sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

JOSÉ SIMÃO: — BLOGUEIRA CUBANA É SPAM!

“Soy una bloguera ciega…”.

Yoani Sánchez
Filóloga e jornalista cubana, que mantém o blog Generación Y, editado desde abril de 2007.


Vírus é algo que, de fato, cega, quando não provoca outras avarias... – perfeita, a frase do jornalista brasileiro. Bom! Não vou me prolongar, pois, depois que vi essa mulher, no Brasil, ladeada nos corredores do Congresso Nacional pelo que há de pior na escória política do país – haja redundancia! –, a gente até emudece… Depois de ler isso, então, Repórter desmacara blogueira cubana Yoani Sánchez em entrevista – entrevista essa publicada no site Portal Vermelho, datada do dia 25 de abril de 2010: http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=128182&id_secao=7

Enfim! Sem maiores comentários, opto por transcrever uma postagem publicada no dia 11 de março de 2010 por uma amiga no seu próprio blog – ouvi essa história, que ela mesma me contou, acho que em 2000, quando, à época, nos conhecemos, na Brasília de JK…


Cuba. Por Joana.


Fui à Cuba em 1998. Fiquei hospedada na casa de uma típica cubana no bairro de Santa Catalina. Ela se chama Lourdes e seu filho Jorge. Lourdes trabalhava no departamento de turismo do governo cubano e seu filho fazia faculdade de medicina, hoje já deve ser médico. Eles me buscaram no aeroporto no carro de um vizinho. Minha primeira impressão ao sair do aeroporto pode parecer chavão, mas foi uma cena com cara de Cuba. Um calor absurdo, muitas pessoas amontoadas do lado de fora esperando os turistas, um cheiro de charuto no ar e muitos negros. Saí meio perdida e fiquei procurando alguém com o meu nome escrito. Encontrei a Lourdes. Loura com os cabelos curtíssimos, olhos claros e muito queimada de sol. Bonita, magra, mas uma pele com cara de mal tratada, judiada. Carinhosa me abraçou e fomos para sua casa.

Ela morava em um bairro nos arredores de Havana, com prédios de cinco andares e escadas pelo lado de fora. O estacionamento parecia uma exposição de carros antigos, mas eram os carros de uso dos moradores. Embaixo da portaria tinha umas ovelhas dormindo, amarradas a um poste. Ao chegar em casa ela serviu o almoço. Me disse que era uma comida típica de Cuba. Eram pamonhas, idênticas as nossas. Eu ri e disse que também era típico no Brasil e falei como chamávamos. Depois do almoço, abri minha mala e ingenuamente lhe entreguei um CD do Caetano Veloso. Ela, com jeito, me disse que não teria como ouvir, mas que deixaria de enfeite na estante para quando surgisse a oportunidade. Perguntei se ela não conhecia alguém que tivesse um aparelho de CD e ela disse que infelizmente não.

À noite fomos ver uma novela cubana na casa de um vizinho. Era muito engraçada, o cenário pobre e a estória era numa floresta com uma filha de um lenhador. A sala estava simplesmente lotada. Me sentei no canto, no chão ao lado de Lourdes. A porta da casa estava aberta e algumas pessoas assistiam em pé. Todos conversavam alegremente durante a novela. No intervalo comentaram comigo sobre a novela brasileira, Mulheres de Areia, que estava passando em Cuba. Queriam saber quem ficava com quem, se o Tonho da lua morria e outros detalhes. E eu não lembrava de nada, nem quem era a boa, se era Ruth ou Raquel. Percebi durante os dias que passei ali, que as portas dos apartamentos ficavam todas abertas e que eles entravam um na casa do outro, a toda hora, como se o prédio realmente fosse uma casa só.

Sai com Lourdes algumas vezes para passear. Íamos de mobilete, seu meio de transporte. Certa vez fomos ao mercado semanal e voltamos com as sacolas penduradas ao guidon. Andar por Havana de mobilete foi a melhor forma de conhecer a cidade. A lambretinha vermelha andava devagar e Lourdes gentilmente fez vários passeios turísticos comigo, além de andar pelas ruas, entrando entre várias, onde eu senti total o clima deles: muita gente nas portas, grupos conversando, povo alegre, sentado nas calçadas, andando entre carros bem antigos, muitas motos com aquele lugar do lado acoplado e bicicletas. As ruas lotadas de pessoas. A maioria, negros. Fui algumas vezes numa loja de uma amiga de Lourdes. Era como uma cabana destas de teto de palha, com cara de praia. Dentro tinha roupas confeccionadas em Cuba, sorvete cubano e outras coisinhas, tudo de lá. A gente ficava lá papeando.

Também saí com seu filho Jorge, de ônibus. Fomos até o centro da cidade, onde eu ia comprar uma calça jeans, em um hotel, para ele. No caminho até a parada do ônibus percebi que nos canteiros das ruas crianças e adolescentes jogavam beisebol. Ficamos quase duas horas na parada. Perguntei que horas o ônibus passava e ele disse que não tinha como saber, teríamos que esperar. Entramos num ônibus com cara de carro de exército, com as janelas pintadas. Lotado, as janelas abertas e as pessoas penduradas. No trajeto vi que eles usam caminhão também como transporte coletivo. Loucura. No hotel não deixaram o Jorge entrar. Mostrei meu passaporte e disse que ele estava comigo, mas o segurança disse que não podia. Ele ficou do lado de fora me olhando pela parede de vidro. Tentei ir rápido, entrei numa loja, comprei a calça jeans, depois passei ao lado de um velhinho que ficava sentado dentro do saguão do hotel, numa mesinha, fazendo charutos. Comprei duas caixas para dar de presente, passei numa outra lojinha, comprei algumas garrafas de rum e sai. Voltamos de táxi, um carro preto bem velho. Ao chegar em casa ele experimentou o presente. Chegou na sala e eu e a Lourdes nos espantamos, pois estava enorme! Ai que tristeza me deu. Que absurdo, por que ele não pôde entrar comigo para experimentar? A Lourdes me conformou, disse que uma amiga ajustaria.

