sábado, 25 de maio de 2013

MADE IN AMAZÔNIA - MARINA SILVA: SABOR BRASILEIRO*

Foto: Bob Wolfenson/Vogue Brasil

“Marina é a síntese da diversidade cultural...”.

Mauro Almeida
Produtor musical brasileiro


Uma das nove filhas dos onze rebentos de um casal augusto, Pedro e Maria, retirantes nordestinos, Maria Osmarina Silva de Souza nasceu no dia 8 de fevereiro de 1958 numa antiga colocação (casas de seringueiros, geralmente construídas sobre palafitas, no caso, em terrenos arenosos), hoje chamada de Breu Velho, no seringal conhecido por Bagaço, a 70 km de Rio Branco, capital do Acre. A família, contudo, que labutava na árdua coleta do látex na imensidão da floresta, não conseguia pronunciar corretamente o nome Osmarina – falavam Ormarina – e, por sugestão de uma tia, passaram a chamá-la de Marina. Em 1967, essa mesma família deixou o seringal do Bagaço e, em busca de uma menos penosa vida, se transferiu para Manaus, onde abriu uma taberna, que não vingou, e seguiu para Santa Maria, no Pará, onde as condições de sobrevivência eram ainda piores. Em 1969, sem eira nem beira, como reza um dito popular, a família retornou ao seringal, no qual, com apenas dez anos de idade, Marina passou a trabalhar para ajudar no pagamento de uma dívida que os pais haviam contraído para poderem ter o direito nem que fosse a um ínfimo lugar ao sol – sol esse que, apesar das intempéries, acolhia, com generosidade, uma família de certa forma sui generis: um pai seringueiro, embora, nos finais de semana, aplicasse injeções nos que necessitavam de algum tipo de cura; uma mãe costureira, cosendo de tudo um pouco; uma avó parteira, que sequer pensava em medir os quilômetros que andava no mato para fazer todo tipo de parto, e um tio que, além de xamã, sempre às voltas com chás e ervas, era ferreiro, carpinteiro, cesteiro e mateiro, aqui e acolá achando alguém perdido na mata. Isso sem falar na própria Marina, cujos primeiros mestres foram a floresta e o seu povo, lhes transmitindo não somente a sua sabedoria, mas, também, a sua diversidade cultural, formando a inquieta acreana que, com o passar do tempo, sentia que o seu amor pelo meio ambiente só tendia a crescer, bem como a sua sensibilidade para traduzi-lo. Uma fatalidade, contudo, iria marcá-la: a morte da sua mãe por consequência da insalubridade infiltrada na região onde moravam quando ela tinha quatorze anos. Não demorou muito, aos quinze, duas das suas irmãs morreram: uma de sarampo e outra de malária, doença, inclusive, que, ao longo da vida, chegou a infectar Marina por cinco vezes, além de também ter tido leishmaniose e três hepatites, sendo, ainda, contaminada por metais pesados depositados nos rios amazônicos. O fato é que, em 1975, aos dezesseis anos, ela adoeceu seriamente e, com a permissão do pai, com uma muda de roupa e alguns trocados no bolso, deixou a floresta, o seu habitat, e foi cuidar da saúde em Rio Branco – cidade onde terminou por fixar residência e que se tornou um marco na sua trajetória. Contando, portanto, com a ajuda do então bispo do Acre, dom Moacyr Grechi, Marina foi acolhida num convento, onde passou a conviver com religiosas de uma dada ordem – convívio esse, aliás, que despertou na adolescente o desejo de se tornar freira. À época, entretanto, tudo indicava, havia um empecilho para que ela se dedicasse à vida religiosa. Segundo a própria Marina, a sua avó chegou-lhe a dizer: — Minha filha, freira não pode ser analfabeta.



Da melodia da floresta aos ruídos urbanos

“Vejo a minha trajetória até essa época como uma espécie de tessitura, aquela parte do cesto que vai definir tudo aquilo que o cesto vai ser depois. Ali consegui integrar as marcas da minha memória, baseada no saber narrativo que veio comigo do seringal as coisas que aprendi no contato com a cidade...”.

Marina Silva


Matriculando-se no Movimento Brasileiro de Alfabetização - Mobral, pois, como se diz até hoje, era analfabeta de pai e mãe, Marina Silva prosseguiu com os estudos e fez o Ensino Supletivo, concluindo o 2º grau em 1979, embora, durante esse tempo, para poder manter-se, trabalhasse como empregada doméstica. Nesse ínterim, aos 19 anos, ela se envolveu com o movimento dos seringueiros, conheceu e se tornou amiga do líder sindical e ativista ambiental brasileiro Chico Mendes (1944 - 1988), assassinado brutalmente cerca de 20 anos depois. Descobriu, ainda, a Teologia da Libertação, a arte da interpretação no teatro amador – período no qual teve o seu primeiro contato com grupos de esquerda. Influenciada, portanto, por movimentos sociais e políticos católicos da época, Marina passou a ter contato com obras de teor marxista-leninista. O Fato é que, seduzida de tal forma pelas letras e pelo saber em si, nunca abandonou os estudos, como o fez com o seu projeto de seguir a carreira de freira. Afinal, diante do leque diversificado de informações a seu dispor – o début, digamos, da sua futura globalização –, a sua trajetória já havia sido traçada, ou melhor, tecida. Decidida a estudar História – não fez Psicologia porque, à época, o curso inexistia no Acre –, era movida pela possibilidade, como ela mesma já o disse, de “lidar com muitas almas ao mesmo tempo, o coletivo delas adensado nos processos históricos”. Dito e feito. Em 1981, já casada e com uma filha, Marina deu início a sua graduação em História pela Universidade Federal do Acre (Ufac), se formando em 1984, aos vinte e seis anos. No primeiro ano de universidade, entretanto, estudava pela manhã, era voluntária da Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (Febem) a tarde e, à noite, costurava para fora, ajudando na renda familiar. No segundo ano de curso, contudo, passou a dar aula no colégio das freiras e em mais duas escolas, participando, inclusive, das Comunidades Eclesiais de Base (CEB). E tudo isso sem falar que ela ainda encontrava tempo para militar clandestinamente no Partido Revolucionário Comunista (PRC), já que a ditadura militar, embora decadente, continuava mandando no país, igualmente participando do movimento nacional que, em 1983, fundaria a Central Única dos Trabalhadores (CUT), enquanto, no Acre, a CUT só tenha sido fundada em 1984, sendo Chico Mendes o primeiro coordenador da entidade e Marina a vice-coordenadora – contribuição essa, aliás, que andava sempre lado a lado com o seu engajamento nas causas ambientais. Enfim! Com o diploma de historiadora nas mãos, Marina quis fazer mestrado em Teoria da História, mas, como teria de se transferir para São Paulo ou Rio de Janeiro, mudou de planos e optou por um mestrado em Economia, embora tenha cursado apenas um ano, o de 1985 – natural, pois ela estava para lá de envolvida com os movimentos sociais, dando aulas e, separada, cuidando dos seus já dois filhos. Muitas mudanças. Tantas que, em 1986, ela não somente voltou a se casar como também se filiou ao Partido dos Trabalhadores (PT), que havia sido fundado nacionalmente em 1980. Foi aí, então, que, nesse dado momento da sua vida, Marina, literalmente, deu início a sua carreira política.



A teoria e a práxis de mãos dadas

Foto: Divulgação

“Se o político não quer para si a doença degenerativa da ambição pelo poder em si, deve ser precavido, em benefício tanto da sua própria essência humana e do sentido maior da sua vida, quanto em nome da sociedade, por um imperativo ético...”.

