sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

ERA UMA VEZ UM BARCO...

Não gostaria de ser eu a contar essa história, mas...

Quando éramos crianças, Tereza e eu – o nosso irmão ainda era pequeno, sob os cuidados da nossa mãe –, desfrutávamos, sozinhas, do mar de Baía Formosa, litoral Sul do Rio Grande do Norte, fronteira com a Paraíba. Mamãe era amiga de Vera – as duas trabalharam juntas, na EDUCAÇÃO. 

Não demorou muito, papai, advogado, elaborou o Plano Orgânico do município e, com o dinheiro que recebeu pelo trabalho, comprou um terreno, do lado de Vera. Com uma casa edificada, tomei posse: fui ao IBAMA e comprei por 1 cruzeiro, acho, uma muda pau-brasil e plantei na entrada da casa – está lá, até hoje. E batizei: Cazuza. À época, me perguntaram o motivo de tal nome – nem me dei ao trabalho de responder.

Então... Custa-me tanto escrever isso, agora, que serei breve: Vera sempre gostou muito de mim. Certa feita, me chamou num canto e disse: Tenho um presente para você...
Na maior das inocências, fui, igual criança pequena, que era e ainda o sou, atrás do meu presente. Era um barco, que ela fez em minha homenagem. E com o meu nome. Suposto, pois, estava escrito assim: NATALY.

Olhei de um lado, de outro, naquela baía maravilhosa que a natureza nos concedeu e, humildemente, perguntei: ― Quem é essa?
E ela: ― Você, o mar, para você...
Eu era uma criança e na minha cabeça nada genial, só disse isso: ― Essa não sou eu. Primeiro porque o meu nome – a minha mãe tinha me ensinado – escreve-se com 'TH'. E 'IE', no final.
Qual a resposta de Vera, para essa criança atrevida?
― Quer o barco ou não?
Nunca aceitei o barco.
Já adulta, tivemos as nossas perrengas – maldição de prefeitura de interior. Eu brigava com ela, ela comigo. Pois ela apoiava fulano e eu ninguém. E se brigou com mamãe, brigou comigo. Detalhe: não tenho a complacência da minha mãe; sou terrível.
Por isso que, quando soube, hoje pela manhã, que Vera não tinha resistido a mais uma hemodiálise – ela era diabética –, jurei que ainda comprarei e navegarei em todos os seus barcos.
Vamos navegar, Vera, vamos navegar.
Eu, você, Fernando Pessoa, Saramago... Quem mais?


Nathalie.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

NA “PINDURA” DAS CHUTEIRAS

Charge Jorge Braga/Jornal O POPULAR – 8/11/2015


Outro dia, num ônibus, papeando com uma jovem professora que eu havia acabado de conhecer – falamos sobre acessibilidade nos transportes coletivos, coisas desse tipo –, findamos, casualmente, por esbarrar na ‘Regra 85/95’... Daí que cinco meses após a publicação no Diário Oficial da União (18/6) da Medida Provisória nº 676/2015, alterando a Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991, que dispõe sobre os Planos de Benefícios da Previdência Social, quando passaram a valer novas regras na concessão de benefícios da Previdência Social – medida essa aprovada em votação simbólica pelo Senado em 7/10 –, o Brasil ainda anda às voltas com dúvidas e questionamentos a respeito da chamada ‘Regra 85/95’, que, no frigir dos ovos, significa que o segurado tem de atingir um número mínimo de pontos, obtido a partir da soma da idade e o tempo da contribuição para poder aposentar-se com o valor integral do benefício – a mulher precisa somar 85 pontos e o homem 95.

Um assunto maçante, convenhamos, para leigos e, de repente, até mesmo para matemáticos, embora o seu entendimento faz-se necessário. Curiosamente, o assunto parece só não ser enfadonho para o polêmico sociólogo italiano Domenico de Masi: “Com o aumento da expectativa de vida, as pessoas passaram a viver muito mais do que antes, mas as regras da aposentadoria continuaram as mesmas da Sociedade Industrial. A aposentadoria deveria acontecer aos 80 anos, e não aos 60. Você sai do seu trabalho justamente na fase que adquiriu mais cultura e experiência, e é levado para uma vida vazia, sem objetivos”. É o que ele chama de ‘cultural gap’. Ideólogo do ‘ócio criativo’, que conjuga tempo livre e criatividade, Masi defende, ainda, a redução da jornada de trabalho, prerrogativa para validar o seu conceito. O fato é que, independentemente dos méritos das novas regras para a aposentadoria no Brasil, ou da sua ausência, tudo é uma questão de ponto de vista.