Apesar das dificuldades de se viver em Cuba, o que vi foi um povo que parecia feliz, mesmo com uma realidade absurdamente diferente. Me senti quase em outro planeta. Pessoas inteligentes, com muita cultura e informação, vivendo de uma forma muito simples. Na geladeira de Lourdes (que era bem antiga) só tinha banana, pimenta e açúcar. O pão de manhã eram torradas secas, sem manteiga nenhuma. Lá não havia, ela me disse. Fazia compra uma vez por semana no grande mercado público. Tinha o básico. Vez por outra faltava sal por um período, em outros faltavam outros produtos. O vaso sanitário não tinha a tampa. Se eu soubesse teria levado uma para ela. Fui despreparada. Não sabia que encontraria aquele cenário. Aliás, em todas as casas de cubanos que fui, percebi que os banheiros todos eram assim, com o vaso só na cerâmica. O banho era frio. No banheiro reparei que só tinha uma pedra de sabão, nada de sabonete ou shampoo. Um cano era o chuveiro. Uma vez por semana faltava luz. Lourdes era muito gentil, a noite perguntava se eu queria que ela esquentasse uma água para eu tomar banho. Mas o calor era tanto que não havia necessidade.

Fui na Casa da Música, ou Palácio da Música, não me lembro. Muito legal, um lugar lindo, prédio grande antigo. Fui com Jorge e sua namorada. Teve um show de Salsa com várias bandas, começando por uma formada por crianças pequenininhas, tocando percussão. Uma graça. Tomamos rum, dançamos, foi maravilhoso. Nos dias que estive lá, comemos bem. Levava eles para almoçar fora, numas casas que cozinham para turistas, lagostas e outras delícias. Também conheci uma cidadezinha no interior, San Antonio de Los Bãnos, onde fica a Escola de Cinema. Alto nível. Gente do mundo todo. Na verdade eu tinha ido a Cuba para fazer um curso de um mês em Los Bãnos, mas acabei resolvendo voltar com a Lourdes para Havana. Minha cabeça não estava legal para ficar.

No dia de voltar para o Brasil, fui embora de Cuba quase só com a roupa do corpo. Deixei tudo para Lourdes. Roupas, perfume, shampoo, cremes, tinta de cabelo e tudo que achei que valia à pena deixar. Para mim foi uma viagem inesquecível, que mudou minha cabeça. E acreditem, não foi para o mal. Não fiquei chocada ou com raiva do governo Cubano. Mas acho sim que já passou da hora de mudar. O regime precisa abrir mesmo, dar liberdade para as pessoas. Porém senti claramente que eles amam o Fidel e ninguém fala mal dele. Todo mundo sabe como ficam as ruas quando ele discursa (ou discursava). Tudo pára. As pessoas se agromeram aonde tiver uma televisão. Eles o amam. Deve haver, um outro lado, não? Quem viveu lá antes da entrada de Fidel, lembra que o país tinha se transformado em um parque de diversões dos EUA. Por isso eu acho que é muito difícil criticar Cuba. Mas enfim, debater sobre o Fidel não é meu interesse neste post. Quem sabe num próximo.

Queria apenas dizer que esta foi a viagem mais importante da minha vida. Aprendi coisas que nem sei explicar. Valores humanos que jamais veria em outro lugar. Fui ao Malecon, escrevi meu nome na parede da Bodeguita Del Médio, visitei prédios, monumentos, museus. Fiz os passeios turísticos todos (só não fui a Varadero). Mas o mais importante para mim foi conviver com os cubanos. Não sei como eles estão hoje. Talvez alguém leia este texto e diga que foi lá e não viu nada disso. Acho que quem fica hospedado num hotel não percebe algumas coisas.

Parti com saudade e gostaria de voltar. Não achei triste nem sai criticando. Juro. Não sei explicar ao certo o porquê. O sistema de saúde é muito bom. Não existem analfabetos, enfim, mas não foi por isso que eu sai com vontade de defender Cuba. Algo muito subjetivo mexeu comigo. Faz mais de dez anos que estive lá. E acho que ainda não elaborei tudo que vi. Sei que não pude enxergar as coisas de um lado só. Até hoje me emociono quando assisto o documentário “Buena Vista Social Club” e vejo aquelas imagens das ruas de Havana, como uma cidade pós-guerra, tudo muito velho e destruído, em contraste com os carros de milionários.

A felicidade deles é intrigante. E verdadeira. Mesmo sabendo que seus carros velhos, suas geladeira, nada é no nome deles (tudo é do governo), mesmo sabendo que um médico ganha o equivalente a 20 dólares, mesmo vendo um cenário que as vezes parece de filme de época. Mesmo vendo que eles guardam qualquer pedacinho de papel pra usar, porque lá falta tudo. Mesmo assim não dá pena nem revolta. Estando lá a gente entende. Não sei explicar como. É uma visão romântica? As coisas mudaram muito em dez anos? Não sei. Mas por favor, me entendam. Amei Cuba e acreditem, gosto do Fidel também.

O link?



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

OS OSSOS DE CRISTAL DA ANTROPÓLOGA RITA AMARAL (1958 - 2011)

“Divertimento é coisa séria e pode até mesmo ser entendido como a segunda finalidade do trabalho, vindo logo após a necessidade de sobrevivência...”.

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“O divertimento (pressuposto da festa) é uma rápida fuga da monotonia cotidiana do trabalho pela sobrevivência, não tendo, a princípio, qualquer ‘utilidade’. No entanto, a humanidade precisa da ‘vida séria’, pois sabe que, sem ela, a vida em sociedade tornaria-se impossível. Disto resulta que a festa deixa de ser ‘inútil’ e passa a ter uma ‘função’, pois ao fim de cada cerimônia, de cada festa, os indivíduos voltariam à ‘vida séria’ com mais coragem e disposição. A festa (como o ritual) reabasteceria a sociedade de ‘energia’, de disposição para continuar. Ou pela resignação, ao perceber que o caos se instauraria sem as regras sociais, ou pela esperança de que, um dia, finalmente, o mundo será livre (como a festa pretende ser, durante o seu tempo de duração) das amarras que as regras sociais impõem aos indivíduos...”.

