sexta-feira, 30 de novembro de 2012

ICEBERGS

Por Marina Silva
Ambientalista brasileira, ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente


Mais um grande bloco de gelo (do tamanho de Nova York, disseram os cientistas) se desfaz na Antártida. As catástrofes do aquecimento global já não espantam os brasileiros, que ficam, porém, apreensivos com o início das chuvas.

Como um iceberg, o Brasil tem uma parte visível, acima da linha do noticiário, e outra parte que não se vê, mas pode-se imaginar o tamanho. O escândalo da vez é uma história rocambolesca, com personagens próximos do poder político, que denunciam a superficialidade da "faxina" feita no início deste ano.

Ainda se discute os resultados do julgamento do "mensalão" e ouvem-se os ecos da guerra urbana em SP e SC. Em silêncio e submersas, outras guerras continuam.

Na semana passada, lemos na internet, estarrecidos e indignados, a carta do pesquisador em saúde pública Luiz Carlos Meirelles, gerente-geral de toxicologia da Anvisa, que denunciou irregularidades na liberação de agrotóxicos não avaliados, desaparecimento de processos e até falsificação de sua assinatura. Recebeu, como resposta, sua exoneração.

A "flexibilização" das regras para agrotóxicos vai no mesmo rumo do fim da exigência de rotulagem para os transgênicos, que a chamada "bancada ruralista" quer votar na Câmara. Juntam-se ao esvaziamento do Ibama e demais órgãos de controle, às barreiras para a criação de novas terras indígenas, à desfiguração do Código Florestal e a todas as iniciativas de abolir direitos da população sob pretexto de "remover barreiras" aos negócios. Removem-se as barreiras aos negócios no curto prazo e, em barreiras, os negócios ao longo do tempo, por falta de compromisso com o futuro do país, inteligência e visão.

Abaixo do visível, as tragédias das comunidades. No início deste mês, a aldeia munduruku (AM) sofreu com os excessos de uma ação policial que resultou no assassinato de um índio e em agressões generalizadas. A violência no Brasil rural não é menor que nas grandes cidades.

Há momentos em que o mundo parece explodir, porém, é só uma agitação na superfície. Mas as crises atuais provêm de regiões mais profundas. O declínio econômico da Europa não é só uma fase passageira com a qual se possa jogar nas Bolsas de Valores. Os desastres do aquecimento global não são oportunidades de melhoria nos preços das commodities. São emergências que comprometem o futuro do planeta, das quais não haverá como tirar dividendos.

Da mesma forma, as crises brasileiras, acima e abaixo da linha de visibilidade, nos desafiam a um salto de consciência. Devemos aproveitar as festas de fim de ano para refletir, meditar, encontrar novos rumos. Sem interromper a luta, que está longe do fim, contra a locomotiva de retrocessos, que levam à devastação.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A RELATIVIDADE DO CONCEITO DE MODERNIDADE

“O homem moderno deve estar sentado numa pilha de livros com um telescópio em um olho e um microscópio no outro...”.

Luis da Câmara Cascudo (1898 - 1986)
Folclorista brasileiro

 
Quando eu ainda era estudante de jornalismo, tive a honra de conhecer e de entrevistar o folclorista potiguar, um ser humano deveras singular: não arredava pé da sua cidade natal, nitidamente uma província, mas, ao mesmo tempo, era o que hoje chamamos de cosmopolita. Nas ideias, claro! Porém, tenho cá as minhas dúvidas, mesmo que hipoteticamente falando, mas acho que, se vivo ainda fosse, Cascudo teria amado a internet, pois, como o pesquisador não gostava mesmo de sair de casa, instrumento melhor não poderia haver para um homem relativamente recluso. E que, com certeza, reservada aos seus momentos de ócio criativo, a sua ferramenta preferida seria o Facebook. A pérola de frase de Cascudo, que escolhi como epígrafe desta postagem, é, simplesmente, fantástica! Mas, como tudo na vida resume-se a uma questão de interpretação...

NBC

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A DIVA DA VIOLA CAIPIRA*


“Cultura não se herda, se conquista...”.

André Malraux (1901 - 1976)
Escritor e político francês


Na semana da cultura brasileira, dedico este post a uma mulher especial, que, por esforço próprio, fez um nome – o seu –, embora, ao mesmo tempo, fazendo de si um patrimônio nacional e internacional, levou com ela o nome do Brasil, que foi a pantaneira Helena Meireles (1924 - 2005), considerada a melhor violeira do mundo. Helena, que começou a tocar aos nove anos de idade, e, pelo resto da vida, segunda ela, só por diversão, gravou o seu primeiro disco em 1994, aos setenta anos – onze anos antes de morrer, aos oitenta e um anos –, quando foi descoberta pelo grande público. Em 2004, o cineasta brasileiro Francisco de Paula realizou o documentário Helena Meirelles – A Dama da viola, onde ela protagonizou a sua própria vida, para lá de dramática.

Um ano antes, recebeu o Prêmio Spot Ligth Artis, da revista norte-americana Guitar Player. Helena tinha 80 de idade... Logo em seguida, foi incluída entre as 100 palhetas do século [XX]. E gravou o seu primeiro CD. Talento original do Brasil, Helena passou boa parte da vida tocando em bordéis, no Mato Grosso. Além disso, foi lavadeira e benzia quem buscasse as suas graças. Com o seu instrumento, traduzia a alma do sertão brasileiro, divulgando a música caipira onde quer que fosse. Gravou, ainda, mais dois CDs. Filhos naturais com maridos diferentes? Onze. Uma figura, que tocava rasqueados, polca paraguaia e temas mato-grossenses, sempre com a tradição de, toda Sexta-Feira Santa, fabricar as suas palhetas usando chifre de boi. Olhem o poder da mulher!

 


* Publicado originalmente no dia 7 de novembro de 2010. Hoje, republico esta postagem em homenagem ao Dia Nacional do Músico.

 
Nathalie Bernardo da Câmara

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

SIMILIA SIMILIBUS CURENTUR*

“É a eleição do medicamento e a maneira de usá-lo que caracteriza o verdadeiro médico, o que não está ligado a nenhum sistema...”.

Christian Friedrich Samuel Hahnemann (1755 - 1843)
Médico alemão, fundador da homeopatia

 
Os semelhantes curam-se pelos semelhantes, a principal tese de Hahnemann em sua principal obra, Organon da medicina racional, publicada há pouco mais de duzentos anos, em 1810, que traduz a proposta da homeopatia, sistema da medicina que, no Brasil, é comemorada nacionalmente no dia 21 de novembro. Hahnemann, por sua vez, que nasce em um dia 10 de abril, em Meissen, na Saxônia, Alemanha, se forma em Leipzig e se aperfeiçoa em Viena. As suas pesquisas, levadas à prática, e os seus resultados, divulgados, inclusive, em livros, provocam hostilidades na classe médica e farmacêutica alemã e, em 1821, ele praticamente vê-se obrigado a deixar Leipzig, se estabelecendo em Köthen, onde permanece durante quinze anos. Em 1835, no auge dos ataques à homeopatia, Hahnemann, sem opção, se transfere para Paris – doce refúgio –, onde fixa residência e permanece até a sua morte.

