, merecidamente, os recebeu.

Sem falar que, no dia 8 de dezembro de 2009, o Estadão já havia recebido o Prêmio Esso de Reportagem com a série Dos atos secretos aos secretos atos de José Sarney, dos respectivos repórteres que assinaram a reportagem vencedora do 12º Prêmio Imprensa Embratel. À época, ao receber o prêmio, a jornalista Rosa Costa criticou a censura sofrida pelo jornal em razão de uma liminar concedida pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal, devido uma ação movida por Fernando Sarney, que queria – e conseguiu – proibir o periódico de publicar informações sobre os seus negócios. Referindo-se à censura que cerceou a liberdade de expressão do Estadão, ela disse: — O mínimo que se pode falar é que é uma indecência. Outra indecência, divulgada pelo site da ABI, foi “a decisão da Justiça de proibir a revista eletrônica Consultor Jurídico - ConJur de noticiar dados sobre uma investigação contra um magistrado de São Paulo”. A seccional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil - OAB, por sua vez, em nota divulgada no último dia 11, discorda da medida porque considera a liberdade de imprensa “um dos pilares da transparência, da defesa do interesse público e do fortalecimento das instituições nacionais”. E mais: “Em uma democracia, a liberdade de expressão é fundamental”. Sei não, mas, se a coisa continuar assim, o mais sensato seria a renúncia de Sarney e o impeachment de Lula, mesmo que ao final do seu mandato...


Nathalie Bernardo da Câmara



sexta-feira, 12 de novembro de 2010

PELA LIBERDADE DE EXPRESSÃO!



“Se eu tivesse de decidir se devemos ter governo sem jornais ou jornais sem governo, eu não vacilaria um instante em preferir o último...”.

Thomas Jefferson (1743 - 1826)
Advogado e ex-presidente dos EUA




A Federação Nacional dos Jornalistas - FENAJ reúne-se neste fim de semana para analisar a situação da categoria no Brasil. Em carta encaminhada aos principais articuladores da Frente Parlamentar em Defesa do Diploma e das PECs que tramitam na Câmara e no Senado, a fim de garantir os nossos direitos, a instituição agradeceu o empenho dedicado as causas dos jornalistas, “em defesa dos trabalhadores e das principais bandeiras de luta da nossa categoria, particularmente a retomada da obrigatoriedade do diploma de nível superior em jornalismo como critério de acesso à profissão, e o controle público – transparente e democrático – dos meios de comunicação social”, incluindo a defesa das liberdades de expressão e de imprensa, bem como da democracia na comunicação no Brasil.




Pois é!



Nathalie Bernardo a Câmara

 
 

Diário de uma jornalista andante: lutar e falar o que inquieta o meu espírito, sempre!


Por Eliade Pimentel
Jornalista profissional


Parodiando a mim mesma, que escrevi alguns textos com esse título, resolvi relatar os meus anseios de uma frila nesse mercado em que as propostas de trabalho ocorrem na forma de “é pegar ou largar”. Com eu sempre levantei a bandeira de Independência ou morte! e saí da casa de minha mãe quando nem tinha 21 anos ainda, sei bem o que é viver do jornalismo.

Mas, antes de entrar em questões de sobrevivência, gostaria de enfatizar que minha carreira de jornalista em Natal é muito pautada pela minha forma atenta de observar tudo, que incomoda aos chefes, quando deveria ser o contrário (não gostam de repórteres abelhudos, preferem os que escrevem matérias como quem preenche formulários... Nesse caso, limitando-se à pauta!). Já fui demitida três vezes de jornais (duas vezes da TN [Tribuna do Norte]) e, desde então, não fui admitida em nenhum outro, porque devo ser crítica demais para os padrões atuais de acomodação.

Sou do tipo idealizadora, sonhadora, um tipo de jornalista em extinção, que pergunta, colhe, apura, mesmo quando não está trabalhando para nenhum veículo. Eu costumo utilizar o que observo e o que me incomoda como sugestões de pautas. Estou sempre enviando e-mails e telefonando para redações para dizer coisas do tipo: “Meg (TN), a reforma da casa onde funcionou a Setur, na Campos Sales com Mossoró, está parada há séculos, o que significa aquilo? Vamos lá, investigar?”.

Ou então: “Sheylinha (NJ [Novo Jornal]), conheço uma senhora que precisa receber remédios na Unicat para retardar a puberdade de sua filha, mas ela está esperando a medicação há três meses. Mande alguém lá, por favor, para ver se resolve...”. Não sou apenas denúncia, sou cultural também, e escrevo sugerindo matérias como algumas dos bailarinos da EDTAM que ganham concursos por aí afora e são desconhecidos e desvalorizados pelo próprio governo o qual eles representam lá fora.

Enfim, sou do tipo que liga para a Caern para falar de um esgoto que estourou em determinada rua, ou questiono o aluguel de uma casa na avenida Hermes da Fonseca, para o governo do estado, um imóvel conhecido como “Casa do Governador”, e que lá nada funciona. Porém, o jornal que eu sugeri a pauta não se interessou pelo assunto porque o patrão é amigo do proprietário da casa, alugada por “apenas” 5 mil reais, conforme me retornaram, portanto, nada de mais para o governo, que deixa faltar até gaze e soro fisiológico para o Walfredo Gurgel.