Marina Silva


Poderíamos arriscar dizer que não somente a vida de Marina Silva como um todo, no sentido holístico da palavra, mas, especificamente, a sua trajetória política, sempre foram pautadas por uma idoneidade ímpar, embalada, por assim dizer, pelo aroma do seringal, impregnado que ficou nas suas raízes que, apesar de oriundas da floresta na qual nasceu e foi criada, se ramificou mundo afora. E tudo teve início quando, em 1986, filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT), ela concorreu pelo Acre ao seu primeiro cargo público, que foi a uma vaga na Câmara dos Deputados. Infelizmente, apesar de Marina ficar entre os candidatos mais votados, o PT não atingiu o quociente eleitoral mínimo exigido. Porém, dois anos depois, ela foi eleita vereadora, a mais votada de Rio Branco, sendo uma das suas primeiras medidas a de devolver as gratificações, o auxílio-moradia e demais mordomias embolsadas sem questionamentos pelos outros vereadores. Não deu outra! O seu gesto gerou controvérsias: nos seus adversários políticos despertou a desconfiança; do povo, o reconhecimento – reconhecimento esse que, em 1990, se traduziu em votos e Marina foi eleita deputada estadual, obtendo votação recorde. Quatro anos mais tarde, com 36 anos, foi eleita, pelo Acre, a senadora mais jovem na História do Brasil. Em 1995, ao se transferir para Brasília para exercer o mandato, tentou realizar um antigo sonho: o de cursar Psicologia. O dia a dia corrido da senadora, entretanto, a impediu de concluir o curso, que frequentou apenas um semestre, abandonado, assim, aquela que poderia vir a ser a sua segunda graduação, passando, no caso, a se dedicar exclusivamente ao seu mandato de senadora. Em 1997, apesar de ter sido educada no catolicismo, se converteu ao cristianismo evangélico – detalhe esse da sua vida que, até hoje, gera polêmicas as mais diversas, sobretudo porque ela pertence as fileiras da Assembleia de Deus, cujo comando está nas mãos do controverso bispo Edir Macedo. Enfim! Em 2002, reconduzida ao Senado Federal, conquistou nas urnas uma quantidade de votos quase três vezes superior à anterior. Como se não bastasse, outra surpresa iria alegrar não somente o Acre em 2003, mas, também, o Brasil: além de tomar posse pela segunda vez consecutiva como senadora, Marina foi nomeada ministra do Meio Ambiente pelo então presidente Lula. Era inevitável, portanto, que por sua já reconhecida luta em prol da causa ambiental, ela continuasse a fazer a diferença. Tanto que, no Senado, foi quem primeiro ergueu a voz para que o governo federal assumisse metas para que o Brasil reduzisse as emissões de gases do efeito estufa – em 2009, o governo federal anunciou a adoção dessas metas. Entrementes, como sempre gostou de estudar, Marina não resistiu e, apesar de ministra, retornou à sala de aula. Um novo desafio, já que, em 2007, mesmo com todos os empecilhos que o cargo que ocupava lhe impunha, a disponibilidade de tempo para estudar, por exemplo – estudava muitas vezes em aviões ou nas madrugadas –, ela concluiu uma pós-graduação em Teoria Psicanalítica na Universidade de Brasília (UnB), já tendo antes, contudo, feito uma especialização em Psicopedagogia na Universidade Católica de Brasília (UCB). Soube administrar o tempo. Daí não ter se descuidado, durante a pós-graduação, sequer um momento das suas funções no governo federal. Tanto não se descuidou que, na condição de ministra, foi emblemática nas políticas ambientais que defendia e, quando não era boicotada, postas em práticas durante a sua gestão. Não obstante, devido os entraves com os quais constantemente se deparava dentro do próprio governo contra a sua política ambiental, Marina pediu demissão do cargo no dia 13 de maio de 2008, ou seja, há exatos 4 anos, retornando, assim, ao Senado, em cujo plenário, aliás, poderia expor e defender com liberdade as suas ideias e projetos voltados para o meio ambiente e a sua sustentabilidade – méritos esses, entre outros, que, em 2009, lhe valeu o internacional Prêmio Sophie (US$ 100.000), concedido pela fundação norueguesa homônima aos que se dedicam à causa da sustentabilidade do planeta – a coleção de prêmios, títulos, comendas e demais homenagens prestadas à Marina é de se perder de vista... Bom! Tecendo fios cada vez mais elaborados – a causa ambiental tornou-se para ela, digamos, uma profissão de fé –, Marina desligou-se do PT no dia 19 de agosto de 2009 e, onze dias depois, anunciou a sua filiação ao Partido Verde (PV) – os seus horizontes ampliavam-se cada vez mais. Ampliaram-se tanto que, no dia 16 de maio de 2010, ela lançou a sua pré-candidatura à Presidência da República, tendo, como vice, o empresário e ambientalista Guilherme Leal – não demorou muito, no dia 11 de junho, a candidatura de Marina foi lançada oficialmente, bem como também foi lançado, durante a sua campanha, o livro MarinaA Vida por uma causa, da jornalista brasileira Marília de Camargo César. O prefácio da biografia, por sua vez, é de autoria do cineasta brasileiro Fernando Meirelles, embora seja a cineasta brasileira Sandra Werneck quem recebeu a cessão de direitos da Editora Mundo Cristão para a adaptação do livro em filme, uma cinebiografia, que, inclusive, já tem título: Marina e o tempo. Com lançamento nacional previsto para janeiro de 2013, o longa-metragem, segundo informações divulgadas pela mídia, contempla um período de tempo iniciado na infância de Marina e concluído quando, já adulta – defensora histórica que sempre foi da preservação da natureza e da sua sustentabilidade –, ela passa a ser definitivamente reconhecida como uma referência internacional nas questões ambientais. Afinal, para Sandra Werneck, “a história de Marina Silva desafia os limites da ficção”. Só que o que aconteceu nas eleições de outubro de 2010 não teve nada de ficção. Surpreendendo a todos, Marina foi o terceiro candidato mais votado, conquistando, nas urnas, cerca de 20 milhões de votos válidos e, por tabela, o aumento da sua notoriedade. Segundo o jornalista brasileiro Gadelha Neto, da organização não governamental WWF, o Brasil já percebeu que, “dentro da aparentemente frágil compleição física de Marina Silva convivem uma cidadã da floresta, suave e ponderada, e uma guerreira, poderosa e aguerrida”, capaz de provocar efeitos os mais diversos onde quer que ela passe – fomos testemunhas disso nas últimas eleições presidenciais, não sendo à toa que, em junho de 2011, o jornalista, escritor e deputado Federal (PV-RJ) Alfredo Sirkis publicou o livro O Efeito MarinaBastidores da campanha que mudou o rumo das eleições, prefaciado, aliás, pela própria Marina, que considerou as eleições um complexo desafio. Interessante, contudo, é um depoimento do autor do livro, que disse: “Antes de entrar em qualquer diferenciação de natureza política, programática, mediática ou outra do nosso universo racional, o fenômeno Marina, como Gilberto Gil sacou de primeira, foi um acontecimento do coração”. Prova disso foi que uma considerável parcela do seu eleitorado deixou os preconceitos de lado e confiou o seu voto ao carisma inquestionável da ambientalista. Afinal, apesar de ser evangélica, como já foi dito anteriormente, ela já havia deixado bastante claro que, em momento algum da sua campanha iria fazer do púlpito um palanque nem do palanque um púlpito. E cumpriu com a palavra, ou seja, foi coerente – ganhou ponto. Já no que diz respeito a certos temas polêmicos que, não é de hoje, têm sacolejado não somente o Brasil, mas o mundo, tipo: legalização do aborto, descriminalização da maconha, casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, pesquisas de células-tronco de embriões, entre outras... Argumentando que, apesar de ser pessoalmente contra os temas mencionados, contou pontos a seu favor o fato de ter repetidamente dito que uma coisa é o que ela pensa e defende na sua vida privada; outra coisa é a postura que, na sua vida pública, ou seja, na condição de política, ela tem de assumir diante do que a sociedade almeja. Por isso que, em sua opinião, temas, de fato, polêmicos – alguns, inclusive, referentes a direitos fundamentais –, devem ser submetidos a plebiscitos nacionais, com o povo participando dos debates e decidindo o que quer para si. Assim, agindo novamente de forma coerente – afinal, vivemos no séc. XXI –, Marina mais uma vez ganhou pontos. Resultado: os seus predicados, inclusive o da credibilidade – qualidade em extinção no cenário político nacional –, venceram os preconceitos. Retomando, entretanto, ao depoimento de Sirkis, autor do livro O Efeito Marina..., o jornalista, escritor e deputado Federal, se referindo as eleições de 2010, acrescentou: “Foi uma das experiências mais ricas que já presenciei em 43 anos de vida política e, sem dúvida, uma das mais emocionantes”. Curiosamente, no dia 7 de julho de 2011, “a cidadã da floresta, suave e ponderada, e uma guerreira, poderosa e aguerrida”, como o jornalista Gadelha Neto definiu Marina, se desgarrou do PV – desde então, ela está, como poderíamos dizer... avulsa. E tão solta anda que, em uma entrevista, não hesitou em dizer que “a política não é monopólio dos partidos”. Enfim! Cotada como uma das possíveis candidatas para as eleições presidenciais de 2014, embora, para isso, ela necessite de um partido político, Marina limita-se a dizer: — Se, em 2014, com legitimidade, as circunstâncias da política do Brasil exigirem um passo nesta direção, eu peço a Deus coragem para dá-lo...