Curiosamente, duzentos anos após a publicação do Organon..., o Brasil é, hoje, uma referência mundial em homeopatia, comemorada nacionalmente no dia 21 de novembro, já que, nesse mesmo dia, no ano de 1840, chega na Barra do Sahy, na divisa dos estados do Paraná e de Santa Catarina, o médico homeopata francês Benoît Mure (1809 - 1858), a fim de criar uma comunidade industrial de máquinas a vapor, embora aproveitando o ensejo para implantar o primeiro instituto de formação em homeopatia que se tem registro no país. Cerca de trinta anos antes, contudo, em 1810, o político e naturalista José Bonifácio de Andrada e Silva (1763 - 1838), o Patriarca da Independência, toma conhecimento da teoria homeopática através de cartas trocadas com Hahnemann. Porém, antes mesmo da chegada de Benoît Mure, o país já tinha um médico homeopata, o brasileiro Duque-Estrada.

Quanto a Benoît Mure, que fica conhecido como Bento Mure... Ele permanece por um curto período no Rio de Janeiro, onde clinica e difunde a homeopatia, antes de se instalar na Barra do Sahy. A proposta, entretanto, de implantação de uma colônia industrial na Barra do Sahy, não alcança os resultados esperados e ele retorna ao Rio de Janeiro, onde conhece o médico brasileiro João Vicente Martins (1808 - 1854), que se tornaria o maior propagandista da homeopatia no Brasil. Em 1844, os dois abrem o Instituto Homeopático do Brasil, além de criarem mais de vinte ambulatórios onde os pacientes são tratados com medicamentos homeopáticos. Polêmicas à parte, o Governo Imperial autoriza o funcionamento da Escola Homeopática do Brasil, a primeira do gênero, que é inaugurada em 1845. Três anos depois, Benoît Mure despede-se do Brasil, retornando a França.

Enfim! Aos poucos, a homeopatia vai conquistando espaço e atraindo novos adeptos dessa medicina, inclusive em vários outros estados brasileiros. O Instituto Homeopático do Brasil, por sua vez, auxilia, no início da década de cinqüenta, quando uma epidemia de febre amarela assola o Rio de Janeiro, a enfermaria de São Vicente de Paulo, fundada e mantida pela Sociedade Portuguesa de Beneficência, onde os doentes são tratados com homeopatia. E gratuitamente. Em 1854, o ensino da homeopatia é declarado livre. Pouco mais de duas décadas depois, em 1878, o Instituto Homeopático do Brasil passa a se chamar Instituto Hahnemanniano Fluminense, embora, em 1880, por decreto do Governo Imperial, é denominada Instituto Hahnemanniano do Brasil – IHB. No séc. XX, em 1912, o IHB cria a Faculdade Hahnemanniana com ensino integral de medicina.

Seis anos depois, o instituto é autorizado a diplomar médicos e farmacêuticos homeopatas. Em 1921, a faculdade se equipara com as oficiais da República, se transformando, em 1924, na Escola de Medicina e Cirurgia do Instituto Hahnemanniano. Em 1932, o então Conselho Nacional de Educação determina facultativo o ensino da homeopatia. Hoje, a Escola de Medicina e Cirurgia pertence à Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO. Em 1952, o ensino de Noções de Farmacotécnica Homeopática torna-se obrigatório nos cursos superiores de farmácia do Brasil, sendo, em 1965, regulamentada a manipulação, o receituário e a venda de produtos utilizados na homeopatia, que, aliás, em 1975, é excluída como disciplina optativa do currículo da graduação de medicina e incluída na pós-graduação da Faculdade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro.

No final da década de setenta, a consciência holística expande-se e, em 1979, nasce a Associação Médica Homeopática Brasileira - AMHB, que, atualmente, representa todos os médicos homeopatas do país. No ano seguinte, a homeopatia é admitida pelo Conselho Federal de Medicina - CFM como especialidade médica e, dez anos depois, a AMHB é reconhecida pela Associação Médica Brasileira - AMB, igualmente fazendo parte do seu Conselho de Especialidades Médicas. Desde então, um convênio com a AMB e o CFM, permite a AMHB realizar, anualmente, as provas para o Título de Especialista em Homeopatia, além de promover, em parceria com o Ministério da Saúde, a campanha Homeopatia para todos, democratizando o acesso à homeopatia. O Rio de Janeiro, por sua vez, foi o estado onde se realizou o primeiro concurso púbico para médicos homeopatas na década de oitenta.

Outra grande conquista da homeopatia é que, desde 2006, ela vem sendo utilizada pelo Sistema Único de Saúde - SUS, além de ser recomendada pela Organização Mundial de Saúde - OMS. A novidade é que, extra-oficialmente, a homeopatia já vem sendo utilizada na odontologia, sobretudo no tratamento das doenças bucais. Enfim! O fato é que o Brasil possui o maior número de médicos homeopatas do mundo, bem como os melhores, resultado da excelente qualidade dos cursos de formação do país e da boa atuação da AMHB e de suas federadas, que mantêm um bom relacionamento com os farmacêuticos homeopatas, que dispõem de medicamentos com alto padrão de qualidade, que, aliás, basicamente são oriundos de substâncias pertencentes aos três reinos da natureza, ou seja, o mineral, o vegetal e o animal. E, indiscutivelmente, a serviço da cura de todos nós...







Nísia Floresta e a homeopatia



“A homeopatia é o mais simples, o mais doce e o mais humanitário dos sistemas que a medicina encontrou para cuidar dos nossos males...”.

Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810 - 1885)
Educadora, escritora e feminista Brasileira



Entre as personalidades brasileiras que contribuiram para a divulgação e a aceitação da homeopatia no Brasil estão o escritor Monteiro Lobato (1882 - 1948), o escritor e estadista Rui Barbosa (1849 - 1923) e, antes mesmo deles, a educadora Nísia Floresta, cujo bicentenário de nascimento ocorreu recentemente, no dia 12 de outubro [2010]. Quando, portanto, o médico homeopata francês Benôit Mure desembarca na Baía da Guanabara, em 1840, Nísia já estava, desde fins de 1837, morando no Rio de Janeiro, onde dirigia um bem conceituado estabelecimento de ensino para meninas, aberto em 1838. Para minha surpresa, além de ser considerada a pioneira do feminismo no Brasil, Nísia, de quem sou biógrafa, pesquisando-a há anos, é igualmente pioneira no uso da homeopatia no país.

No ano de 1849, por exemplo, o irmão de Nísia Floresta, o também educador, advogado, filósofo e filólogo Joaquim Pinto Brazil (1819 - 1875), contrai uma febre perniciosa e fica entre a vida e a morte, sendo desenganado por seis dos mais renomados médicos alopatas do Rio de Janeiro. Adepta da homeopatia, Nísia opta por recorrer a essa medicina para salvar o irmão. E obtém sucesso. A cura de Pinto Brazil é, portanto, o motivo determinante da conversão à homeopatia do médico alopata brasileiro José Henrique de Medeiros, que logo se casaria com uma irmã de Nísia. Além disso, em 1855, quando uma epidemia de cólera devasta o Rio de Janeiro, fazendo mais de seis mil vítimas – uma tragédia –, Nísia se apresenta como voluntária na enfermaria do Hospital Nossa Senhora da Conceição.