Confesso que tenho dificuldades para realizar meu trabalho como free-lancer porque tenho muitas atribuições e fica difícil conciliar todas as responsabilidades (aluguel, educação para a filha e todo o resto, além de não ter carro). Às vezes, atraso as demandas, mesmo assim, com todos esses percalços, realizo um bom trabalho, porque tenho mil contatos, boa memória, conhecimento de mundo e sou exigente com a qualidade do material produzido.

Amo escrever, entrevistar, informar, pesquisar e relatar, mas, mesmo sendo apaixonada pela profissão, tenho lá meus altos e baixos. Para compensar, gasto boa parte da minha energia na cozinha. Quem me conhece sabe bem que eu me viro de várias formas. Produzo tomates secos, granola, bolos de frutas, realizo pequenos buffets, enfim, nada profissional, embora eu consiga desenrolar um extra como esses afazeres. Foi a forma de não pirar com o jornalismo, que nos deixa de cabelo em pé devido à forma como somos tratados.

Ao notar a diferença da minha energia quando passo um tempo só cozinhando para fora, a minha filha (que está com sete anos) me aconselhou a deixar o jornalismo. E diante de minha pergunta: — Vamos viver de que? Inocentemente, ela respondeu: — Vai fazer bolos para vender. Ao ouvir essa resposta, o meu pensamento me levou ao tempo da ditadura, quando as receitas de bolo passaram a fazer parte do noticiário como forma de enrolar o brasileiro sobre a triste realidade do Brasil. Eu mesma achei graça da analogia rápida que fiz.

Aliás, nem precisamos ir tão longe. Afinal, o juiz que determinou a queda do diploma nos comparou a cozinheiros, que não precisam de cursos superiores para desempenhar bem as suas funções. É tudo uma questão de talento. Não concordando com o contexto, apenas com o texto em si, acrescento: para ser jornalista nessa terra nós precisamos ter um misto de sangue frio, criatividade, perseverança, “fé na vida, fé no homem, fé no que virá”.

E vocês devem estar se perguntando, por que não investir na carreira gastronômica? Porque o jornalismo é um vírus que nos consome o corpo e a alma. Cientes disso, os patrões, que sugam o nosso sangue, porque nós não sabemos viver sem isso, sem essa doença, surgem com propostas absurdas de retirar conquistas históricas. Mas, isso não vai ficar assim não, caríssimos senhores proprietários dos veículos e das agências. Vamos reagir!



quinta-feira, 11 de novembro de 2010

EU AINDA ACERTO UM!



“Botas... As botas apertadas são uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de tirá-las...”.

Machado de Assis (1839 - 1908)
Escritor brasileiro


Um grande evento internacional, que, espero, dê em alguma coisa, teve início hoje, 11 de novembro, e ocorrerá até o próximo domingo, 14, promovido pela Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado Federal, na Estância Ecológica SESC Pantanal, em Poconé, no Mato Grosso. O tema? Educação ambiental, a fim de salvar todos nós do aquecimento global. Segundo o jornal Correio do Estado, do Mato Grosso do Sul, o evento tem como objetivo “destacar o papel da educação e do meio ambiente no despertar da sociedade para um novo modelo de desenvolvimento econômico baseado na sustentabilidade e alinhado com os princípios do ecoturismo”. Entre os conferencistas, Isabel Martinez, dirigente do Programa de Educação Ambiental do Escritório Regional para a América Latina do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente - PNUMA; o jornalista e escritor libanês Amin Maalouf, vencedor do Prêmio Príncipe das Astúrias das Letras 2010; Michael Becker, coordenador do Programa Cerrado-Pantanal para Sempre, da ONG WWF-Brasil, e a senadora Marina Silva (PV-AC), em quem eu votei nas eleições presidenciáveis do Brasil, tentando mudar algo neste país e, quiçá, imprimir certa moralidade em sua condução.


Nathalie Bernardo da Câmara 




sexta-feira, 5 de novembro de 2010

MADE IN BRASIL

“O mundo é bonito...”.
Aldemir Martins (1922 - 2006)

Filho do sertão do Cariri, o desenhista, ilustrador, pintor, gravurista, ceramista, tapeceiro, escultor, cenógrafo e contador de histórias Aldemir Martins nasceu no dia 8 de novembro de 1922, em Ingazeiras, Ceará. De origens indígenas, por parte de mãe, e portuguesas, por parte do pai, e sob os auspícios da arte moderna, Aldemir foi autodidata, fazendo do desenho, com tijolo e carvão, um dos seus brinquedos de criança. Adolescente, aperfeiçoou a sua técnica, fazendo, inclusive, o mapa aerofotogramétrico de Fortaleza e, pelas pinturas feitas em viaturas do Exercito, foi agraciado com o seu primeiro prêmio, conquistado no concurso da Oficina de Material Bélico da 10ª Região Militar do Ceará, ganhando, assim, a alcunha, ou melhor, a patente de cabo pintor. Adulto, ele se profissionalizou, ganhando, entre outros, o mais importante de todos os prêmios: o Internacional de Desenho da XXVIII Bienal de Veneza, em 1956.