Rita Amaral
Antropóloga brasileira


Na década passada, durante as pesquisas que, no período, eu desenvolvia sobre a Festa do Divino, inicialmente focadas na realização do evento numa dada cidade do Distrito Federal, mas que, no decorrer da empreitada, ao longo de alguns anos, aos poucos foi adquirindo outras dimensões, tive acesso à produção acadêmica Festa à Brasileira – Sentidos do festejar no país que “não é sério”, de autoria da pesquisadora Rita Amaral, do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP). Considerada a primeira antropóloga brasileira a publicar, pela internet, integral e exclusivamente, uma tese de doutoramento, a sua, ou seja, Festa à Brasileira..., defendida em 1998, disponibilizando-a para download gratuito em diversos formatos, Rita Amaral dedicava-se, ainda, aos estudos de antropologia urbana desde 1986 – ela pertencia ao Núcleo de Antropologia Urbana (NAU) da USP, cuja revista eletrônica, a PontoUrbe, era por ela editada, bem como a Os Urbanitas. Não demorou muito, ficamos amigas e passamos a trocar algumas ideias sobre festas populares, no caso, mais especificamente, sobre a Festa do Divino, com ela, inclusive, me enviando um belíssimo texto, de sua autoria, comentando a minha pesquisa de anos, o qual, aliás, destinei à contracapa do meu livro, que, por motivos que fogem da minha alçada, se encontra, ainda, inédito. Curiosamente, depois do período em que Rita Amaral e eu mantivemos certa ligação, fosse por telefone ou por e-mail, perdemos, infelizmente, todo tipo de contato.


Rita Amaral: — Quem não ter perna, voa...


Porém, não faz muito tempo, soube, meramente por acaso, que a antropóloga havia falecido no dia 24 de janeiro de 2011 de problemas respiratórios decorrentes de uma rara doença genética, a osteogênese imperfeita, também chamada de Ossos de cristal, por torná-los frágeis – eu desconhecia, diga-se de passagem, que Rita Amaral padecia desse mal, por ela contraído e diagnosticado aos sete anos de idade, após uma fratura do fêmur. Desde então, ao longo da sua existência, ela iria quebrar os ossos várias outras vezes, embora as adversidades não a tenham impedido de levar uma vida dita normal. Afinal, intrépida, desafiou os limites físicos e, para frequentar o curso de Ciências Sociais, frequentava a USP de cadeira de rodas, formando-se em 1986. Na década de noventa, passou a se dedicar a sua doença, investigando-a, além de criar, em 1999, a Associação Brasileira de Osteogenesis Imperfecta (Aboi). Segundo o jornalista brasileiro Estêvão Bertoni, no obituário que escreveu para a Folha de S. Paulo, Rita Amaral, inclusive, na sua busca incessante sobre a patologia que lhe acometia, chegou a descobrir “um médico canadense que criara um tratamento” para a mesma, aproveitando para traduzir textos de sua autoria a respeito para a língua portuguesa, pesquisando, a fundo, as suas próprias entranhas, enquanto a Aboi, por sua vez, passou a reivindicar ao governo brasileiro o fornecimento de remédios aqueles cujos ossos são de cristal “e, graças a sua atuação, existem, hoje, no país, vários centros de referência para o tratamento da doença”. Nesse ínterim, em 1992, Rita Amaral concluiu o mestrado sobre os terreiros de candomblé, e, em 1998, o doutorado sobre festas brasileiras, ambos pela USP – universidade através da qual, ainda, em 2002, obteve pelo Museu de Arqueologia e Etnologia o pós-doutorado em etnologia afro-brasileira. No período que antecedeu a sua morte, a antropóloga interrompeu os seus estudos de religião e cultura nacional, bem como, “com os movimentos limitados, segundo ainda o seu obituário, sentia falta de tocar violão” – uma das suas paixões. No dia de hoje, portanto, 18 de fevereiro de 2013, se viva, a paulistana Rita de Cássia de Mello Peixoto Amaral estaria completando 55 anos de idade...

Maiores informações sobre a osteogênese imperfeita, ou Ossos de cristal, cuja estimativa, no Brasil, é de um para cada dez mil nascimentos, clicar no link da Aboi, criado para fornecer informações detalhadas aos portadores da doença, bem como aos seus familiares, amigos e profissionais da área de saúde: http://aboi.org.br/

NBC

domingo, 17 de fevereiro de 2013

O GREENPEACE E A MODA


Você está antenado na moda? Pois nós estamos. A maioria dos consumidores já decretou que não quer produtos que estejam envolvidos com o desmatamento das florestas ou com a poluição tóxica dos rios. Mesmo assim, a indústria têxtil ainda não se adaptou totalmente aos desejos do mercado.

Para zelar pela vontade do público, nós montamos um ranking com as maiores marcas de alta costura da França e Itália, cobrando que elas adequem suas políticas de produção à conservação do meio ambiente.

Sapatos, bolsas e cintos que circulam o mundo inteiro nos armários das pessoas muitas vezes provêm do gado que habita áreas desmatadas ilegalmente na Amazônia, ou vêm fazendas que invadiram áreas protegidas ou que possuem trabalhadores em condições análogas à escravidão.

Para mudar esse cenário e incentivar as boas práticas no mundo da moda, propomos um duelo entre as maiores empresas internacionais. Quem sai ganhando são as florestas e as águas. Como consumidor, contamos com você para cobrar ações concretas das suas marcas preferidas.

Você também pode ajudar a interromper essa cadeia criminosa aqui no Brasil. Compartilhe a petição pela lei do Desmatamento Zero e proteja nossas florestas.


Faça parte do Greenpeace e junte-se a nós na luta por um mundo mais verde e vivo. Seja um herói você também, colabore com a gente! Nosso trabalho pelo meio ambiente é independente, e por isso seu apoio é fundamental para que ele continue.

Marcio Astrini
Coordenador da Campanha da Amazônia
Greenpeace

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

FIM DA TERRA OU SÓ VAI MUDAR O EIXO?


Sem epígrafe...