Junto com ela, se apresentam, também, como voluntários, por um período de seis meses, o doutor Henrique de Medeiros e a médica francesa naturalizada brasileira Marie Josephine Mathilde Durocher (1808 - 1893), a mais célebre parteira do Rio de Janeiro no séc. XIX, que se dedicam com afinco aos doentes, tratados, unicamente, com medicamentos homeopáticos. Por seu gesto de solidariedade, Nísia Floresta recebe um agradecimento público, publicado em novembro do mesmo ano no Jornal do Comércio. Anos depois, em 1859, retornando da França para Florença, onde ela estava morando com a filha Lívia, o trem no qual viaja sofre um grave acidente, a dois mil quilômetros de Turim. A sua saúde fica seriamente abalada e Nísia decide consultar um médico homeopata.

Porém, o único em Florença, que possuía certo renome, não se encontra na cidade. Sem alternativa, contrariando a sua preferência pela homeopatia, Nísia Floresta se vê obrigada a consultar um médico alopata, que, após quatro meses de tratamento, em nada resolve o seu problema, o que faz com que ela se refugie no campo, a fim de se restabelecer física e moralmente. Enfim! Há alguns anos, em uma visita que fiz ao Instituto Hahnemanniano do Brasil, encontrei, nos arquivos da instituição, a ficha médica de Nísia, verificando que, no Rio de Janeiro, ela era paciente do doutor João Vicente Martins. Enfim! A afinidade de Nísia com a homeopatia despertou-me curiosidades... Afinal, desde criança, eu sou homeopatizada e, diferentemente da alopatia, a homeopatia garante equilíbrio interior e expansão da consciência.


Nathalie Bernardo da Câmara

* Publicado originalmente no dia 27 de novembro de 2010 e republicado no dia 21 de novembro de 2011, em homenagem ao Dia Nacional da Homeopatia.

O ROUBO DAS HÓSTIAS*

“Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste: sou poeta...”.

Cecília Meireles (1901 - 1964)
Poetisa brasileira

Neste dia 11 de novembro de 2010, a poetisa e compositora brasileira Joana Guedes Câmara completaria – se viva – cem anos de idade... Mais conhecida como dona Nanoca, ou Nanoca, ou, ainda, simplesmente Noca, Joana, a minha querida avó paterna, era uma personalidade ímpar. E por quem, desde criança, eu passei a nutrir uma profunda admiração – sentimento, inclusive, que eu sempre soube ser recíproco. E que ficava explícito nas horas e mais horas de conversas que mantínhamos sobre não importa qual assunto – conversas essas, aliás, mantidas, muitas vezes, sem nenhum segredo, em três lugares da sua casa, que ficava aos pés da ladeira da histórica Rua Quintino Bocaiúva, no centro da cidade de Natal, capital do Rio Grande do Norte, no Nordeste do Brasil.

Ou seja, conversávamos na sala, onde dona Nanoca adorava sentar em sua cadeira de balanço, ao lado da porta de entrada da casa; em sua cozinha, um dos seus lugares prediletos, onde, calorosamente, sempre recebia as suas visitas com um café fresquinho e onde também adorava comer queijo de manteiga e as coalhadas que ela própria preparava, bem como o quer que fosse, pois, descendente de portugueses, vovó era boa de garfo, e, muitas vezes, em um cantinho que ela mantinha nos fundos da casa – tipo o famoso puxadinho de hoje, já que lá não havia propriamente um quintal –, onde guardava os doces e os licores artesanais de sabores nem tanto assim variados que produzia, os quais, inclusive, eram apreciados apenas pelos poucos que ela selecionava para degustá-los.

Uma das boas lembranças que tenho, ainda, do período em que eu era apenas uma criança, com tempo de sobra para o exercício lúdico da infância, eram as brincadeiras com a minha irmã, com uma prima, da nossa mesma faixa etária, e com as minhas tias, as vésperas, por exemplo, do dia de Nossa Senhora da Apresentação, padroeira de Natal, no dia 21 de novembro. Afinal, à época, pelo menos na cozinha da casa de vovó, as comemorações à santa tinham início dias antes, quando começavam a ser preparadas guloseimas as mais variadas, tendo em vista o dia propriamente dito de comemorar a aparição da homenageada, cuja imagem, com um rosário em uma das mãos, teria, supostamente, sido encontrada por pescadores no séc. XVIII, em 1753, à margem direita do rio Potengi.

As guloseimas, portanto, doces e salgadas, eram preparadas com dias de antecedência, em função de uma tradição criada pela minha própria avó – católica fervorosa e devota a Maria –, já que, após a missa, na qual, aliás, uma multidão de fiéis entoava o Cântico a Nossa Senhora, de sua autoria, e que é uma declaração de amor a Natal, cidade que a acolheu com os seus versos, um lauto café da manhã era oferecido em sua casa. À oportunidade, todos, indiscriminadamente, eram acolhidos, sem distinção. Mas, o bom disso tudo, eram os dias anteriores à data religiosa, onde a casa de vovó Nanoca virava um picadeiro, com as minhas amadas, animadas e irreverentes tias, Lu (1938 - 1997) e Nen (1936 - 2008), já falecidas, que só brincavam com a gente, nos fazendo rir à beça.

Tornava-se até uma missão impossível dormir cedo da noite para acordar no meio da madrugada e, todos, juntos – após dias de festejos –, se preparar para a coroação de dias de preparativos, ou seja, o grand final. Mas, afinal, tudo não passava de uma grande diversão – hoje, de acordo com a realidade, se limitando a uma lembrança carinhosa. Sim, porque depois de se tornar gente grande, todos tomam os seus próprios rumos e, aí, nesses rumos – sabem-se lá quais –, se dispersam. Enfim! Nanoca foi a terceira filha do casal Maria Guedes da Fonsêca e Antônio Guedes da Fonsêca, que tem, ainda, mais cinco crias, nascendo – ela – lá pelas bandas de Taipu, no Rio Grande do Norte. Uma tia materna, Ana Guedes, se ocupa da sua educação, que – diga-se de passagem – se limita aos estudos primários.

Só que, certo dia, selando o seu destino, ela conhece um jovem agricultor, que logo trata de plantar em seu coração a semente do amor. Era o meu avô José Boa Câmara (1903 - 1963), com quem, aos dezessete anos de idade – ele com vinte e cinco –, Nanoca se casa em 1928. Os filhos, aos poucos nascendo; alguns morrendo. Vovó, por sua vez, se desdobrando para tentar salvar cinco dos doze que teve da estatística fatal reservada aos nascidos na seca. O sonho e a esperança, contudo, de educar os filhos em Natal, levam Nanoca a abandonar o Sertão. Na capital, em plena Segunda Grande Guerra Mundial (1939 - 1945), ela passa a recortar fardas de soldados para somar com o que o marido recebe trabalhando em Parnamirim, onde havia sido instalada uma base militar, abastecendo aviões.

Certa vez, vovô adoeceu de tuberculose e foi internado em um sanatório, onde ficou isolado. Recebendo alta, após seis meses de tratamentos, voltou para casa e, com a saúde renovada, ajudou Nanoca a completar a educação dos cinco filhos, trazendo ao mundo, ainda, mais dois rebentos, um deles, o meu pai, mantidos, todos, segundo reza a família, com uma ínfima pensão previdenciária, além de fé e esperança. Curiosamente, as adversidades não esmoreciam Nanoca, que, plena de poesia e de musicalidade, ora tecia versos, ora cantava, ora contava histórias, ora cantava, alegrando a vida. Eram paródias, versos, quadrinhas, mensagens... No livro Eu Canto a Alegria, homenagem prestada por seus filhos quando, em 1990, ela completou oitenta anos, vê-se um resumo do que Nanoca produziu.

