sábado, 30 de junho de 2012

O PARADOXO DO TEMPO



Já o disse o escritor português José Saramago (1922 - 2010):

— Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo...


Consequências do aquecimento global

Por Wagner de Cerqueira e Francisco
Geógrafo brasileiro, integrante da equipe Brasil Escola.


O aquecimento global, fenômeno caracterizado pelas alterações climáticas e o aumento da temperatura média do planeta, por fatores naturais ou antrópicos, já tem desencadeado vários desastres ambientais. As consequências do aquecimento global são diversificadas e complexas, podendo gerar danos irreversíveis à humanidade.

Uma das consequências mais notáveis é o degelo. As regiões mais afetadas são o Ártico, a Antártida, a Groelândia e várias cordilheiras. Pesquisas apontam que a camada de gelo do Ártico tornou-se 40% mais fina e sua área sofreu redução de cerca de 15%. A Antártida perdeu mais de 3 mil quilômetros quadrados de extensão. A Groelândia também tem sofrido com o aquecimento global, fato preocupante, visto que seu derretimento pode provocar um aumento no nível dos oceanos de até 7 metros.

O derretimento dessas geleiras gera transtornos ambientais e sociais. Esse fenômeno altera a temperatura dos oceanos, causando um desequilíbrio ambiental e atingindo principalmente as espécies marinhas. A elevação do nível dos oceanos obriga que a população residente em áreas costeiras migre para outras localidades – estima-se que pelo menos 200 milhões de pessoas sejam afetados pelo aumento do nível dos oceanos.

Outras consequências do aquecimento global são a desertificação, alteração do regime das chuvas, intensificação das secas em determinados locais, escassez de água, abundância de chuvas em algumas localidades, tempestades, furacões, inundações, alterações de ecossistemas, redução da biodiversidade, perda de áreas férteis para a agricultura, além da disseminação de doenças como a malária, esquistossomose e febre amarela.

Portanto, o aquecimento global tem consequências extremamente negativas para a vida de todas as espécies do planeta. Sendo assim, são necessárias medidas para amenizar o processo de alteração climática, como, por exemplo, a redução da emissão de gases responsáveis pela intensificação do efeito estufa, garantindo, assim, uma relação harmoniosa entre homem e natureza.




Opa! Acho que troquei as charges. Afinal, o texto do geógrafo fala de “uma relação harmoniosa entre homem e natureza”. Vai ver, ou teremos de nos adaptar as mudanças climáticas ou, o que é mais sensato, tentar mudar o atual contexto, que provoca a instabilidade do clima, evitando, se possível, maiores danos, muitos dos quais irreversíveis. Enquanto isso, assistamos ao...






E a uma economia literalmente verde!



Falando nisso, em algum lugar do futuro...



E quanto ao princípio de tudo?



Como eu sei disso? Não sei. Só sei que foi assim...

Nathalie Bernardo da Câmara

quinta-feira, 28 de junho de 2012

RECICLAGEM: MENTES PEDEM PASSAGEM

Tradução: Obrigado por não sujar a sua mente.

“Deus não existe fora da cabeça das pessoas que nele creem. (...) O cérebro humano é um grande criador de absurdos. E Deus é o maior deles...”.

José Saramago (1922 - 2010)
Escritor português, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, no dia 17 de outubro de 2009.


Sem provocação – não vem ao caso –, muito menos sem a intenção de causar polêmica, sobretudo hoje, quando se comemora o Dia Mundial da Renovação Espiritual, acredito que nada impeça de que até mesmo o mais empedernido dos crentes faça uma reflexão, digamos, sobre a possibilidade, como disse saramago, da existência de Deus limitar-se à mente daqueles que nele creem. Porém, o mais agressivo e o mais grave de tudo isso é a constatação de que, ultrapassando os limites do preconceito – um direito que todos nós temos –, as pessoas que mais discriminam e execram os ateus são aquelas que, muitas por fanatismo, possuem uma dada religião e acreditam em Deus como um ser supremo e criador de todo o universo, distorcendo a realidade. Os ateus, por sua vez, tocam a vida numa boa, não somente desapegados da crença em Deus, mas, também, sem discriminar os crentes. E isso apenas por uma simples questão: o ateu respeita as diferenças. Não que pelo fato de os ateus respeitarem a individualidade do outro faça deles pessoas melhores do que as que não o são, mas apenas ressalta o que a maioria desconhece, ou seja: o ateu é ético por excelência. E tem bom senso.

Daí que, mesmo não sendo do meu feitio fazer apologia a nada nem a ninguém, embora, não importa qual a situação, defenda com convicção as minhas ideias, visto que não paira sobre elas sequer um grão de dúvida nem de hesitação, nem, muito menos, julgo as opções das pessoas, quaisquer que sejam elas – não é à toa que somos indivíduos e, portanto, cada um de nós tem a sua individualidade, que deve ser respeitada, bem como o direito a fazer escolhas –, nada justifica, por exemplo, guerras que são fomentadas e desencadeadas por motivações religiosas – já não bastam as que são engendradas por ensandecidos capitalistas, focados, única e exclusivamente, no acúmulo das suas economias mediante a apropriação indevida, por meios bélicos, das de outrem? Resumindo: a única diferença entre o primeiro e o segundo caso é o motivo que leva as suas eclosões, já que para detoná-las basta uma mente doentia, criminosa – nisso eles são iguais. No caso, contudo, das guerras motivadas por não importa qual religião, vale salientar que todas, sem exceção, tentam justificar as suas barbáries em nome de Deus ou, dependendo da crença, de outra identidade qualquer que tenha esse ser sobrenatural.

E fico a me perguntar que Deus é esse, ou não importa a identidade que conste no passaporte que lhe dão as mais diversas religiões, que, embora seja visto por muitos como um ser bondoso, caridoso e por aí vai, ao mesmo tempo não evita massacres, genocídios e por aí também vai. Por acaso seria Deus um caso típico de bipolaridade? Ou teria ele dupla personalidade? Ou não seria nada disso e, na verdade, no caso das religiões, ele não passaria de um laranja para justificar as guerras ditas santas? Afinal, não é sempre em seu nome que muitas atrocidades são cometidas? Então! Se assim o é, Deus no mínimo é conivente com os extermínios em massa, por exemplo, cometidos por seres de carne e osso e que, por isso, sangram – se são humanos, eu não sei, tenho as minhas dúvidas, mas que são mortais tenho plena certeza. Na verdade, os que usam o nome de Deus para os mais diversos tipos de crimes pouco se importam com ele nem, muito menos, se, de fato, o dito cujo realmente exista, já que, amparados por suas supostas motivações, o que verdadeiramente desperta os seus instintos criminosos, impelindo-os para as guerras, resume-se a uma única palavra: poder.

