quarta-feira, 29 de agosto de 2012

PENSO... SÓ POR ISSO EXISTO?

Edvard Munch (1863 - 1944)
Rodin's "Thinker" in Dr Linde's Garden in Lübeck
Circa 1907
Oil on canvas
H. 22 cm ; W. 78 cm
P.7612

Crédits photo : © ADAGP, Paris, 2012

Uma questão ronda a minha mente: continuo ou não mantendo este blog?


domingo, 26 de agosto de 2012

VAZOU: A INTRANSIGÊNCIA DESMEDIDA DO GOVERNO BRITÂNICO


Plano para prender Assange foi acidentalmente revelado

Imprensa britânica publicou planos da polícia para prender fundador do Wikileaks caso ele deixasse a embaixada equatoriana em Londres


As fotos das anotações de um plano da polícia britânica para prender Julian Assange, se o fundador do site WikiLeaks decidisse sair da embaixada do Equador em Londres, onde se encontra refugiado, foram publicadas pela imprensa britânica neste sábado.

Um policial que protege a embaixada foi fotografado com um documento manuscrito no qual se pode ler "restringido" e "decisão - justificativa de apoio".

O documento assinala que o fundador do WikiLeaks deverá ser detido "sob qualquer circunstância" caso dê um passo para fora da embaixada, que está localizada junto ao luxuoso centro comercial Harrods, no elegante distrito de Knightsbridge.

Além disso, este documento indica que se o australiano de 41 anos tentar sair de uma embaixada num veículo, sob imunidade diplomática ou em um malote diplomático, deverá ser detido.

"São anotações de um oficial feitas durante uma reunião", explicou um porta-voz da Scotland Yard.

"Nosso objetivo é prender Julian Assange por não cumprimento de sua fiança. Sob nenhuma circunstância se procederá a uma prisão que viole a imunidade diplomática", acrescentou o porta-voz.

Assange, depois de esgotar todas suas opções legais na Grã-Bretanha para evitar uma extradição para a Suécia, onde é procurado para responder por acusações de delitos sexuais, entrou na embaixada equatoriana em Londres em 19 de junho e pediu asilo.

O Equador concedeu este asilo político em 16 de agosto.

A Grã-Bretanha diz estar legalmente obrigado a extraditar Assange para a Suécia se ele sair da embaixada do Equador.

O documento também adverte sobre "possíveis distrações", o que sugere que a polícia teme que seus partidários tentem criar uma distração para facilitar a fuga de Assange.

Os chanceleres e representantes da OEA aprovaram na noite de sexta-feira uma resolução de "solidariedade e apoio" ao Equador em seu conflito diplomático com a Grã-Bretanha pelo asilo concedido a Assange.

A resolução pede que se "rejeite qualquer tentativa que ponha em risco a inviolabilidade das missões diplomáticas" e, "neste contexto, manifesta sua solidariedade e apoio" ao Equador, segundo o texto, aprovado por consenso pela organização, apesar das reservas manifestadas por Estados Unidos e Canadá.

A resolução pede também que Equador e Reino Unido "mantenham um diálogo que permita resolver suas atuais divergências".

"Esta decisão da OEA nos deixa plenamente satisfeitos", pois mostra que "temos o pleno apoio dos países latino-americanos e caribenhos", comemorou depois o chanceler equatoriano, Ricardo Patiño, em uma entrevista coletiva à imprensa.

Estados Unidos e Canadá, que se opunham a uma abordagem do caso pela OEA por considerarem que este é um assunto bilateral, não aderiram ao parágrafo que manifesta solidariedade ao Equador.


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

POLÍTICA DE COTAS: A EDUCAÇÃO BRASILEIRA LAQUEADA

“Ninguém é superior a ninguém...”.

Paulo Freire (1921 - 1997)
Educador, filósofo marxista e patrono da educação brasileira (lei de 13/04/2012).


Há alguns anos, quando se começou a ventilar a possibilidade de cotas para negros nas universidades públicas brasileiras, senti que alguma coisa estranha pairava no ar... Chamaram-me de racista: deixei chamarem. Depois, vieram cotas para índios... Falei qualquer coisa contra e me chamaram de nem sei mais o quê: deixei chamarem. Na sequência, acho que outro segmento qualquer passou a ser incluído na política de cotas do governo federal – nem lembro mais qual foi –, mas também não me interessei saber a respeito... Chamaram-me de alienada: deixei chamarem. Hoje, por exemplo, não faço a menor ideia dos públicos supostamente beneficiados com a tal política de cotas nem da representatividade numérica desses mesmos públicos... Igualmente, não me interessa: chamar-me-iam do quê, agora? Ocorre que esse tipo de coisa nunca me foi simpático porque, na verdade, o considero algo extremamente preconceituoso e discriminatório, sobretudo se considerarmos a pluralidade de raças existente no Brasil. Desse modo, ao invés de estarem aparentemente preocupados com a cor do aluno, com a sua etnia, deveriam era focar as suas preocupações no pluriculturalismo da população brasileira e adaptarem as grades curriculares das nossas escolas a essa realidade. O censo aplicado no país, por exemplo, não é que uma piada. Felizmente, nunca calhou, como dizem os portugueses, eu responder a nenhum – nem gostaria, aliás, de passar por um vexame desses, já que não saberia fazê-lo, ou seja, dizer qual a minha cor – a não ser, claro, se soubesse o paradeiro da minha certidão de nascimento, a original, não a traduzida, e checasse a informação. Sim, porque muita gente é igual camaleão: nasce com uma dada cor e, com o tempo, se metamorfoseia. E, detalhe: se a criatura for daquelas que pegam sol, expondo-se aos raios ultravioletas a ponto de fazer fotossíntese, aí, então, fica ainda mais difícil classificar o que quer que seja. Se não pega, sol, obviamente, corre o risco de responder: desbotado.

Enfim! Ouvi dizer... Repare bem: ouvi. Ouvi dizer que, recentemente, o Congresso Nacional aprovou uma nova lei de cotas sociais e raciais que está apenas no aguardo de receber ou não sanção presidencial. A curiosidade, contudo, é que a tal lei inicialmente passou pelo Senado Federal; depois, foi para a Câmara dos Deputados e, em seguida, retornou ao Senado, mas apenas porque, digamos, tiveram parlamentares que não entenderam muito bem certos aspectos da referida lei. Bom! Se as dúvidas foram dissipadas, não sei, mas sei que, para não atrasar o calendário dos parlamentares, ansiosos que estão com as campanhas eleitorais nos seus respectivos currais eleitorais, a lei terminou sendo aprovada de qualquer jeito. Isto é, de qualquer jeito não, visto que, para ser aprovada, ela já contava, nos bastidores, com a garantia de que os itens questionados, consequentemente não solucionados, deveriam ser vetados pelo Executivo, ou seja, serão vetados quando da sanção presidencial prevista para os próximos dias... Isso sem falar – também ouvi dizer – que, tudo indica, serão criadas cotas para alunos oriundos de escolas da rede pública de ensino terem facilitado o seu ingresso nas universidades igualmente públicas... Uau! Este, sim, é o Brasil de todos. ½ dúzia diz que sim e mais de 190.000.000 de indivíduos devem dizer: amém! Ocorre que há + ou - 25 anos, a maioria dos alunos aprovados nos vestibulares era egressa de escolas da rede pública de ensino. Desse modo, eu gostaria de saber qual a justificativa das autoridades brasileiras na área da educação para explicar queda tão vertiginosa na qualidade do ensino das nossas escolas públicas. Sim, porque tamanho declínio deve ter uma explicação. Quem sabe se não fizéssemos uma continha básica entenderíamos o motivo dessa paranoia toda por cotas – no caso, é bom ressaltar –, para os alunos das escolas da rede pública de ensino?! Vejamos:

Se somarmos o tempo de mandato de José Sarney como presidente do Brasil, um homem tão culto, de ideias brilhantes, por sinal – um erudito, eu diria! –, que foi de 1985 a 1990, já teríamos 4 anos;

Com + 4 da dupla Collor, que fez escola com Sarney, e Itamar Franco, que ignorou os conselhos de Tancredo Neves (1910 - 1985), dá 8;

Em seguida, acrescentemos 8 anos de Fernando Henrique Cardoso – cuja formação acadêmica é ímpar (ele só esqueceu de aplicá-la na prática) – e chegamos a 16;

Depois, somando + 8 anos de Lula – doutor honoris causa – e + 1 ano e quase nove meses de Dilma Rousseff, que, economista, corrija as minhas contas se estiverem erradas, vai dá 25 e... Opa! Estamos na iminência de um parto.