Na primeira parte da brochura, as principais composições da sua inspiração religiosa, hinos e poemas de exaltação e penitência, enquanto, na segunda parte, desnuda-se o espírito lúdico da autora, sendo a sua obra festa e oração. No geral, composições românticas, carnavalescas e música sacra, onde ela mais se destacou. Uma curiosidade, entretanto, da biografia musical de Nanoca foi a aquisição dos direitos autorais do seu Hino a Virgem Maria pela Editora Vozes. Sem falar das suas composições para a liturgia de uma missa, que ela intitulou Missa festiva, para lá de poéticas, cantadas, até hoje, nos rituais nos templos da Paróquia de Nossa Senhora da Apresentação, da qual ela fazia parte, em Natal. Ao completar noventa e um anos, Nanoca foi homenageada pela Igreja Matriz.

À época, um texto foi publicado: continha algumas das suas realizações como missionária leiga na Pastoral Comunitária da Pedra do Rosário, sobretudo no Passo da Pátria, uma favela à margem direita do Rio Potengi, que ela elegeu como a central do seu apostolado: levava palavras de conforto, remédios, roupas, comidas e orientação espiritual – gesto que lhe valeu respeito, admiração e reconhecimento... Enfim! Além do seu trabalho social, das coalhadas, versos, doces e licores, vovó coordenava, ainda, na cozinha da sua casa, a produção das hóstias, que ela chamava partículas, a serem consumidas durante as missas realizadas na antiga Catedral. Durante anos, enquanto as mesmas eram feitas, as netas crianças faziam a festa, comendo, inicialmente, as sobras, até vovó dizer: — Basta!

O engraçado é que as hóstias não tinham gosto de nada... Isso porque a sua composição resume-se à farinha de trigo e à água – lembram cavaco chinês. Só que estes são maiores e discretamente salgados, e que, hoje, são raridades nas ruas de Natal. Bom! O fato é que, certo dia, vovó confidenciou-me onde guardava as hóstias. Eu, que nunca neguei ser a mais atrevida das netas – por isso, Nanoca me adorava –, armei um plano que, tudo indicava, seria infalível. Convoquei a minha irmã e a minha prima para uma reunião extra-oficial da nossa associação infantil – só nós três fazíamos parte da mesma –, onde expus a minha idéia de roubar, ou melhor, pegar emprestadas as hóstias, ou seja, as hóstias da Matriz, que vovó fazia e guardava, já que eu sabia onde era o seu esconderijo.

Mas – convenhamos –, só as pegaria à surdina. Sim, quando todos estivessem dormindo. Bom! A minha irmã, um ano mais velha do que eu, e a minha prima, da mesma idade que ela, nem me questionaram os motivos do tal empréstimo – coisa que eu também nunca iria saber responder –, pois adoraram a brincadeira. Afinal, embora eu ainda nem tivesse consciência – elas muito menos –, tudo não passou de uma deliciosa travessura de criança. E eu sempre terminava por conduzi-las em minhas aventuras, pois nunca tive medo de nada e, normalmente, era a mais arrojada das três – elas vão me bater quando lerem isso (risos)... Enfim! Tudo acertado, eu peguei emprestadas as hóstias de vovó e as guardei em uma bolsa, só esperando o momento certo para sair da sua casa.

Sim! Antes de alguém descobrir a referida traquinagem, consegui levar a bolsa com o seu conteúdo para a casa dos meus pais, que não se encontravam. Com a minha irmã e a minha prima, o plano foi posto em prática. O coração de todas exultava e nos preparamos para o nosso ritual: celebrar uma missa. Afinal, vivíamos cercadas pelo catolicismo por todas as partes – algo que nos sufocava, pois éramos apenas crianças e ninguém nunca nos perguntou qual o presente que queríamos ganhar: Uma boneca, uma bola, um carrinho? Então... Como transformar toda essa realidade opressiva em ludicidade? Assim, os elementos que sempre nos envolviam, já em nossa infância, eram os próprios ícones católicos, os quais, aliás, desde criança, renegávamos, embora, à época, inconscientemente.

Assim, passamos a celebrar várias missas com as hóstias de vovó e os vinhos dos meus pais – nunca tivemos a coragem de roubar sequer uma das garrafas de licor de Nanoca. Afinal, a gente respeitava vovó. Se nós chegamos a pegar emprestadas as hóstias que ela preparava para as missas é porque já tínhamos os nossos questionamentos em relação à Igreja católica. Sinceramente, nem sei quantas missas realizamos as escondidas. O engraçado é que ora uma era o padre, a outra o sacristão e a terceira a fiel devota. E, a cada rodada da brincadeira, íamos alternando as posições, ou melhor, os cargos. A mesa, por sua vez, coberta com uma manta vermelha que a minha mãe tinha, decorada com castiçais e velas, um exemplar da Bíblia e, acho, um terço – dá um estudo antropológico.

Resultado: nem me recordo quantas vezes fizemos essa brincadeira, mas, segundo a minha prima, a tal brincadeira parou quando, um dia, sem a gente menos esperar, os meus pais chegaram sem avisar. Feito furacão, tivemos de esconder tudo. Acho até que fomos muito competentes em encobrir as nossas travessuras, mas, enquanto isso, nesse ínterim... Vovó, por sua vez, já tinha dado por falta das hóstias. Procurou uma das suas filhas (eu soube antes de ontem, por mais incrível que possa parecer) e disse: — As meninas (a minha irmã, a minha prima e eu, as suas netas) levaram as partículas (que eram as hóstias). Não conte a ninguém. Imagine se a Igreja descobre! – disse ela a minha tia Cida, vivíssima e maravilhosa. Só que as minhas outras tias, Lu e Nen, logo participaram do tal segredo.

Não deu outra! Vovó disse que o fato fosse abafado – abafado? Afinal, nem tráfico fizemos! Foi só para consumo próprio... Mas, segundo ela, como ficaria a sua reputação quando a Igreja católica tomasse conhecimento que três das suas netas – as mais levadas e, ao mesmo tempo, as mais queridas –, roubaram as hóstias que ela produzia para a Matriz só para brincarem de missa? Ora, dona Nanoca, não se constitui crime três crianças fazendo traquinagem, pegando, sem nenhuma maldade, as hóstias da avó (a senhora nos ensinou isso). E o suposto crime nunca esteve previsto no Código Penal Brasileiro. Se ele esteve, já prescreveu. Tanto que, até hoje, continuamos unidas: a minha irmã, a minha prima e eu. Sim, continuamos ligadas, apesar das diferenças, algo inerente ao ser humano.

Mas, graças à senhora, avó querida, que nunca nos entregou por um eventual delito infantil, sem – convenhamos – nenhuma leviandade, sobretudo quando cometido sem gravidade alguma, nunca lhe desrespeitando, continuamos livres. O fato, vovó, é que nós brincávamos com as suas hóstias porque éramos sufocadas por santos, oratórios, crucifixos e missas – queríamos nos libertar. Mas, onde quer que a senhora esteja, sempre irá me entender. Afinal, nunca me repreendeu por nada! E deve continuar aos pés da ladeira, onde, já com mais de 80 anos, decidiu revelar-se: “Não nasci para atividades domésticas, mas fui dona de casa por dever e cumpri a minha missão com um forte espírito de responsabilidade. Na verdade, gostaria de ter estudado muito, pois nasci para escrever, para compor e conversar...”.