E isso também inclui os que adoram um conflito bélico! Se não provocarem um, não encontram satisfação. O pior, entretanto, é que eles nunca se satisfazem, visto que sempre estão a inventar não importa qual pretexto que possa justificar as mortandades que promovem. E tudo isso por qual motivo? Como eu já disse, por poder, mas apenas porque cobiçam riquezas que não lhes pertencem. Ora é porque uma dada nação produz armas nucleares e que, por isso, faz-se imperativo combatê-la; ora porque tem algum tirano que desrespeita os direitos humanos no seu país. Ora, tenha dó! Esse discurso já está tão batido que, hoje, até uma criança que tenha o mínimo de discernimento sabe que tais argumentos não passam de balela, que a razão maior de uma intervenção bélica num certo país é, por exemplo, as suas reservas de petróleo ou qualquer outro bem que, não passando nem mesmo pelo câmbio, rende uns bons dólares. Isso sem falar que, em tempos de aquecimento global, de degelo, de desertificação, de escassez de água, as próximas vítimas de predadores tão gananciosos serão os países que ainda detêm os seus recursos naturais em dia, como, por exemplo, os seus mananciais.

Enfim! Retomando ao tema principal desta postagem, embora, de certa forma, tudo esteja interligado, outro dia quase tive um troço, estupefata que fiquei, quando ouvi de um jovem, apesar de não tão jovem assim, primeiro devido à idade e segundo porque teve acesso à educação dita formal, a um ensino superior e a demais cursos, dizer, na maior naturalidade do mundo, sobretudo nos dias de hoje, onde, inclusive, o acesso a não importa qual informação está muito mais disponível do que antigamente, a ponto de tal fartura – de informação, no caso –, muitas vezes nos levar à exaustão por não termos nem tempo hábil para assimilá-la, que, desde criança, continuava acreditando na esdrúxula historieta de Adão e Eva – inclusa a serpente, óbvio! Aquela coisa toda da maçã, do dito pecado original e por aí vai. De imediato, num estalo, lembrei-me de um texto que escrevi à época em que Saramago andava às voltas com a divulgação e a polêmica repercussão provocada por Caim, livro publicado por ele em 2009, intitulado Que seja feita a vontade de Deus?Parte IIIAdão, Eva e a serpente, publicado originalmente neste blog no dia 1° de junho de 2010 e republicado no dia 14 de maio de 2011: http://abagagemdonavegante.blogspot.com.br/2010/05/que-seja-feita-vontade-de-deus-parte.html


A Serpente não tem nada a ver com nada

“Quem julga as pessoas não tem tempo para amá-las...”.

Madre Teresa de Calcutá (1910 - 1997)
Religiosa indiana de origem albanesa, agraciada com o Prêmio Nobel da Paz em 1979.


Sem querer prolongar-me demais, mencionarei en passant um livro para lá de instigante, que é Deus, um delírio, lançado em 2007, do biólogo Richard Dawkins, nascido em Nairóbi, no Quênia, mas radicado na Inglaterra, que, inclusive, em 2005, foi considerado um dos três intelectuais mais importantes da atualidade pela revista inglesa Prospect Magazine – em segundo lugar ficou o semiólogo e escritor italiano Umberto Eco e em primeiro o linguista e ativista político norte-americano Noam Chomsky, crítico contundente da política externa dos Estados Unidos. Bom! No livro de Richard Dawkins, segundo o jornal The Times, “a debilidade intelectual da crença religiosa é desnudada sem piedade, assim como os crimes cometidos em nome dela”. Tanto que, já no prefácio do livro, o autor faz referência a um anúncio publicitário de uma televisão britânica para divulgar um programa que ele próprio apresentava, ou seja, “uma fotografia da silhueta dos prédios de Manhattan com a legenda: Imagine um mundo sem religião. Qual era a ligação? A presença gritante das torres gêmeas do World Trade Center.

Imagine, junto com John Lennon, um mundo sem religião. Imagine o mundo sem ataques suicidas, sem o 11/9, sem o 7/7 londrino, sem as Cruzadas, sem caça às bruxas, sem a Conspiração da Pólvora, sem a partição da Índia, sem as guerras entre israelenses e palestinos, sem massacres sérvios/croatas/muçulmanos, sem a perseguição de judeus como ‘assassinos de Cristo’, sem os ‘problemas’ da Irlanda do Norte, sem ‘assassinatos em nome da honra’, sem evangélicos televisivos de terno brilhante e cabelo bufante tirando dinheiro dos ingênuos (‘Deus quer que você doe até doer’). Imagine o mundo sem o Talibã para explodir estátuas antigas, sem decapitações públicas de blasfemos, sem o açoite da pele feminina pelo crime de ter se mostrado em um centímetro”.

No prefácio, ainda, o próprio Richard Dawkins, convida o leitor “a pensar sobre as formas pelas quais a religião não é algo tão bom assim para o mundo”. No entanto, uma das suas maiores preocupações diz respeito à educação das crianças. Mais especificamente, diz uma apreciação de Deus, um delírio, ele “compara a educação religiosa de crianças ao abuso infantil”, dedicando o nono capítulo do livro a esse tema:

— Se você se sente aprisionado na religião em que foi criado, valeria a pena se perguntar como isso aconteceu. A resposta normalmente é alguma forma de doutrinação infantil. Se você é religioso, a imensa probabilidade é de que tenha a mesma religião de seus pais. Caso tenha nascido no Arkansas e ache que o cristianismo é a verdade e o islã é a mentira, sabendo muito bem que acharia o contrário se tivesse nascido no Afeganistão, então você é vítima da doutrinação infantil. Mutatis mutandis se você nasceu no Afeganistão.

E o autor prossegue, enfaticamente:

— (...) Quero que todo mundo estremeça quando ouvir uma expressão como “criança católica” ou “criança muçulmana”. Fale de uma “criança de pais católicos”, se quiser; mas, se ouvir alguém falando de uma “criança católica”, interrompa-o e, educadamente, lembre que as crianças são novas demais para ter uma posição nesse tipo de assunto, assim como são novas demais para ter uma posição sobre economia ou política. (...) Não existe criança muçulmana. Não existe criança cristã.

Enfim! Outra conscientização de Richard Dawkins é a de que “o ateísmo quase sempre indica uma independência de pensamento saudável e, mesmo, uma mente saudável. Existem muitos que sabem, no fundo do coração, que são ateus, mas não se atrevem a admitir isso para as suas famílias e, em alguns casos, nem para si mesmos. Isso acontece, em parte, porque a própria palavra ‘ateu’ frequentemente é usada como um rótulo terrível e assustador”. Para ele, “é evidente que há um longo caminho a percorrer. Mas os ateus são muito mais numerosos, especialmente entre a elite culta, do que muita gente imagina”. E acrescenta:

— Na verdade, organizar ateus já foi comparado a arrebanhar gatos, porque eles tendem a pensar de forma independente e a não se adaptar à autoridade.