Do breu à luz

Foto: Bob Wolfenson/Vogue Brasil

“Marina é um passo à frente...”.

Wagner Moura
Ator brasileiro


E haja holofotes! Porém, como se trata de Marina Silva, não há brilho que se sobressaia à simplicidade do seu olhar, que ofusque a sua serenidade – estado de espírito esse, aliás, que, ao longo da sua jornada, por lhe ser peculiar, é da mais pura transparência, evidenciando, inclusive, o contraste entre a sua “aparentemente frágil compleição física”, como disse o jornalista Gadelha Neto, e a obstinação que, desde a sua mais tenra idade, tem guiado os seus passos. Isso sem falar que Marina não é de meias palavras, de rodeios, indo diretamente no âmago da questão. De raciocínio lépido e coerente, age, contudo, com bom senso e prudência, não sendo à toa que o seu nome é sinônimo de conquistas – triunfos esses que ela obtém com a sobriedade do seu caráter, mas, sobretudo, com ética, uma das suas mais valiosas qualidades. Enfim! Um ícone das florestas – nasceu e foi criada numa –, amálgama dos seus odores, frutos e flores, sons, cores e tons, Marina tornou-se, com o passar do tempo, praticamente um anjo da guarda do meio ambiente, do meu, do seu, do nosso. E, como costumo dizer: quero o meu ambiente por inteiro! Não pela metade... Desse modo, para quem pensar que, com esta postagem, estou dando uma, digamos, de cabo eleitoral de Marina ou, quem sabe, agindo como agem os utópicos, ou seja, romanticamente, na crença de que somente ela é quem poderá salvar o Brasil do caos no qual, infelizmente, está submerso, aparentemente sem comando e, portanto, sem rumo – tal qual, utopicamente, praticamente agiu toda uma nação, inclusive eu, quando, ainda na década de oitenta, acreditou piamente que Lula seria o salvador de uma pátria atolada no sangue derramado durante a longa e sombria passagem dos militares pelo poder no país, que foi de 1964 a 1985; ou, ainda, pensar que toda a postagem foi, de repente, encomendada, está para lá de equivocado. Na verdade, quando, de fato, resolvi escrever sobre Marina, embora já conhecesse boa parte da sua trajetória política – daí eu ter sido um dos 19.636.359 milhões dos votos válidos que ela recebeu nas urnas nas eleições de 2010 –, foi não somente para melhor me aprofundar no histórico de vida da mulher que brotou no seio da nossa mais bela floresta – e haja estirpe! –, cujo aroma eu realmente desejava sentir, mas, também, para render uma homenagem sincera e espontânea a um ser humano cuja idoneidade é, pelo menos para mim, hors de question. Afinal, como a própria Marina já disse, apesar de, no caso, se referir ao futuro da sustentabilidade do planeta: “Não haverá salvadores da pátria. Trata-se de um esforço conjunto, horizontal, cabendo a cada um as suas responsabilidades para o alcance de uma meta comum: a de salvar as condições objetivas que promovem a vida no planeta”. Voilà! E, assim, para finalizar a quarta e última parte desta postagem, falarei agora do leitmotiv que a desencadeou, ou seja, a leitura de algumas reportagens sobre a multifacetada Marina, sempre a nos abrir uma caixinha de surpresas, no caso, a sua porção designer. Sim, Marina também é uma artista – fato que, além de, até então, eu desconhecer – imagino que muitos igualmente o desconhecem –, vi com bons olhos. E literalmente, já que, apesar de, invariavelmente, admirar os acessórios – sobretudo os colares – que ela costuma portar nas suas aparições públicas, registradas, aliás, por atentos fotógrafos, eu não sabia é que é a própria Marina quem os idealiza e confecciona, ou seja, que os concebe – exemplo disso são as peças em destaque na primeira das imagens que ilustram esta postagem. Então! Uma das mencionadas reportagens foi a da revista Vogue italiana de outubro de 2010, cuja edição elogia os acessórios “étnicos” usados por Marina, que teria, segundo o periódico, criado um look alternativo no universo da moda, chegando, inclusive, a comparar a brasileira à pintora mexicana Frida Kahlo (1907 - 1954), considerada exótica por seu habitual visual, considerando que, no vestir de ambas, “há sempre um elemento tradicional”, ou seja, duas mulheres latino-americanas que aprenderam a se produzir sem deixar de lado as suas raízes. No caso de Marina, a jornalista italiana Alice Capiaghi diz que “os colares e os brincos que ela usa podem ser considerados uma reivindicação das suas origens humildes ligadas à Floresta Amazônica”, não sendo, portanto, as roupas que vestimos “apenas um mero acaso”. Tanto não é que, em 2011, na edição de julho da Vogue Brasil, ficamos sabendo que os tais acessórios usados por Marina, segundo a jornalista brasileira Giseli Miliozi, “são totalmente desenhados e feitos por ela, dos cortes aos polimentos”, sendo as matérias-primas originárias da Amazônia, tipo sementes de açaí, mulungu, licuri, jarina e haste de palmeira pupunha. É! As peças “fazem tanto sucesso que, finalmente, Marina resolveu entrar no mundo da moda e lançar a sua própria linha de bijuterias (de nome ainda mantido em segredo)”, embora duas coleções, “uma inspirada na tribo ashaninka e outra na dos navajos”, com 10 peças cada já estarem prontas: “Faço – diz Marina –, mas depois não quero vender” – que pena, pois eu faria de um tudo, como dizem os goianos, para adquirir nem que fosse um colar. O fato é: quem diria?! O que pode ter começado como uma mera terapia ou ocupação recreativa findou por se tornar um ofício. Mas, como disse Capiaghi: “Marina tem realmente o que podemos chamar de estilo e até mesmo uma elegância natural demonstrada por seu gestual e escolhas no vestir”. Eu, particularmente, definiria o que a jornalista chamou de “elegância natural” de suavidade. Enfim! Na edição de janeiro de 2011 da Vogue Brasil, ficamos sabendo que, presente a um desfile de moda de um estilista brasileiro, o mineiro Ronaldo Fraga, Marina prestigiou o evento portando um cusman, traje típico dos índios ashaninka, que habitam parte no Peru, parte no Acre. Assim, “pintada com o cumaru, fruto típico da floresta, em motivos animais, a roupa é considerada de alta honraria e foi dada à [então] senadora há dez anos”, que, aliás, à ocasião do evento, não deixou por menos: “Já que era para homenagear a moda brasileira, nada melhor do que usar as raízes mais profundas do Brasil” – isso sem falar que, para complementar o visual, Marina usou como acessório um colar feito por ela mesma. Sem mais palavras... Porém, tenho de concluir esta postagem. Bom! Que a vida dá voltas, sabemos, mas as de Marina são mistérios... Desígnios da floresta? O fato é que da sobrevida no seringal à vida que hoje tem, Marina foi, de graveto em graveto, ou melhor, de fio em fio, tecendo as suas próprias escolhas: as passadas e as do presente. As futuras? Ela, com certeza, já anda a tecer... No entanto, como toda mulher que se preza, sempre lutou para tentar conciliar a vida pública e a privada. Esposa, mãe de quatro filhos, dois do primeiro casamento e dois do segundo, historiadora, pedagoga, ex-vereadora, ex-deputada estadual, ex-senadora, ex-ministra do Meio Ambiente, ex-candidata à Presidência da República, ambientalista de renome internacional e, possivelmente, em breve, estilista de joias à moda da casa, Marina continua encontrando tempo para não importa qual o desafio que ouse bater a sua porta, no caso, tempo para sonhar: “O meu sonho é ser psicanalista, mas, aí, entra um conflito ético. Só vou trabalhar com isso se, um dia, sair da política”. Quem o saberá? Não obstante, enquanto isso, ela faz o que mais gosta: militar pela causa ambiental, sobretudo pela sustentabilidade do planeta. Infelizmente, como nem tudo é perfeito, a preocupação, hoje, de Marina é a de que, apesar de sabermos “que somos finitos como raça”, não sabemos “como lidar com a imprevisibilidade dos fenômenos climáticos”. E, segundo ela, que sempre pisou com firmeza no chão, apesar dos passos suaves, sentindo a energia que dele emana, um fator que só piora ainda mais a situação é que “temos pouco tempo para aprender como fazê-lo”. E é isso! De seringueira de certo breu do Acre à cidadã global, Marina Silva, atualmente, é uma das mulheres mais galanteadas do mundo, perdendo as contas – tudo indica que beira a uma centena – dos prêmios, títulos, comendas e demais homenagens que já lhes foram prestadas e continuam sendo – não importa por qual junta do planeta –, é, ainda, literalmente, um verdadeiro exemplo de superação das adversidades da vida...