Tanto é que, muitos dos que antes da vigência das novas regras estavam na iminência de requerem os seus benefícios previdenciários tiveram de cancelar planos. Frustrados, sem a expectativa da aposentadoria, são capazes de tudo acumularem, menos tolerância – o que é até compreensível. Isso porque, levando em consideração as precárias condições de trabalhos e os baixos salários, entre outras adversidades, esses contribuintes serão obrigados a permanecerem, contrariados e sem estímulo algum, na árdua labuta ainda durante vários anos – e sabemos que não há nada mais antipático do que fazer algo por obrigação. Haja estresse! Este, por sua vez, no caso, abala, inexoravelmente, a saúde e o bem-estar do trabalhador, que, apesar de fatigado, terá, sem muitas opções, de render-se ou a uma queda paulatina da sua produtividade, consequentemente, da qualidade do seu trabalho, ou a uma radical mudança de pensamento, de mentalidade, atualizando-se.

O papo no ônibus? Quando pensamos que já vimos de tudo na vida... Lá pelas tantas, a minha interlocutora confidencia-me, gracejando, que um irmão seu, técnico em engenharia, algo assim, andava a fazer algo sui generis, ou seja, devido a Regra 85/95’, já pagava, há cerca de dois meses, o INSS para uma filha de... 4 anos de idade! Não nego, confesso, que me surpreendi ao tomar conhecimento do inusitado gesto – reação semelhante teve a jovem professora, disse-me ela, quando soube da decisão filial tomada em benefício da sobrinha. Pudera, pois, provavelmente, talvez seja o único caso, nesse sentido, no Brasil. Desse modo, não nos restou gargalhar, obviamente chamando a atenção dos demais passageiros, que ignoravam o motivo do nosso bom humor – motivo esse, aliás, que me legou reflexões, inspirando-me a escrever este artigo, cujo tema, para digerir, se é que isso é possível, faz-se necessário ainda mastigar bastante. E rir, se isso também é possível.

Nathalie Bernardo da Câmara




segunda-feira, 16 de novembro de 2015

DRUMMOND E A LIRA DO RIO DOCE

Paisagem mineira – Holmes Neves (Brasil, 1925) – óleo sobre tela, 50 x 61 cm


LIRA ITABIRANA

Carlos Drummond de Andrade


I
O Rio? É doce.
A Vale? Amarga.
Ai, antes fosse
Mais leve a carga.

II
Entre estatais
E multinacionais,
Quantos ais!

III
A dívida interna.
A dívida externa
A dívida eterna.

IV
Quantas toneladas exportamos
De ferro?
Quantas lágrimas disfarçamos
Sem berro?

(1984)


domingo, 15 de novembro de 2015

DE TRAGÉDIAS II

 Cartum de Ed Carlos Santana – FACEBOOK – 15/11/2015



Incrível como a intolerância de muitas pessoas em relação as dores de outrem, rolando patrulhamento, anda a interferir na criação dos cartunistas! Na semana passada, todos compadeceram-se com o drama de Mariana – eu mesma entupi o meu face com reportagens, charges as mais diversas... E não apenas porque defendo o meio ambiente – e houve uma catástrofe ambiental, afetando a todos –, mas também pelas vidas ceifadas, interrompidas pela ganância. Uma verdadeira tragédia.

Porém, quando acontece o que aconteceu em Paris e uma grande quantidade de pessoas também se compadece com a tragédia que lá ocorreu, vem uma reação estúpida de certas pessoas contra quem coloca avatar com a bandeira da França etc, cobrando: se é para colocar bandeira que seja a de Minas Gerais, a de Mariana...

Ora, tenham dó!

Como diz a jornalista, escritora e fotógrafa Cora Ronai, “uma dor não invalida a outra”.

E ninguém tem de ficar dando satisfação porque colocou tal ou qual imagem em seu perfil. Isso é uma questão de foro íntimo e, portanto, deve ser respeitada. Agora, quem se sentir incomodado com as pessoas que estão comentando sobre o atentado na França e colocando avatar da bandeira francesa ou de algo alusivo ao assunto, q ignore as postagens dos amigos que o fazem, sem a antipatia de dizer: “E a tragédia de Mariana?”.

Misericórdia! Quantas vezes serão necessárias repetir que o que aconteceu em Minas Gerais, embora uma tragédia, foi um acidente, ou seja, poderia ter sido evitado. E ninguém está minimizando nada aqui não. Mesmo porque, a situação vai se agravar: já rola por aí a informação de que tem outra barragem, também em Minas, a ponto a de arrebentar. Então... O que as autoridades estão fazendo para evitar mais uma tragédia que, caso aconteça, será em proporções bem maiores do que a de Mariana? Isso sem falar q, ao todo, atualmente, no Brasil, são 29 barragens em condições mais precárias do que a primeira, que rompeu.

Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, a guerra está rolando: hoje, a França bombardeou a Síria, destruindo espaços pertencentes ao Estado Islâmico. E me preocupo muito com isso, sim, pois não sou alienada para achar que o que está acontecendo não tem nada a ver comigo. Tem. E muito. Com todos nós, aliás, pois isso é uma guerra, envolvendo um monte de fanáticos, de fundamentalistas religiosos que, de tão ignorantes e alienados, dementes até, não enxergam além da máscara que cobrem os seus rostos – um bando de gente covarde que, dia após dia, renega a cultura ocidental, os valores da cultura ocidental, da qual, pelo menos, eu faço parte e não gostaria de vê-la lesada mais do q já está.

Desse modo, por favor, quem se sentir incomodado, guarde o seu incômodo para lá ou, então, vá ler um livro de História... Só não fiquem enchendo o saco de quem está atento e preocupado com a guerra e os seus desdobramentos. Dá um tempo! Ou será preciso desenhar?


Cartum de Alpino – FACEBOOK – 15/11/2015


Nathalie Bernardo da Câmara


DE TRAGÉDIAS

“A real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz...”.

Platão (428 - 348), filósofo grego.


Tragédia é tragédia. O único ponto em comum entre as tragédias é que são tragédias. E cada um, cada pessoa, lamenta e chora pela tragédia que bem entender: seja por uma ou por outra, ou pelas duas juntas; por uma terceira etc – antipatia é quererem controlar o lamento e o choro de alguém pela dor do outro, não importa qual.

Noutros tempos, falava-se de patrulhamento ideológico, cabresto político, religioso... Hoje, na era das redes sociais, quando as emoções navegam virtualmente, até um ‘bom dia’ que você dá passa por um crivo surpreendente: se a saudação vier com um ponto, significa uma coisa; com exclamação, outra; se colocar, então, 3 pontinhos, aí é que a coisa complica-se; sem pontuação alguma, um deus nos acuda!

Gente, vamos parar com isso! Coisa feia. Afinal, como diria Caetano Veloso: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. E cada um verte as suas lágrimas na direção que quiser – patrulha das emoções de outrem, agora, fiscalizando? A que ponto chegamos! Isso é ridículo.

E a ponto de o jornal Sensacionalista – debochado por excelência – , “anunciar”, ironicamente, que, para evitar polêmicas, o Facebook vai criar um avatar com bandeiras da França e de Minas Gerais – lembrando que, no rol das bandeiras, se é para ser assim tão nacionalista e patriótico, ou melhor, bairrista, nada global (globalização não é só a da economia nem a da informação, mas igualmente a das emoções), também deveria entrar a do Espírito Santo...

Ora, ora!

Como diria um provérbio francês – sim, francês, qual o problema? Ou alguém vai querer que eu conte uma piada de mineiro, já que Minas Gerais é um Estado Brasileiro, consequentemente, geograficamente, está mais perto? Ou os dois juntos? Lamento, mas não darei esse gostinho.

Então... Como diria um provérbio francês: “Des goûts et des couleurs, il ne faut pas discuter”. Ou seja – sim, tem de traduzir, né? Afinal, a França está longe, do outro lado do Atlântico, faz parte da Europa – nada a ver com a nossa cultura tupiniquim – e ninguém tem a obrigação de saber francês.

Então... Cada um é livre para pensar, de agir segundo as suas preferências”.

Se ainda houver alguma dúvida, gentileza seria marcar consulta com o moço lá do divã...






Nathalie Bernardo da Câmara


quinta-feira, 1 de outubro de 2015

MARTA SUPLICY: O QUE SERÁ QUE SERÁ?...


“Sou a favor de uma ampliação da legislação vigente que permita à mulher que não quer ter o filho interromper uma gravidez...” – SERÁ QUE EDUARDO CUNHA SABE DE QUEM É A AUTORIA DA FRASE?

Se sabe ou não, agora já era! Sim, porque a autora da frase é nada mais nada menos do que a psicóloga e senadora Marta Suplicy, ex-PT, recentemente filiada ao PMDB do Capo Cunha, além de figurinha fácil nos movimentos feministas e gays, já tendo, inclusive, junto com a Comissão Especial de Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), proposto uma PEC para o encerramento da Família Tradicional brasileira...