O fato é que, tal qual a saúde pública no Brasil – o caos no Sistema Único de Saúde (SUS) é um exemplo –, a educação pública no país vem sendo gradativamente estrangulada, posta em segundo plano e, consequentemente sucateada. E eu me perguntaria: como, se, ao longo de duas décadas e meia, só fomos governados por iluminados? Isso sem falar que nem podemos sequer insinuar que todos eles zelaram pela política de fortalecimento das escolas da rede privada, estimulando o surgimento e a proliferação de novos empreendimentos por todo o país, inclusive com o incentivo de polpudas fatias do erário público, em detrimento das escolas da rede pública, porque estaríamos sendo injustos e desonestos nas nossas insinuações. Na verdade, os poderes públicos nunca foram negligentes para com as nossas escolas da rede pública. Pelo contrário! Eles sempre injetaram recursos e ânimo o suficiente para que elas pudessem manter as suas instalações físicas no nível de solidez de edificações em palafitas, bem como a qualidade do seu ensino num nível em momento algum degradante, sem falar nos salários não tão baixos assim, como, dramaticamente, alardeiam os seus profissionais, para que ninguém, mas ninguém mesmo, viva em estado de penúria. Desse modo, não vejo motivo algum que justifique cotas para alunos da rede pública de ensino, que, aliás, se for resumido ao bê-á-bá, já está de bom tamanho. Assim, o melhor mesmo é privilegiar as escolas privadas com tudo o que elas têm direito e aos alunos das escolas públicas, que só dão despesas aos governos, o ideal é que recebam esmolas, prêmios de consolação, quer dizer, as cotas. Afinal, nada justifica investir na preservação do patrimônio educacional do país, neste bem público que é a educação brasileira, ora um antro de marginalidade pedindo aos governos que remanejem policiais militares com o intuito de coibir o uso de drogas nas suas dependências e combata o tráfico nas entradas e saídas das suas unidades.

Sinceramente? Estou com o humor cáustico. Ou seria ironia travestida de bom humor? Não sei, mas, às vezes, cansa falar sério demais e sentir que, infelizmente, nem todos se preocupam com determinadas questões, porque, na verdade, o que parece realmente agradar a maioria das pessoas é o espírito da folia típica do tradicional e alienante carnaval; noutras vezes, a gente fica mesmo p da vida com certos absurdos... Por isso que, se crianças e adolescentes de 6 a 14 anos de idade passam 60% do seu tempo diário na internet, algo incontestavelmente edificante, produtivo e saudável, não há motivo para reclamar. Afinal, sentar com os coleguinhas e se entreter com bolas de gude, por exemplo, soltar pipa ou construir castelos de areia de há muito já se tornaram diversões ultrapassadas – fazer carrinhos de madeira ou brincar de bonecas, então! O negócio, agora, é brincar de esconde-esconde nas redes sociais, muito mais atraentes e dinâmicas, nas quais, inclusive, os seus filhos podem trocar altas ideias com todo tipo de gente, não importa a faixa etária nem o que faça da vida, inclusive com aquele completo desconhecido que tem idade para ser o seu pai e, o que é mais vantajoso, ainda dá aulas grátis de orientação sexual. Não poderia ser mais oportuno! Daí o melhor mesmo ser leiloar as escolas da rede pública de ensino para o setor privado. Desse modo, o Brasil seria uma maravilha! De fato, um país de todos, onde todos, sem exceção, por receberem salários mais do que satisfatórios, poderiam matricular e manter os seus filhos em escolas privadas, que, institucionalizadas, passariam a ser referência oficial do Estado, com direito, inclusive, a todo um aparato de segurança que, nem em sonho, permitiria que um psicopata qualquer saísse atirando em todo mundo e onde nem um cigarro de maconha, por menor que fosse, entraria. Assim, não haveria mais esse problema de cotas, já que o Estado não teria mais de se preocupar com uma rede de ensino pública que só lhe traz aborrecimentos.

Em tempo: a privatização das escolas públicas iria poupar as ditas autoridades do ridículo que é falar de cotas como sinônimo de inclusão social e racial quando, a bem da verdade, sabemos, esse é apenas mais um recurso utilizado pelos governos para não tratarem com seriedade a grande crise enfrentada pelo sistema educacional brasileiro, solucionando-a. E é claro que eu sou contra a privatização. Só que termina que temos de debochar de todo esse descaso do poder público, de toda essa encenação desmedida e desrespeitosa. Por outro lado, é até compreensível tudo isso, já que está escancarado que não se tem interesse político para que o Estado cumpra com a sua obrigação, que é garantir um ensino decente para as suas crianças e jovens. Depois, num acesso de delírio, não sei se alguém lembra – eu lembro, porque guardei uma cópia do seu discurso de posse e já escrevi a respeito –, a presidente Dilma Rousseff alardeia que não descansaria enquanto não erradicasse a pobreza extrema no Brasil – um jargão usado pelos economistas – em seus quatro anos de mandato.

Pobreza absoluta = miséria

Sem maiores comentários, mesmo porque, desde então, Dilma Rousseff não fala mais nisso. Nem poderia! Caiu na real. Afinal, como se desfazer de uma herança de 500 anos em apenas quatro? – deve ser por isso que, outro dia, ela foi eleita a terceira mulher mais poderosa do mundo... Pudera! Esqueceu da besteira de dizer que queria porque queria erradicar a miséria no Brasil. Afinal, tal cenário não seria nada interessante para os investidores estrangeiros que queriam e continuam querendo aplicar o seu capital no país. O que só corrobora, evidentemente, as palavras do jornalista brasileiro Arnaldo Jabor, que chegou a dizer:


— A miséria não acaba porque dá lucro...

Enfim! No que diz respeito ao tema principal desta postagem: se for para falar de inclusão, mas da real inclusão, falemos, por exemplo, da dos políticos honestos – esses, sim, por serem raros, andam a precisar de cotas...

Nathalie Bernardo da Câmara

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

ABORTO LEGAL: FAÇA VALER ESSA IDEIA!


CÓDIGO PENAL: UMA REFORMA RONDA O BRASIL...
“O que se verifica dentre congressistas brasileiros é que eles possuem medo de opinarem da forma correta sobre alguns assuntos, pensando que, com isso, a [sua] carreira política poderá ser prejudicada. Esse, na verdade, é o obstáculo que tem impedido a evolução da legislação brasileira de uma forma geral, e não só a penal...”.

Fabricio da Mata Corrêa
Advogado criminalista brasileiro em artigo intitulado Expectativas sobre o novo código penal, postado no blog Em dia com o direito penal, no dia 28 de junho 2012. Na véspera, o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Gilson Dipp, presidente da Comissão de Juristas com a Finalidade de Elaborar Anteprojeto de Código Penal (CJECP), havia entregue o documento que resultou de mais de sete meses de trabalho da referida comissão de especialistas ao presidente do Congresso Nacional, senador José Sarney (PMDB-AP) – nas mãos logo de quem...


O Projeto de Lei do Senado (PLS nº 236/2012), no qual se converteu o anteprojeto da reforma do Código Penal brasileiro, elaborado pela CJECP, está atualmente sendo analisado por uma Comissão Especial Interna do Senado Federal. Designada no dia 17 de julho e instalada no dia 8 de agosto, a referida comissão é presidida pelo senador Eunício Oliveira (PMDB-CE) e pelo vice, o senador Jorge Viana (PT-AC), ao todo sendo composta por 22 senadores (11 titulares e 11 suplentes), dos quais, curiosamente, apenas dois são mulheres: Marta Suplicy (PT-SP) e Ana Rita (PT-ES) – mesmo assim, na condição de suplentes. O parágrafo do artigo colhido para epígrafe desta postagem, por sua vez, só não é mais perfeito porque ficou faltando dizer que a ficha criminal de muitos políticos brasileiros, embora extraoficialmente, anda a ser mais extensa do que os gramados que ladeiam a Esplanada dos Ministérios... Enfim! A reforma de qualquer código de leis, que, aliás, não é algo corriqueiro, é uma oportunidade rara para que muitos países – há exceções, obviamente – possam rever um dos mais importantes documentos que norteiam a balança do pode não pode dos seus cidadãos. No caso do Brasil, não é diferente. Daí que para a reforma do Código Penal ter sido iniciada, as autoridades competentes deveriam, antes de tudo, ter revisto, por exemplo, o conceito do que é um direito humano, ou seja, de foro íntimo, sendo esse direito, portanto, reservado à vida privada do indivíduo. Desse modo, não é porque, movido por uma moral démodée, há quem não respeite certos direitos humanos, alvos, muitas vezes, de polêmicas estéreis, que isso teve de ocorrer com uma meia dúzia de juristas que, postos numa posição dita soberana, se acharam no direito de ditar o que é certo ou errado na vida de um indivíduo, decidindo, em pleno delírio, que esses mesmos direitos possam ser passíveis de penalidades. É desproporcional demais – convenhamos –, sobretudo se considerarmos a população do Brasil.