Mané binóculo para ver o asteroide hoje a tarde, como sugeriu um jornalista idiota, q, se brincar, vai nos devastar em milésimos de segundos. Só de pensar, me arrepio – sou curiosa da astronomia desde criança. E, mesmo q ele não engula a Terra, o nosso planeta, com a passagem do jovem, mudará de eixo. E, aí, quero ver o ser dito humano ser humilde. Acabar com essa arrogância toda, se achando! Detalhe: nem a ambientalista Marina Silva, q muito admiro, poderá nos salvar, pois é um fenômeno da natureza q nem a ciência, q tanto creio, pode ajudar. Então... Quem for religioso, pegue-se no primeiro crucifixo q passar. Para nós, os ateus, só tentar entender – se der tempo para isso (eu vou me pegar com o filósofo italiano Giordano Bruno [1548-1600], q adoro!). Agora, se a gente sobreviver, quem sabe não será melhor sermos mais decentes, parar de brincar com a vida? Enquanto isso, e não quero especular, fico sentada, só esperando – deve ser interessante morrer sentada... rs. E ouvindo Claudia Foureaux, uma compositora e cantora maravilhosa q, em dezembro passado, lançou um belíssimo CD (ando a curti-lo, pois tive o privilégio de, via Correios, receber 3 exemplares da própria), despontando de Niterói para o mundo – com direito a asteroide. Então... Vamos nos redimir dos nossos supostos pecados com a plena consciência de q, se a natureza assim o quiser, não acordaremos vivos no sábado, 16 de fevereiro de 2013... Enfim! Como diria o sempre genial Vinícius de Moraes (1913 - 1980), caso, amanhã, estivesse vivo: — Porque hoje é sábado... rs

NBC

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

RATZINGER E A RENÚNCIA AO PAPADO...

7 em 1 (publicado originalmente no dia 06 de junho de 2009) - alguns problemas de programação visual são inerentes ao Blogger quando republicamos uma antiga postagem.

TRAMA MACABRA

“O pior cego é aquele que não quer ver...”.
Dito popular


Eu não sei por que ainda perco o meu tempo e incomodo o meu intelecto e a minha criatividade escrevendo sobre o papa Bento XVI. Afinal, por seu curriculum vitae, que inclui um mandato de quase longos vinte e quatro anos (1981 - 2005) como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, instituída pelo papa Paulo VI (1897-1978), em 1965, e considerada o quarto e atual estágio da Inquisição, ele vem ocupando o primeiro lugar no meu index de persona non grata. À época, aliás, quando aceitou ser inquisidor, indicado para o cargo por João Paulo II (1920 - 2005), de quem foi mentor intelectual durante o seu pontificado, de 1978 a 2005, Bento XVI era o cardeal Joseph Ratzinger, então arcebispo de Munique, na Alemanha.

Assim, não é de se estranhar muitas das suas posições enquanto Papa – o 8° de origem alemã e o 265° da História –, já que, desde o início do seu pontificado, tem dado provas de que continua pensando como um inquisidor. Agora, óbvio, com mais poder, mais ainda, aliás, de quem ganha na mega-sena acumulada... Como podem ver, portanto, eu não faço parte das multidões de fiéis que se ajoelham – que ele adora! – diante das suas pregações de uma fé surreal, estimulando a prática da caridade, por exemplo, ao invés de promover a justiça social, mas, sim, das que se erguem – que ele teme! – diante do seu sadismo cada vez mais requintado.

Pior, inclusive, do que as arbitrariedades que ele cometeu quando era inquisidor. Sim, porque, à época, dispondo de apenas um martelinho, usado quando aplicava uma sentença, acusava um herege de cada vez. Na condição de Papa, ampliou o seu campo de atuação e as suas vítimas, visto que o seu poder e influência tornaram-se ainda maiores, já que, ao invés de um reles martelinho, ele disponhe, agora, da chave da porta do céu, a qual só concede passagem aqueles que considera merecedores da sua indulgência. Vejamos, portanto, a título de ilustração, um dos inúmeros casos de heresia julgados pelo Ratzinger inquisidor.




Quando, aos doze anos de idade, percebeu a sua vocação para o sacerdócio, o frade franciscano e teólogo brasileiro Leonardo Boff sempre esteve com um pé na fé e outro no povo, tornando-se, ao longo da sua trajetória de vida uma personagem singular. Aos quinze anos, apenas porque chegou ao seminário com livros de escritores proibidos pelo index da Igreja católica, por pouco não foi excomungado. Um dos exemplares, por exemplo, era A Origem das espécies, do naturalista britânico Charles Darwin (1809 - 1882), publicado em 1859, fato que levou uma delegação de padres a visitar o pai do jovem Boff, exigindo a queima dos livros.
Porém, mediante a exigência inusitada, o pai de Boff disse que queimava, sim, mas os padres. Não os livros... O fato é que Boff prosseguiu em sua carreira religiosa e, há decadas, por sua militância religiosa, política e social, tem tirado o sono de muita gente dentro e fora do Vaticano, sobretudo depois da criação da Teologia da Libertação na América Latina, lá pelos anos sessenta, embora a sua via crucis tenha tido início em 1972, quando publicou o livro Jesus Cristo libertador, onde fala de solidariedade e identificação com os pobres contra a sua pobreza e de sua libertação pessoal e social, ajudando a fundar a Teologia da Libertação. Nada demais! Afinal, não é isso o que a Igreja costuma pregar?


De 1970 a 1985, Leonardo Boff participou
do conselho editorial da Editora Vozes,
sendo um dos coordenadores da publicação
da coleção Teologia e Libertação
e da edição das obras completas do psiquiatra
suiço Carl Gustave Jung (1875 - 1961).


O detalhe é que, desde então, a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé não largou mais do seu pé e as coisas só foram piorando. Em 1984, por exemplo, por causa do livro Igreja: Carisma e poder, que Boff publicou, em 1981, onde denuncia a opressão da mulher, a concentração do poder nas mãos do clero e defende os direitos humanos, ou seja, apenas constata fatos, foi intimado a comparecer diante do inquisidor Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé – o termo Sagrada foi retirado em 1983 –, que decidiu abrir um processo contra o teólogo brasileiro por heresia, como se ainda estivéssemos em plena Idade Média.

A verdade é que Ratzinger considerava a Teologia da Libertação o Cavalo de Tróia do marxismo, principalmente na América Latina. Daí ele considerar imperativo combater o seu avanço. Por isso é que ele processou Boff e, em 1985, o condenou ao silêncio obsequioso: “Uma espécie de silêncio penitencial”, explicou o herege, que, dali para frente, “não podia falar, escrever, publicar, dar aulas...”. Penalidades, aliás, extremamente paradoxais, sobretudo para quem as aplicou, já que, um dia, talvez sob efeito de alguns cálices de vinho – bento, é claro! –, Ratzinger chegou a dizer que “quando o respeito é violado, algo de essencial se perde”.