Tanto que, hoje, vovó, as nossas brincadeiras com as suas hóstias, entre outras realidades, fizeram da minha irmã e da minha prima espíritas convictas. Eu, das três, a única atéia. À época, a senhora percebeu que eu nunca rezaria na cartilha do cristianismo nem da do catolicismo. Ao invés de me renegar, fez o quê? Abriu os braços, me apontando à liberdade, pois sentiu a humanista que, desde criancinha, eu já era. E, adulta, continuei alimentando tais sentimentos. Passou-me o quê, a senhora, quando ainda era viva? Princípios humanistas sólidos, independentemente de qualquer religião, ou seja, sabedoria e poesia... Enfim! Foi assim que aconteceu. Infelizmente, em uma manhã de domingo, no dia 11 de maio de 2003, em Natal, Nanoca nos deixou. Órfãos... Dela e da sua ludicidade.


* Publicado originalmente no dia 11 de novembro de 2010, dia do aniversário da minha avó Nanoca. Neste ano de 2012, pensei em republicá-lo no dia do seu nascimento, mas achei melhor fazer isso no dia de hoje, 21 de novembro, quando Natal festeja Nossa Senhora da Apresentação, padroeira da cidade, de quem vovó era devota – hoje, inclusive, é feriado na capital do Rio Grande do Norte.


adendo: Uma responsabilidade da minha avó, além do feitio das hóstias, entre outros encargos, era a de, semanalmente, receber e guardar em casa pacotes de exemplares do jornal O Domingo, periódico semanal litúrgico-catequético da Igreja católica distribuído aos fiéis quando das missas de domingo.

Nathalie Bernardo da Câmara

sábado, 17 de novembro de 2012

O NOVO CÓDIGO E O REMENDO FLORESTAL



Por Raul do Valle
Advogado brasileiro, coordenador de Política e Direito Socioambiental do Intituto Socioambiental (ISA) – 19/10/2012

Publicado no dia 23 de outubro de 2012 no Blog da Marina


Agora é lei, e tem inclusive número: 12.651/12, com alterações feitas pela Lei 12.727/12. Após três anos de intensa mobilização, que começou com a criação de uma comissão especial na Câmara dos Deputados, em 2009, e a nomeação do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) como relator, o agronegócio brasileiro finalmente tem uma lei florestal para chamar de sua.

Feita a sua imagem e semelhança, ela é cheia de contradições. Tem um lado moderno, que prevê a criação de um sistema georreferenciado de cadastramento de imóveis rurais para monitorar, por satélite, a derrubada de florestas. Mas tem também um lado arcaico, agarrado às raízes latifundiárias do Estado brasileiro, e que infelizmente suplanta, em muito, seu aspecto inovador. E é com esse lado que a sociedade brasileira terá de lidar daqui para frente.

Com a nova lei, agora temos dois padrões de cidadãos: os que respeitaram as regras até então vigentes (Código Florestal antigo) e os que não respeitaram. Os primeiros, independente do tamanho do imóvel, terão de manter 50 metros de florestas ao redor de nascentes (só as perenes, que têm água o ano inteiro, pois as demais ficaram sem proteção), 30 metros ao largo dos pequenos rios, respeitar as florestas dos topos de morro e encostas. Os outros não precisarão ter florestas em topos de morro e encostas, terão só 15 metros ao redor de nascentes e, dependendo do tamanho do imóvel, poderão nem ter mata ciliar ao largo dos pequenos rios (veja tabela). Para os primeiros não há qualquer compensação concreta que lhes premie por haver cumprido a lei. Para os demais não há qualquer incentivo concreto que lhes convença a ter uma árvore a mais do que o mínimo (bem mínimo) exigido em lei.

Uma das características mais marcantes da nova regra é sua complexidade e dificuldade para compreendê-la, o que, consequentemente, se transformará em dificuldade na hora de implementá-la. A lei anterior, com todos os problemas que generalizações podem trazer, pelo menos era pão-pão, queijo-queijo. Todo mundo tinha que ter mata ciliar do mesmo tamanho se estivesse na beira do mesmo rio. Todo mundo tinha que ter reserva legal, e por aí vai. Agora depende. Depende do que? Do tamanho do imóvel e, se houver desmatamento de áreas protegidas (Área de Preservação Permanente e reserva legal), de quando ele ocorreu.

Um pequeno proprietário que tinha todo seu imóvel desmatado antes de 2008 terá que recuperar muito pouco da vegetação original, mesmo aquela que há décadas era protegida por lei. Um médio proprietário na mesma situação terá que recuperar bem mais, mas mesmo assim bem menos do que na legislação anterior. Se o desmatamento ocorreu após 2008, no entanto, a situação será completamente diferente para ambos. Se parte do desmatamento foi antes e parte depois de 2008, a situação será outra ainda. Difícil imaginar como o proprietário rural, que acreditou que a lei feita por seus representantes traria “clareza” e “segurança jurídica”, vai entender essa confusão.

Tudo isso vai gerar um enorme problema de monitoramento. Primeiro porque não temos imagens de satélite, com a resolução necessária e cobertura para o país inteiro, para saber o que estava ou não desmatado em 2008. Portanto, é bastante possível que desmatamentos feitos após essa data acabem entrando no “pacotão”. Segundo, porque as imagens de satélites hoje utilizadas para monitorar o desmatamento em todo o país não têm a resolução adequada para verificar a restauração de 5 ou 8 metros de mata ciliar, como determina a lei para muitos casos. Para que isso seja possível, será necessário adquirir imagens de alta resolução, muito mais caras do que as atualmente disponíveis.

Com todas essas questões, demorará muitos anos até que sejamos capazes novamente de fazer análises da situação do desmatamento ilegal em determinado município ou bacia hidrográfica, por exemplo. Até há pouco tempo era possível, com imagens de satélite, identificar que pontos de determinado rio devem ser obrigatoriamente restaurados, por terem menos mata ciliar do que a lei mandava. Agora isso só poderá ocorrer quando todos os proprietários lindeiros desse rio tiverem cadastrado seus imóveis e assinado seus termos de compromisso de regularização. Não haverá mais análises no atacado, mas apenas no varejo, pois cada caso será um caso.

Os grandes prejudicados com a nova legislação serão os que vivem nas regiões mais drasticamente desmatadas do país. Sim, porque apesar da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) viver martelando que o país tem mais de 50% de vegetação nativa preservada, ela se concentra sobretudo na Amazônia. Em determinadas bacias hidrográficas de São Paulo, a locomotiva do país, não há nem 5% de floresta em pé. Está faltando lenha, está faltando água. E justamente aí é onde haverá a menor restauração, pois a ocupação agropecuária é antiga e os imóveis, em sua grande maioria, são pequenos ou médios.

Mas mesmo na Amazônia o impacto será grande. Primeiro porque muitas das regras de proteção à floresta que ainda resiste ao avanço das pastagens foram flexibilizadas. Em mais de 90 municípios a reserva legal cairá de 80% para 50%. Todos os imensos igapós e várzeas (mais de 400 mil km2, ou um estado de São Paulo) deixaram de ser considerados Áreas de Preservação permanente e, assim, poderão ser derrubados. Todas as nascentes intermitentes, abundantes nas áreas de transição com o Cerrado, poderão ser desmatadas. Mas não é só isso. A anistia concedida ao desmatamento do Cerrado (49% da área total, concentrada no Sudeste e Centro-Oeste) e da Mata Atlântica (76% da área total) será seguramente um estímulo aos que gostariam de avançar um pouco além do que a nova lei permite. “Se eles puderam, por que eu não poderei?”