Ou seja, são mais de 190.000.000 habitantes. Isso sem falar, obviamente, que os maiores interessados nas leis que regem um país são os indivíduos que nele vivem e que, na condição de cidadãos, fazem dele uma nação, independentemente do querer de uma elite dominante, embora o nome já defina o seu status na sociedade, e de religiões que, ignorando a laicidade do Estado brasileiro, atropelam a Constituição Federal e, a ferro e a fogo, tentam influenciar em decisões que não são da sua alçada. A comissão de juristas, portanto, não lhes devia satisfações. E em hipótese alguma! Só que deram, não se respaldando nem se amparando na Constituição Federal, que, diga-se de passagem, deixa isso bem claro, ou seja: o fato de o Estado brasileiro ser laico não implica que ele tenha de endossar posições religiosas. E isso tem de funcionar na prática, acabando de vez com essa cultura das cavernas de que Estado e religiões devem andar de mãos dadas. Devem não! O que devem, e já passou do tempo e dos limites da indulgência do Estado, fazendo, quando não devia, até porque não está autorizado a fazê-lo, certas concessões a não importa qual religião, é cada um aprender a caminhar sozinho. Afinal, não se trata da elaboração e aprovação de uma cartilha de cunho ideológico qualquer, mas do Código Penal do país, que, inclusive, por datar de 1940, está para lá de obsoleto. Daí a necessidade de reformá-lo. Só que essa reforma deveria ter sido encarada com mais seriedade e responsabilidade, pois está lidando com os interesses de toda uma nação, não com o espírito, por exemplo, de quem está se ocupando de um puxadinho qualquer. Por isso que, agora, durante a análise do PLS nº 236/2012 pela Comissão Especial Interna do Senado Federal, é imperativo que o Estado adquira imunidade contra a influência das religiões que atuam no Brasil – influência essa, nociva por excelência e historicamente comprovada, que, no caso do Brasil, é, acima de tudo, um desrespeito para com a Constituição Federal.

No artigo A penalização da corrupção no Brasil: uma das reformas da Reforma do Código Penal, de autoria dos cientistas políticos Leonardo Avritzer e Marjorie Marona, publicado na versão eletrônica da revista Carta Capital no dia 13 de maio, de cara chamou-me a atenção o seu primeiro parágrafo. Para os autores do referido artigo, à CJECP foi confiada, “em grande medida, a tarefa de modernizar a legislação penal [do Brasil], aproximando-a da realidade criminal do país...”. Bom! Creio que não precisa ser cientista político renomado nem jurista de notório saber para constatar que nem de longe o anteprojeto da reforma do Código Penal brasileiro elaborado pela CJECP foi modernizado nem, muito menos, se aproximou “da realidade criminal do país”. Na verdade, o referido documento mais parece ter sido acometido por uma paraplegia. Isso sem falar que, se for aprovado nos termos em que foi proposto à Comissão Especial Interna do Senado Federal, o hoje PLS nº 236/2012 continuará sendo um código de leis elaborado apenas para beneficiar a elite brasileira, não a população como um todo. E, que eu saiba, as leis devem valer para todos... Daí que, aproveitando o ensejo, sem falar que nada na legislação brasileira me impede de me posicionar sobre uma proposta de um código de leis que supostamente vai reger a minha vida, faço coro com os que incondicionalmente defendem os direitos humanos – direitos esses, vale repetir, de foro íntimo e só dizendo respeito, portanto, à vida privada do indivíduo – e, se era para esses mesmos direitos serem leiloados a bel prazer de quem pensa que tem autoridade para monitorá-los, reforço a ideia da necessidade de submeter alguns deles, mas apenas os que são polemizados por quem se baliza por uma moral que ignora o bom senso, a um plebiscito nacional. Curiosamente, há quem diga que, pelo fato de o anteprojeto da reforma do Código Penal já se encontrar sob a análise da Comissão Especial Interna do Senado Federal, um plebiscito é inviável.

Não é não! Afinal, visto que se esperou 72 anos, de 1940 para cá, não custa nada esperar um pouco mais para aprovar, em definitivo, o PLS nº 236/2012, sobretudo porque o próprio autor do requerimento que criou a referida comissão no dia 9 de julho, do qual, aliás, é titular e relator, ou seja, o senador Pedro Taques (PDT-MT), já propôs – o que é louvável – um amplo debate a respeito da reforma em questão. No dia 24 de julho, por exemplo, uma declaração do senador foi claramente registrada no seu site: — Vamos debater com coragem, ouvindo aqueles que são diferentes, ouvindo com tolerância, vendo o outro, os olhos do outro...

Olhos nos olhos, diria o compositor e cantor brasileiro Chico Buarque numa das suas belas canções. Enquanto isso, eu prefiro dizer que, apesar da boa vontade do senador Pedro Taques (PDT-MT), algumas das suas palavras me fizeram pensar numa nota musical falsa, ou seja: “ouvindo aqueles que são diferentes...”. Diferentes? Diferentes como? E diferentes para quem? Afinal, que me conste, só a espécie humana foi reproduzida em série, não os indivíduos que dela fazem parte, sendo todos, portanto, até mesmos os gêmeos, diferentes um do outro. Daí que, por sermos indivíduos, cada um de nós carrega consigo o que chamam de individualidade, que nos é intrínseca, tipo uma impressão digital ou um DNA. Ao mesmo tempo, falar de regra, nos dias de hoje, pressupondo que existam exceções, não mais se constitui um discurso válido – se é que foi um dia. E basta uma olhadela nos movimentos sociais para que isso seja comprovado – não é à toa que se o que ontem podia ser considerado por muitos como uma exceção, hoje não o é mais, sobretudo porque a visibilidade que tem sido conquistada por esses mesmos movimentos sociais, bem como por suas causas, é incontestável. Por isso mesmo que muitas são as razões que justificam a reforma do Código Penal brasileiro. Porém, para que essa reforma realmente contemple de forma igualitária todos os segmentos da sociedade, mesmo que alguns desses segmentos continuem sendo vistos por muitos como “diferentes”, essa visão equivocada do que é igual ou diferente deve igualmente mudar. Que se fale, então, no coletivo, se é que se quer modernizar alguma coisa ou até se tentar um ensaio para agir politicamente correto. Tanto que, por pensar assim, resolvi sentar e adentrar no universo ambíguo das leis para, mais uma vez, defender o direito ao aborto – aspecto, entre tantos outros, que deveria ser observado não apenas como um direito humano, mas, sobretudo, no caso do Brasil, como uma questão de saúde pública.


Aborto legal: não aborte essa ideia!

“Sou a favor de uma ampliação da legislação vigente que permita à mulher que não quer ter o filho interromper uma gravidez...”.

Marta Suplicy
Psicóloga e senadora (PT-SP) brasileira.


Não é de hoje, um dos mais graves problemas sociais do Brasil tem nome: aborto inseguro. E não adianta querer tapar o sol com a peneira porque a realidade está na cara: nua e crua, inclusive banhando de sangue inocente o país que se diz de todos – realidade essa, aliás, que não pode mais ser negligenciada pelas políticas públicas do Estado. Pelo contrário! Deve ser uma das suas prioridades na área social. Daí serem improfícuas as polêmicas em torno do aborto. Porém, se ainda há quem pressione o Estado para que o aborto não seja descriminalizado e o Estado, por sua vez, comporte-se como um pau mandado, que se promova, então, um plebiscito. Afinal, não dizem que, atualmente, o Brasil vive num regime democrático de direito? Só que, na verdade, o problema é outro: o Estado não somente se sujeita a pressões de naturezas escusas, que fazem do aborto um tabu, como também ignora as estatísticas – o que dirá dos casos que delas ficam de fora! Assim, se a tarefa da CJECP era a “de modernizar a legislação penal” brasileira, os nobres juristas deveriam ter dado atenção redobrada à grave e preocupante realidade das condições adversas, muitas vezes pondo em risco à integridade moral e física da mulher, noutras matando mesmo, em que a maioria dos abortos é realizada no país. E é bom lembrar que essa mesma maioria não dispõe das mínimas condições financeiras para arcar com despesas médicas que inclui remuneração de profissionais da saúde qualificados de clínicas particulares bem equipadas para a realização da intervenção cirúrgica proibida por lei, ou seja, a interrupção da gravidez indesejada, terminando por recorrer ao que está no limite das suas posses: abortar em casa, sem os devidos cuidados médicos, ou em espaços clandestinos, cujos responsáveis não observam a ilegalidade da prática e a realizam a 3x4, muitas vezes, o que é mais grave, desprovidos dos conhecimentos e dos meios para os procedimentos cirúrgicos necessários para fazê-la.