O tal do silêncio obsequioso, contudo, só foi suspenso graças à pressão mundial e ao arcebispo brasileiro dom Paulo Evaristo Arns, que, em encontro com Ratzinger, teria dito:

— “Sua Santidade, o senhor fez com um aluno meu [Boff] aquilo que os militares do Brasil fazem, ou seja, fechar a boca, cortar a língua”...

Sem saída, o cardeal tentou se defender e, constrangido, retrucou: — “Eu, como os militares, torturadores? Absolutamente! Liberem o Boff!”...

A ascendência de Arns sobre Ratzinger, por sua vez, deveu-se ao fato da sua reputada conduta moral e política – diferentemente da do inquisidor, por exemplo, que fazia jus ao cargo que ocupava. Afinal, a trajetória religiosa, política e social de Arns sempre foi irrepreensível. Ao assumir a Arquidiocese de São Paulo, por exemplo – segunda maior comunidade católica do mundo, perdendo apenas para a da Cidade do México –, à frente da qual ficou ao longo de vinte e oito anos (1970 - 1998), ele não hesitou em vender o Palácio Episcopal por cinco milhões de dólares, que empregou em obras sociais, logo imprimindo o jeito Arns de ser.

Ou seja, igual a Boff, Arns tinha um pé na fé e outro no povo, sendo o seu curriculum vitae um rosário de prêmios, medalhas, títulos e homenagens nacionais e internacionais, além de diversos livros publicados, destacando-se, ainda, por ter sido uma das mais expressivas lideranças religiosas do Brasil, sobretudo pela sua resistência e combate à intransigência da ditadura militar (1964 - 1985), atuando em defesa das vítimas da repressão e dos direitos humanos, principalmente durante os chamados anos de chumbo, que teve início com a edição, pelo marechal Costa e Silva (1902 - 1969), em 13 de dezembro de 1968, do AI-5.

Instrumento jurídico que suspendeu as liberdades democráticas e os direitos constitucionais e individuais dos cidadãos brasileiros, além de fechar o Congresso Nacional e censurar a liberdade de imprensa no Brasil, o Ato Institucional n° 5 deu ainda mais peso aos anos de chumbo, que seria sentido, ainda, até o final do governo do general Emílio Garrastazu Médici (1905 - 1985), em março de 1974 – período, aliás, onde as torturas intensificaram-se, tornando-se o leitmotiv para um projeto de pesquisa, coordenado por Arns, iniciado em 1979 e concluído em 1985, durante o mais discreto e sigiloso silêncio, resultando no livro Brasil: Nunca mais.





Publicado no mesmo ano de 1985, o livro foi prefaciado pelo próprio Arns e registrou os horrores cometidos pela ditadura militar, causando comoção, polêmicas e repercussão internacional. Em 1989, Arns foi, oficialmente, indicado para o Prêmio Nobel da Paz. E foi à essa realidade que se referiu Arns quando repreendeu o inquisidor Ratzinger por ter proibido Boff de falar, escrever, publicar e dar aulas, silenciando-o injustamente. Bom! Como eu já disse em um outro artigo, intitulado As Bruxas de Salem, postado, inclusive, neste blog, podendo ser encontrado nos arquivos referentes ao mês de março...

O curioso é que, “interrogado durante horas no Palácio do Santo Ofício, onde, em tempos remotos, se praticavam torturas, Boff sentou-se na mesma cadeira onde, em outras circunstâncias, sentaram-se os hereges italianos Giordano Bruno (1548 - 1600) e Galileu Galilei (1564 - 1642).

Teria sido essa ou uma outra semelhante, a cadeira onde Leonardo Boff sentou-se diante do seu inquisidor, o cardeal Ratzinger, bem como o filósofo Bruno, queimado vivo na fogueira da Inquisição, e o matemático e astrônomo Galilei, que só escapou das labaredas medievais porque negou a sua própria tese de que a Terra não é o centro do Universo? Afinal, o modelo foi usado entre 1500 e 1800 em quase todos os países da Europa! Durante esse período, o acusado de heresia era preso com os pés para cima e a cabeça para baixo na cadeira. Tal posição, entretanto, causava dores atrozes nas costas, desorientava e aterrorizava a vítima. No entanto, possibilitava a fácil imposição de uma quantidade enorme de tormentos por parte dos inquisidores.



Segundo Boff, “os métodos da atual Inquisição mudaram. Hoje, se tortura apenas a psique do acusado, não mais o seu corpo...”. Além do mais, “depois do estabelecimento da infalibilidade do papa – esclarece o também teólogo e escritor brasileiro Frei Betto –, nenhum réu pode ter direito a defesa, porque não se pode partir do princípio de que a autoridade eclesiástica esteja equivocada, sendo o único tribunal do mundo onde isso acontece”. Não se pode nem pedir perdão! Advogado? Só se for o do Diabo e, se brincar, o processo dos julgamentos dos inquisidores seriam semelhante aos dos da Rainha de Copas do país das maravilhas da fictícia Alice.





Criado pelo romancista inglês Lewis Carroll (1832 - 1898), Alice no País das Maravilhas foi publicado em 1865, mas não deixa de ser atual. A personagem Rainha de Copas, por exemplo, tem como lazer ordenar a decapitação de quem a desagrada. Só que, detalhe, a execução da sentença vem antes do veredicto, ou seja, primeiro corta-se a cabeça do suposto infrator para depois julgá-lo. Porém, qualquer semelhança com a história do embate de Boff e Ratzinger é mera coincidência. O fato é que, o tempo passou e, durante a Eco-92, no Rio de Janeiro, Boff, mais uma vez, foi repreendido por Ratzinger, que voltou a lhe impor o silêncio obsequioso.