Por fim, o autor acredita piamente que “há muita gente de mente aberta por aí: pessoas cuja doutrinação infantil não foi tão insidiosa, ou que por outros motivos não ‘pegou’, ou cuja inteligência natural seja forte o bastante para superá-la. Espíritos livres como esses devem precisar só de um pequeno incentivo para se libertar de vez do vício da religião” – vício esse, a meu ver, extremamente pernicioso. 


Ser ou não ser?

“A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade. Não pode fugir à discussão cria¬dora, sob pena de ser uma farsa...”.

Paulo Freire (1921 - 1997)
Educador Brasileiro


Uma das preocupações do biólogo Richard Dawkins, autor de Deus, um delírio, que diz respeito à educação das crianças, é, de fato, pertinente. E digo isso, por exemplo, por mim. Afinal, venho de uma família na qual, de ambos os lados, o catolicismo sempre predominou. De há muito, contudo, sou assumidamente ateia e, em nada, isso me constrange. Pelo contrário! Porém, quando os meus pais decidiram me batizar, não fugindo à regra de uma influência dominante, eu era uma recém-nascida, ou seja, uma coisa de nada, sem discernimento algum. Qual a serventia, portanto, de batizar ou, caso fosse outra religião, submeter uma criança a um ritual do qual ela nem conhecimento tem? No meu caso, sorte a minha que o filme do meu batismo queimou. Só não sei se antes ou durante a revelação – e que diferença faz? Então! Lá vem a primeira comunhão, que, aliás, nem mais lembro quando foi, guardando, contudo, desse evento, apenas vagos flashes. Posteriormente, a decisão – não minha – de estudar num colégio religioso, de padres italianos – espero que tenha sido porque o ensino era de melhor qualidade. De qualquer modo, nas aulas de religião – obviamente que uma disciplina obrigatória –, eu sempre dava um jeito de escapulir da sala. E conseguia. A meu favor? O padre que dava as aulas já havia iniciado um processo de surdez. No entanto, o difícil mesmo era ultrapassar – digamos – a área de conflito, desvencilhando-me do coordenador, o famoso bedel – obstáculo concreto. Resultado: dias eu obtinha sucesso, dias não. E, assim, foram-se alguns anos – época, aliás, que coincidiu com os meus 14 anos de idade, quando os católicos executam o ritual da crisma, que é a confirmação do batismo. Ora, confirmar o quê? Afinal, sequer fui consultada para emitir a minha opinião a respeito – e claro que eu não tinha nenhuma –, sem falar que nem mesmo uma vaga lembrança eu tinha do ocorrido. Não deu outra! Rebelde de natureza, bati o pé e disse que não tinha nada a ser confirmado, ou seja, que não iria me crismar. Se enfrentei resistência devido a minha decisão? Claro que sim! E, sobretudo, das avós, que, à época, ainda eram vivas. Porém, nascida sob o signo de Áries, quanto mais resistência eu enfrentava, maior era a minha convicção de que não compactuaria com algo que discordava. Além disso, por mais que a minha decisão contrariasse as expectativas de terceiros em relação a minha pessoa ou, no caso, ao meu futuro religioso, ninguém tinha o direito de me obrigar a cumprir com um ritual que, para mim, destoava de tudo o que, naquele tempo e de há muito, eu pensava, sentia e desejava, considerando que a minha mente já discernia, era independente. E nem adiantaria me arrastar até a Igreja! Eu já havia decidido e pronto! Sem possibilidade alguma de revogar a minha decisão. Os meus pais, por sua vez, respeitaram-na, fazendo, desta vez, a coisa certa, agindo politicamente correto. Desde então, só entro numa igreja, que é um excelente banco de dados, assim como cartórios e cemitérios, se for para pesquisar algum fato histórico referente ao séc. XIX, o meu preferido, ou, senão, para fotografar algum evento relacionado a algum trabalho que eu esteja fazendo ou, ainda, se a igreja em questão for tombada como um monumento, tipo as de Ouro Preto, em Minas Gerais. Enfim! Quanto ao diálogo – digamos – da ilustração acima, entre os dois bonequinhos... A resposta dada por um deles tem, no máximo, duas leituras: dizer “graças a Deus” tornou-se, como se diz, forma de falar, tipo “ainda bem”. A outra leitura, talvez a mais sensata, é a de que graças à insistência da maioria na crença de que Deus existe, é óbvio que um nome seria encontrado para classificar, ou melhor, rotular quem não acredita. Então! Se existem ateus é porque há quem acredite em Deus. Caso contrário, ou seja, se ninguém acreditasse na existência de Deus, não haveria motivo para alguém ser ateu – é óbvio! Ai, ai... Bom! Como tenho de finalizar esta postagem, aproveito o ensejo para transcrever um dístico que escrevi aos 23 anos de idade. Ele diz o seguinte:

O crucifixo como presente de uma primeira eucaristia:
Tirei-o de mim, joguei-o as cinzas... Do nada!

Nathalie Bernardo da Câmara



quarta-feira, 27 de junho de 2012

PEC DOS JORNALISTAS: PELA APROVAÇÃO JÁ!



FENAJ convoca mobilização nacional pela votação da PEC dos Jornalistas

Federação Nacional quer que o Senado vote ainda em julho


Atendendo à orientação da FENAJ, os Sindicatos de Jornalistas preparam atividades para reivindicar, nas próximas sessões do Senado, a votação em 2º turno da PEC 33/09. O movimento “Aprove Já” busca assegurar, antes do recesso parlamentar de julho, a aprovação da proposta que restitui a exigência do diploma de jornalismo como requisito para o exercício da profissão.

Com todo o ritual de tramitação já cumprido, a PEC 33/09, de autoria do senador Antônio Carlos Valadares (PSB/SE), está pronta para votação. A expectativa é de que a falta de quorum das sessões no plenário do Senado verificada em várias sessões seja revertida nos próximos dias, após a realização da Conferência internacional Rio + 20. Tal indicativo ficou mais fortalecido após reunião de líderes para definição do ritmo de trabalho e prioridades de votação antes do recesso parlamentar.

A orientação da Executiva da FENAJ e do GT Coordenação Nacional da Campanha pelo Diploma é de que cada Sindicato faça contato diário com os senadores do seu estado para solicitar que compareçam às sessões e garantam a votação antes do recesso. Foi orientado, também, o envio de mensagens por e-mail – movimento que deve ser ampliado com a participação de jornalistas, professores, estudantes de jornalismo e apoiadores da campanha - reivindicando a imediata votação, a exposição do selo da campanha, "PEC do diploma Aprove já", em "pop up" ou outra forma de destaque nas páginas eletrônicas das entidade e o incentivo à categoria e apoiadores a fazerem pressão via facebook, twitter, blogs e todas as redes sociais possíveis.