Aldemir com um ano de idade.


A mãe, Raimunda, e o pai, Mighel Martins.


Um colecionador de prêmios, Ademir ganhou três consecutivos só na Bienal de São Paulo: a I, de 1951; a II, de 1953, e a III, de 1955. Era um vencedor. E um exportador da cultura brasileira. Exportou cangaceiros, rendeiras, gatos, peixes, galos. Exportou pássaros. Exportou a força da natureza e a magia nordestinas. Exportou luzes, cores e tons. As luzes, as cores e os tons do Brasil, indo no âmago das suas temáticas, como quando, em 1951, realizou uma viagem ao Ceará e retornou a São Paulo de pau-de-arara, marcando profundamente não somente o homem, mas, também, o artista, cujos desenhos, que resultaram dessa experiência, retrataram com poesia e fielmente toda a complexidade nordestina, com as suas áridas paisagens e os seus elementos ásperos e rudes, embora imbuídos de sol e calor – calor esse que ele transmitia no aconchego do seu atelier, onde telas, pincéis e traços se confundiam.


Aldemir em seu atelier, São Paulo.


Uma sinfonia em preto e branco

“Meu novo desenho é antigo. Quando, em 1955, fiz uma série de cangaceiros líricos e truculentos, ninguém viu senão os cangaceiros, quero dizer: o assunto. Ninguém prestou atenção ao desenho, linhas, formas, manchas. Um mês antes de partir para Roma, aí por volta de julho de 1961 – oito anos depois dos cangaceiros –, retomei o filão e executei cinco ou seis desenhos, trabalhando o mais possível com manchas e formas. Outra vez, ninguém reparou nada. Paciência.



O Cangaceiro, 1952

(...) Nunca perdi o contato com as minhas origens. Me gabo disso. Retorno sempre ao Ceará, aos seus bonecos de pano, suas figuras de carvão na parede, seus bichos no tijolo da calçada, no muro do Náutico da praia Formosa, os navios sumários e poderosos nas fachadas das bodegas de cachaça do Pirambu. Volto aos vaqueiros “assinando” o gado, às louceiras fazendo formas de panela, bules, jarras e cacos de torrar café. E tudo isso que eu carrego comigo é o meu desenho. Sempre foi.

Sobre tudo isto meto o meu tracejado, que aprendi das rendeiras, ponto de mosca, cruz e bico, e rendas mesmo, trançado de palhas de chapéu de catolé e de caçuá de bananas. Bananas estão sempre cheias de desenhos amadurecendo. E as nódoas da banana e do caju na roupa da gente, fazendo desenhos belíssimos, você já viu? Tudo isto é o meu desenho, disso não quero e não posso me desvencilhar. Menino contando histórias e riscando no chão, ao mesmo tempo com ingenuidade e malícia, a malícia e a ingenuidade de quem sabe pescar de mão, seguir rastro de boi e caçar de visgo e arapuca. Arapuca que a memória me empresta para fazer o quadrado do meu desenho e nele aprisionar as “pessoas personagens” que invento e crio.

O que pretendo é uma imensa sinfonia em preto e branco, sons de longe, do nosso Ceará, música pianíssima às vezes, outras vezes como um trovão, mas música vista, entendida, representada, explicada por este cabra de Guiúba que adora sol, jangada, rendeira, onda de mar, cangulo, chuva, seriguela e cheiro de terra molhada. E mais curimatã prateada e cará escuro, assim como as manchas do meu desenho.

Manchas negras, pintas escuras, sombras que fogem do lombo das cavalas e se arrancham no meu desenho. Estas são as minhas raízes, que vou fazer?”.

Aldemir Martins





Cangaceiro, 1951


De 1951 em diante, após o prêmio recebido na I Bienal de São Paulo, com o trabalho Cangaceiro, feita à nanquim, Aldemir, que só tecia em preto e branco, introduziu a cor em seus traçados, cujo processo de criação era bastante peculiar. Segundo Aluízio Medeiros:

“Tendo a idéia plástica despertado em Aldemir Martins, ela é fixada nervosamente num primeiro esboço feito num pequeno pedaço do primeiro papel encontrado, mas que nunca ultrapassa de quatro centímetros de tamanho. Esse esboço é guardado (e Aldemir Martins possui centenas desses pequenos esboços enchendo caixas de charuto) até que a forma amadureça por completo em Aldemir Martins, quando então o esboço vai ganhando proporção, precisão e encaminha-se para atingir o desenho definitivo”.





Galo – 1964



Versátil. Essa seria a palavra ideal para definir Aldemir, já que ele transitava entre diferentes técnicas e fazia uso de diversos suportes: papéis de carta; cartões e telas de tecidos variados, além de reproduções de seu trabalho em pratos; bandejas; copos; canecas; latas de tintas; caixas de fósforo; embalagens de pizza e demais produtos, nos quais conciliava a produção artística e a sua comercialização.