Novamente punido, o teólogo estava impedido de falar, escrever, publicar e dar aulas, além de ter de deixar o Brasil e a América Latina, devendo escolher um convento alhures, onde ficaria encerrado, sem nem mesmo pensar! Desta vez, entretanto, ele se recusou a obedever o Vaticano e, em sinal de protesto, disse que preferia renunciar ao sacerdócio. Pensam que adiantou alguma coisa? Nada! Ratzinger permaneceu irredutível em sua decisão. Sem alternativa, Boff renunciou. Desde então, mudou de trincheira, mas não da luta, e vem se considerando “um cigano teológico”, atiçando as fogueiras da Inquisição, já que, para ele, “a Igreja mente, é corrupta, cruel e sem piedade!”.

Em fevereiro de 2009, entrevistado pela jornalista Fabíola Ortíz, da Agência de Notícias de Portugal, Boff disse que, quando inquisidor, Ratzinger puniu mais de cento e cinqüenta teólogos e cerceou a liberdade de pensamento no seio da Igreja. Questionou, inclusive, a sua indicação e eleição para o mais alto cargo da hierarquia da Igreja católica, que é o de papa: “Até hoje é um mistério, pois [Ratzinger] é uma figura de desunião, de polêmica”. Ainda em fevereiro, em visita ao Brasil, o teólogo heterodoxo suíço Hans Küng concedeu uma entrevista à Carina Rabelo, da revista IstoÉ, e, como sempre, destilando verdades, causou polêmicas.

A título de ilustração, Küng e Boff foram dois que se deram mal nas mãos do inquisidor Ratzinger, que, aliás, já os conhecia desde os anos sessenta, época em que chegaram a ser amigos. Porém, na opinião de Küng, o tratamento que Ratzinger dispensou a Boff “foi semelhante à Inquisição [medieval]”. Segundo o rebelde alemão, os direitos do brasileiro não foram respeitados nem nunca houve, de fato, um processo contra ele: “Boff foi, simplesmente, condenado e ninguém nunca entendeu direito o porquê”. E acrescentou: “Depois disso, ele foi sumariamente excomungado, mas, felizmente, sobreviveu a tudo aquilo e ainda está em atividade.”

Em um artigo de sua autoria, Ratzinger: o exterminador do futuro?, Boff diz que, para certos religiosos de batina e de plantão, “Cristo é o único caminho para a salvação e a Igreja é o pedágio exclusivo”. De fato, diria eu, uma arrogância que remonta à Idade Média, sobretudo diante da preocupação do teólogo quanto ao futuro diálogo micro e macro ecumênico: “É aterrador”. No entanto, Boff vai ainda mais longe quando afirma: “Quem pretende possuir a verdade absoluta sozinho está condenado à intolerância”. Imagino que, ao escrever isso, mesmo porque nenhuma verdade é absoluta, embora muitos achem que sim, ele estava se referindo a Bento XVI...





O fato é que, ao tomar conhecimento que, mal começou 2009, Bento XVI, em apenas três meses, teve o seu nome envolvido em três episódios polêmicos, que, inclusive, até poderiam ser vistos como uma trilogia de filmes noir à la Hitchcock (1899 - 1980) – daí o título do artigo –, não resisti à tentação e, na condição de jornalista e cidadã, cedi aos apelos da minha indignação e decidi escrever este artigo. Obviamente que as imagens dos filmes teriam de ser captadas em super-8. Afinal, imbuído de idéias medievais, o démodé Bento XVI ainda nem deve ter percebido que estamos na era digital, em um mundo globalizado, sem fronteiras... Enfim! Chega de introdução.

Vamos logo as histórias dos filmes propriamente ditas. Sei, contudo, que os temas abordados aqui já foram ampla e exaustivamente explorados pela mídia de, praticamente, todo o mundo. Mas isso não fazem das minhas impressões algo já ultrapassado, superado. Isso porque os fatos que comento continuam tão atuais como quando eles eles ocorreram. No entanto, reconheço, que, incialmente, pensei em escrever um artigo, mas acho que terminei escrevendo um ensaio, de tão logo que o texto ficou, embora não deixe de ser um registro. Além, é claro, de ter sido um saudável e producente exercício mental – deu-me, até, dormência nas pernas, de tanto ficar sentada!

Assim, ressalto que, com Trama macabra – título da trilogia –, não tenho a intenção de ferir a suscetibilidade de ninguém, apenas expressar as minhas idéias. Discordâncias? Se for o caso, saberei recebê-las, mas que sejam postas de maneira inteligente. Afinal, estou só exercendo o meu ofício, que é escrever, praticando o ócio criativo. E as histórias que pretendo contar, O Perdão tarda, mas não falha (remissão da excomunhão dos bispos lefebvrianos por Bento XVI); Em busca da infância perdida... (estupro, pedofilia e o aborto feito na menor de Pernambuco) e Angola engole papa! (posição papal contrária ao uso do preservativo).

Além disso, têm, também, as considerações finais, intituladas Um pé na África e algumas curiosidades. E, mesmo não sendo os temas mais novidades, notícias quentes, como se diz no jornalismo, os textos são longos, mas agradáveis de ler. Daí, modéstia à parte, recomendar a leitura. Como disse Lewis Carrol: “Comece pelo começo, siga até chegar ao fim e, então, pare”. Agora, quem se interessar pelo texto na íntegra, peça-me por e-mail que, gratuitamente, o enviarei por anexo. Afinal, essa introdução, como o nome já diz, é, apenas, uma introdução. E se eu a postei foi simplesmente para alimentar um gostinho de “quero mais”... Voilà!

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O Direito de escolha...




“Só existe opção quando se tem informação!”.

Arnaldo Jabor
Cineasta e jornalista brasileiro


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Bendito seja o amor de Cristo!

“Os padres querem casar. Mas quem trai um celibato de dois mil anos há de trair um casamento em quinze dias...”.

Nelson Rodrigues (1912 - 1980)
Dramaturgo brasileiro


— Não adianta eu querer ser duas pessoas


porque é suficientemente difícil ser respeitável...

Fala de Alice, personagem do livro Alice no País das Maravilhas (1865), de Lewis Carroll.


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Ponto de vista



“O que vale na vida não é o ponto de partida
e sim a caminhada...”.

Cora Coralina (1889 - 1985)
Poetisa e doceira brasileira


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Não existe verdade absoluta...




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O papa do não!

Toulose-Lautrec (1864 - 1901), pintor francês
Baiser dans le lit, 1892



“O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar...”.