*Postado originalmente no dia 13 de maio de 2012.

Nathalie Bernardo da Câmara

sexta-feira, 24 de maio de 2013

POVO TEM CÂNCER; BURGUESIA, NEOPLASIA...

“Consolidar o Sistema Único de Saúde (SUS) será (...) prioridade do meu governo. Para isso, vou acompanhar pessoalmente o desenvolvimento desse setor tão essencial para o povo brasileiro. Quero ser a presidenta que consolidou o SUS, tornando-o um dos maiores e melhores sistemas de saúde pública do mundo. O SUS deve ter como meta a solução real do problema que atinge a pessoa que o procura, com uso de todos os instrumentos de diagnóstico e tratamento disponíveis, tornando os medicamentos acessíveis a todos, além de fortalecer as políticas de prevenção e promoção da saúde. Vou usar a força do governo federal para acompanhar a qualidade do serviço prestado e o respeito ao usuário. Vamos estabelecer parcerias com o setor privado na área da saúde, assegurando a reciprocidade quando da utilização dos serviços do SUS. A formação e a presença de profissionais de saúde adequadamente distribuídos em todas as regiões do país será outra meta essencial ao bom funcionamento do sistema...”.

Dilma Rousseff
Trecho do seu discurso de posse na presidência do Brasil – 1º de janeiro de 2011.


Nesta quinta-feira, 23, entrou em vigor a lei nº 12.732, que, sancionada no dia 22 de novembro de 2012 pela presidente Dilma Rousseff, dispõe sobre o tratamento gratuito de pacientes com câncer “no prazo máximo de até 60 (sessenta) dias contados a partir da data do diagnóstico firmado em laudo patológico ou em prazo menor, conforme a necessidade terapêutica do caso registrado em prontuário único”, pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Anunciada no dia 16 de maio do corrente pelo ministro da Saúde Alexandre Padilha, a notícia bem que poderia servir de alento aos pacientes que, diferentemente dos que possuem recursos próprios para bancar o tratamento (cirurgia, radioterapia, quimioterapia etc) em clínicas e/ou hospitais privados do país e/ou do exterior, não dispõem de meios para arcar com despesas tão altas, dependendo, portanto, do SUS para se submeter aos procedimentos que a doença requer para ser debelada.

Porém, diante do histórico da maioria dos gestores do país e das políticas públicas do Estado, a iniciativa, em um ano que antecede o das eleições presidenciais, torna-se até suspeita, como se quisessem que acreditássemos que, apesar de tardia, a mesma fosse uma real preocupação do governo federal para com a saúde do povo brasileiro, inclusive porque, na prática, é comum a espera pelo tratamento chegar a quatro meses e, em muitos casos, quando isso acontece, o paciente já foi a óbito. Daí ser imperativo o cumprimento rigoroso da lei – caso contrário, será mais uma que não sairá do papel... Isso sem falar no excesso de burocracia – haja redundância! – exigida para que o SUS possa autorizar um tratamento compatível com as necessidades do doente, quando, na verdade, o ideal seria que, tão logo fosse diagnosticada a doença, cuja evolução é imprevisível, os devidos cuidados médicos deveriam ser imediatamente disponibilizados.

O curioso, contudo, é que, enquanto o governo federal previu um derrame dos cofres públicos de mais de R$ 26 bilhões para a Copa de 2014, a ser realizada no Brasil, ele destinou, para que se cumpra a lei nº 12.732/12, apenas o irrisório montante de R$ 500 milhões – haja desproporcionalidade! –, sobretudo considerando que, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), são esperados mais de 500 mil novos casos da doença em 2013. Preocupante? Não: alarmante! Tanto que o INCA já divulgou que o câncer representa a segunda causa de morte no país, cuja população é de mais de 190 milhões de habitantes, perdendo apenas para as doenças cardiovasculares. E a situação torna-se ainda mais grave porque, de acordo com o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), reconhecido como o maior hospital público de oncologia da América Latina, o câncer tornar-se-á a principal causa de morte da população brasileira até 2020.

Em seu pronunciamento, portanto, o ministro Padilha adiantou que diversas medidas que darão apoio à devida aplicação da lei nº 12.732/12 já estão sendo tomadas. Entre elas: a formação, com incentivos financeiros, de “especialistas em oncologia clínica, pediátrica, cirúrgica, entre outras áreas”, a fim de “os hospitais tenham estímulo para abrir novas vagas de residência em áreas prioritárias, como oncologia”, além da criação do Sistema de Informação do Câncer (Siscan), na tentativa de auxiliar estados e municípios a gerir os serviços oncológicos da rede pública – desde o dia 16, encontra-se disponível, gratuitamente, para as Secretarias de Saúde, um software que pretende reunir o histórico do paciente e do seu tratamento, a fim de que seja feito “um acompanhamento em tempo real do que acontece nos serviços de saúde”, disse, explicando que, assim, estará se inaugurando “uma nova etapa no tratamento do câncer no país”.

E a previsão do governo é a de que todos os registros de novos casos da doença no Brasil deverão ser feitos pelo Siscan, a ser implantado pelos estados e municípios até o final deste ano – isto é, se não quiserem que os repasses federais para atendimento oncológico sejam suspensos. No mais, uma comissão de monitoramento e avaliação, de caráter permanente, será criada para acompanhar o processo de implantação do Siscan e a execução de planos regionais de oncologia, bem como realizando visitas regulares a hospitais que atendem via SUS para avaliar as suas condições de funcionamento e a capacidade de ofertar atendimento oncológico com agilidade – oferta essa que inclui a instalação de 80 novos serviços de radioterapia em todo o país e a ampliação de outros centros já existentes, enquanto as unidades de saúde que já ofertam esses serviços serão estimuladas a adotar um terceiro turno (o noturno) de funcionamento.

Isso porque o atendimento costuma ser diurno – 93 serviços já demonstraram interesse em abraçar essa ideia –, embora outra opção considerada pelo governo seja a de contratar hospitais da rede privada para a prestação de diversos serviços ao SUS. À oportunidade, o ministro Padilha, para quem “o tratamento do câncer no país tem sido uma força importante para a humanização no atendimento e na reorganização do SUS”, aproveitou para informar que pessoas jurídicas e físicas poderão ter deduções fiscais se investirem em ações de prevenção e combate ao câncer e de reabilitação de pessoas com deficiência, com os doadores abatendo até 1% do Imposto de Renda devido, enquanto entidades sem fins lucrativos, caso queiram, serão apoiadas com recursos captados por meio dos Programas Nacionais de Apoio à Atenção Oncológica (Pronon) e o do Programa de Apoio à Atenção da Saúde da Pessoa com Deficiência (Pronas/PCD).