“Me perguntaram o que era um artista comercial. Aí eu respondi, exatamente dizendo, que eu não conhecia um artista anticomercial. Porque tudo o que você produz, você tem que ter uma retribuição em espécie, ou uma permuta daquilo que você faz. A gratuidade do gesto não existe. A forma como você se comporta na rua, você está compondo a sua imagem. A imagem elegante, do relaxado, do nonchalant do homem simpático, charmoso, do antipático, sério, brincalhão...
Existe um pintor, o qual eu respeito muito e quero muito bem e que a crítica diz que é o maior pintor brasileiro e o mais sério. Eu digo, sério pros outros, porque não acredito que ele só saiba pintar bandeirinhas. Agora, por que é que ele pinta bandeirinha? Porque o cliente quer a bandeirinha! Por que eu pinto o meu cangaceiro? Porque eu sei pintar meu cangaceiro. Claro que vou vender meu cangaceiro! Eu vou vender o meu cangaceiro! Mesmo porque, a minha filha come, a minha mulher come, meu cachorro come, minha cachorra come, eu tenho que pagar o meu automóvel, tenho que pagar o meu rádio, minha televisão, minhas viagens. Tenho que pagar todos os meus livros que eu compro e que pouca gente tem...

As tintas, as telas... A moldura mais barata desta exposição custou 60 mil cruzeiros. Eu, prá sentar aqui nesta prancheta que você está vendo, pago ao governo 50 mil cruzeiros por mês. Senão, eu não posso sentar. É o imposto que eu pago pro imposto de renda prá começar a trabalhar”.

Aldemir Martins


Como ilustrador, além dos jornais e revistas onde se pôde degustar do seu traço, Aldemir ilustrou livros como O Navio negreiro, de Castro Alves (1847 - 1871); Os Sertões, de Euclides da Cunha (1866 - 1909); Itinerário de Pasárgada, de Manuel Bandeira (1886 - 1968); Vidas secas, de Graciliano Ramos (1892 - 1953); A Bola e o goleiro, de Jorge Amado (1912 - 2001)...


Capa de Os Sertões, de Euclides da Cunha; a cadela Baleia, personagem de Vidas secas, de Graciliano Ramos, e A Bola e o goleiro, de Jorge Amado.

No audiovisual, Aldemir fez a aberturas das novelas Gabriela (1975), de Walter Avancini, e Terra do sem fim (1981/1982), de Herval Rossano, exibidas pela Rede Globo, baseadas em livros do escritor Jorge Amado, criando, ainda, o cenário do I Festival de MPB da TV Record e de peças de teatro.


Cora Pabst e Aldemir Martins, Bodas de prata, 1977
O artista teve dois filhos: Pedro e Mariana



GALERIA


S/ título, 1952


Rendeira, 1954


Violeiro, 1956


Menino com pipa, 1956


Menino com cabaça, 1959


Bumba meu boi, 1962


Galo, 1962


Perfil de mulher, 1967


Rendeira, 1973


Gato, 1975


Mariana, 1976


Flor, 1976


Gato, cadeira e violão, 1976


Cangaceiro, 1977


Cangaceiro, 1980


Mulher na praia, 1980


Baiana, 1980


Macunaíma, 1982


Bumba meu boi, 1981


Gato, 1982


Caju, 1999


Para Aldemir, o caju faz a coisa mudar, literalmente, de figura: “O caju é caju amigo, é o símbolo da contagem do tempo, é o símbolo de uma época da cultura brasileira. Sabe, aquela coisa da guerra do cajú. O Brasil nunca completou o ciclo, né !? Acontece uma coisa, um fato novo e modifica. Quando a guerra do caju aconteceu, o Brasil foi descoberto. O caju se come, dá castanha na entressafra. Nessa época você usa a castanha do caju como massa, você usa o próprio caju azedo, como vinho, como bebida, como comida. Você chupa o caju e o bagaço, você corta e frita como se fosse camarão. Quer dizer é uma coisa de louco, né?! Você tem tudo o que possa imaginar com o caju. Assim como a carnaúba. São dois produtos brasileiros que dão aproveitamento total. A carnaúba chama-se árvore da vida por causa disso. Porque serve de remédio purgativo contra a sífilis, chá, torrada, serve como café, serve para fazer casa, chapéu, sandália, esteira... Você dorme, serve para enrolar morto, o palmito, serve para construir a casa...”.


Família de gatos, 2003


“O gatos tiveram uma maior aceitação do público,
mas não da crítica de arte”.


Sergio Peres




DEPOIMENTOS



“Eu deixo no bolso um monte de desenhos
e num dia resolvo pegar para pintar...”.

Aldemir Martins

“Dos artistas brasileiros [Aldemir Martins], é o único que tem estampado na testa, MADE IN BRASIL. Brasil com S”. – Carlos von Schmidt

“Aldemir Martins é um homem cultíssimo. Como dizem em certas regiões do interior do Brasil: é um poço de sabedoria”. – Nilson Moulin e Rubens Matuck

“Aldemir Martins tinha uma visão única do Brasil um olhar amoroso, pois observava o território nacional e o que nele existe como uma fonte de vida, uma fonte de beleza em abundância. O artista criava a sua versão da identidade nacional”. –
Jacob Klintowitz
“Neto de avó tapuia, filho de um modesto funcionário de pequena estrada de ferro do Ceará – que antepassados seus lhe terão transmitido a vocação plástica? Estou inclinado a pensar que os mais remotos ancestrais artísticos de Aldemir podem bem encontrar-se entre os desenhistas da Pré-história que deixaram nas paredes das cavernas de Altamira tão admiráveis figuras de animais. Lembro-me de ter visto a fotografia de um remotíssimo parente dos bichos do desenhista cearense.