Drummond (1902 - 1987)
Poeta brasileiro




— Só não se esqueçam de mim!





— Se depender de mim...



“Hoje, qualquer coroinha contesta o Papa...”.
Nelson Rodrigues
Dramaturgo brasileiro


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Voa solidéu, voa...


Mas, como voa o solidéu de Bento XVI!

Sugestão: por que ele não põe um friso (grampo de cabelo)?



Essa seqüência, então...




É nisso o que dá quando se tenta promover a paz a todo custo. Pelo menos, é isso o que costuma dizer Bento XVI, ou seja, promover o diálogo entre os povos. E o episódio aconteceu durante visita do Papa ao Médio Oriente. Terminou que, com a ajuda do vento, soprando forte em Jerusalém, durante a cerimônia de boas-vindas ao Papa, organizada pelas autoridades israelitas, Bento XVI mudou rapidinho de figurino. E de figura, aparentando ser um autêntico muçulmano. Parfait!, como diriam os franceses!

 
Nathalie Bernardo da Câmara
 De um observatório qualquer...

domingo, 10 de fevereiro de 2013

NOVAS LENTES

Por Marina Silva
Ambientalista brasileira, ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente
(artigo publicado no dia 08 de fevereiro de 2013 no jornal Folha de S. Paulo).


Têm coisas que alimentam nossas esperanças e reafirmam as utopias. Na semana passada, estive na Costa Rica para uma conferência sobre projetos socioambientais. Em três dias, tive a oportunidade de conhecer várias lideranças sociais da América Latina e suas experiências inovadoras, de expressivo resultado cultural, social, econômico e ambiental.

Foi muito animador transitar nesse ambiente. É o tipo de experiência que amplia a visão e deixa mais perceptível como é limitador restringir-se ao espaço da política institucional.

Venho dizendo que as sementes de profundas mudanças estão espalhadas por todos os lugares do mundo. Para percebê-las, é preciso colocar as lentes do século 21.

Edgar Morin diz que, no começo, a mudança é apenas um pequeno desvio e que devemos estar atentos para apoiar aqueles que devem e precisam prosperar. Vi muitas iniciativas com potencial de atualizar políticas públicas e impulsionar a sociedade rumo à sustentabilidade: serviço de saúde de excelência para populações de baixa renda, arte e esporte para inclusão social e combate à violência, usos criativos e socialmente inclusivos dos resíduos sólidos, acessibilidade... a lista é longa e variada.

As novas iniciativas criam uma espécie de superfície de sustentação social e econômica, mas também conceitual, de valores e "modus operandi". Superam a mesmice e projetam o sonho de que um novo mundo é mesmo possível. Mostram que o mundo atual é fruto de nossas escolhas cotidianas, que podemos criar outras formas de organização e relacionamento entre nós e com a natureza.

Podemos ressignificar nossa experiência civilizatória. Podemos imaginar um Estado mobilizador, que incentive o potencial criativo da sociedade e nele se apoie para atualizar-se, desenvolver-se, recriar-se. Um mercado em que empresas com responsabilidade social e ambiental produzam bens e serviços para necessidades reais, muito além do supérfluo. Projetos culturais que humanizem as cidades e a convivência entre as gerações que nelas vivem. Programas que valorizem as comunidades tradicionais, detentoras de saberes raros e de alto valor civilizatório, estabelecendo vínculos e trocas saudáveis em vez da assimilação forçada ou do isolamento preconceituoso.

Esses e muitos outros sonhos são semeados em nossas cidades e vilas, campos e florestas. Estão nas escolas, nas comunidades, no trabalho de muita gente talentosa. São pequenos desvios que podem se transformar em grandes caminhos. É preciso mudar o olhar sem perder o foco e a clareza da visão. Em vez de enxergar no tecido social apenas números, votos ou impostos, podemos fazer como os cientistas do biomimetismo, que olham para a natureza em busca de boas ideias e soluções.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

EM RÉ-MAIOR...



Reunião no pé de cajarana

Por Evaldo Alves de Oliveira

Médico Pediatra e Homeopata, além de Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.


ERA UMA VEZ EM AREIA BRANCA... Corria o ano de 1958. A cidade, pequena e calma, preparava-se para o carnaval. No rádio e na sonora da prefeitura, marchinhas recém-lançadas, tocadas a todo momento - o samba Madureira chorou e a marchinha Vai, mas vai mesmo -, animavam foliões com seu apelo carioca. A preparação das fantasias, mesmo simples, a compra de confetes, serpentinas e lança-perfumes traziam uma agitação comemorada pelos comerciantes. Nessa época, diziam ser o carnaval daqui melhor que o de lá. Imagina...


Quase tudo ficava na Rua da Frente, do comércio às empresas salineiras. O Tirol, com seu ar bucólico e recatado, ciceroneava pequenas embarcações durante o dia e pescadores de faz de conta à noite, eu um deles. Ali também ficavam as principais bodegas e armazéns. As bodegas de Antonio Calazans e de Quidoca eram as mais conhecidas, mas não mantinham relação de comércio com as barcaças. Isso era com meu pai e com José Leonel e dona Hilda.


Naquela manhã de fevereiro, minha casa estava com um movimento bem acima do normal. Isabel e Ana Maria, minhas irmãs, saíram pela Rua da Frente e, logo em seguida, retornaram inquietas, agora acompanhadas de Edna e Margarida, filhas de Zé de Quincó. No rosto das quatro, a rara imagem da mais profunda tristeza. Eu, tentando estudar para uma sabatina oral que todos sabemos como funcionava: vinha a pergunta; errou, palmada desferida por quem acertou. Eis por que a lembrança da sabatina não me deixava relaxar.


Em casa, as quatro meninas não falavam com ninguém. Tomavam providências que eu, em minha ignorância de criança, e à distância, não conseguia entender. Percebi que a coisa era séria quando notei que corriam algumas lágrimas em suas faces.


De repente, saíram as quatro pela porta dos fundos, desaparecendo no quintal. Ao longe, deu para ouvir vozes de crianças entoando, no timbre de grilos desafinados, em um fraco si sustenido, um Avé, Avé, Avé Maria, Avé, Avé, Avé Maria.