Diante, portanto, dessa realidade, três perguntinhas pedem uma reflexão dos senhores juristas: por acaso eles desconheciam que a demanda é grande? Se não desconheciam, se sabiam da precariedade dos partos clandestinos, dos traumas e do alto índice de óbitos que decorrem dessa realidade, insistir na proibição absurda da prática do aborto, salvo nas condições previstas por lei, como está lá, posto no papel, não se constituiria igualmente um crime? Além disso, desprezar uma realidade dramática como essa não seria o mesmo que assinar um atestado de inaptidão para a função à qual foram designados? Infelizmente, o improvável atestado é hipotético e, mesmo que não o fosse, não teria nenhum valor retroativo. Só que... Uma curiosidade: permanece ainda válida, agora, no caso, para os senadores da Comissão Especial Interna do Senado Federal, ora analisando o PLS nº 236/2012, a tarefa de “modernizar a legislação penal” do Brasil, “aproximando-a da realidade criminal do país”, coisa que a CJECP não o fez na maioria dos aspectos? E se pergunto isso é porque membros da CJECP chegaram a dizer que, no quesito aborto, a principal inovação do anteprojeto é a da gestante de até 12 semanas poder interromper a gravidez contanto que um médico ou psicólogo ateste que ela não tem condições psicológicas de assumir uma maternidade... Não me consta que isso seja um avanço, pois, além de conferir a terceiros uma decisão que deve ser exclusiva da mulher, ela tenha ou não condições para ser mãe, a subjetividade implícita nesse tipo de julgamento chega a ser surreal. E isso porque o que há de mães por aí que não têm condições nem de cuidar delas mesmas, o que dirá de uma criança! – não deixando de fora, obviamente, o homem reprodutor, na maioria das vezes, inclusive, igualmente imaturo, psicologicamente falando, e sem preparo algum, muitas vezes, até, um completo irresponsável.

No entanto, como, nesses casos, as mulheres não fizeram nenhum aborto, ninguém interfere, ou seja, o Estado, parte da sociedade e as religiões não se intrometem na sua vida. Na verdade, o fato é que ninguém se importa com a mulher, com a sua qualidade de vida, a sua saúde global e necessidades materiais. Ou seja, com nada que lhe diga respeito. Agora, basta falar em aborto que corre todo mundo: pai, filho, espírito santo, a família toda! Além dos agregados, bem como toda a fauna... Vira um pandemônio, uma histeria coletiva, beirando à patologia. Só que esse atrevimento e desrespeito, supostamente baseados numa moral qualquer, tem nome: hipocrisia. Em certos casos, contudo, chama-se obsessão. Ocorre que hipocrisia é algo desprezível e para obsessão tem tratamento médico. Porém, quando a hipocrisia e a obsessão andam juntas, mesclando-se numa só, não dá outra: a perda do direito da mulher a sua individualidade e privacidade é total. A não qualificação do aborto como crime, por sua vez, nos casos que a gravidez acarreta risco para a vida da mãe ou é resultado de estupro, permanece mantida no referido documento, bem como nas situações em que for comprovada a anencefalia do feto ou que este possua algum tipo de anomalia incurável, inviabilizando a vida fora do útero, desde, contudo, que dois médicos atestem, digamos, a inconveniência da continuidade da gravidez. Deveriam ser três médicos, não? Afinal, se der empate, como fica? Bom! Passível, portanto, de penalidades, o aborto fruto única e exclusivamente da vontade da gestante e em qualquer período da gestação – causa maior das polêmicas e dos arranca rabos que, desnecessariamente, são, vez por outra, trazidos à tona. Só que avanço não é coibir a mulher de um direito humano seu. Tanto que se é para “modernizar a legislação penal” brasileira, que a Comissão Especial Interna do Senado Federal, ora analisando o PLS nº 236/2012, descriminalize o aborto de uma vez por todas.

Sim, que fechem portas e janelas, para não entrar parasitas, e, sem nenhuma ressalva, legalizem a interrupção da gravidez – decisão essa, aliás, que deve passar a contemplar os nove meses de gravidez. Afinal, trata-se aqui de uma questão de saúde pública, que, traduzindo, diz respeito à preservação e à qualidade de vida da mulher – mais da metade da população brasileira, diga-se de passagem. Não abandoná-la a própria sorte, correndo o risco de ter a sua vida ceifada apenas porque meia dúzia de iluminados optou por fazer valer uma moral caduca, negligenciado a sua responsabilidade social. Outra coisa, contudo, faz-se necessário esclarecer: o fato de, historicamente, a mulher sempre ter abortado, não sendo agora, portanto, em pleno séc. XXI, que ela deixará de fazê-lo apenas porque uma lei medieval proíbe. Os nobres juristas por acaso pensaram que a realidade iria ou irá se moldar ao seu anteprojeto? Daí o mais sensato ser os parlamentares ajustarem o PLS nº 236/2012 para que este se adapte à realidade. Não o contrário! E as senadoras Marta Suplicy (PT-SP) e Ana Rita (PT-ES) sabem disso, mas, infelizmente – não há dúvidas que é porque pensam assim –, foram relegadas ao segundo plano, postas, como já foi dito, na reles condição de suplentes, praticamente sem voz alguma para interferir nos debates e nas decisões que possam beneficiar a mulher. Ou seja, o circo foi armado de antemão. Porém, se a Comissão Especial Interna do Senado Federal não descriminalizar o aborto, estará compactuando com o cinismo de uma moral esquizofrênica e genocida. Não obstante, essa mesma omissão implicará que juristas e senadores, bem como quem mais fizer parte desse processo decisório, estarão assinando embaixo de cada óbito que ocorrer quando uma mulher morrer de um aborto mal sucedido, que o mesmo se dê em casa, sem os devidos cuidados médicos, ou nos mais diversos espaços clandestinos, muitas vezes sem estrutura, espalhados pelo Brasil afora.

Ocorre que o conceito de modernidade é igualmente relativo, embora o problema permaneça em pauta, já que o anteprojeto não atende as reais necessidades da mulher, pois, do jeito que se pretende, não está que se dando continuidade ao desrespeito do direito da mulher de decidir sobre o seu corpo, que, reconheçam ou não, lhe pertence, sendo esse mesmo corpo, inclusive, o seu bem mais genuíno, assim como tudo o mais que estiver dentro ou fora dele, não sendo o mesmo, portanto, propriedade de mais ninguém, muito menos da sociedade, do Estado nem de religião alguma. Que essa tríade, portanto, ou melhor, que esses trigêmeos siameses tortos tenham pelo menos a decência de não se eximirem da responsabilidade diante de cada óbito provocado pela prática do aborto inseguro – isso independentemente dos óbitos constarem ou não nas estatísticas e de serem ou não divulgados pela mídia, já que fatos são fatos, no caso, bastante concretos, por sinal, embora nada se faça para mudar essa triste realidade, apesar de todos terem conhecimento disso. Infelizmente, a arrogância não permite que eles cedam. E, infelizmente, apesar das vozes que clamam – não são poucas –, uma rápida olhadela no termômetro que tem medido a temperatura dos debates que andam a moldar a reforma do Código Penal mostra que, sem querer ser pessimista, a probabilidade de o aborto vir a ser legal no país, é mínima – país esse, afinal, cuja mentalidade, em muitos aspectos, é a mesma de milênios, ou seja, eminentemente dogmática, patriarcal, machista e chauvinista. Porém, o que mais causa indignação é saber que as respectivas consciências daqueles que de tudo fazem para continuar se sentindo superiores as mulheres, permanecerão tranquilas, indiferentes as suas ações e as suas consequências desastrosas. Não obstante, insisto: não abortem a ideia do aborto legal! Por fim, sugiro ao leitor que registre na memória ou num papel quatro datas que, de repente, podem ser de importância para nós brasileiros.

 
Calendário da Comissão de Juristas com a Finalidade de Elaborar Anteprojeto de Código Penal (CJECP):


05 de setembro de 2012 – prazo para apresentação de emendas;
20 de setembro de 2012 – Relatórios parciais;
29 de setembro de 2012 – Relatório do Relator-Geral;
04 de outubro de 2012 – Parecer final da CJECP.


Ah! Não tenho mais o menor dos interesses em versar aqui sobre corrupção, tema da charge de abertura desta postagem. E nem adiantaria fazê-lo. Afinal, nem mesmo um idealista seria mais tão tonto ao ponto de acreditar que ainda existem chances de banir a corrupção do Brasil – coisa que, aliás, de há muito já foi institucionalizada no país... Bom! Para quem tiver interesse, disponibilizo o link do portal do Senado Federal para o anteprojeto da CJECP na íntegra. Não é uma leitura nada afável, obviamente – o que dirá poética! –, mas é bom guardar uma cópia... Finalizando, portanto, esta postagem, eu aproveito o ensejo para citar a epígrafe escolhida para o anteprojeto da CJECP, atribuída ao filósofo, poeta e jurista brasileiro Tobias Barreto (1839 - 1889): “O direito não é filho do céu. É um produto cultural e histórico da evolução humana”. Agora, resta saber qual o nível em que nos encontramos nessa mesma evolução humana... Falando nisso, cadê o tal amplo debate proposto pelo senador Pedro Taques (PDT-MT) no dia 24 de julho sobre a atual reforma do Código Penal brasileiro, relator que é do PLS nº 236/2012 na Comissão Especial Interna do Senado Federal? Sim, eu estou cobrando. E cobrando, digamos, a política dos “olhos nos olhos” do parlamentar... Ou seria poesia? Enfim! O tempo urge e, que eu saiba, os prazos não mudam. Ou mudam? Mudaram?


Nathalie Bernardo da Câmara

O RETORNO DA MULHER DA TROUXA & OUTROS CAUSOS

“Superstição: uma sobrevivência do rito desaparecido...”.