Os primeiros trabalhos de Aldemir que tive a oportunidade de ver, me surpreenderam pela sua extraordinária qualidade decorativa e pela novidade da fatura. Lá estavam seus gatos, galos e peixes traçados a bico de pena, nanquim sobre papel branco, num desenho caprichoso, duma finura de renda, contrastando com a relativa simplicidade da estrutura das formas. E o curioso é que essa delicadeza quase feminina não enfraquecia, antes acentuava o vigor viril das figuras.

Os motivos dos desenhos desse moço de Ingazeiras eram de caráter regional e folclórico, com um alto quociente de pitoresco. Lá estava o Nordeste com sua paisagem magra e áspera, seus homens minerais – pedra e cobre – suas rendeiras, seus vaqueiros, suas divindades de origem indígena e africana e suas frutas doces e perfumadas, dessas que “às vezes apodrecem antes mesmo de amadurecer”. É possível e até mesmo provável que um homem incessantemente esporeado por uma curiosidade insaciável, como Aldemir Martins, um desenhista que na infância se encantou com as “nódoas da banana e do caju na roupa da gente, fazendo desenhos belíssimos” acabe fazendo repetidas incursões no campo do abstracionismo. Se isso acontecer (acho até que já aconteceu) só espero que nessas viagens aventurosas Aldemir não esqueça de levar consigo aquela bússola cuja agulha aponta sempre para o Norte de suas origens.” – Érico Veríssimo (1905 - 1975)

“O homem [Aldemir Martins] é vasto, vivido, gerador; santo nunca foi. Mas o importante é que ele soube deixar-se fluir pela intuição dos elementos da realidade do seu meio ambiente cearense, eventualmente aceitando que a razão interviesse, mas apenas na ordenação formal da obra. As etapas seguintes foram os reencontros com as origens e a grandes fases da sua natureza forte – do másculo espaço inicial ao do tempo – e a consequência de uma vaidade no essencial da unidade”. – Jayme Maurício (1927 – 1997)

“O primeiro gesto que o tornou famoso foi a linha rude, quase retilínea, que descrevia os também rudes tipos do seu Nordeste, particularmente o cangaceiro. Outros vieram depois – gatos, galos, peixes, figuras femininas – sempre surgidos de um esquema linear, no qual a silhueta e o desenho interior fortemente acentuado se integravam totalmente, criando o estilo Aldemir Martins – um dos mais fortes e pessoais que o desenho brasileiro já conheceu. Aldemir poderia continuar seus temas e sistemas formais até a exautão, sem que sua arte perdesse com isso – tal a força que dela emanava. Mas o amor nordestino pela cor, insidiosa e irresistivelmente, introduziu- se em seus desenhos e gravuras em preto e branco, até que eclodiu, como uma explosão, sua pintura”. – Flávio de Aquino

“A realidade não é um patamar, mas um degrau da escala interminável. E em cada degrau uma nova realidade espera o novo olhar. Assim é a pintura de Aldemir Martins.

Nas cores de suas cores e nas linhas de suas linhas, nas curvas de suas curvas de sol e de vulva nas frutas de sua mesa e na terra de suas figuras na alfombra de sua sombra e nas flores de sua tarde em todos os seus gatos que de dia são pardos a realidade voa como um pássaro. Operário de todas as cores Aldemir Martins pinta como quem ama e brinca na cama.

E à noite nasce o sol, embrulho de luz deixado no degrau da escada”. – Lêdo Ivo

“A obra de Aldemir Martins significa uma ruptura na Arte Brasileira, a partir do que ele estabeleceu como diálogo, um vocabulário profundamente Nacional, Raiz e Força de uma Terra exuberante, dourada pelo sol. Daí, estas flores, estes frutos nas naturezas mortas, estas figuras de mulheres morenas, estes cangaceiros e estas paisagens, memória de um Nordeste sofrido, estas marinhas, estes caranguejos e gatos, estes pássaros e peixes, tamanduás, estes sapos e borboletas, todos estes seres sabem a Brasil. Admirável, corajoso, ele derrama com vitalidade seu enorme talento, a cada aventura embarcada sem barreiras ou preconceitos, o que prova que a arte serve e sempre servirá para expressar toda a grandeza do sentimento humano, o pulsar da própria vida.

Daí estas pinturas marcam tanto quanto suas cerâmicas, esculturas, desenhos, gravuras, tecidos, móveis, luminárias e jóias.