Na porta da cozinha, surgiu uma delas procurando algo dentro de casa. Demorou um pouco e saiu, carregando algumas coisas nas mãos. Parece que contavam com a cumplicidade de mamãe, porque permanecia calada.


Em certo momento, imaginei ouvir, com os justificadíssimos erros de criança, a expressão Dominus vobiscum, em que, na missa, o sacerdote deseja que Deus esteja com os fiéis. E a resposta foi imediata: Et cum spiritu tuo, que é uma alusão ao Espírito Santo.


Pensei em várias possibilidades. Seria um ensaio para a novena? Seria a simulação de uma missa? Estariam se preparando para ir a um velório?


Aguardei, e a cantoria se mantinha, agora com um timbre choroso em ré maior. O grupo se reunira na sombra de um pé de cajarana, e tinham objetos nas mãos. Ao lado, um velho mamoeiro, de braços cruzados, sisudo, mimetizando duas grandes orelhas com seus frutos, parecia fiscalizar aquela estranha reunião. De longe, o pé de mamão parecia um índio sioux tomando uma decisão.


Falavam baixinho, usavam papéis, cola de goma, feita na hora – grude - e cordão. Aproximei-me de mansinho, quando as quatro punham terra sobre um buraco recém-cavado, e agora alisavam por cima. Depois, uma pequenina cruz feita com gravetos.


Era o enterro de Felipe – Fifi -, o passarinho de uma delas, que havia morrido. Parece ter havido uma fratura na canela, já devidamente reduzida e imobilizada com um palito de fósforo.


Ingenuidade, desapego, camaradagem, sem formatação nem espaço na era do tablet e do smartphone.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

SILAS MALAFAIA: UM EVANGÉLICO QUE ATIRA A PRIMEIRA BÍBLIA...

“Em uma época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário...”.
George Orwell (1903 - 1950)
Escritor nascido na Índia, mas naturalizado britânico.


Como se diz em Goiás, evangel é igual praga. Então... Fico querendo entender porque certos políticos ainda não foram banidos do cenário nacional. Renan Calheiros (PMDB-AL), por exemplo, há dias eleito para presidir o Senado Federal, e Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), para assumir a Câmara dos Deputados. Afinal, o curriculum vitae de ambos não dá respaldo para isso... Infelizmente, essa é a herança deixada por Sarney e respaldada pelo governo federal. Enfim! Como se já não bastassem tantos abusos, chega certa criatura, de nome Silas Malafaia, um pastor evangélico que, aparentemente, surgindo do nada, ousa afrontar a sociedade mundial com as suas posturas neonazistas. Felizmente, numa entrevista recente, no programa De frente com Gabi, num dado canal de TV do Brasil, com a sempre tão lúcida jornalista brasileira Marília Gabriela, que não se fez de rogada diante do ABSURDO que é o cara – o cúmulo da insanidade! –, ficou mais do que claro que quem discrimina não tem vez. Não terá! E o pastor ainda se diz psicólogo... Olhem o perigo!

Na entrevista, portanto, sem explicações para a Receita Federal nem para os ditos fiéis – Silas foi destaque, em janeiro passado, da revista norte-americana Forbes, cujo destaque de capa foi o patrimônio material dos pastores evangélicos no Brasil, que mostrou que a fé é um “negócio altamente lucrativo” –, a orientação do acúmulo da riqueza do dito pastor, segundo ele, reside nos preceitos da Bíblia... Pense! Felizmente, Marília Gabriela é do bem, muito centrada, por sinal, pois o cara é surtado. E ela ainda teve de aguentá-lo por cerca de uma hora. Tiro o chapéu para a jornalista – não queria estar no seu lugar, entrevistando-o: que tédio, ou pior, que enjoo o de aguentar um cara medieval e ultrapassado, como se ainda vivesse na época dos dinossauros, já que a entrevista terminou concentrada nas opiniões do pastor sobre a homossexualidade. Nossa! As opiniões sobre homossexualismo desse cara, o tal Silas, dói na alma de qualquer pessoa sensata. Isso sem falar na fortuna acumulada que ele tem a partir de sabe-se lá qual fonte... Vamos enquadrar esse cara!

Pelo visto, o bom negócio é não ter religião alguma, nenhuma igreja, nenhum partido: só a nossa consciência... E cabe a pessoas de bom senso banir da sociedade pessoas como o entrevistado pela jornalista Marília Gabriela, que, apesar da visível repugnância que sentia do mesmo, em momento algum perdeu a compostura, embora, quando tinha oportunidade, tenha tentado de tudo – e acho que conseguiu – para desmacarar o embuste que ele é. E fico a pensar... Nas últimas eleições presidencias, eu votei numa única só pessoa, que foi Marina Silva, apenas e exclusivamente pela questão ambiental, anulando as demais possibilidades de voto. Nas próximas eleições, depois da entrevista desse tal pastor Silas, que, por falar horrores sobre tudo e todos, provocou uma reação contrária da sociedade brasileira e do mundo, tenho receio de Marina, que também é evangélica, embora não da mesma igreja que o tal pastor, perder parte dos 20 milhões de votos que obteve na campanha presidencial de 2010, inclusive o meu. Isto é, caso ela aceite o apoio dele.

Daí, pedir a todos que simpatizam com a causa do meio ambiente: não comparemos Silas Malafaia, um narcisista, com Marina Silva, ambientalista. Afinal, mais de uma vez, Marina chegou a dizer – coisa que admiro – que mesmo não concordando pessoalmente com certas questões polêmicas, de foro íntimo, tipo o aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo e liberação da maconha, entre outros, quem decide sobre as mesmas é a sociedade brasileira. E haja plebiscito! Só que nem todo mundo consegue perceber a diferença entre o pastor e Marina. E isso apenas porque ambos praticamente seguem a mesma orientação religiosa. A diferença é que Marina, uma filósofa, nunca haverá de fazer da tribuna um púlpito. Ela sabe diferenciar – coisa que o bruto do pastor não sabe. Tanto que o infeliz ainda teve a arrogância e o desplante de dizer que irá processar a Forbes para “ferrar esses caras”. Ora, a revista só disse o que disse embasada em dados do Ministério Público e da Polícia Federal. Na verdade, ferrados, ferrados estão os fiéis de boa fé...

Nathalie Bernardo da Câmara