Luís da Câmara Cascudo (1898 - 1986)
Folclorista brasileiro


Um inusitado diálogo deu-se:

— Tudo bem com você?
— Tudo.
— Está vindo com quem?
— Com Satanás.
— Quem?
— Satanás.
— Ora, moça, deixe de brincadeira! Diga logo com quem vem...
— Eu já disse: com Satanás.

Não demorou, o dito foi explicado e, assim, desfeito o mal-entendido, com a conversa a mudar de rumo. Tais palavras, contudo – não faz muito tempo –, foram trocadas ao celular por duas mulheres que logo iriam se encontrar, sendo Satanás, na verdade, o apelido de um jovem motorista de táxi que, vez por outra, alugava o seu carro para longas distâncias – situações nas quais ele próprio conduzia o veículo. No caso, ora transportando uma das mulheres, que, outro dia, estava indo para a casa da outra. Assim, saindo do interior, a passageira falou com naturalidade o nome que despertou certa repulsa na sua interlocutora porque, na cidade onde mora, raro é encontrar quem não tenha apelido e o hábito, para todos, apesar de alguns nomes serem incomuns, é normal. Tão normal que, por exemplo, as alcunhas dadas a maioria dos homens – Satanás é uma das exceções – passam a ideia de que eles são propriedades de alguém. O curioso é que, invariavelmente, propriedades de mulheres, passando a ideia de que a comunidade na qual vivem é regida pelo matriarcado ou, então, embora eu não acredite que a hipótese válida seja essa, que os homens locais são desprovidos de todo e qualquer vestígio de personalidade, já que os apelidos são tipo: João de Fulana; José de Beltrana; Pedro de Cicrana e por aí vai, podendo Fulana, Beltrana e Cicrana, no caso, serem a mãe ou a companheira dos respectivos marmanjos, apesar de, em algumas situações, a avó. Mas, e qual o motivo de revisitar a Mulher da Trouxa, como o título desta postagem sugere? É que, tempos atrás, a história de uma senhora lavadeira, de nome, no caso, Misera, me foi contada exatamente pela passageira que havia alugado o carro de Satanás, reproduzida neste espaço em junho de 2009 e, curiosidade: desde então, é uma das dez mais lidas postagens deste blog, cujo motivo, aliás, acho que só descobri hoje, pretendendo, assim, contá-lo mais na frente... De qualquer modo, juntando uma coisa com outra, achei que poderia voltar a abordar o tema, revisá-lo e atualizá-lo, bem como acrescentar outros correlatos.


Misera e o finado Oscar

Então! Durante muito tempo, ouvi falar de Misera, nome, aliás, pronunciado a 3x4 numa cidade litorânea do Rio Grande do Norte. Ocorre que, até então, eu não sabia, como já disse na antiga postagem, e continuo sem sabê-lo, qual a sua faixa etária – o que dirá da sua estatura! Mediana, anã ou, noutro extremo, gigante. Desconheço, também, se ela era uma bruxa, com poderes especiais; uma mulher comum, do povo, ou, simplesmente, um ser humano medíocre. O fato é que era Misera para lá, Misera para cá... Só que o curioso é que as alusões ao seu nome eram normalmente feitas com o intuito de agredir alguém verbalmente, “pondo, de pronto, a autoestima do infeliz na sola dos pés” – coisa que sempre me intrigou. Desse modo, ao consultar dicionários vários, “a fim de desvendar o mistério de Misera, deparei-me com o verbo transitivo direto Miserar, concluindo, então, ser Misera uma conjugação do referido verbo, que significa tornar mísero, desgraçado; desgraçar; desventurar; infelicitar, caracterizando-se, portanto, a pronúncia do nome, em um xingamento e algo, de fato, deplorável, associada a algo repulsivo”. Exemplos?


— Sai, Misera!
— Fora daqui, Misera!
— Isso é que é uma Misera!
— Ô bicho Misera!
— Vai lascar outro, Misera!

Desse jeito, mesmo! E, por aí, ia. Misera isso, Misera aquilo... Porém, o tempo passou e, um dia, a mulher resolveu me contar a história de Misera, que, segundo ela, era “uma mulher de carne e osso e que todos faziam de um tudo para evitá-la, igual, antigamente, se evitava um leproso” ou, como se costuma dizer, “igual o Diabo foge da cruz”. Além disso, fiquei sabendo, ainda, que “Misera seria a personificação do atraso. De vida”. Só que do atraso de vida dos outros – “o seu maior atributo, o seu maior poder, preservando, ainda, o hábito de perambular com uma trouxa na cabeça, carregando sabe-se lá o quê”. Ocorre que a mudança de status de Misera, do anonimato à condição de celebridade, apesar de essa realidade limitar-se apenas ao universo agrário, deu-se, digamos, como que por um encanto, literalmente. Ou seja: há muito tempo, conta-se, “Misera teria ficado famosa por tocar a mão do finado Oscar, que logo teria apodrecido. Desde então, passou a ser temida por todos”... A questão é que ninguém sabe dizer o que a levou a tocar na mão do homem nem o motivo pelo qual ela recorreu a seus poderes para, num simples gesto, putrificar a sua mão. O fato é que muitos acreditam nessa história com uma veemência tal que não tem quem os convença de que, na verdade, ela não passa de uma lenda do nosso folclore. Daí ser até uma agressão alguém querer demover quem acredita nessa ou noutras lendas, erradicando-as, visto que, sabemos, trata-se do imaginário popular, que, aliás, é riquíssimo, não devendo, portanto, nem por erudição alguma, ser desmerecido, já que, queiram ou não, esse imaginário faz parte dos nossos bens culturais. Tanto que a imagem de uma mulher com uma trouxa na cabeça é até bastante comum.


A Mulher da Trouxa do interior da Bahia

Uma imagem, inclusive, ou seja, a de uma lavadeira, que, desde os tempos coloniais, no caso do Brasil, tem inspirado artistas como, por exemplo, pintores e fotógrafos. A Mulher da Trouxa, por sua vez, nome homônimo de uma crônica contada por Daniel Dias no site sobrenatural.org. “O episódio, contudo, narrado por Dias, ocorreu quando ele ainda era uma criança no sítio do avô, no interior da Bahia. Ele conta que, uma noite, estando todos em volta da fogueira, assando castanhas de caju, quando o fogo começou a minguar, coube-lhe a missão de ir catar lenha na mata. E foi aí, então, que, para o seu espanto, ele se deparou com a Mulher da Trouxa. Segundo nos conta, a mulher que encontrou na mata deslizava como se o chão não existisse, e, durante uns quinze segundos, ficou ao seu lado – tempo suficiente para ele estimar que ela tivesse cerca de 1,80 de altura, era magra, possuía uma pele pálida, olhos profundos e, vestida de um branco puído, carregava uma trouxa na cabeça. Inicialmente paralisado de temor, assim que a mulher partiu, Dias desfez-se da lenha e saiu correndo, em busca dos seus parentes. Sem acreditar em crendices, a sua mãe disse ser bobagem, enquanto uma tia retrucou, dizendo que não zombassem da mulher, que ela se vingaria. E, ao que tudo indica, parece que se vingou mesmo, pois o irmão de Dias, enquanto o avô contava histórias de lobisomens, caiporas e outras criaturas fantásticas, ao sair para beber água, portando consigo um candeeiro, já que não tinha energia elétrica, não voltou. Quando foram atrás do menino, o quarto onde ele dormia – a casa era de taipa – estava em chamas, sem que ninguém conseguisse explicar o motivo”. Tudo sugeria, contudo, que havia sido o candeeiro que desencadeou o fogo; a causa do incêndio, um tropeço ou outro descuido qualquer. Nada mais, pelo visto, além disso. “Porém, Dias acha que houve um link com a mulher da trouxa... Daí o contato que manteve com ela, mesmo que brevemente, em um curto espaço de tempo, não duvidando até hoje do encontro sobrenatural que teve com ela”...


A Muda

Foi aí, então, que, ao ouvir falar de Misera, do finado Oscar e da Mulher da Trouxa lá do interior da Bahia, a minha memória despertou e lembrei que, durante um período da minha infância, ao brincar com a minha irmã, às vezes também com alguns amigos da vizinhança, costumávamos esbarrar na Muda, uma senhora que, vez por outra, passava na rua onde morávamos. Como o nome já diz, ela não falava, apenas emitia sons guturais e resmungava. Vestia-se de branco e ornava a cabeça com um lenço vermelho, arrastando um saco numa das mãos e, na outra, uma espécie de cajado de madeira tosca. Assim, quando a Muda passava, era uma festa, pois gritávamos, em uníssono: — Muda, muda, muda! A senhora, coitada, saía correndo atrás de nós, verbalizando algo incompreensível, e, achando pouco, bradava o cajado em todas as direções, querendo nos acertar. Assim, para a minha irmã e eu, a Muda era um divertimento à parte. Mas, como éramos apenas duas crianças levadas, não tínhamos consciência das maldades que cometíamos. De repente, se brincar, a Muda foi a nossa mulher da trouxa – a diferença é que ela não era uma lenda nem, muito menos, uma fábula ou uma história qualquer inventada a fim de divertir, distrair ou, até mesmo, passar o tempo. Não, a Muda foi real, povoando, com o seu temido cajado, o nosso imaginário infantil. Porém, se fosse hoje, com certeza eu iria tratá-la melhor, com mais dignidade, provavelmente até mesmo tentá-la ajudar, saber quem ela era, qual idade tinha, onde morava, qual o motivo que a levava a perambular como uma indigente ou tivesse o nome que tivesse o vagar nas ruas sugerindo estar perdida, sem destino certo. De repente, até tinha um, embora não soubéssemos, podendo, inclusive, numa linguagem atual, ser uma catadora de material para reciclagem. Sim, e já naquela época. O fato, contudo, é que nunca vamos saber qual a verdadeira história de vida da Muda – coisa que, infelizmente, hoje eu lamento.