Eis aí um artista que é também um mágico que a tudo toca e transforma e que por tudo é tocado. Eis aí um homem inteiro, honesto, generoso e amigo. Profundamente amigo, de bem com a vida e com o mundo”. – Emanoel Araújo

“Aldemir nos apresenta, acima de tudo, um obra fina, delicada, com raízes na mais pura tradição do desenho linear, universal pelas afinidades que tem com os mestres orientais sem, contudo, abandonar suas ligações formais com o Ocidente. Nas linhas cheias, cortantes e firmes está contida uma análise delicada, sintética, característica que Aldemir jamais abandonou. De toda sua obra se desprende humor, um bom humor permanente, sem literatura, sem descrições sentimentais”. – José Gomes Sicre (1916 - 1991)

“O desenho de Aldemir
possui inconfundível caráter nacional...”. – Jorge Amado (1912 - 2001)

“Gostaria muito que os artistas nacionais fossem amplamente conhecidos por todas as camadas da população, que a produção cultural brasileira fosse mais divulgada e incentivada, para que meu pai fosse reconhecido por todos, não mais por uns do que por outros e não como “o maior”, “o único”, “o melhor”, mas como mais um dentre os muitos que tentam melhorar a arte nacional e, certamente, um dos mais profundamente brasileiros.

Talvez nesse dia eu saiba responder o que é ser filha de um grande artista e não me sinta mais tão esquizofrênica”. –
Mariana Martins
A Realidade brasileira

Jacob Klintowitz


Aldemir Martins é o moderno artista viajante que registrou e deu fisionomia ao Brasil contemporâneo. A sua missão foi muito árdua. Ele apresentou ao país os animais que habitavam em suas terras, os peixes que nadavam em suas águas, as variadas e multicoloridas plumagens das aves. Além disso, revigorou e mostrou alguns de seus moradores-símbolos, como o cangaceiro e a mulher rendeira. No conjunto descritivo de seu país, este artista viajante não descurou da paisagem e registrou horizontes no limite da credibilidade, as luzes explodidas e fundidas no espaço e o sol, como um deus de energia e claridade, presidia esta atmosfera panteísta. É este o Brasil visto pelo seu filho andarilho, este colecionador de imagens e sensações.


Ninguém registrou a mais íntima realidade brasileira melhor do que Aldemir Martins. Ninguém registrou mais a realidade brasileira. De uma maneira não premeditada, ele fez um percurso completo pelo seu país e mergulhou na sua extensão física, marcou a sua flora e a sua fauna, os seus tipos humanos, os símbolos de sua saga. Mais até do que isso, Aldemir Martins impregnou-se de uma vivência particular e nos devolveu esta experiência única através da expressão plástica, na qual realizou um feito extremamente raro. Estas imagens são, ao mesmo tempo, elas mesmas e referências aos modelos e são, de maneira acentuada, marcas expressivas e estilísticas de um artista. Esta universalidade do particular, a identificação do momento humano e pessoal ao momento coletivo, esta vivência da individualidade e do natural e antropológico, é dado raro em nossa época. Talvez, na cultura especifica da tauromaquia, nós tenhamos um exemplo em Pablo Picasso. Entretanto, em extensão e profundidade. temporalmente alongada e prenhe de um sentimento dilacerado, mistura de observação e memória, é possível que não haja caso igual na arte contemporânea.

As proximidades comparativas do processo pessoal tornam-se tênues, no caso de Aldemir Martins. Há exemplos particulares e delimitados no tempo, momentos em que um artista dedicou-se ao entendimento de sua gente, das raízes antropológicas e do impacto dos elementos naturais. Ou ainda, o que é mais comum, artistas que se dedicaram a registrar e interpretar o páthos de seu povo, concentraram-se na figura humana e foram capazes de expres- sar a solidão e o progresso industrial e social. E. Hopper, o americano das solidões desalentadas, é o melhor exemplo disso e é profético como o estabelecimento da solidão, depois ampliada para o país e sua vivência internacional.

Aldemir Martins é diferente, em sua dinâmica, desses exemplos, aos quais podem ser agregados algumas centenas de outros. Ele não se especializou na vertente psicológica e nem transformou em heroísmo a manifestação primária e primitiva da emoção. Nem Hopper. nem Picasso. Em Aldemir Martins o heroísmo não está manifesto, mas se adivinha na saga de uma memória afetiva transformada, de maneira extremamente humilde e não narcísica, em fato real da existência de um povo e de um país. De tal maneira essas imagens tornaram-se públicas e patrimônio coletivo, que já não saberíamos o que são os nossos peixes, os nossos animais e a figura de cangaceiro, sem esta elaboração pessoal.

O nosso conhecimento passa pelo trabalho de Aldemir Martins, Hoje, a experiência da nação brasileira, a vivência de sua realidade íntima e o percurso do artista, estão unidos. É um prodígio de experiência coletiva quando a criação de um artista organiza as matrizes da percepção de seu povo. Aldemir Martins saiu diretamente deste povo, cruzamento de culturas, e voltou a ele através de sua manifestação artística. O registro e a interpretação individual tornaram-se uma vivência coletiva de percepção e conceituação.

É redundância dizer que Aldemir Martins trabalha com o assunto nacional, com o retrato do Brasil, E não é a verdade completa, uma vez que este retrato não existia anteriormente ao seu trabalho. A definição do país, de uma maneira sutil, foi inventada por Aldemir Martins. Esta invenção, do ponto de vista da criação artística, consiste em descobrir a face universal da imagem, a individualidade única e possível destas imagens e a transformação de signos ou concretitudes em valores simbólicos e psíquicos. Deste ponto de vista, o do processo criativo, Aldemir Martins articulou e tornou forma aquilo que eram aspectos fragmentados da nossa memória, intuição e conhecimento.