E assim abrimos um novo capítulo na história de nossa combalida política florestal. Com um novo marco legal que já nasce remendado, e traz como princípio a submissão da proteção de nossos biomas à “presença do País nos mercados nacional e internacional de alimentos e bioenergia” (art.1o – A, parágrafo único, inciso II), temos que seguir adiante e ver no que vai dar.

Parte dos estragos produzidos pela lei poderá ser amenizada em sua regulamentação. Por exemplo, será necessário evitar que grandes e médios proprietários cadastrem suas propriedades de forma fragmentada para ganhar o direito a uma “anistiazinha adicional”. Outra parte poderia ser resolvida com um conjunto coerente e robusto de incentivos econômicos que, por um lado, premiassem os que historicamente conservaram suas florestas e, por outro, estimulassem os proprietários a restaurar para além do mínimo estabelecido na nova lei. Não há, no entanto, nenhum sinal do Governo Federal de que esteja pensando seriamente em algo assim.

Resta saber qual o papel que será exercido pelos setores representativos do agronegócio. Se vão apostar em aprofundar as flexibilizações na regulamentação e empurrar a implementação da lei com a barriga, pra ver se liquidam a fatura daqui a alguns anos, ou se finalmente, agora que têm uma lei por eles elaborada, vão querer implementá-la. Essa é a incógnita que se desvendará a partir de agora.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O ORÇAMENTO E AS TRAGÉDIAS CLIMÁTICAS




Por Gil Castello Branco
Economista brasileiro, fundador da Organização não governamental Associação Contas Abertas (E-mail: gil@contasabertas.org.br)

Publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo no dia 12 de novembro de 2012


No Brasil, o primeiro homem público que demonstrou preocupação com os fatores climáticos foi d. Pedro II, quando prometeu: “Venderei até o último brilhante da minha coroa para acabar com a seca no Nordeste”. A coroa intacta, com todos os brilhantes, está exposta no Museu Imperial de Petrópolis e milhares de nordestinos, ao longo de 150 anos, foram sepultados em seus Estados.

Desde o Império, portanto, a natureza anda de mãos dadas com a falta de planejamento e a debilidade do Estado nas esferas municipal, estadual e federal. No caso das inundações e dos desabamentos, a raiz do problema é a questão habitacional. Por muitos anos, o financiamento da casa própria atendeu somente as classes mais favorecidas. Em razão da inflação e dos juros elevados, a correção das prestações superava os reajustes salariais, inviabilizando as operações, notadamente para as famílias de baixa renda. Surgiram, assim, as ocupações precárias e as invasões, sob a vista grossa dos governantes.

Diante do caos consumado, as tragédias vêm com aviso prévio. As enchentes, por exemplo, estão no calendário nacional entre o Natal e o carnaval. Todos conhecem os Estados, as cidades e até as áreas de risco onde os eventos historicamente acontecem, mas o poder público é omisso em relação à atuação preventiva.

De 2000 a 2011, o Ministério da Integração Nacional – onde está alocada a Secretaria Nacional da Defesa Civil – aplicou RS 7,3 bilhões na “resposta aos desastres e reconstrução” e apenas RS 697,8 milhões na “prevenção e preparação para desastres”. No ano passado, da mesma forma, foram gastos quase sete vezes mais em “resposta” às catástrofes do que em medidas que poderiam minimizar os seus efeitos. Além disso, nos últimos 12 anos, de cada RS s do Orçamento da União para evitar calamidades naturais, somente RS 1,22 foi efetivamente investido.

Para acentuar o rol de absurdos, em 2010, dos RS 167,5 milhões aplicados em prevenção, 50,5% foram utilizados na Bahia, terra natal do ex-ministro da Integração Nacional Geddel Vieira Lima. O Tribunal de Contas da União (TCU) questionou a distribuição de recursos e recebeu a informação de que a Bahia havia apresentado maior quantidade de projetos bem elaborados. Será que projetos dessa natureza são como o acarajé, que ninguém faz como os baianos?

No ano passado, sob nova direção, o Ministério da Integração destinou cerca de 90% dos recursos do programa de prevenção a Pernambuco. Embora a finalidade tenha sido a construção de duas barragens, uma vez mais foram questionados os critérios de distribuição estadual das verbas. A discussão acabou em frevo.

Em 2012, além dos programas de prevenção e resposta que já existiam – e permanecem neste ano -, foi criada outra rubrica com o nome de “Gestão de Riscos e Respostas a Desastres”, envolvendo pelo menos seis ministérios. A dotação autorizada neste exercício para os três programas, nas várias pastas, é de RS 44 bilhões. No entanto a dois meses do fim do ano, nem sequer a metade dos recursos foi empenhada (reservada para pagamento futuro). Até 7 de novembro, apenas RS 2 bilhões foram comprometidos e somente RS 1,3 bilhão foi efetivamente pago, incluindo os restos a pagar de anos anteriores. Algumas ações aparentemente importantes apresentam execução orçamentária pífia.

No Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, a ação de “Implantação do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais” tem RS 90,5 milhões autorizados, mas apenas RS 867.427,50 (1%) foram empenhados. No Ministério das Cidades, dos RS 404,7 milhões destinados ao “Apoio ao Planejamento e Execução de Obras de Contenção de Encostas em Áreas Urbanas”, somente 20% foram empenhados até a semana passada. Diversas outras ações estão mal executadas, o que é preocupante tendo em vista a proximidade do verão.

Por outro lado, o Nordeste vivência a pior seca dos últimos 80 anos. O cenário é desolador, com escassez de água, animais morrendo, fome e miséria. O governo segue o ritual. Repassou recursos para as áreas atingidas, prorrogou a bolsa-estiagem e autorizou o pagamento de duas parcelas do seguro-safra. Anunciou, ainda, o aumento do número de carros-pipa e a venda de milho subsidiado para a alimentação de animais. Em síntese, combate a febre sem eliminar a doença.

A seca no Nordeste brasileiro é um problema crônico e secular, que exige providências definitivas de longo alcance, como obras que ampliem a estrutura hídrica e a distribuição de água. A transposição do Rio São Francisco, discutida desde o Império, só foi realmente iniciada em julho de 2007. No entanto, mais de quatro meses depois da inauguração do primeiro trecho, em junho de 2012, nenhuma gota d”água do Velho Chico chegou aos moradores da região de Cabrobó, em Pernambuco. O canal com pouco

mais de 2 km já esta pronto, mas faltam uma estação de bombeamento e uma ponte, que nem começou a ser construída.

Além da necessidade de agilizar as obras de infraestrutura, o Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil precisa ser aprimorado. Na verdade, a Defesa Civil, criada na 2ª Guerra Mundial, até hoje não encontrou a sua identidade. Em alguns Estados, está vinculada à Casa Militar do Governador; em outros, ao Corpo de Bombeiros. Também é possível encontrá-la subordinada a secretarias da área social. A coordenação é exercida tanto por civis como por militares, sem que existam carreiras específicas.