Foi encaminhada, ainda, solicitação às entidades do campo do Jornalismo como o Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ) e a Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor) para que fortaleçam o movimento estimulando Cursos de Jornalismo a também se manifestarem e organizarem ações, se possível ocupando espaços nas Rádios e TVs universitárias para divulgar a campanha.

Diretores da FENAJ e de Sindicatos de Jornalistas ampliarão, também, o acompanhamento diário das sessões no plenário do Senado, inclusive informando o total de assinaturas já arrecadado pelo abaixo assinado virtual, que até o final desta semana já somava mais de 12 mil apoios.

27 de junho de 2012

Link da nota divulgada pela FENAJ:

terça-feira, 26 de junho de 2012

O MEU AMIGO DOS DESENHOS

Edmar Viana por ele mesmo – Reprodução da ilustração da página na qual Edmar dedica o livro Cartão Amarelo30 anos, publicado em parceria com o jornalista brasileiro Everaldo Lopes, publicado sob os incentivos fiscais da Lei Câmara Cascudo (n° 7.799) – Governo do Estado do Rio Grande do Norte, em 2003.

“Edmar não era apenas chargista. O seu humor era circense: ele era um palhaço do traço...”.

Ivan Cabral
Chargista e artista gráfico brasileiro, natural de Areia Branca, no Rio Grande do Norte, mas radicado em Natal.

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“O humor, numa concepção mais exigente, não é apenas a arte de fazer rir. Isso é comicidade ou qualquer outro nome que se escolha. Na verdade, o humor é uma análise crítica do homem e da vida. Uma análise não necessariamente comprometida com o riso; uma análise desmistificadora, reveladora, cáustica. Humor é uma forma de tirar a roupa da mentira e o seu êxito está na alegria que ele provoca pela descoberta inesperada da verdade...”.

Ziraldo
Pintor, cartazista, jornalista, teatrólogo, chargista, caricaturista e escritor brasileiro, em depoimento a revista Veja no dia 31 de dezembro de 1969.


O ano? 1997. Trabalhando em conjunto com a Secretaria de Turismo da Prefeitura Municipal de Nísia Floresta e do então Conselho Municipal dos Direitos da Mulher e das Minorias de Natal para a promoção de um evento na cidade berço da educadora e escritora brasileira Nísia Floresta (1810 - 1885), fiquei encarregada da elaboração de uma espécie de cartilha sobre aquela que é considerada a pioneira do feminismo no Brasil, a ser distribuída durante as comemorações dos 187 anos do seu nascimento, no dia 12 de outubro. Durante, portanto, a idealização da tal cartilha, eu achei que, se a ilustrasse, tornaria a leitura do seu conteúdo mais palatável, sobretudo para os alunos das escolas do município, o meu principal foco. Ocorre que, pelo fato de, dois anos antes, ter iniciado as minhas pesquisas sobre a feminista norte-rio-grandense, cujo objetivo era o de escrever o roteiro de um documentário para o cinema sobre a sua vida e obra e, de quebra, como se diz, traduzindo, do francês para o português, o último dos livros publicados por ela – em 2001 a tradução foi publicada pela Editora da Universidade de Brasília –, sabia que estava restrita a três, no máximo a quatro imagens que retratavam Nísia. E todas, inclusive, já bastante utilizadas por terceiros, portanto, desgastadas. De imediato, como é do meio feitio, achei que poderia ser interessante, inclusive inovador, ilustrar a cartilha com desenhos de Nísia a partir das imagens que dispunha. Afinal, como eu diria, tempos depois, na introdução de um livro, ainda inédito, que escrevi para ser ilustrado com tiras e se tornar uma história em quadrinhos: sou uma “apreciadora do humor característico desse ofício”. Enfim! Tomada a decisão, telefonei para um amigo que, em 1993, havia conhecido em Paris, o paraibano Henrique Magalhães, mestre em fanzine e, à época, na iminência de se tornar doutor em história em quadrinhos, além de ser o pai da polêmica Maria, personagem criada por ele, em 1975, que se tornou uma ilustre e enfática porta-voz do combate e da resistência à ditadura militar no Brasil (1964 - 1985), cujas estripulias eram publicadas em tiras nos jornais de João Pessoa. Porém, acumulado de tarefas desde que retornara da França, dando aulas etc, Henrique lamentou e disse que, infelizmente, não poderia me ajudar, perguntando, contudo, onde eu estava. Respondi que em Natal. Foi aí, então, que ele me disse:

— Criatura, você tem aí um cara que, com certeza, topará fazer as ilustrações!

Perguntei quem era e fiquei sabendo que se tratava de Edmar Viana, chargista e ilustrador potiguar. Surpresa com a indicação, disse:

— Não é aquele do Cartão Amarelo?

O meu amigo confirmou e eu, que só conhecia Edmar de nome, através das divertidas charges que, juntamente com Everaldo Lopes, jornalista pernambucano, ele publicava na imprensa local desde que eu tinha cinco anos de idade, e porque havia sido professor do meu irmão na Universidade Potiguar (UNP), retruquei:

— Sei não, Henrique, esse cara deve ser muito ocupado...

— Ocupado ele é, sim, mas também é gente muito boa. Edmar é genial!

Fiquei ouvindo, já que o meu amigo, que, inclusive, era fã do trabalho colega, passou a enumerar demais predicados acerca de Edmar, deixando-me, contudo, hesitante, dizendo que se o cara era tudo aquilo, era bem capaz de ele não me receber.

— Que nada, Nathalie! Deixa de bobagem e fala que fui eu quem o indicou. Vá, procure por ele...

Seguindo, portanto, a sugestão que me havia sido feita por Henrique, dei um jeito de conseguir o telefone de Edmar e, apesar de titubear, liguei para ele, logo chamando a minha atenção a sua informalidade e pontual disponibilidade para sentar e conversar comigo a respeito da cartilha sobre Nísia Floresta. Marcamos, então, de nos encontrar e lhe passei a minha ideia, de cara “topando”, como havia dito o meu amigo, fazer uma parceria. Eu escreveria os textos e ele os ilustraria. Perguntei quanto cobraria pelo trabalho e, para meu espanto, ele disse que nada. À ocasião, nem acreditei. Afinal, seriam nove ilustrações e isso ocuparia o seu tempo. Só que ele foi irredutível e ficou por isso mesmo. No correr dos dias, contudo, nas minhas idas ao jornal para tratarmos do projeto e certa vez num barzinho, percebi que estava diante de uma pessoa ímpar, de um ser humano singular, de bem com a vida e, sobretudo, com ele mesmo, além de ser um artista nato. Resumindo: Edmar era o humor encarnado. Sempre muito eloquente, era o tipo de pessoa que só poderia mesmo se tornar um chargista, visto que, não importava o assunto, banal ou não, ele sempre fazia uma piada. Era um moleque. Sim, mesmo sendo, como se diz, um homem grande – e de altura também –, era um moleque, tal qual a personagem Pivete, que ele criou em 1980, e que também não tinha papas na língua. Eu, que não ficava atrás, apesar da minha estatura mediana, costumava igualmente fazer algumas piadas. E foi assim que, entusiasmada pelo humor que embalou o nosso trabalho, certo dia cheguei ao Conselho da Mulher com o material que havíamos produzido debaixo do braço para mostrá-lo a sua então presidente, Isaura Amélia Rosado, hoje secretária de Cultura do Rio Grande do Norte, bem como à Marilene de Brito, que, à época, era secretária de Turismo do município de Nísia Floresta, não demorando muito para que o conteúdo da cartilha fosse aprovado. E uma questão pairou no ar. Quem iria imprimi-la. A ideia foi a de que a Fundação José Augusto fizesse isso por nós. Falamos, portanto, com o jornalista Woden Madruga, que a presidia, e ele, então, disponibilizou o maquinário da gráfica da instituição para tal fim. Desse modo, o evento estava completo. E, como já disse antes, foi realizado na data prevista, ou seja, no dia 12 de outubro de 1997. Assim, quando isso aconteceu, a antiga Papary tornou-se palco de atividades várias.