Se formos qualificar o artista segundo a sua iconografia manifesta, podemos dizer, contudo, que ele se coloca como um artista que trabalha com o assunto regional e que o seu estímulo nasce da observação do natural. Ele recolhe, observa, estuda, registra os dados da fauna, da flora e da tipologia social de uma determinada região. Esta qualificação e caracterização o diferenciam, em grande medida, da tendência geral da arte brasileira e dos movimentos internacionais das últimas décadas. A arte brasileira, a par destes movimentos internacionais e de suas habituais correspondências eruditas, trabalha com as manifestações da emoção ao nível do gesto, com a emergência de símbolos inconscientes e com a reflexão em torno das formas e suas interferências no mundo da tecnologia, da psicologia, da ciência e no desenvolvimento possível e histórico das próprias formas. Da mesma maneira, as tendências voltadas para a experiência fora das tradições artísticas, ligadas às experiências da psicologia experimental ou da recuperação imaginária de estados sociais primitivos e totêmicos, estão distantes do proceder de Aldemir Martins. Por esta breve qualificação, fica evidente que o artista está fora da corrente principal que informa a nossa arte e não tem correspondência imediata no interesse que é demonstrado em ultrapassar os limites da arte para uma vivência mística, primitiva e totêmica.

Não há limites claros para o exercício da criação de Aldemir Martins. Ele trabalhou em praticamente todos os segmentos existentes na sociedade brasileira. Aldemir, com maestria, exercitou-se nas técnicas tradicionais da pintura, desenho, gravura, cerâmica e escultura. E avançou, de acordo com o avanço dos meios de comunicação do país, nas áreas do desenho industrial, da ilustração e do trabalho eletrônico de séries televisivas. A sua abertura para uma das telenovelas de maior audiência do país, “Gabriela Cravo e Canela”, realizada a partir de romance homônimo de Jorge Amado, é uma das experiências mais emocionantes da televisão brasileira. É uma obra em que o artista junta, numa argamaça única, a sua qualidade expressiva de desenhista e pintor, o seu conhecimento das entranhas emocionais do pais, a sua percepção da comunicação em massa e a utilização dos meios tecnológicos modernos. Nessa abertura, suite preparatória, apresentação do tema, caracterização emocional da realidade e da motivação do telespectador, Aldemir.



Suite notável na nossa arte


Martins interfere diretamente no saber anônimo da população, oferece novos padrões de entendimento e produz uma abertura pioneira das possibilidades inerentes aos processos tecnológicos de comunicação.


Talvez, dada a integridade da motivação e da iconografia pessoal, não haja realmente limites para o artista moderno. Outra afirmação de nossa época. É por isso que o artista pode fazer padronagem de tecidos, ilustração de objetos cotidianos, decoração de formas industriais, murais e, ao mesmo tempo, conservar íntegro e em expansão o seu universo particular, a sua iconografia pessoal e a empatia entre o seu saber e o saber de seu povo.


Esta gama ilimitada de meios utilizados demonstra a participação do artista em sua época e no processo particular de seu país. Não é. simplesmente, que Aldemir Martins seja um artista múltiplo. É, antes de tudo, a verificação de que a época é múltipla e esta variedade pode ser fertilizada pelo saber individual, Não há. na ação do artista, uma discriminação entre o Bem e o Mal e ele não divide o mundo maniqueisticamente. O sol, deus de luz a presidir o seu universo cruel e veraz, é senhor de todos os seres e de todas as situações. O predador e a presa são, igualmente, criaturas do mesmo senhor.


Entende-se por que a sua obra, tão freqüentemente aproxima-se de manifestações primitivas como as africanas ou as etruscas ou, também, de anônimos registros em cavernas pré-históricas Ou, ainda, como seu desenho pode apresentar pontos de contato com o elaborado desenho oriental, realizado a partir de uma percepção zen da realidade. O processo de criação, a integração entre a mão e a mente, entre o sentimento e a memória, entre a intuição e o modelo representado, entre o ato de fazer e o ato de ser, são semelhantes. Aldemir Martins entrega-se a si mesmo. É um caçador na espreita de sua presa e é, simultaneamente, a paisagem onde está inserido, a própria presa e uma criatura semelhante às outras criaturas, obedece às mesmas leis e tem o mesmo senhor solar que ilumina e alimenta a vida.


Nas suas explosivas manifestações verbais, na enunciação das verdades intuídas e verificadas, na sua habitual não demonstração de sua realidade, Aldemir afirmou em entrevista: “O meu moderno é antigo”. O artista identifica a semelhança entre as ações humanas em várias situações. Ele não necessita discursar sobre o totêmico ou o espaço mágico da casa e da aldeia, pois, no seu trabalho, ele reafirma o caráter religioso da arte ao promover a integração entre o ver e o ser, entre o fazer e o objeto criado, entre a memória e o que é, entre a sua insaciável sede de conhecimento e o Universo como objeto de respeito, amor e fonte de vida. Aldemir Martins, dentro da modernidade de suas formas, utilizando todos os recursos con- temporâneos disponíveis, cria formas impregnadas de sacralidade.