Enfim! Segundo o portal da Liga Norte-rio-grandense contra o Câncer, fundada em 1949 por um grupo de profissionais da área de saúde e reconhecida pelo Ministério da Saúde como um centro de alta complexidade em oncologia, sendo, no caso, o único existente no estado do Rio Grande do Norte, a patologia em questão, “também chamada de neoplasia, é um conjunto de mais de 100 doenças que se caracterizam pelo crescimento desordenado” de determinadas células – células essas, inclusive, que “se dividem muito rapidamente, invadindo tecidos e órgãos e formando tumores que podem se espalhar (metástases) para outras regiões do corpo”. E as explicações prosseguem: “O câncer tem causas variadas, podendo surgir de fatores externos, como o ambiente em que a pessoa vive ou hábitos e costumes presentes em nosso dia a dia; ou também por fatores internos, que, na maioria das vezes, estão geneticamente predeterminados”.

Para o jornalista Tito Montenegro:
— Na milenar batalha entre o câncer e a espécie humana, continuamos levando a pior...


Na opinião do jornalista, o câncer não seria “uma doença”, mas “um fenômeno”, desencadeado, invariavelmente, por um leque de inúmeras causas. Daí ser “ingênuo acreditar que um dia encontraremos uma cura para ele”. O fato é que, para a Organização Mundial da Saúde (OMS), que, aliás, estima o diagnóstico anual de cerca de 12 milhões de casos de câncer em todo o mundo, sendo que, a cada ano, a doença causa mais de sete a oito milhões de óbitos, “pelo menos um terço de todos os casos de câncer pode ser evitado”. E que a estratégia mais eficiente adotada em longo prazo pela entidade se resume a prevenção, diagnóstico precoce e acesso aos tratamentos. No Brasil, a fim de que vários aspectos obscuros da lei nº 12.732/12 sejam esclarecidos, várias audiências públicas já estão sendo promovidas pelo Ministério Público Federal em diversos estados. Abaixo, portanto, links que, de repente, podem ser de interesse do leitor:

Instituto Nacional do Câncer (INCA) -

Liga Norte-rio-grandense contra o Câncer -

Fundação FioCruz -

Revista Super Interessante, CâncerA Humanidade contra-ataca, novembro de 2004 - 


O que se perdeu, perdido está... 

“De que adianta ser lagarta de cerca / se pedaços caem na estrada e, com eles, vida se esvai? / Quisera continuássemos a viver em cada pedaço que cai...”.

Nathalie


A história que ora pretendo contar não é senão a de um caso de desrespeito do Estado brasileiro para com os seus cidadãos – desrespeito esse, aliás, que, além de acintoso, foi e continua sendo, já que situações similares permanecem ocorrendo a 3x4, extremamente desumano, colocando em xeque, no quesito saúde, a exemplo de inúmeros outros episódios, as políticas públicas do Estado brasileiro, bem como colocando em risco a vida de muitos dos que vivem neste país ou que, pelo menos, tentam sobreviver, dependendo, invariavelmente, dos serviços prestados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que, infelizmente, apesar dos gestores dizerem que não, anda constantemente ameaçado pelo fantasma da privatização. Enfim! A referida história, ou melhor, o fato a seguir desenrolou-se em Natal, no Rio Grande do Norte, mas, de repente, poderia ter acontecido em qualquer lugar do Brasil. Ou do mundo...


O Fato:

“Uma dor sem tamanho...”.

Título da reportagem especificamente sobre o caso, publicada no jornal Diário de Natal, já extinto, no dia 7 de agosto de 2010 – uma das fontes desta postagem.


Fins de 2009, uma mulher de apenas 42 anos de idade foi diagnosticada com câncer nos rins. No dia 3 de março de 2010, a oncologista Karla Emereciano, da Liga Norte-rio-grandense contra o Câncer, onde a paciente estava internada para tratamento, receitou, para a quimioterapia, quatro caixas de Sutent 50mg (malato de sunitinibe), medicamento fabricado e embalado por uma multinacional italiana, sendo que, à época, cada caixa, com 28 cápsulas, custava mais de R$ 20 mil. Diante, contudo, da impossibilidade financeira de adquiri-las, a família da paciente entrou com uma ação junto à Defensoria Pública da União, a fim de garantir a sua aquisição. No dia 8 de abril, o juiz federal substituto Vinicius Costa Vidor, da 5ª Vara de Natal, decidiu que, em caráter de urgência, a paciente recebesse o referido medicamento da União, que, por sua vez, recorreu da decisão – recurso esse que, no dia 27 de abril, foi negado pelo juiz federal Ivan Lira de Carvalho. No dia 7 de maio, entretanto, visto que, até então, a remessa do medicamento ainda não havia sido efetuada, a União foi multada em R$ 2 mil por cada dia de descumprimento da decisão judicial. Infelizmente, no dia 18 de maio – há exatos três anos –, já com o quadro evoluído – deu metástase na coluna –, a paciente não conseguiu mais resistir e faleceu... No dia 2 de junho, portanto, o seu óbito foi informado à Defensoria Pública da União através de uma certidão – não havia mais, obviamente, necessidade do tratamento. Curiosamente, pouco mais de dois meses depois, cinco caixas do medicamento – não quatro –, foram entregues na casa da mãe da mulher vitimada mortalmente pela doença que lhe acometeu – doença essa, inclusive, tratada com descaso pelos poderes públicos, que não foram pontuais; os direitos da doente, por sua vez, no caso, ignorados. Ocorre que, não demorou muito, ao tomar conhecimento da morte da paciente que havia requerido o medicamento, a União, descabidamente, pediu a devolução do mesmo – coisa, evidentemente, fora de questão, considerando que, após uma consulta jurídica, a família doou as caixas do medicamento tardiamente recebidas à Liga Norte-rio-grandense contra o Câncer, ficando a história, como se costuma dizer, por isso mesmo. Em tempo: se, apesar do seu uso, o medicamento não debelasse a doença, que, pelo menos, pudesse ter minorado as dores e o sofrimento provocados por seus efeitos devastadores no organismo da paciente. Infelizmente, nesse caso, nem como um lenitivo na sua fase terminal o medicamento teve serventia – o que dirá curá-la!

Obs.: Em 2010, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), o Brasil registrou 179 mil mortes em decorrência da doença. O câncer de brônquios e de pulmão foi o tipo que mais matou (21.779), seguido do câncer de estômago (13.402), de próstata (12.778), de mama (12.853) e de cólon (8.385).


Bola fora...

“O tempo não para! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo...”.

Mário Quintana (1906 - 1994)
Poeta brasileiro.


O tempo passa tal qual a Terra gira, dando voltas e mais voltas, e, invariavelmente, nem nos damos conta disso; tipo os amigos, que, igualmente rodopiando em nossas vidas, ora estão perto, ora longe, geograficamente ou não, independentemente da natureza das opções de cada um, podendo, contudo, devido a nossa condição humana, sem que menos esperemos, partirem, em definitivo, numa viagem sem retorno – muitas vezes, até, sem aviso prévio. Só que, mesmo tendo consciência de que a nossa existência é finita, não há, convenhamos, como aceitar certas separações irreversíveis. Infelizmente, apesar de não ser mais nenhuma adolescente, embora, aos 45 anos de idade, me considerar uma pessoa jovem, sobretudo por ser um espírito livre, já tenho contabilizado diversas perdas significativas na minha vida, sentidas, inclusive, pelo meu tão sensível coração ao longo da minha existência – perdas essas, aliás, cuja maioria, para o meu desalento, precoces: acidentes, doenças (motivo que, vez por outra, se faz necessário atualizar a agenda de contatos, efetuando as baixas)... Isso, obviamente, quando se toma conhecimento das mesmas.

Ocorre que, aqui e acolá, penso em alguns amigos que não vejo há anos e que, de repente, até que poderia ser interessante encontrá-los, reencontrá-los – quiçá, procurando-os, por exemplo, numa dada rede social que, de uns meses para cá, passei a frequentar, a fim, no caso, de retomar contatos, já que, apesar dos aspectos negativos desse tipo de ferramenta da internet, um troço legal que ela disponibiliza é a possibilidade de resgatar pessoas queridas que, de há muito, por motivos os mais diversos, você sequer tem notícias – o que dirá saber por onde elas andam! Isso, claro, ou seja, buscá-las na internet, se for o caso de elas terem aderido ao frisson virtual – e olhe lá! Tanto que eu mesma sou um exemplo disso, visto que, embora cadastrada na tal rede social desde 2009, apenas no final de 2012 cedi, de fato, aos seus inúmeros apelos. Então... Outro dia, lembrei-me de certa amiga, com a qual, diga-se de passagem, compartilhei uma das fases mais agradáveis e saudáveis da minha vida, que foi o início da nossa adolescência, mas que, por desenlaces naturais à história de cada um, findamos por tomar rumos distintos. Desse modo, pensei em adicioná-la...