E os pedaços juntam-se...

À época, portanto, na qual escrevi sobre Misera, a Mulher da Trouxa e a Muda, eu descobri na internet algo extremamente inusitado, que foi a existência do Blog dos Misera, cujo patrono, aliás – pasmem! –, era o papa Bento XVI. Duvidam? Acham que eu estou inventando? Pois bem! O cabeçalho do tal blog, por sua vez, referia-se aos seus administradores, provavelmente também aos seus seguidores, de Miseras abençoados... Só que, detalhe: fui pesquisar para saber se o tal blog ainda existe, mas não encontrei nenhuma referência ao mesmo, apesar de ter encontrado outros espaços virtuais que se autointitulam de miseráveis... Enfim! Quando publiquei o texto original sobre a Mulher da Trouxa, recebi um comentário, que postei, de uma amiga jornalista lá do Piauí, pedindo-me que falasse sobre a Mulher da Trouxa de Maraial, município de Pernambuco, no nordeste do Brasil. Admito, contudo, que, quando me foi feita a sugestão, não a acatei – já estava ocupando-me de outros temas. Porém, agora, fui atrás e confesso que a única informação a respeito foi a de um bloco carnavalesco pernambucano chamado A Mulher da Trouxa, cujo hino está disponível na internet, embora, diga-se de passagem, mal dá para entender a letra. De qualquer modo, tive aí a explicação para a minha postagem ser uma das dez mais lidas do meu blog. Afinal, como eu já desconfiava, não é nem pelo tema em si que ela é acessada, considerando, obviamente, que a maioria nem por folclore se interessa – o que dirá de lendas do tempo do ronco! –, mas porque o seu título é o mesmo do nome do tal bloco de carnaval, bem como do hino homônimo. Desse modo, sem nenhuma intenção, muitos terminam, casualmente, clicando no link para a minha postagem pensando que vão encontrar algo relacionado com o bloco carnavalesco do mencionado município. Enfim! Da história, mesmo, da possível lavadeira provavelmente igualmente assombrada de Pernambuco, nenhum vestígio. Não obstante, ela existe e tudo indica que tem aspectos similares as que são contadas em demais regiões do país. Afinal, convenhamos, antes de o Brasil ser fatiado em regiões – estas, por sua vez, em estados e por aí vai –, com os seus limites territoriais definidos, tudo, na verdade, ou seja, o país era coberto por uma grande mata, ou uma floresta, como queiram, e as histórias que se contavam nas imediações de um dado rio ou lagoa também eram contadas noutros, mudando-se, apenas, uma coisa ou outra. Duas dessas histórias, portanto, foram-me contadas, embora eu já as conhecesse, no dia em que a mulher que já havia me falado de Misera foi com Satanás encontrar-se com a amiga. No entanto, não foi ela quem me contou, mas uma senhora, cuja idade é imprecisa – não se sabe se oitenta ou mais –, e que, expectadora, assim como eu, dos detalhes do apelido do motorista do carro, sentou-se ao meu lado e, num tom solene, perguntou se eu não queria ouvir as histórias, parecidas, de duas outras personagens que, já na sua infância, viviam nas matas da sua cidade natal, mais precisamente nas brenhas, como se diz, da zona rural do Rio Grande do Norte. Respondi que sim e ela, então, chamada por todos carinhosamente de Joaninha, desatou a falar.


Uma nova versão da Uiara e a Caboclinha

Certa feita, um irmão seu, de mais idade do que ela, de nome Luiz, retornava para casa por volta da meia-noite. Era dia de lua cheia. No meio caminho, após sair da trilha ladeada de árvores, próximo à lagoa, ele resolveu tomar um banho. Pensando estar sozinho, ele se despiu e pulou na água quando, de repente, não somente ouviu um som característico de alguém agitando a água, mas, também, viu, com os olhos que, um dia, a terra haveria de comer, uma mulher lavando roupa. Ela estava um pouco distante, mas, mesmo assim, ele percebeu que o seu cabelo era muito bonito, preto e longo, mas desalinhado pelo vento, nele refletido a luz do luar. De imediato, pensou que já era tarde para uma mulher, desacompanhada, estar a lavar roupa na beira do lago, ainda mais cantando, uma bonita canção, por sinal, e, se lembrando das histórias que o povo contava, retesou-se. Um arrepio atravessou-lhe a espinha: só podia ser a Mãe d’Água – a mãe biológica já havia prevenido. E se fosse, de verdade, logo ia encantá-lo, levando-o para o fundo da lagoa. Não foi à toa que ficou tão assombrado que, na mesma hora, saiu correndo da lagoa, em disparada, nem mesmo se dando conta de que, não muito distante, a casa de farinha estava em pleno funcionamento, com um grupo de mulheres a preparar pratos apetitosos.

— Oxente! – Teria exclamado Maria José, a cevadeira, ao ver Luiz nas carreiras. – Tomando banho uma hora dessas!

E Luiz calado, atemorizado, “atacado de um negócio”, explicou-me a senhora que contou essa história, que, por sua vez, também lhe havia sido contada por terceiros. Na verdade, irmã do notívago aventureiro, Joaninha, que é dotada de lucidez e memória espetaculares, disse que, desde esse dia, Luiz nunca mais chegou tarde da noite em casa. Porém, segundo ela, noutra noite... E foi emendando um ocorrido noutro, mais ou menos assim: estando Luiz com o pai, este percebeu que estava sem fósforos. O irmão, querendo agradar, arvorou-se no mundo para lhe encontrar uma caixa de palitos. Não demorou muito, ele retornou bastante aflito, tentando exprimir ao pai o que lhe tinha acontecido: na escuridão do caminho, na busca pela tal caixa de fósforos, percebeu o vulto de uma mulher “aboletada debaixo de uma árvore”. Parando, ouviu quando ela lhe pediu “um fuminho” e, caso ele não o desse, ia se arrepender. Ocorre que, como não dispunha de fumo consigo, logo no meio da mata, Luiz aperreou-se e fez carreira para casa, sem fósforo, sem nada. O pai, imaginando a cena presenciada pelo filho, gracejou e se limitou a dizer:

— Ah, Luiz! Você viu a Caboclinha...

Só que Luiz, não afeito a nomes, temia, mesmo, as coisas que via. Não o que o povo contava, virando, assim, um supersticioso. E Joaninha, que sempre gostou de ouvir essas histórias, pois, naquela época, “não tinha televisão que nem hoje” para distrair a todos a noitinha, contou, ainda, que um dia o pai contou do desassossego de um amigo que havia ido caçar na mata. De repente, ao se deparar com uma leva de veados, ele tentou acertar um, que garantiria, aliás, mais de uma refeição para a família. Só que, como disse Joaninha, “a ambição não é de agora, vem de muito longe, de muitos séculos”, o homem não se contentou em matar apenas um veado. Diante da fartura, que parecia não ter dono, ele se arriscou a acertar noutro veado e, depois, num terceiro. Ocorre que, montada num deles, a Caboclinha tudo observava. Como permaneceu em silêncio e um pouco afastada do homem, este não a viu de imediato, só ao final, quando, após eliminar os três veados, saiu a arrastar apenas um, literalmente preso às costas, deixando os demais ao relento. Chamando-lhe, portanto, a atenção, a Caboclinha fez-se ouvir, querendo saber o motivo de o homem não levar consigo os veados que matou. Tomado de espanto, pois, para ele, a tal da Caboclinha parecia ter surgido do nada e, de repente, lá estava ela a lhe repreender, o caçador incauto caiu em si: a mulher estivera ali o tempo todo e, embora a sua função fosse a de proteger os animais, ela havia se limitado a observar os seus movimentos. Os do homem, claro, que, falando a verdade, disse que só levaria um porque, além de só precisar de um, não tinha como levar os outros dois. Sem hesitar, a mulher aproximou-se e disse que se não precisava dos demais, não os tivesse matado. Desse modo, iria pagar por isso. Sem saber o que dizer, o homem perguntou:

— Como, se não tenho dinheiro?
— Com um pisa que eu vou lhe dar.