Aldemir Martins é um caso único de unanimidade social. A sua correspondência é farta em depoimentos de escritores, poetas, pintores, anônimos. Todos encontram em seu trabalho fonte inesgotável de energia e conhecimento. Não é necessária uma explicação demorada para cada trabalho. Ele encontra eco na vida das pessoas. E, também, não é necessário ser um especialista em linguagem para perceber do que se trata. Ele ultrapassa a margem da arte brasileira e rompe com a sua secular solidão. Em Aldemir Martins não se passa essa dissociação entre público e obra de arte. Certamente, além das qualidades formais de seu trabalho, existe na sua obra uma carga de ancestralidade e do vigor primordial da sacralidade. Criar pode ser a repetição da primeira criação, a criação do mundo. Esta recuperação do mito primeiro confere sacralidade ao ato criativo, autentica o processo e comove e torna as pessoas, através da identificação, agradecidas e cativas da imagem.


Um trabalho de Aldemir Martins é facilmente identificado. O artista tem uma invisível marca registrada. Isto é um Aldemir Martins. Uma vez conhecido, ele é sempre reconhecido. Não só porque estilisticamente haja coerência entre as formas, mas porque elas, pelo seu lado, marcam, também, o interlocutor. O diálogo impede a indiferença e a indiferenciação. Podemos dizer, esta obra é de Aldemir Martins, como é comum afirmar entre a população brasileira na sua relação com o seu artista mais conhecido. E, da mesma maneira, também é possível afirmar: esta é a população brasileira. Aldemir Martins formaliza os fragmentos formais contidos nessa população, mas, mais importante do que isso, ele recupera para o seu país e a sua população o caráter sagrado de sua vida coletiva.


Aldemir Martins lembra os artistas viajantes do país, aqueles que vieram com expedições científicas e políticas e se dedicaram a registrbos usos, os costumes, as pessoas, a flora e a fauna. Na ausência de instrumentos éticos e eletrônicos de registro, o artista tinha o papel de fazer a memória do conhecimento. Uma espécie de inventário do paraíso. É forçosa esta comparação. Mas as diferenças são acentuadas e valorizam e individualizam o artista.


Em primeiro lugar, há esta individualidade. Aldemir Martins não está preocupado em ser veraz, do ponto de vista naturalístico. A sua obra não servirá para estudos acadêmicos em universidades distantes. E ele sabe do uso contemporâneo de instrumentos de registro. Mas, ao não pretender a objetividade do naturalismo, Aldemir Martins é mais veraz do que os viajantes, pois a sua observação traz para dentro da realidade a figura do observador. Ele não pretende esta objetividade desprovida da individualidade. Ao contrário, ele se revela a partir dessa individualidade. Essa diferença é notável e mareante.


Por outro lado, Aldemir Martins não está deslumbrado com o paraíso dos trópicos. A sua visão da realidade é mais complexa, não é exótica e idealizadora. A vida é bela pela sua dinâmica, não por uma visão adulcorada e falsificada. A beleza, se é que ela se coloca nesta obra, é a verificação de uma natureza feroz, lírica e comovente, iluminada panteisticamente e energizada por Apolo. O mundo é.


Aldemir Martins faz, a partir de diferenças tão marcantes, uma viagem diferente. Ele não precisa percorrer as extensões geográficas. ainda que o tenha feito, pois o seu mergulho é em direção a si mesmo.


Rememorar o existente, o visto e sabido, o conhecido e o escutado, é uma maneira de conhecer a si mesmo, Aldemir Martins se coloca. como artista, no mesmo universo de seu objeto de estudo. Ao fazer o itinerário do existente, ele descobre a si mesmo, ser atuante dessa mesma realidade. O que está lá fora é o mesmo que está aqui dentro.


Numa estada em Roma, Aldemir Martins alimentou e consolou a sua saudade com pequenos desenhos. Verdadeiras anotações, desenhos traçados diretamente, sem planejamento, anotações de sua alma e de sua saudade.


Nostalgia, saudade de seu lugar. Desenhos memorialísticos, pequenos esboços de um olhar para dentro, vivência mágica realizada através da imagem, viagem para dentro de si mesmo, itinerário imaginário de sua memória, recuperação de seu saber e oração em honra de suas emoções. Esta série memorialística é uma suite notável na nossa arte e a repetição do processo do artista. Ver e registrar o seu país como uma maneira de tornar, para si mesmo, mais evidente a sua existência. O desenho como criador do mundo e do ser. A mão empenhada na formalização de conceitos, o gesto determinado e sem correções como ponto essencial de contato, como sentimento do mundo e como verificação de que o que é, é, e a realidade não é fruto da imaginação, mas um sistema aberto e intercomunicante entre o ser e o ser do mundo.





No dia 6 de fevereiro de 2006, o escorpião que destilava o preto na cor e sonhava colorido, vagando igual coruja, feneceu igual flor, sob as cinzas de uma São Paulo em calor, deixando um legado de sonhos, os quais, inclusive, ele se deu ao luxo de sonhar e viver.



“Não posso fugir à temática nordestina.
Não posso negar a influência de tudo o que eu mastigo, respiro, como e vivo...”.

Aldemir Martins


Nathalie Bernardo da Câmara