Falando nisso, no bojo das atividades, teve, ainda, além de palestras, uma visita ao mausoléu que guarda os restos mortais da educadora Nísia Floresta, cujo traslado, aliás, da França, onde ela morreu, para o Brasil, data de 1954 – coisa que, inclusive, para quem conhece a história de Nísia Floresta, nem deveria ter acontecido. Mas, essa é outra história. E não me apetece contá-la aqui, pois já a conto no meu roteiro...


Uma das ilustrações feitas por Edmar Viana para a cartilha Da aurora ao crepúsculo (1997). Detalhe: a frase da ilustração foi ideia dele...


Enfim! O título escolhido para a tal cartilha, que – imagino –, quem teve acesso a algum exemplar, guarda-o até hoje, sobretudo os alunos – meu público-alvo, em particular –, foi Da aurora ao crepúsculo, nome, inclusive, do filme que ainda pretendo realizar sobre Nísia Floresta, e o seu conteúdo dividido em duas partes: Os Escritos nisianos e Os Temas abordados por ela na sua vida e na sua obra. A primeira parte, portanto, compreende ao seu ofício de escrever, ou seja: Nísia, a jornalista, a tradutora e a escritora, enquanto a segunda parte fala da mulher, da educação e do feminismo – no qual está inserida a sua porção educadora; do drama do índio brasileiro; do negro no Brasil; das ideias republicanas; do positivismo; do misticismo e das religiões, sendo, contudo, ambas as partes antecedidas por uma introdução, na qual pincelo passagens da biografia de Nísia, finalizando a cartilha com um poema, de minha autoria, e da bibliografia – títulos em português, francês, italiano e em inglês – da minha biografada. Bom! Durante todo esse processo, em meio ao qual eu escrevia os textos da cartilha e Edmar encarregava-se das ilustrações sempre com o seu traço tão peculiar, nos tornamos amigos. O curioso é que, depois disso, nas vezes em que me referia a ele, eu costumava dizer “o meu amigo dos desenhos”. Ele, por sua vez, chamava-me de “tinhosa”. Não por ser teimosa, mas obstinada em tudo o que me propunha a fazer – e continuo o sendo. O sotaque nordestino de Edmar, por sua vez, era uma graça. E ele sentia orgulho disso. Eu, que, por onde passo, sinto o meu se metamorfoseando, reparava no dele, acentuado. Quando contava piadas, então! Impossível não ser contagiado pelo bom humor de Edmar, capaz, inclusive, de tirar nem que fosse um furtivo riso dos mais empedernidos. Os anos, entretanto, foram passando. Cada um tocando a vida. Ele em Natal e eu por aí... Certa vez, em 2005, de passagem por Natal, fui procurá-lo na Companhia Energética do Rio Grande do Norte (COSERN), onde, por anos, ele havia trabalhado como analista de sistema – Edmar formou-se em matemática –, mas, à ocasião, gerenciava o Departamento de Comunicação e Relações Sociais da empresa. Eu sabia, portanto, que ele era um dos poucos que fazia de um tudo, como dizem os goianos, para apoiar os mais diversos projetos culturais no Estado, patrocinando espetáculos de música, teatro e publicações de livros.

Então... Tendo recebido o certificado da Lei Câmara Cascudo, autorizando-me a captar recursos para o meu filme sobre Nísia Floresta, corri para ele. Com o coração apertado, Edmar disse que, infelizmente, a COSERN não patrocinava cinema, estando, assim, além da sua alçada liberar os recursos necessários para a realização do longa-metragem – imagine o drama do moço, que sempre apoiou o meu projeto de levar a vida de Nísia às telas... O fato é que, por mais que quisesse, ele estava impossibilitado de me ajudar: “Eu não posso, neguinha...”. E deixei o assunto quieto. Deixei-o quieto. Ele, contudo, disse-me que, quando tudo estivesse arranjado, captação de recursos, pré-produção, essas coisas, ele faria o site do filme – infelizmente, continuo no aguardo de patrocínio para realizá-lo. Bom! Posso não ter saído do nosso encontro com a garantia do apoio cultural que buscava, mas, pelo menos, não sai com as mãos abanando: à ocasião, Edmar me presenteou com um exemplar do livro Cartão Amarelo30 anos, uma amostra das crias geradas por ele e pelo jornalista Everaldo Lopes ao longo de três décadas, inicialmente no Diário de Natal, a partir de 1973, e, depois, na Tribuna do Norte, para onde a dupla transferiu-se em 1988, ou seja, o livro seria uma celebração, digamos, das bodas de pérola da parceria. E eis a carinhosa dedicatória que escreveu para mim...