E a Caboclinha deu, sim, uma sova no caçador, que, sem menos esperar, conheceu a fúria das matas, dos seus protetores e dos bichos também. Ao final, para completar a lição, a mulher o obrigou a levar todos os veados que matou. Afinal, segundo ela, “matou estava matado”. Que ele, então, se virasse e tratasse de levar os bichos abatidos. Dito isso, a Caboclinha esperou que o homem recolhesse os outros dois veados e, dando o jeito dele, levasse os três que abateu. Quando percebeu que, apesar da dificuldade em transportar os animais, ele o fazia nem que fosse por penitência, a Caboclinha assoviou, reuniu o bando e, montada num deles, prosseguiu. Ao longe, parando um pouco e olhando para trás, o homem ainda teve tempo para olhá-la partir, fumando o seu cachimbo e cantando uma canção...

Quanto a mim, quando vi que, mais uma vez, Joaninha ia emendar um conto no outro, aproveitei a deixa para lhe perguntar se ela acreditava naquilo tudo, ao que me respondeu:

— Tempos antigos, minha filha, tempos antigos, quando tudo era encantado!
— E hoje, a senhora acha que essas coisas ainda acontecem?
— Não sei, pois me desliguei das lagoas, mas era muito bom...

De fato, devia o ser, mesmo, tais quais as histórias contadas pelo escritor brasileiro Monteiro Lobato (1882 - 1948) que li quando ainda era criança. O curioso, contudo, nos causos de Joaninha, é que nos deparamos com a Uiara dos índios numa versão lavadeira, sendo, ainda, chamada de Mãe d’Água, enquanto, no litoral, o mito seja a sereia do mar. A Caboclinha, por sua vez, não é que a Caipora do nosso folclore, embora o seu nome, dependendo da região, como foi o caso, tenha lá as suas variantes. Isso sem falar das demais histórias que Joaninha queria continuar me contando. Falei, então, para irmos fazer mais café e que, depois, eu as ouviria de bom grado. Como ouvi! Só que essas ficam para outra oportunidade...

Nathalie Bernardo da Câmara

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

XEQUE NO REI

“Para o inferno com o seu perdão...”.

Teriam anunciado Nadezhda Tolokonnikova, 22, Yekaterina Samutsevich, 30, e Maria Alyokhina, 24, segundo Nikolai Polozov, advogado das integrantes da banda russa Pussy Riot, diante da possibilidade de um pedido de perdão do trio ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, alvo de um protesto político das artistas no dia 21 de fevereiro deste ano, durante a campanha eleitoral para a presidência da Rússia, que não queriam o seu eventual retorno ao Kremlin, que, aliás, deu-se no dia 7 de maio. O referido protesto, realizado no altar da principal catedral russa, a do Cristo Salvador de Moscou, resultou, na sexta-feira (17), na condenação das jovens a dois anos de prisão.


Se ainda candidato à presidência da Rússia, Putin fez valer a sua influência e poder, já que as três integrantes da banda musical Pussy Riot foram sumariamente presas tão logo foram identificadas, pois no protesto usavam uma espécie de capuz, ficando detidas por cinco meses antes mesmo do julgamento, novamente chefe de Estado, então, ele foi inclemente com as artistas, nada fazendo para evitar – pelo contrário! – a sua condenação e pena, embora elas tenham o direito de recorrer da sentença num prazo de dez dias. Irredutíveis, Putin e as demais autoridades russas não cederam sequer um milímetro nem mesmo diante dos apelos que ecoaram dos 4 cantos do planeta, sobretudo de organizações internacionais que defendem os direitos humanos para libertarem as jovens. Segundo a France Presse noticiou nesta segunda-feira (20), a polícia busca o paradeiro das demais integrantes da banda que participaram da “oração punk” contra o líder russo, que, por mais que exija, não ouvirá o pedido de perdão de Nadezhda, Yekaterina e Maria por seu ato de protesto. De acordo com a defesa, elas estão igualmente irredutíveis: “Nossas clientes não pedirão perdão”, disse Nikolai Polozov. O governo russo, por sua vez, como se já não bastasse o repúdio mundial e de boa parte da população civil do país contra a sua rigidez política no trato dessa questão, entre outras, obviamente, achou pouco e, hoje, informou que o ex-campeão mundial de xadrez, o também russo Garry Kasparov, foi interrogado pela polícia, que o acusa de ter mordido um agente. Detalhe: o suposto delito pelo qual, aliás, ele pode ser condenado a cinco anos de prisão, embora já tenha sido detido desde o momento da agressão da qual é acusado, teria ocorrido durante uma manifestação de apoio à banda Pussy Riot, diante do tribunal que condenava as suas integrantes, ou seja, Kasparov, que nega a acusação, faz oposição ao atual regime da Rússia. Para o ex-campeão mundial de xadrez, a acusação não tem fundamento e, no twitter, registrou:

— Se o policial machucou a mão quando me pegou pela cabeça, fico com pena.

Ao mesmo tempo, Kasparov acrescentou que apresentará uma denúncia por difamação e contra sua detenção, que considera injustificada. Isso sem faar que, além do enxadrista, cerca de 100 pessoas foram detidas na manifestação de protesto. É, uma energia estranha rola no ar, ainda mais quando soubemos, igualmente hoje, que o governo norte-americano teve o desplante de negar que não está perseguindo o jornalista australiano Julian Assange, desde o dia 19 de junho sob a proteção da Embaixada do equador em Londres, tendo oficialmente recebido asilo político do governo equatoriano na quinta-feira (16), embora o governo britânico insista em negar o salvo condutor necessário para que ele deixe o Reino Unido. Neste domingo (19), Assange discursou por dez minutos na sacada de uma janela na embaixada do Equador e repreendeu os EUA, pedindo que o país cessasse com a sua “caça as bruxas”. Enfim! Até quando o governo norte-americano vai teimar em querer fazer a opinião pública mundial de idiota, negando o que todos de há muito têm conhecimento, que é a sua política intervencionista em relação à soberania de demais países, bem como a sua política internacional de desrespeito aos direitos humanos? Agora, colocando na balança, quando dos dois países mais está apelando: os EUA ou a Rússia? Afinal, se o histórico político do primeiro dispensa maiores comentários, o que dirá do segundo, que, daqui a pouco, pelo grau de paranoia em que se encontra, não hesitará em jogar nas águas do rio Moscou as peças de xadrez de um campeão mundial, acusando-as, de repente, de possuírem escutas...

Nathalie Bernardo da Câmara

ASSANGE: DO REFÚGIO PARA O MUNDO

Le Telégrafo

“Eu peço ao presidente Obama para fazer a coisa certa: os Estados Unidos devem renunciar a sua caça as bruxas contra o Wikileaks...”.

Julian Assange
Jornalista australiano num discurso de dez minutos na sacada de uma janela da embaixada do Equador em Londres neste domingo, 19, sendo esta a sua primeira aparição pública desde que, no dia 19 de junho, buscou a proteção do governo Equatoriano, que, por sua vez, lhe concedeu asilo político na quinta-feira, 16, apesar do governo britânico insistir em negar o salvo conduto necessário para que ele possa deixar o Reino Unido.


O fundador do site WikiLeaks, Julian Assange, repreendeu os Estados Unidos por “ameaçar” a liberdade de expressão, apelando ao presidente norte-americano, Barack Obama, que dê fim a sua perseguição aos que se erguem contra a sua opressão. O jornalista denunciou, ainda, que a polícia britânica tentou entrar na embaixada do Equador em Londres na quarta-feira, 15, mas que desistiu diante da presença de seus simpatizantes e da imprensa. No dia seguinte, o seu asilo político foi concedido pelo governo do Equador, apesar do Reino Unido não demonstrar interesse algum em deixá-lo sair de território britânico, a não ser se for para extraditá-lo para a Suécia, que pretende julgá-lo por supostos crimes sexuais – situações essas, segundo Assange, que foram forjadas apenas para facilitar um interesse maior, que é a sua extradição para os EUA, onde ele acusado de espionagem, mas que, caso seja julgado pelas autoridades norte-americanas, corre o risco de ser condenado à pena de morte. Nesse contexto, o jornalista reconhece o papel fundamental do Equador, um “valente país sul-americano”, e do presidente Rafael Correa, que, zelando por sua integridade, lhe concedeu asilo no seu país. Assange também pediu a libertação do soldado norte-americano Bradley Manning, preso por vazar segredos militares dos EUA, e disse que o militar é um “exemplo para todos nós”. Em seu discurso, o jornalista aproveitou para mencionar dois outros exemplos de recentes perseguições políticas, que foi a prisão do ativista Nabeel Rajab, presidente do Centro de Bahrein para os Direitos Humanos no Oriente Médio e vice-secretário-geral da Federação Internacional de Direitos Humanos, que, por criticar a família real que governa o seu país, foi preso no dia 6 de junho e condenado a três meses de prisão, bem como a condenação, na sexta-feira, 17, de três integrantes da banda russa Pussy Riot, a dois anos de prisão.