À época, portanto, quando nos conhecemos, em Natal, estudávamos num colégio de padres italianos – pense a situação! Não demorou muito, ficamos amigas: cursávamos a 6ª série ginasial (hoje, ensino fundamental) – éramos da mesma turma e tínhamos, praticamente, a mesma idade –, frequentando, ainda, a escolinha de basquete do colégio, da qual, inclusive, também faziam parte as nossas respectivas irmãs – tipo a mesma faixa etária. Desse modo, além das aulas que assistíamos juntas; das que perdíamos, nas vezes em que as gazeávamos; das idas à capela, que em nada nos atraia; dos recreios festivos e dos treinos divertidos, alimentamos, a minha amiga e eu, um convívio que ultrapassou os altos muros, embora não intransponíveis, dos salesianos. Porém, o tempo passou e, certo dia – as nossas irmãs também –, passamos a fazer parte da primeira equipe feminina (infanto-juvenil?) de basquete do colégio. Dedicadas que éramos nos treinos e ágeis nas quadras, fomos selecionadas como titulares da equipe – ela, canhota, ala esquerda; eu, destra, ala direita. De certa forma, nas quadras, nos achávamos. De jogada em jogada, nos tornamos uma bela dupla.

O curioso é que, invariavelmente, os passes da minha amiga – para mim – sempre nos garantiam bastantes pontos nos placares, já que – detalhe – apesar de considerada “baixinha” para uma jogadora de basquete, o meu desempenho nas quadras tornou-me uma das cestinhas do time – que paradoxo! E participávamos não somente dos jogos internos do colégio, mas, também, de torneios outros, inclusive fora do Rio Grande do Norte, sempre conquistando medalhas – guardo-as até hoje. Tanto que, agora, ao me lembrar dessa fase, apenas confirmo que a mesma foi realmente muito importante nas nossas vidas, já que não éramos ligadas apenas pelos hábeis passes que dávamos com uma bola de basquete, mas, também, fora das quadras – de preferência, longe do umbral claustrofóbico do colégio mantido pela tal instituição religiosa. Então... Quando já havia pensado em localizar a minha amiga na rede social que frequento e adicioná-la, eis que, numa tarde chuvosa de abril, reencontro a sua irmã, que logo fui cumprimentando e, sorrindo, visivelmente animada, já pensando que, após anos de desencontros, poderíamos, finalmente, nos reencontrar, quis saber:
— E Jeanne, por onde anda? – a irmã da minha amiga olhou-me desconfiada, intrigada com a minha pergunta.
— Você não soube? – ela retrucou, percebendo que, de fato, eu ignorava o que quer que fosse.
— Não, o que houve? – nem de longe eu desconfiava do ocorrido.
— Jeanne morreu... – ela respondeu, com aparente naturalidade, mas, talvez, também porque estava de certa forma surpresa, já que a notícia, deveras triste, era-me, até então, realmente alheia.
— Como é que é?! – verbalizei, meio que de bobeira, sequer processando na mente a informação.
— Em maio, agora, vai fazer três anos...


                                                                                 1983                                            2009

Jeanne Maria Rodrigues Bertoldo
(Natal-RN, 09/05/1967 - id. 18/05/2010)


Custei a acreditar, mas, não demorou muito, inteirei-me do que ocorrera a minha amiga, ou seja: aos 42 anos de idade, um câncer desenvolveu-se nos seus rins – fato que, para o seu desespero, logo adquiriu os contornos de uma metástase, que, em poucos meses (seis, segundo a sua irmã), a devastou, ceifando-a, implacavelmente, sem dó nem piedade desta existência – fato ao qual fiz referência nesta postagem. Isso sem falar do absurdo do episódio que a envolveu, podendo, no seu caso – o que dirá no de muitos outros! –, classificar a postura da União não somente de leviana, mas, sobretudo, de omissa. Diante, portanto, do contexto, só vejo motivos para que a família da minha amiga já tivesse movido uma ação penal contra a União – coisa que, por foro íntimo, não foi feita até hoje. Então... Intrigada, a irmã da minha amiga disse que pensava que eu sabia da irreparável perda, visto que, à época, a minha irmã tinha ficado a par de tudo. O fato é que, na hora, ao receber a informação, não demonstrei nenhuma emoção – os olhos nem marejaram... Não obstante, após nos despedirmos e fiquei sozinha, afastei-me meio que tonta, por pouco não esquecendo onde havia estacionado o carro.

De repente, contudo, um misto de revolta e indignação tomou conta de mim. E por dois motivos:

1. Depois de tanto tempo sem saber do paradeiro da minha amiga, que sempre, tipo eu, gostava de se perder por esse mundo afora, quando pensei que, porventura, poderia quiçá encontrá-la, botar os papos em dia e matar a saudade – quanta ironia! –, fiquei sabendo que, literalmente, nunca mais iria revê-la;

2. Sem maiores explicações de quem quer que fosse, a referida notícia havia-me sido omitida por quase longos três anos – isso me virou a cabeça.

Sei não, mas, a meu ver – não importa o motivo –, ninguém tem o direito de, a partir do seu próprio julgamento, algo, aliás, extremamente subjetivo, sonegar certas informações, controlando-as, sobretudo quando as mesmas são de interesse de outrem. De fato, quando, no final de 2009, a minha amiga adoeceu gravemente, eu estava em Brasília, mas, não tardou, em fevereiro de 2010, pouco antes do carnaval, decidi, por questões pessoais, vir a Natal, para onde ela havia retornado, visto que, morando alhures, decidiu tratar-se aqui. Reconheço, ainda, que, naquele período, a minha vida andava mais amarga do que café sem açúcar – eu emaranhada numa série de questões aparentemente sem solução, embora, nem de longe, os meus problemas fossem considerados empecilhos para que não me notificassem do estado de saúde da minha amiga, do drama que, à época, ela protagonizava, na iminência, inclusive, de agonizar... Enfim! Independentemente do contexto que fosse, poderíamos, após anos de separação, dados, apenas, por contingências da vida, pelo menos nos reencontrar, nada me impedindo, por exemplo, de lhe fazer companhia nos seus últimos momentos.

Afinal, eu dispunha de tempo para isso –, distraí-la e, até mesmo, recitar poemas, inclusive os meus, que, aliás, ela já conhecia e gostava desde a época do colégio... Falando nisso, há pouco me veio à mente que, quando estudávamos juntas, muitos mantinham uma espécie de diário, no qual os amigos escreviam algumas palavras carinhosas e, muitas vezes, colocavam uma fotografia de lembrança. Desse modo, visto que, mesmo com pouca idade, eu já era familiarizada com palavras e poemas, também quis ter um. E tive. Tanto que, no dia em que soube que a minha amiga havia morrido, fui atrás do meu, encontrando-o, de cara remarcando a data na qual, nas minhas anotações iniciais, tipo preâmbulo, eu o iniciei, ou seja, 13 de abril de 1983, dia no qual completei 15 anos de idade. Qual não foi, portanto, a minha emoção quando, trinta anos depois, deparei-me com mensagens – singelas, embora sinceras – de alguns dos vários amigos da época? Diante, contudo, das circunstâncias, ao folhear o tal diário, sensibilizei-me, em especial, com a mensagem que, mais precisamente no dia 1º de maio do mesmo ano, Jeanne me dedicou, além de um beijo e uma assinatura, uma foto sua...