Assim, tanto nas enchentes quanto nas secas, é preciso que seja intensificada a prevenção dos desastres naturais, aprimorando a gestão e ampliando os valores aplicados, mesmo que, para isso seja necessário vender os brilhantes da coroa de d. Pedro II.


terça-feira, 13 de novembro de 2012

TRABALHO ANÁLOGO AO ESCRAVO E DESMATAMENTO NA AMAZÔNIA



Você acha normal o uso de trabalho análogo ao escravo e o desmatamento ilegal de floresta? O governo parece achar. Nos últimos dias, entregamos ao Ministério Público e ao Ministério do Meio Ambiente duas denúncias que, apesar de graves, continuam comuns na Amazônia.

A primeira delas foi na Floresta Nacional (Flona) de Altamira, no Pará. Na primeira posição entre as unidades de conservação mais desmatadas em setembro, a área continua sendo devastada. A segunda foi ao lado da Flona: um fazendeiro que tem uma lista de crimes ambientais e trabalhistas – como o uso de trabalho análogo ao escravo – foi beneficiado por um programa do governo de regularização de terras.

A falta de governança permanece a todo vapor na Amazônia, e a destruição vem na esteira dessa realidade. É por isso que precisamos da sua ajuda para levar ao Congresso a lei de iniciativa popular pelo desmatamento zero. Precisamos do maior número de assinaturas possível para mostrar ao poder público que a devastação e a impunidade não são mais toleradas pela sociedade.



Você que já deixou sua marca nessa iniciativa que vai fazer história no país, aproveite para registrar seu título de eleitor, facilitando a validação das assinaturas quando ela chegar ao Congresso. Compartilhe com seus amigos. Para continuarmos trabalhando por um Brasil verde e limpo, precisamos da sua ajuda. Junte-se a nós e colabore com o Greenpeace.




Um abraço,
Marcio Astrini
Coordenador da Campanha da Amazônia
Greenpeace

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

TER UM FUTURO


Por Marina Silva
Ambientalista brasileira, ex- senadora e ex-ministra do Meio Ambiente
Artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo no dia 09 novembro de 2012


Num debate no Rio de Janeiro, ouvi do ativista francês Daniel Cohn-Bendit: "Em nossa juventude, lutamos pela liberdade pensando que, com ela, faríamos o futuro que queríamos; hoje, a juventude precisa usar essa liberdade na luta para ter algum futuro".

De fato, a política parece nos restringir a um longo presente, sem aprender com o passado nem projetar o futuro.

O Congresso aprovou o projeto que altera a destinação dos royalties do petróleo. O tema se arrasta desde 2011, quando o Congresso aprovou o marco regulatório do pré-sal e deixou os royalties para depois - das eleições, bem entendido.

A polêmica é sobre a divisão entre Estados e municípios produtores e não produtores, que não foi mediada na política e será arbitrada pela Justiça. Mais uma vez, o governo foi atropelado por uma base parlamentar mobilizada por interesses imediatos e pragmáticos.

Tão ou mais grave, mas que não ganha manchetes, é a destinação dos recursos. Prevaleceu a solução mais fácil, em que os governantes têm liberdade para gastar como querem, numa pulverização de recursos "boa de voto" e péssima para o futuro do país.

O petróleo é fonte de energia poluidora, que acelera as mudanças climáticas, mas o mundo ainda não pode prescindir dele. Energias renováveis e mais limpas - eólica, solar, biomassa e etanol - estão sendo desenvolvidas, mas ainda não são suficientes para substituir totalmente o petróleo. Cabe à atual geração usar o que tem antecipando-se aos problemas futuros.

Nos recursos do pré-sal, devem ter prioridade educação, ciência e tecnologia, além da prevenção das mudanças climáticas. Assim, o Brasil poderá liderar a transição para a economia de baixo carbono. O governo acenou com os recursos para a educação, mas não se empenhou na causa. E abandonou o Fundo Clima, criado no fim de 2009 com parte dos royalties do petróleo. O PL atual o deixa à míngua e compromete a Política Nacional de Mudanças Climáticas.

Como o governo e sua base parlamentar vão manter os projetos de combate à desertificação no semiárido nordestino, combate à erosão e gestão de áreas costeiras, prevenção de desastres naturais, manejo florestal, monitoramento da emissão de gases-estufa?

De onde virão os 10% do PIB para garantir o Plano Nacional de Educação que tramita no Congresso? Como manter os recursos destinados ao Fundo Clima, para cumprir as metas da política de mudanças climáticas? Devemos esperar que a próxima geração pense no futuro quando ele tiver chegado?

Se brasileiros considerarem seriamente a proposição dramática de Cohn-Bendit, "lutar para ter um futuro", e o chamado de Stéphane Hessel, "indignai-vos!", em pouco tempo a Europa pode ser aqui.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

FATO E OPINIÃO


Por Marina Silva
Ambientalista brasileira e ex-ministra do Meio Ambiente

Artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo no dia 26 de outubro de 2012


Há um pensamento arrogante, derivado de um positivismo rudimentar, que prega a superioridade dos fatos objetivos sobre as opiniões, consideradas meras suposições subjetivas. Aí esconde-se uma esperteza: os fatos são cuidadosamente selecionados para comprovar uma opinião já formada com base em interesses, estes, sim, muito objetivos.

Os que contrariam tais interesses e contestam a escolha dos fatos são levianamente desqualificados como ideológicos e radicais. No debate sobre o ex-Código Florestal, cabe perguntar aos idólatras dos "fatos":

1) É fato que o agronegócio (cuja importância na macroeconomia e no comércio internacional ninguém nega) não é que coloca "comida na mesa" do povo brasileiro, que 60% da cesta básica é garantida pela agricultura familiar, também responsável por 7 em cada 10 empregos no campo?

2) É fato que existem mais de 140 milhões de hectares de áreas degradadas, improdutivas ou com baixíssima produtividade e que é possível dobrar a produção agrícola e o rebanho bovino sem desmatar novas áreas, bastando agregar tecnologia simples e disponível?

3) As propriedades com menos de quatro módulos fiscais (na Amazônia são 400 hectares) nem sempre coincidem com a agricultura familiar, que muitas são agregadas à pecuária ou às empresas agrícolas?

Se assim for, as reformas no código perdem a justificativa de defender os pequenos agricultores e, de fato, atendem ao interesse de grandes empresas. Mesmo porque, entre as mudanças feitas, há fatos que vêm sendo omitidos.

O art. 67 dispensa imóveis menores que quatro módulos fiscais de recuperar reserva legal desmatada até julho de 2008. Isso é anistia. O Ipea calcula que 3,9 milhões de hectares deixarão de ser recuperados.

O art. 63 abre várias exceções que anistiam desmatamento ilegal em topos de morro e encostas, e o art. 61-A oferece as mesmas bondades, dependendo do tamanho do imóvel, a quem desmatou ilegalmente margens de rios, nascentes, olhos d'água, lagos e veredas.

Quem não foi anistiado, ainda pode usar 50% de plantas exóticas (comerciais) para recuperar áreas degradadas (artigos 61-A 13 e 66, parágrafo 3º).

Nos mangues e apicuns, as áreas degradadas não serão recuperadas e novas áreas podem ser ocupadas com criação de camarões e loteamentos urbanos (art. 11-A). A mata ciliar deixa de ser contada a partir do ponto de cheia do rio e muda a definição de "topo de morro", reduzindo, em alguns casos, até 90% da área protegida.