Segundo dados do livro mencionado, Edmar ingressou no movimento do Grupo de Pesquisas em Histórias em Quadrinhos (Grupehg) em 1975, publicando tiras e histórias em quadrinhos em diversas revistas, sendo muitas das suas charges temas para questões de vestibulares da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), bem como publicadas na imprensa nacional. Os anos passando e, em 1987, foi coautor, juntamente com Ivan Cabral e os chargistas Cláudio de Oliveira, Roberto Solino e Manuel Vaz de O Chafurdo, um tabloide de humor que circulou em quatro números; em 1988, pela editora Marca de Fantasia, do meu amigo Henrique Magalhães, Edmar publicou Pivete e, durante o governo de Fernando Collor, foi coautor, novamente com Cláudio de Oliveira e Ivan Cabral, além de Emanoel Amaral, do livro Já Era Collor. Em 2008, em Brasília, informaram-me do seu estado de saúde abalado e, através de uma amiga em comum, lhe enviei um e-mail, pedindo que ele vivesse para poder continuar a fazer aquilo que mais gostava, ou seja, desenhar – tempos depois, descobri que as minhas palavras nunca pousaram em suas mãos, mas apenas porque não lhes foram entregues... Enfim! Inocentemente, pensando que ele havia recebido e lido o meu e-mail, no qual, inclusive, eu lhe contava de um projeto então recente, que era um texto para um livro de quadrinhos, que, aliás, ainda permanece inédito, pois não encontro quem o ilustre, quando soube que ele havia tido uma melhora, quis entrar em contato, mas não consegui. O fato é que eu só ia perguntar se, quando ele estivesse legal, de volta ao batente, firme e forte, aceitaria a proposta anteriormente feita, que era a de ilustrar a minha história. De repente, contudo, uma nova recaída. E o telefone toca. Era a minha mãe, ligando-me de Natal para dizer... Bom! Para me contar – digamos – da falha no script da história de Edmar. Era Outono, literalmente, quando as mais belas folhas fenecem e, ao cairem, são levadas ao vento sabe-se lá para onde. O dia? 25 de março. Porém, ontem, 25 de junho, caso ainda estivesse cá, por estas bandas, rabiscando uma ideia qualquer, Edmar estaria completando 57 anos de idade, ou seja, um menino, brincando de desenhar. Falando em bandas, ele fundou, em 2004, o bloco carnavalesco Poetas, Carecas, Bruxas e Lobisomens – Vigi! Um presente, entretanto, bem ao seu estilo, a praia de Ponta Negra. É, coisas de Edmar.

E fico a lembrar de uma vez em que o encontrei no aeroporto de Natal, embora não saiba precisar o dia, mas, com certeza, foi entre 2005 e 2008: ele estava com a mulher, Iracema, num dos balcões da praça de alimentação. Aproximei-me, sorrateira, e dei dois leves toques nas suas costas, igual criança pequena. Ele, então, se virou e, quando me viu, foi aquele abraço! E, também, a última vez em que nos víamos. Agora, eu diria que foi a nossa despedida, ambos indo para um canto diferente, tomando o seu rumo...

Nathalie Bernardo da Câmara

PS: Folheando o exemplar do livro que Edmar presenteou-me, selecionei algumas charges que, além de extremamente criativas, são por demais atuais. Todas, inclusive, do período que foi disposto no livro, ou seja, de 1994 a 2003 – espero que ele goste da minha lembrança. E só não escrevi e publiquei esta postagem ontem porque tive uma baita crise de tendinite. Sem trocadilhos, ossos do ofício.














E voilà!




segunda-feira, 25 de junho de 2012

ECONOMIA VERDE: EIS A QUESTÃO

“A toda ação corresponde uma reação igual e contrária...”.

Isaac Newton (1642 - 1727)
Físico, matemático e astrônomo inglês.


Diante do leque de variantes – haja redundância! – acerca do conceito da tão decantada e propalada economia verde, cujo real significado muita gente nem sabe ainda qual é, achei que talvez pudesse encontrar na mitologia grega uma história que, através de uma analogia, fosse capaz de explicar, de maneira plausível e até mesmo didática, tal questão. Coisa simples, tipo: a história de Apolo, Creusa e Íon. Ou seja: certo dia, Apolo resolve abusar sexualmente da indefesa Creusa, filha de um rei de Atenas, estuprando-a. Da violência, portanto, cometida por aquele considerado o deus da beleza e da verdade, nasce Íon, que, logo após vim ao mundo, é abandonado, num gesto de repulsa, numa caverna qualquer, entregue à própria sorte, por aquela que o gestou contrariada. Ponto. Ou melhor, corta! – como se diz no cinema. O resto da história? Não interessa. Não neste caso. Enfim! Quem, hoje, seria Apolo? O capitalismo, um sistema econômico que, predador, se sustenta nas aparências, querendo, arrogantemente, ditar os rumos do mundo. Creusa? Os recursos naturais, espoliados pelo capitalismo a seu bel prazer. E Íon? A economia verde, fruto de um estupro. Agora, se pularmos para a química, Íon nasceu com dupla face, tendo, desse modo, um lado bom, positivo, e um lado ruim, negativo. Seria como a beleza e a verdade de Apolo, ou seja, relativo, já que, na vida, nada é absoluto. Íon, portanto, por ser originário de uma miscigenação racial, é imprevisível, mas não as suas ações, que herdou do seu genitor. De qualquer modo, podemos, sim, antever os benefícios, mas, principalmente, os prejuízos, maiores em gênero e grau, decorrentes da sua imprevisibilidade. Os genes de Creusa, entretanto, apesar da supremacia que lhe é intrínseca, herdados, por sua vez, do pai, rei do berço da civilização, pouco ou nenhuma influência têm para impedir as ações nefastas de Íon, visto que a aparente soberania do capitalismo costuma prevalecer. No entanto, por não ser supremo, ele não disporá de poderes para maquiar as desastrosas consequências decorrentes das ações engendradas por seu rebento. Resultado: no final das contas, do balanço geral, de todos os cálculos feitos, a força natural de Creusa, o seu dom, irá, inevitavelmente, derrotar não somente o seu algoz, mas, também, o fruto que desabrochou da semente já podre que, a sua revelia e brutalmente, ele depositou no seu ventre. E isso exatamente por estarem esgotados todos os seus recursos. É dialético! Falando nisso, para quem não sabe, adianto que a história mitológica, como se costuma esperar de todo e qualquer drama, tem, digamos, um final feliz, embora eu não saiba como, considerando que não houve embasamento emocional para isso. Porém, como se trata de um mito, de uma ficção... Bom! Quanto a nossa analogia, tudo indica que o desfecho da história dita real, previsto, inclusive, desde o seu début, dar-se-á pelo viés da dramaturgia, ou seja, será uma tragédia, a qual, aliás, mesmo que eu quisesse, não poderia contá-lo. Nem com analogias nem, muito menos, com poesia. Afinal, quando isso acontecer, quando o espetáculo já tiver acabado e caído o pano, não estarei mais aqui. Nem você. A não ser, claro, se mudarmos tudo. A começar pelo formato da história: não mais uma peça para teatro, mas um roteiro para cinema – a sétima arte, vale salientar. E isso sem falar que o número 7 é cabalístico. Enfim! Mudado o formato da história e a narrativa em si, escolhe-se Godard para ser o roteirista e o diretor do filme. Quanto aos atores, muda tudo também! Assim, ao invés de um filme com papéis principais e secundários, além dos figurantes, todos serão protagonistas, incluindo os espectadores, de uma nova história, que, inclusive, como bem o disse o cineasta francês: “Não tente entender, apenas sinta...”. O título do filme? O Futuro que queremos.