Hesitante, contudo, ela disse, no tal diário, que, apesar de não ser dada a escrever, queria que eu soubesse que gostava muito de mim, bem como de ser a minha “guia na natação” – a minha miopia foi diagnosticada quando eu tinha por volta dos seis anos de idade. De qualquer modo, o fato é que sempre gostei de experimentar coisas novas, como, por exemplo, no caso dos esportes, ginástica olímpica; basquete; tênis; natação... Ocorre que, como eu não podia pular na piscina de óculos – caso o fizesse, pois não conseguia enxergar direito, ainda mais à noite, era capaz de cruzar todas as raias na vertical –, Jeanne costumava me acompanhar nas aulas, não hesitando em cair na água comigo, conduzindo-me nas braçadas. Pense a camaradagem! Tanto que, ao final da sua mensagem, escrita no meu diário, ela manifestou o desejo de, se possível, manter a nossa amizade para o resto da vida, reafirmando que sempre ia me querer por perto... Infelizmente, não foi bem isso o que aconteceu, já que o tempo, implacável, passa, como se sabe, inexoravelmente. E, dependendo dos rumos que a vida de cada um vai tomando, se torna até compreensível certos distanciamentos.

No nosso caso, por exemplo, após a fase do Salesiano, do basquete e congêneres – Jeanne formou-se em educação física e eu em jornalismo –, passamos a nos encontrar esporadicamente, com os nossos passos e passes tateando novos mapas, geografias diversas, cada uma nas suas próprias aventuras, descobertas, experiências e vivências. Certa vez, contudo, num dos carnavais da vida – não me recordo o ano –, estávamos seguindo um bloco tradicional numa das ruas de Natal e, casualmente, nos esbarramos. Foi aquele abraço! Depois disso, só tínhamos notícias uma da outra en passant, fosse por telefone ou através de terceiros. Enfim! Sem ressentimentos daqueles que, apesar de equivocados, se acharam no direito de, ao longo de quase três anos, me sonegarem a notícia da viagem sem volta da minha amiga, aproveito o ensejo para citar uma frase – quiçá um verso – do escritor português José Saramago (1922 - 2010), tentando, talvez, justificar como ando a me sentir depois que soube que a minha amiga caiu no frevo, provavelmente indo atrás de um bloco de carnaval qualquer, já que ela adorava Recife, cidade que, certa vez, ainda pequena, chegou a morar:
— É ainda possível chorar sobre as páginas de um livro, mas não se pode derramar lágrimas sobre um disco rígido...

A verdade é que, de uns tempos para cá, nem sobre as páginas de um livro eu choro mais. Disco rígido, então? Nem pensar! E isso apenas porque, ao longo do tempo, já devo ter exaurido a minha cota de lágrimas nesta incrivelmente agridoce vida. Daí, Jeanne, que, apesar de tudo, apesar do pesar que, ora, eu sinto e do meu sentimento de impotência por não poder reverter os fatos, gostaria que soubesse que não apreciei o seu último lance: logo você, sempre com um sorriso nos lábios, tais quais nas fotos reproduzidas – não me recrimine essa licença poética –, tão fraternal, alegre, expansiva... De qualquer modo, saiba também que, em 2011 – nem me pergunte como! –, quebrei o meu pé direito, só podendo, portanto, desde então, por ordens da minha hoje ortopedista, visto que ela também estudou conosco, apenas fazer natação. Nada de tênis – o que dirá basquete! E olha que, antes disso, até pensei em procurar Lourdinha – a nossa ex-técnica –, a fim de me informar onde é que eu poderia nem que fosse bater uma bola, minimizando, quem sabe, os efeitos do meu sedentarismo. Infelizmente, não foi só você quem perdeu o rebote. De certo modo, eu também perdi.

Bom! Despeço-me, aqui, dos meus devaneios, registrando, contudo, a minha humilde homenagem e sentida saudade... Afinal, "nada entendo de teorema: o meu solo é poema, verso livremente tecido em busca de um sentido". E como diria outro verso de minha autoria:
— A única certeza que me atemoriza é a da morte: as demais são curtos-circuitos existenciais...

Nathalie Bernardo da Câmara

sábado, 18 de maio de 2013

LE MONDE: MARINA SILVA É “UMA CANDIDATA DA ADVERSIDADE”.

 Marina Silva em 2010.∣ AP/Nelson Antoine


No Brasil, Marina Silva considera-se a “guardiã das utopias”

Nicolas Bourcier
Enviado especial do Le Monde a Brasília
16 de maio de 2013

Tradutor: Lana Lim


Afável, frágil, determinada, por escolha e por natureza, ela parece fugir de padrões. Aos 55 anos, Marina Silva está voltando ao primeiro plano do cenário político brasileiro, menos de dois anos depois de ter saído do Partido Verde, com o qual obteve 20 milhões de votos na eleição presidencial de 2010 e tirou uma vitória de primeira de Dilma Rousseff, sucessora de Luiz Inácio Lula da Silva. Um desempenho sem precedentes para uma candidatura ambientalista em uma grande democracia.

Com a mão estendida, o rosto marcado pelo cansaço, a ex-ministra do Meio Ambiente do presidente Lula nos recebe em uma sala de reuniões vazia de um prédio sem graça de Brasília, como se para enfatizar melhor a distância que a separa de seus principais adversários. "Eles fizeram de tudo para impedir nossa existência", ela sussurra.

Dois meses de áridas batalhas para obter o reconhecimento de seu novo partido, criado em fevereiro, a Rede Sustentável, a convenceram de que os pesos pesados da coalizão governamental, o Partido dos Trabalhadores (PT, esquerda) e o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB, centro), estavam dispostos a tudo para evitar uma nova "surpresa Marina" na eleição presidencial de 2014.

"CRISE DE CIVILIZAÇÃO"

No dia 18 de abril, a Justiça lhe deu um primeiro sinal verde para a inscrição de seu partido no registro oficial. "Agora eles estão tentando suprimir o acesso à propaganda eleitoral gratuita para os novos partidos", ela diz. "É exaustivo. Consegue imaginar uma máquina de guerra como essa por alguns segundos de aparição diária na TV?" E complementa: "O que eles não entendem é que quanto mais se tenta sufocar um partido, mais ele cresce. Veja o PT, por exemplo, os militares fizeram de tudo para silenciá-lo na época."

Marina Silva é isso. Uma candidata da adversidade, com uma fala determinada sob a aparência de um corpo frágil, outrora maltratada pelas durezas da vida na Amazônia, sua terra de origem: "Estamos vivendo uma crise de civilização – econômica, social, ambiental, ética e política. Não é fácil enfrentar tais mudanças. Mas o principal é se conscientizar de que a única saída é a implantação de uma verdadeira política de desenvolvimento sustentável."

Coragem não falta para Marina. A ascensão dessa ambientalista de primeira hora lembra a de Lula, o filho pobre do Nordeste que se tornou presidente. Oriunda de uma família numerosa – três dos irmãos não sobreviveram à miséria e à malária, órfã aos 14 anos, ela logo foi obrigada a se tornar seringueira em plena selva do Estado amazônico do Acre. Doente de malária e hepatite, ela foi se tratar em Rio Branco, capital do Estado. Foi lá que, aos 16 anos, fez um curso de alfabetização em uma comunidade religiosa, trabalhou como empregada doméstica, pensou em virar freira e por fim ingressou na universidade e se formou em História. Militante contra a ditadura, ela era próxima de Chico Mendes, o ícone do ambientalismo assassinado em 1988.

DILMA ROUSSEFF "NÃO FEZ NADA EM DOIS ANOS"

Naquele ano, sob a bandeira do PT criada pelo metalúrgico Lula, ela se tornou a vereadora mais votada de Rio Branco. Deputada na Assembleia Legislativa do Acre, aos 35 anos ela se tornou a mais jovem senadora da história do Brasil. Reeleita em 2002, entrou para o governo Lula com a pasta do Meio Ambiente.

"Nós realizamos muitas coisas", ela diz. "As emissões de CO2 foram reduzidas em dois milhões de toneladas, o desmatamento recuou 80% e cerca de 120 mil hectares de terras foram atribuídos aos índios. E o que a maioria presidencial fez até agora? Com a reforma do código florestal ou ainda as modificações dos direitos de exploração mineradora, ela está ameaçando essas conquistas."

Apesar da grande estima que tem por Lula, Marina Silva deixou o governo e o PT em 2008, depois de ter que engolir a aliança do governo com o complexo agroindustrial, a legalização da soja transgênica e a construção de usinas hidrelétricas na Amazônia, uma questão na época defendida pela ministra de Energias, Dilma Rousseff, que "não fez nada em dois anos, a não ser por um retrocesso nas questões ambientais", ela lança com um olhar severo.