Neste domingo, como também estava previsto, a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) reuniu-se e decidiu apoiar o Equador ante a “ameaça” que o país diz ter recebido do Reino Unido, de invasão da sua embaixada em Londres para prender Assange. A cúpula de chanceleres, que se encontrou na cidade equatoriana de Guayaquil, pediu para que o impasse seja solucionado através do diálogo e que os dez países ali presentes, Colômbia, Venezuela, Bolívia, Perú, Brasil, Chile, Uruguai, Argentina, Guyana e Suriname – com exceção do Paraguai, excluído do bloco devido o golpe de Estado contra o ex-presidente Fernando Lugo, manifestassem a sua solidariedade e respaldo ao país andino “diante da ameaça de violação do local de sua missão diplomática”. O ex-juiz espanhol Baltasar Garzón, por sua vez, advogado de Assange, afirmou igualmente neste domingo, na porta da embaixada do Equador em Londres, que seu cliente não se nega a comparecer perante as autoridades suecas para desmontar a inconsistência das acusações de supostos crimes sexuais, mas ele teria de ter garantias mínimas suficientes para fazê-lo, coisa que, até agora, não foi concedida. Daí a sua resistência, pois não quer arriscar uma possível extradição para os Estados Unidos. De acordo, ainda, com o advogado, Assange, que sempre lutou pela verdade e pela justiça, já “pediu para que se inicie a batalha legal para se conseguir um salvo-conduto (para deixar o Reino Unido) e para que os seus direitos fundamentais, da Wikileaks e das pessoas relacionadas sejam respeitados”. Enfim! Enquanto o caso corre envolvendo países os mais diversos, já foi marcado para o próximo domingo, 26, um panelaço diante de todas as embaixadas do Reino Unido no mundo inteiro – uma forma de manifestar a rejeição da população mundial da decisão do governo britânico em não conceder o salvo conduto ao jornalista. Agora, resta esperar...

Nathalie Bernardo da Câmara

domingo, 19 de agosto de 2012

O BRASIL NÃO QUER AGROTÓXICO...



Esta postagem é para Zilá, gourmet, sobretudo da cozinha portuguesa, amiga minha, do Planalto Central, que costumo chamar de planalto das desilusões, e que, todo santo dia, antes de ir visitar Sarney, entra no meu blog... Não sei o motivo, porque só escrevo bobagens...

Conheça a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida http://www.contraosagrotoxicos.org/


Nathalie Bernardo da Câmara

sábado, 18 de agosto de 2012

A BALALAIKA QUE PEITOU PUTIN

“Serão condenadas. Isso é um julgamento político...”.

Previu Stanislav Samutsevich, pai de Yekaterina, uma das três integrantes da banda musical russa Pussy Riot, bem antes da sentença, na sexta-feira, 17, por um tribunal de Moscou, que as condenou a dois anos de prisão apenas porque elas exerceram o seu direito de expressão, o qual, motivando-as artisticamente (coisa de minuto), fez com que se posicionassem politicamente. Porém, antes mesmo do julgamento, elas ficaram detidas por cinco meses, ao invés de, no máximo, pagarem uma multa porque, digamos, violaram uma instituição privada, num deslize bem de passagem contra uma dada religião, e ainda vão ficar reclusas num rígido sistema de segurança penitenciário – que não seja a Sibéria... Ninguém merece!


Era uma vez a história de três jovens russas: Yekaterina Samutsevich, 29 anos, artista formada pela Rodchenko Moscow School; Maria Alyokhina, 24, poetisa, mãe e estudante de jornalismo na capital russa, e Nadezhda Tolokonnikova, 23, artista, mãe e estudante de filosofia, que, dos protestos políticos nas ruas foram parar num palco nada convencional: o altar da principal catedral russa, a do Cristo Salvador de Moscou, onde, no dia 21 de fevereiro deste ano, envoltas em balaclavas fluorescentes, marca registrada da banda que formaram em outubro de 2011, entoaram, numa das suas habituais performances, uma “oração punk” invocando à Virgem Maria que livrasse a Rússia de Vladimir Putin – à época, em campanha presidencial. Perda de tempo, porque, apesar das estruturas do templo ortodoxo russo terem balançado – por dentro e por fora – ao som da prece Holy Shit (já eleita a música do ano ), praticamente antecipando o apocalipse, freiras escandalizaram-se e seguranças não souberam o que fazer, perplexos que ficaram, o alvo do protesto político das jovens russas, que haviam sido detidas em março, assumiu o Kremlin no dia 7 de maio e pela segunda vez. Não deu outra: num afã em cadeia, a prisão do trio que desafiou Putin e o establishment russo gerou novos protestos. Desta vez, oriundos dos 4 cantos do planeta e pedindo pela libertação das três artistas, inclusive as maiores organizações que defendem os direitos humanos. Daí que, somando aos apelos internacionais, a cantora Madonna, que, mais recentemente, saiu lá dos Estados Unidos e, no dia 7, há pouco mais de uma semana, alterou o roteiro da sua turnê internacional apenas para dá uma passadinha na antiga União Soviética e, humildemente, admitir, surpresa – vai ver, nem ela ousaria tanto –, a coragem de Yekaterina, Maria e Nadezhda, mas, também, para, num invólucro à moda da casa, uma balaclava preta, em homenagem ao figurino das integrantes da banda, publicamente tentar intervir no iminente desfecho do processo então em andamento. Infelizmente, as autoridades russas não gostaram nada da visita inesperada e, por pouco, quase não a escalpelaram em romaria pela Praça Vermelha, querendo puni-la ou punir os organizadores do show a qualquer preço. O vice-primeiro-ministro, por exemplo, o nacionalista Dmitri Rogozin, perdeu a compostura e, ao invés de cair na dança, aproveitando o embalo dos hits da pop star, preferiu relembrar os tempos em que era habitué de casas de luzes vermelhas e se aventurou, ou melhor, se arvorou nos passos do twitter, escorregando igual a um patinho feio, embora tenha recebido mais atenção do que deveria. Afinal, na tal rede social, chamou Madonna de “puta velha” e desprovida de autoridade para querer dar lições de moral na cultura alheia. Tanto que, daqui para frente, Madonna pode, agora, excluir a Rússia das suas turnês internacionais, pois, com certeza, passou a ser considerada persona non grata no solo que, um dia, já pisou um dos maiores bailarinos da História da dança, que é Baryshnikov, nascido na Letônia, mas que, por questões pessoais e não entremos em detalhes, se tornou cidadão norte-americano, sem falar do ilustríssimo Lênin (1870 - 1924), que deve está se divertindo no seu mausoléu – não maculemos mais, aliás, o seu nome em vão, cujo legado evaporou nas mãos de sucessores espúrios, sem falar que os seus passos estão muito além dos de Putin... Bom! O atual presidente da Rússia, por sua vez, não podendo assumir perante a opinião pública mundial o verdadeiro motivo da detenção inicial das integrantes da banda Pussy Riot, do seu julgamento e condenação, mas que todos sabem ser de natureza eminentemente política, assim como foi o protesto das artistas, mexeu os pauzinhos das suas marionetes e obteve uma sentença nada convincente, ou seja, condenou-as por “vandalismo motivado por ódio religioso”. Ora, convenhamos que as jovens realmente exigiram demais dos santos, mas, nem por isso, tamanha devoção não precisaria ter tido a dimensão global que teve nem, muito menos, ser sacrificada em oferenda aos deuses. Ou será que Putin desconhece que, de tão belo, o sol da meia-noite não é para ser visto quadrado por quem vê o mundo redondo?! O fato é que, apesar de ter sido condenado a dois anos de prisão – demais integrantes da banda não foram identificados, embora todos estivessem encapuzados, inclusive Yekaterina Samutsevich, Maria Alyokhina e Nadezhda Tolokonnikova –, o trio está feliz porque, mesmo sem querer, como disse a filósofa, se tornaram “o epicentro de um grande acontecimento político”, mobilizando forças diversas Terra afora. Porém, apesar do sorriso matreiro nos lábios, coisa típica de criança que fez arte, literalmente falando, inclusive durante o julgamento, no tribunal, perante uma juíza russa – mulher –, elas não se esquecem, é claro, que têm dez dias para recorrerem da sentença.


Enquanto isso...


O descompasso de uma matriochka... Bem feito! Ridicularizado mundialmente por meia dúzia de jovens que, com criatividade, ousaram desafiar a sua arrogância.


Para quem, portanto, ainda não viu e tem curiosidade em assistir à inofensiva intervenção política das jovens russas no altar de uma catedral de Moscou, vale à pena, visto que a mesma, por si só, já faz pensar. Isso sem falar que a exibição é cinematográfica, com direito, inclusive, a pinceladas de surrealismo – estilo, aliás, que nem aprecio, mas que caiu como a uma luva nesse caso específico –, e é, simplesmente, algo hilário! – com todo respeito. Tipo uma espécie de trille de uma comédia cuja película anda a rodar, considerando, obviamente, que o filme ainda não terminou. Enfim! Não hesite: a sessão é grátis, do mais puro deleite, na verdade, um regozijo histórico, e basta um clique...


Nathalie Bernardo da Câmara