Nathalie Bernardo da Câmara

domingo, 24 de junho de 2012

LEONARDO BOFF E A ECONOMIA VERDE

Economia verde: sim e não*

Por Leonardo Boff**
Teólogo, filósofo, escritor e ambientalista brasileiro


A grande proposta que, seguramente, sairá da Rio+20 no nível oficial da Encontro dos representantes dos povos é a economia verde. A intenção é promissora: “economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza”. Analisando o texto oficial, calcado sobre um documento do PNUMA Iniciativa de Economia Verde, se percebe que não difere nas metas e nos processos do clássico desenvolvimento sustentável. No fundo, se trata da mesma coisa. O documento da ONU evita o desenvolvimento sustentável como tema central, pois tem a consciência da banalização e do desgaste desta expressão. Como denunciava recentemente Gorbachov: ele se revelou insustentável, “engendra crises, injustiça social e o perigo de catástrofe ambiental” (O Globo, 09/06/2012). A expressão mais adequada e menos ambígua seria uma economia de baixo carbono.

Já fizemos críticas desta versão da economia, o caráter ideológico do mesmo capitalismo que já conhecemos, agora com a máscara de verde. Mas, já que se impôs a expressão economia verde, vamos tentar desentranhar o que de positivo possa existir nele. Como qualquer outra realidade, também o gênio do capitalismo sempre criativo em suas adaptações, pode conter algum elemento aproveitável.

Partimos de um pressuposto teórico que convém revelar: o teorema de Gödel, segundo o qual, por toda parte reina sempre a incompletude. Nada é rotundamente perfeito. Luz e sombras acolitam as práticas humanas. Mesmo os propósitos mais puros encerram imperfeições e os mais problemáticos, dimensões aceitáveis. Nunca podemos praticar um mal absoluto como também realizar um bem absoluto. Vivemos numa ambiguidade originária. Ela não é um defeito, mas uma marca da condição humana e da própria estrutura do universo, feita de caos e cosmos e de ordens e desordens sempre coexistindo simultaneamente.

Tentemos aplicar esse entendimento à ecologia verde e ver o que nela é resgatável e o que não é. Ela pode significar várias coisas.

Em primeiro lugar, pode se propor a recuperação das áreas verdes, desmatadas ou resultantes da degradação e da erosão dos solos e manter em pé florestas ainda existentes. É um propósito positivo e deve ser realizado com urgência. São as manchas verdes que garantem a água para o sistema da vida e que sequestram o dióxido de carbono, diminuindo o aquecimento global. A economia verde neste sentido é desejável.

Em segundo lugar pode sinalizar a valorização econômica das assim chamadas externalidades como água, solos, ar, nutrientes, paisagens, vale dizer, dimensões da natureza (verde) etc. Estes elementos não entravam na avaliação de preço dos produtos. Eram simplesmente bens gratuitos oferecidos pela natureza que cada um podia se apropriar. Hoje, entretanto, com a escassez de bens e serviços, especialmente, de água, nutrientes, fibras e outros começam a ganhar valor. Este deve entrar na composição do preço do produto. Não se trata ainda de mercantilizar tais bens e serviços, mas de inclui-los como parte importante do produto. O mesmo vale para os resíduos produzidos que acabam poluindo águas, envenenando os solos e contaminando o ar. Os custos de sua transformação ou eliminação devem, outrossim, entrar nos custos finais dos produtos.

Assim, por exemplo, para cada quilo de carne bovina precisa-se de 15.500 litros de água; para um hambúrguer de carne, 2.400 litros; para um par de sapatos, 8.000 litros, e até para uma pequena xícara de café, 140 litros de água. O capital natural usado deve ser incluído no capital humano e na economia de mercado.

Há cálculos macro-econômicos que calcularam o valor dos serviços prestados à humanidade pelo conjunto dos eco-sistemas que formam o capital natural. Utilizo um dado de 1977, já antigo, mas que serve como referência válida, embora hoje as cifras sejam muito mais altas. Os cálculos foram realizados por um grupo de ecologistas e de economistas sensíveis às questões ambientais. Estimaram que naquele, então, eram 33 trilhões dólares/ano o valor da contribuição do capital natural para a vida da humanidade. Isso representava quase duas vezes o produto mundial bruto que era em 1977 da ordem de 18 trilhões de dólares. Em outras palavras: se a humanidade quisesse substituir o capital natural por recursos artificiais, precisaria acrescentar ao PIB mundial 33 trilhões de dólares, sem dizer que esta substituição seria praticamente impossível. Pela economia verde se pretende tomar em consideração o valor estimativo do capital natural, já que está em alto grau de degradação e de crescente escassez.

Nesse sentido a economia verde possui uma validade aceitável.

Em terceiro lugar, economia verde, na compreensão do PNUMA que a formulou, deve “produzir uma melhoria do bem estar do ser humano, a equidade social, ao mesmo tempo em que reduz significativamente os riscos ambientais e a escassez ecológica”. Tal propósito implica num outro modo de produção que respeita o mais possível o alcance e os limites de um determinado bioma (caatinga, cerrado, amazônico, pampa e outros) e avalia que tipo de intervenção pode ser feita sem estressá-lo a ponto de não poder se refazer. Demos alguns exemplos. Trata-se de buscar energias alternativas às fósseis, altamente poluentes, energias que se baseiam nos bens e serviços da natureza que menos poluem como a energia hidrelétrica, a eólica, a solar a das marés, a da geotérmica e a de base orgânica. Sabemos que nunca haverá energia totalmente pura. Mas seu impacto negativo sobre a biosfera pode ser grandemente diminuído.

A água doce será um dos bens mais escassos da natureza. Construir prédios que captam água da chuva para múltiplos usos pode aliviar a falta da gota d’água. Obrigar que todas as construções novas montem captadores de energia solar. Reusar e reciclar tudo que seja possível. Como contrapartida aos subsídios concedidos pelo governo, obrigar as montadoras a construir carros que economizem mais energia e diminuam a poluição. Subsídios e empréstimos às empresas devem ser condicionados à observância de itens ambientais ou ao resgate de regiões degradadas. Obrigar os supermercados a não utilizarem sacolas de plástico na embalagem dos produtos e a encaminharem para reciclagem garrafas plásticas. Ou fábricas de produtos eletrônicos devem assumir a reciclagem de aparelhos usados. Diminuir o mais possível o uso de pesticidas na agroindústria e favorecer a agroecologia e a economia solidária, até diminuindo a carga de impostos na venda de seus produtos. E assim poderíamos multiplicar indefinidamente os exemplos.

A pressuposição é que este tipo de economia verde represente uma transição para uma verdadeira sustentabilidade econômica até hoje ainda não alcançada.

Cabe, entretanto, observar, que o aquecimento global incontido, a entrada de milhões e milhões de novos consumidores, especialmente da China e da Índia e também do Brasil irão onerar mais ainda o capital natural já em descenso. Crescerão enormemente as emissões de gases de efeito estufa. Por ano cada pessoa emite quatro toneladas de dióxido de carbono e a totalidade da humanidade cerca de trinta bilhões de toneladas, nos informa J. Sachs da Universidade de Columbia dos USA. Como a Terra digerirá esta carga venenosa? Os desastres naturais mostram a incapacidade de manter seu equilíbrio. I. Ramonet no Le Monde Diplomatique (13/05/2012) afirma que em 2010, 90% dos desastres naturais resultaram do aquecimento global. Causaram a morte de 300.000 pessoas e um prejuízo econômico de cem bilhões de Euros.