A liberdade de pensamento é uma das maiores conquistas de nossa preciosa democracia. O código deixa de ser florestal, torna-se um sistema de concessões para a ocupação predatória de quem quer aumentar terras em vez de agregar tecnologia. Vai na contramão do século 21 e é um retrocesso.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

CAMINHANDO E CANTANDO...


No q estou pensando... na barata q passou agora (ONTEM A NOITE)... morrendo de medo, diferentemente da escritora Clarice Lispector (1920 - 1977). odeio barata! e só me levanto quando ela não for mais uma ameaça para mim. ainda chamam de barata ecológica! mané ecologia! Grito por Marina Silva e ela não aparece.... rs

domingo, 4 de novembro de 2012

NO QUE ESTOU PENSANDO...



EM NADA! Querendo me preservar de longos dias de suplício, q foi a suposta renúncia da prefeita de Natal, no RN... Pensei q eu ainda entendia de política... rs Enfim! Já q Ivan Cabral não disponibiliza a charge do dia 1 de novembro, vai a de hoje, cujo título é INADIMPLÊNCIA...

sábado, 3 de novembro de 2012

DEUS = FACEBOOK


No q estou pensando... Na minha brilhante inteligência quando, há mais de 20 anos, ou mais, transferi o meu domicílio eleitoral de Natal para Brasília. Afinal, realizem a ideia q o dia de finados aqui continua, bem como todo o cenário político degradante, nada edificante... Vejamos: dois furacões assolaram Natal nos últimos dias – algo histórico. Primeiro, o resultado nas urnas do segundo turno para prefeito de Natal. O eleito tem a ficha mais suja do q pau de galinheiro – alguém sabe o q é um pau de galinheiro? E a justiça brasileira, o retrato da inércia, não fez nada para evitar tamanho cataclismo. Depois, a suposta renúncia de Micarla, a prefeita de Natal... Para completar, eu, ainda, querendo entender o processo... (rs). E, Ivan Cabral – meu termômetro político de todos os dias –, disponibiliza no seu blog, POR FAVOR, a charge do dia 1 q saiu no jornal pq esta já voou... Pense! rs

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

HISTÓRIA DE CEMITÉRIO*


“Carioca é assim: já nem liga mais para bala perdida. Entra por um ouvido e sai pelo outro...”.

Autor desconhecido


Pode parecer piada ou humor negro, mas, aproveitando a deixa do Dia de Finados, comemorado no dia 2 de novembro, me lembrei de um fato que me ocorreu em 1998, quando estive no cemitério de São João Batista, no bairro de Botafogo – olhe o nome! –, no Rio de Janeiro. À época, eu estava pesquisando a vida da educadora, escritora e feminista norte-rio-grandense Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810 - 1885) e precisei ir ao Rio de Janeiro realizar umas pesquisas in loco, considerando que a minha biografada havia morado na Cidade Maravilhosa durante vários anos. Concomitantemente, contudo, durante a minha pesquisa, eu aproveitei para traduzir um livro de sua autoria, originalmente escrito em francês e publicado em 1878, intitulado Fragmentos de uma obra inédita – Notas biográficas, no qual ela tece uma elegia ao irmão Joaquim Pinto Brazil (1819 - 1875), advogado, filósofo e filólogo brasileiro – a título de ilustração, a tradução foi publicada pela Editora da Universidade de Brasília em 2001.

Enfim! Quando Nísia Floresta escreveu o livro sobre o irmão, ele havia recentemente falecido e, por algum motivo, muitos dados biográficos a seu respeito não foram incluídos na homenagem. Assim, como Pinto Brazil também havia vivido durante muito tempo no Rio de Janeiro, decidi pesquisar na Biblioteca Nacional e em demais instituições em busca de informações seculares que me fornecessem subsídios para a minha tradução. Foi aí, então, que, certo dia, resolvi ir ao cemitério de São João Batista, onde Pinto Brazil havia sido sepultado. O único inconveniente é que não seria nada fácil encontrar o seu túmulo com o pouco tempo que eu dispunha, apesar de dispor da sua localização, já que o cemitério é enorme e iria fechar meio-dia, visto que o Brasil jogava naquela tarde – era Copa do Mundo. Sem falar que, provavelmente por causa do evento, o local estava praticamente vazio, fato que, de certa forma, me deixou apreensiva, pois estava sozinha e não sou afeita a nada fúnebre.

Porém, de posse das coordenadas do túmulo de Pinto Brazil, as quais me foram fornecidas por uma funcionária do cemitério, comprei um cravo em uma floricultura defronte e entrei no cemitério, rodando alas e mais alas à procura da tal sepultura, sem encontrá-la. De repente, apesar do medo daquela solidão sepulcral e já quase perdendo as esperanças de encontrá-la – o cemitério iria fechar em minutos –, eis que, para minha surpresa e sem que eu menos esperasse, dei de cara com o meu objeto de busca. Ocorre que o túmulo de Pinto Brazil foi edificado na vertical, sem nenhuma inscrição em suas laterais. Resolvi, então, ousadamente, subir no túmulo – não profanei nada! No alto, contudo, encontrei alguns registros. No entanto, quando eu estava fotografando-os e os anotando em bloco de papel, ouvi tiros. Foi aí que, quando dei por mim, percebi que era um tiroteio entre duas favelas que circundam o cemitério. Era tanta bala que, desesperada, quase levei um tombo.

Mesmo assim, ainda tive tempo para depositar o cravo que eu havia comprado na floricultura sobre as inscrições lapidadas na sepultura e pulei, por pouco não quebrando um pé ou uma perna, e, com medo de ser atingida por uma bala perdida e morrer ali mesmo, em pleno cemitério, sai correndo. O problema é que o portão principal do cemitério ficava distante de onde eu estava e achei que não iria conseguir chegar viva até ele, que levaria um tiro e que só encontrariam o meu corpo no dia seguinte – quanta ironia, morrer atingida por uma bala perdida cercada de tumbas... Foi surreal! De qualquer modo, ao alcançar o escritório do cemitério, logo na entrada, encontrei a funcionária, que já estava prestes a ir embora – por pouco eu não teria ficado trancada dentro do cemitério... Sensibilizada, contudo, com a minha aflição, ela gentilmente me forneceu um livro de registros dos mortos que, literalmente, eles mantêm lá, e, para minha surpresa, encontrei alguns dados sobre Pinto Brazil.

Dados esses, inclusive, até então inéditos para aqueles que pesquisam a vida de Nísia Floresta. Entre eles, por exemplo, a causa mortis de Pinto Brazil. Daí eu costumar dizer que o ponto de partida para qualquer pesquisa de caráter biográfico sejam as igrejas, os cartórios e os cemitérios... Em alguns casos, hospitais também. Enfim! Depois disso, já mais calma, tratei de cair fora daquele lugar de natureza mórbida – depois da traumática experiência, igualmente atemorizante –, peguei um táxi e fui encontrar uns amigos que estavam reunidos para assistir ao jogo do Brasil em um bar no bairro de Ipanema. Logo eu, que não suporto futebol! – muito menos durante a Copa do Mundo, onde pulula uma irritante e repulsiva histeria coletiva. Ocorre que, naquela ocasião, eu não tencionava voltar ao apartamento. Só de pensar no tiroteio que presenciei no cemitério – não sei nem como os mortos não despertaram –, eu só queria me cercar de vivos. Nem que fosse de vivos histéricos...


Nathalie Bernardo da Câmara


* Publicado originalmente há 1 ano. E correndo, morrendo de medo... Pense!