"REFERENDO SOBRE O ABORTO"

Candidata presidencial do Partido Verde em 2010, Marina Silva passava a imagem de uma personalidade contraditória, socialmente conservadora e politicamente progressista. Membro desde 1997 da Assembleia de Deus, uma das principais Igrejas evangélicas do Brasil, ela se posicionou contra o aborto, independentemente das circunstâncias. Hoje ela parece ter mudado: "Isso faz parte dos temas complexos que merecem ser discutidos. Assim como para a legalização da maconha, sou a favor de um referendo sobre essa questão do aborto."

Para aquela que se considera a "guardiã das utopias", a próxima campanha promete ser acirrada. Marina diz ter coletado, até o momento, 200 mil assinaturas das 500 mil necessárias, antes do início do mês de outubro, para entrar na corrida presidencial. "O movimento vai se acelerar, as equipes estão se posicionando."

Além da candidatura do principal partido de oposição, o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), Marina Silva poderá ser seguida de perto pelo governador de Pernambuco, Eduardo Campos, a estrela em ascensão do Partido Socialista Brasileiro (PSB), que faz parte da coalizão governamental. Ela despreza essa possibilidade: "O que ele representa no país?"

Hoje, duas pesquisas lhe dão de 16% a 18% das intenções de voto, bem atrás dos 54% da presidente Dilma Rousseff, que vai se recandidatar. "Acredite, está havendo uma mudança de paradigma. Esse país possui o potencial de ser no século 21 o que os Estados Unidos foram no século 20."




No original...



Au Brésil, Marina Silva se veut la “gardienne des utopies”

Nicolas Bourcier
16 de maio de 2013

Brasilia, envoyé spécial. Douce, frêle, déterminée, par choix et par nature, elle semble échapper aux modes. A 55 ans, Marina Silva revient sur le devant de la scène politique brésilienne, moins de deux ans après avoir claqué la porte du Parti Vert, avec lequel elle avait recueilli 20 millions de voix à l'élection présidentielle de 2010 et privé d'une victoire dès le premier tour Dilma Rousseff, l'héritière de Luiz Inacio Lula da Silva. Une performance sans précédent pour une candidature écologiste dans une grande démocratie.


Le Monde.fr a le plaisir de vous offrir la lecture de cet article habituellement réservé aux abonnés du Monde.fr. Profitez de tous les articles réservés du Monde.fr en vous abonnant à partir de 1€ / mois
Découvrez l'édition abonnés


D'une main tendue, le visage marqué par la fatigue, l'ancienne ministre de l'environnement du président Lula reçoit dans une salle de réunion vide d'un bâtiment sans charme de Brasilia, comme pour mieux souligner l'écart qui la sépare de ses principaux adversaires. "Ils ont tout fait pour nous empêcher d'exister", souffle-t-elle.


Deux mois d'âpres batailles pour faire reconnaître son nouveau parti créé en février, le "Réseau durable", l'ont convaincue que les poids lourds de la coalition gouvernementale, le Parti des travailleurs (PT, gauche) et le Parti du mouvement démocratique brésilien (PMDB, centre), étaient prêts à tout afin d'éviter une nouvelle "surprise Marina" au scrutin présidentiel de 2014.


"CRISE DE CIVILISATION"


Le 18 avril, la justice lui a donné un premier feu vert pour l'inscription de son parti au registre officiel. "Maintenant, ils tentent de supprimer l'accès aux spots télévisés gratuits pour les nouvelles formations, poursuit-elle. C'est épuisant. Vous imaginez une telle machine de guerre pour quelques secondes d'antenne quotidienne ?" Elle ajoute : "Ce qu'ils ne comprennent pas, c'est que plus l'on essaie d'étouffer un parti, plus il croît. Prenez le PT, les militaires avaient tout fait en leur temps pour le réduire au silence."


Marina Silva, c'est ça. Une candidate de l'adversité. Avec une parole tranchante sous les apparences d'un corps fragile, autrefois malmené par la dureté de la vie en Amazonie, sa terre d'origine : "Nous vivons une crise de civilisation – économique, sociale, environnementale, éthique et politique. Il n'est pas facile d'affronter de tels changements. Mais l'essentiel est de prendre conscience que la seule issue est la mise en place d'une réelle politique de développement durable."


Marina Silva ne manque pas d'estomac. L'ascension de cette écologiste de la première heure rappelle celle de Lula, l'enfant pauvre du Nordeste devenu président. Issue d'une famille nombreuse – trois des enfants ne survivront pas à la misère et au paludisme –, orpheline à 14 ans, elle est très tôt contrainte de devenir seringueira (récolteuse de latex) en pleine jungle de l'Etat amazonien d'Acre. Atteinte de paludisme et d'hépatite, elle part se soigner à Rio Branco, la capitale de l'Etat. C'est là, à 16 ans, qu'elle suit des cours d'alphabétisation dans une communauté religieuse, travaille comme femme de ménage, hésite à entrer dans les ordres avant de s'inscrire à l'université et décrocher un diplôme d'histoire. Militante contre la dictature, elle est proche de Chico Mendes, l'icône de l'écologie assassinée en 1988.


DILMA ROUSSEFF "N'A RIEN FAIT DEPUIS DEUX ANS"


Cette année-là, sous la bannière du PT créé par le métallo Lula, elle devient la conseillère municipale la mieux élue de Rio Branco. Députée à l'Assemblée législative d'Acre, elle devient, à 35 ans, la plus jeune sénatrice de l'histoire du Brésil. Réélue en 2002, elle rejoint le gouvernement Lula avec le portefeuille de l'environnement.


"Nous avons réalisé beaucoup de choses, glisse-t-elle. Les émissions de CO2 ont été réduites de deux millions de tonnes, la déforestation a reculé de 80% et quelque 120 000 hectares de terres ont été attribués aux Indiens. Et que fait la majorité présidentielle actuelle ? Avec la réforme du code forestier ou encore les modifications des droits d'exploration minières, elle menace ces acquis."


Malgré la profonde estime qu'elle porte à Lula, Marina Silva quittera le gouvernement et le PT en 2008, après avoir dû avaler l'alliance du gouvernement avec le complexe agro-industriel, la légalisation du soja transgénique et la construction d'usines hydroélectriques en Amazonie, un dossier défendu à l'époque par la ministre de l'énergie Dilma Rousseff, qui, lance-t-elle d'un regard noir, "n'a rien fait depuis deux ans, excepté un retour en arrière sur les questions environnementales".


"RÉFÉRENDUM SUR L'AVORTEMENT"


Candidate présidentielle des Verts en 2010, Marina Silva renverra l'image d'une personnalité contrastée, socialement conservatrice et politiquement progressiste. Membre depuis 1997 de l'Assemblée de Dieu, une des principales Eglises évangéliques du Brésil, elle a pris position contre l'avortement, quelles qu'en soient les circonstances. Aujourd'hui, elle paraît avoir évolué : "Cela fait partie des sujets complexes qui méritent débat. Tout comme pour la légalisation du cannabis, je suis pour un référendum sur cette question de l'avortement."


Pour celle qui se veut la "gardienne des utopies", la prochaine campagne s'annonce serrée. A ce jour, elle dit avoir récolté 200 000 signatures sur les 500 000 nécessaires, avant le début du mois d'octobre, pour entrer dans la course présidentielle. "Le mouvement va s'accélérer, les équipes se mettent en place", veut-elle croire.


Outre la candidature de la principale formation d'opposition, le Parti social-démocrate brésilien (PSDB), Marina Silva pourrait bien être talonnée par le gouverneur du Pernambouc, Eduardo Campos, l'étoile montante du Parti socialiste brésilien (PSB), qui fait partie de la coalition gouvernementale. Elle balaie cette éventualité d'un revers de main : "Que représente-t-il dans le pays ?"


Aujourd'hui, deux sondages lui donnent de 16% à 18% d'intentions de vote, loin derrière les 54% de la présidente Dilma Rousseff, qui se représentera. "Croyez-moi, il y a un changement de paradigme. Ce pays possède le potentiel d'être au XXIe siècle ce que les Etats-Unis étaient au XXe." Y croire, dit-elle.