Esse tipo de economia verde é aceitável na medida em que for mais a fundo em sua formulação para, então, apresentar um outro paradigma de relação para com a Terra, onde não a economia, mas a sustentabilidade geral do planeta, do sistema-vida, da Humanidade e de nossa civilização devem ganhar centralidade. Em razão deste propósito há que organizar a base material econômica em sinergia com as possibilidades da Terra. Cumpre que nós nos sentemos parte dela e comissionados a cuidá-la para que nos possa dar tudo o que precisamos para viver junto com a comunidade de vida.

Em quarto lugar, a economia verde pode representar uma vontade altamente perversa da voracidade humana, especialmente das grandes corporações de fazer negócios com o que há de mais sagrado na natureza, que são os bens comuns da Terra e da Humanidade, cuja propriedade deve ser coletiva. Entre eles se contam, em primeiríssimo lugar, a água, os aquíferos, os rios e os oceanos, a atmosfera, as sementes, os solos, as terras comunais, os parques naturais, as paisagens, as línguas, a ciência, a informação genética, os meios de comunicação, a internet, a saúde e a educação, entre outros. Como estão intimamente ligados à vida não podem ser transformados em mercadoria e entrar no circuito de compra e venda. A vida é sagrada e intocável.

Pôr preço aos bens e serviços que a natureza nos dá gratuitamente, privatizá-los com a intenção de lucro é a suprema insensatez de uma sociedade de mercado. Ela já havia operado a perversidade de passar de uma economia de mercado para uma sociedade de mercado. Nem tudo pode ser objeto da ganância humana privatista e acumuladora a serviço dos interesses de poucos à custa do sofrimento da maioria. A vida, por ser sagrada, reagirá, possivelmente nos colocando um obstáculo que poderá liquidar grande parte da própria humanidade. Esse tipo de economia verde é inaceitável.

Por fim, não podemos deixar que as coisas corram de tal forma que o caminho ao abismo seja irreversível. Então nem teremos filhos e netos para chorar o nosso trágico destino. Porque eles também não existirão mais.


* Publicado no blog leonardoBOFF.com no dia 13 de junho de 2012.
**Autor do livro Proteger a Terra e cuidar da vida: como evitar o fim do mundo, Editora Record, 2010.



CARTA DA TERRA: A ESOFAGITE DO CAPITALISMO

“A transição para uma economia de baixo carbono é capaz de compatibilizar seu crescimento com a preservação dos serviços ecossistêmicos básicos...”.

Ricardo Abramovay
Economista brasileiro


Foi-se o sacerdócio, mas ficou o espírito franciscano. Afinal, como é do seu feitio, acolheu sem aparente vaidade – se tem alguma, não demonstra –, mas com naturalidade e emoção, os aplausos efusivos nas palestras que proferiu; as reverências que, onde quer que fosse, transitando com desenvoltura entre os povos, prestaram-lhes. Não, não é somente o Papa que é pop, Boff também o é. Segundo muitos, a presença do teólogo, escritor e ambientalista brasileiro Leonardo Boff foi a mais esperada, por exemplo, na Cúpula dos Povos, evento paralelo ao oficial, a Rio+20, que teve como palco o Riocentro, por ele, inclusive, criticado, que, inclusive, não vê com bons olhos a maquiagem dada ao que muitos chamam de economia de baixo carbono:

— Só se fala de economia verde. Mas o que eles querem é apenas uma economia pintada de verde. Temos que ter uma ruptura com o sistema atual.

No dia 15, na abertura da Cúpula dos povos, numa das arenas montadas no Aterro do Flamengo, Boff foi um dos que participou do lançamento da Rede Brasileira da Carta da Terra, evento organizado pelo Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS). A Carta da Terra, por sua vez, foi inicialmente elaborada na Eco-92. Em 2000, a sua versão final foi lançada em Haia, na Holanda, sendo adotada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Um dos integrantes da Comissão que elaborou o documento, Boff, segundo a revista Fórum, defendeu os seus princípios, informou sobre a sua importância, ressaltou a necessidade de divulgá-la mais amplamente na sociedade e denunciou:

— A Carta da Terra não é tão divulgada porque ela não é digerível ao estômago do mundo capitalista.

Para ele, o documento, que considera um dos mais belos que já foram elaborados no início do séc. XXI, porque nasceu do grito dos povos, é indigesto ao capitalismo porque expõe as chagas de um sistema econômico caduco e desumano, deixando claramente pontuadas as mudanças necessárias para que conquistemos a realidade que queremos. O futuro que queremos e pelo qual temos de lutar.

Segundo a jornalista Carolina Stanisci, da assessoria de comunicação do IDS e que esteve presente ao evento, uma das muitas provocações, digamos, lúdicas, feitas por Boff foi a de que, por exemplo, “as pessoas vendem a terra, negociam a terra, fazem com a terra o que bem entendem. Com a mãe, não! Ninguém vende a mãe, negocia a mãe, detona a mãe”. De acordo com a reportagem, a socióloga Maria Alice Setubal, membro do IDS, um dos signatários da Carta da Terra, alertou para a importância da sustentabilidade para a educação, podendo ser o documento o mapa e o guia para que as novas gerações tenham “na sustentabilidade o eixo de sua sobrevivência na Terra”. À ocasião, portanto, a socióloga fez um apelo, o de que todos reflitam “sobre a necessidade da construção de ‘um novo paradigma’, porque, segundo ela, o ‘eixo não pode ser mais a economia’, mas ‘o bem-estar da população’”.

Enquanto isso, a promotora Ana Rúbia, da Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público do Meio Ambiente (Abrampa), que também contribuiu com a elaboração da Carta da Terra, reforçou o papel do operador do direito, no seu caso o Ministério Público, que, nas palavras da jornalista, seria o de “cuidar da terra em outros quintais: a Justiça”, embora, independentemente disso, a defesa ambiental também é um dever de cada brasileiro, citando, como exemplo, o conceito “berço a berço, segundo o qual nada deve ser jogado fora”. Para a promotora, portanto:

— Jogar fora é jogar dentro. Não existe jogar fora.

Ao final do evento, aplaudido por todos os presentes, o testemunho de quem estava na plateia, o filósofo George Winnik, da Rede Nossa São Paulo, que o definiu como um “momento histórico”.

Enfim! Para quem tiver interesse em assistir a palestra de Leonardo Boff no referido evento, é só clicar no link abaixo:


A íntegra da Carta da Terra, por sua vez, pode ser encontrada no link: http://www.cartadaterrabrasil.org/prt/text.html

Nathalie Bernardo da Câmara