Resta saber também se a sexóloga vai continuar apoiando o movimento gay, do qual, no Brasil, é uma das musas, bem como bradando o seu feminismo pelos 4 cantos e escrevendo e publicando os seus livros sobre sexo, ou se ficará no cabresto do Capo Cunha, ou seja, em rédea curta – não esquecendo que, até outro dia, ela endossava o coro #ForaCunha




Em 28/9, o chargista Duke postou a charge acima na sua página do Facebook, alcançando, dois dias depois, um milhão de visualizações: quem está entendendo alguma coisa?

Nathalie Bernardo da Câmara

CONSTITUIÇÃO: O BÊ-Á-BÁ NAS ESCOLAS



Constituição deve fazer parte dos conteúdos do ensino fundamental e médio

SENADO NOTÍCIAS
Da Redação | 29/09/2015

As escolas de ensino fundamental e médio devem passar a ofertar aos alunos, entre os conteúdos curriculares, a introdução ao estudo da Constituição. É o que sugere texto substitutivo ao projeto (PLS 70/2015) aprovado pela Comissão de Educação, Cultura e esporte (CE) no dia 29/9.

O autor do projeto é o senador Romário (PSB-RJ), que preside a comissão. O substitutivo foi sugerido pelo relator da matéria, senador Roberto Rocha (PSB-MA). Para tornar obrigatório o novo conteúdo, o projeto altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB).

A proposta original sugeria a criação de uma nova disciplina curricular, que abordasse o estudo da Constituição. Roberto Rocha observou, contudo, que a indicação de disciplinas específicas poderia “dar origem a uma prática inusitada e passível de críticas à ação do Congresso Nacional: os inúmeros conteúdos a serem estudados nas escolas, bem como as estratégias pedagógicas, passariam a ser objeto de legislação específica, sendo subtraída dos educadores a competência para decidir sobre a matéria”.

O senador ainda destaca que “as deliberações curriculares devem ocorrer de forma conjunta e articulada e não mediante proposições avulsas”. Por essa razão, optou apenas pela sugestão de abordagem do novo conteúdo como parte de disciplinas já existentes.


Em análise terminativa, o texto voltará à pauta na próxima reunião, para apreciação em turno suplementar. Confirmado a versão aprovada, deve seguir diretamente para análise na Câmara dos Deputados.




Pertinente. Quem sabe, assim, entre outros benefícios, futuros eleitores sejam mais esclarecidos que os atuais, discernindo sobre as propostas de eventuais candidatos a não importa qual pleito...

Nathalie Bernardo da Câmara




segunda-feira, 7 de setembro de 2015

AS VEIAS ABERTAS DO ORIENTE MÉDIO (atualizado)

Naufrágio da humanidade – (REUTERS/Nilüfer Demir/DHA), 2/9/2015

 “Naquele momento, a única coisa que eu poderia fazer era tornar seu clamor ouvido. Pensei que poderia fazer isso ao acionar a minha câmera e fazer a sua foto...”.

Nilüfer Demir
Fotógrafa turca 



 “Se essa imagem extraordinariamente poderosa de uma criança síria morta em uma praia não mudar a atitude da Europa com os refugiados, o que irá?”.

The Independent (3/9/2015)


Na manhã da quarta-feira, 2, de plantão na praia turca de Ali Hoca Burnu, a fotógrafa Nilüfer Demir, da agência DHA, depara-se com uma cena perturbadora: um garoto jaz de bruços à beira-mar... Num primeiro momento, por tratar-se de uma criança, a fotógrafa, em choque, hesita, mas logo recompõe-se, fazendo aquelas que, não demoraria muito, iriam transformar-se numas das mais emblemáticas imagens dos últimos tempos e que, viralizadas no universo aparentemente sem fronteiras da internet, assumiriam o papel de porta-vozes de um drama que, por suas avarias, já ceifou a vida de milhares de migrantes. E foi assim que, da noite para o dia, após naufragar durante uma travessia em águas mediterrâneas, da Turquia para a Grécia, um belo menininho curdo-sírio, o refugiado Alan Kurdi, de apenas três anos de idade, tornou-se ícone mundial da crise migratória na Europa – quiçá, um divisor de águas...


Êxodo



  
 “Eu gostaria realmente que ela (a fotografia que ilustra a abertura desta postagem) pudesse ajudar a mudar o curso dos acontecimentos...”.

Nilüfer Demir


2011. Os Kurdi moravam em Damasco quando do início dos conflitos na Síria. Com o agravamento da violência, a família muda-se para Makharij, o seu vilarejo-natal, a 25 quilômetros de Kobane, cidade portuária curdo-síria na fronteira com a Turquia, país que é escala praticamente obrigatória de migrantes sírios para a Europa – a cidade de Izmir, por exemplo, na costa mediterrânea da Turquia, vem sendo chamada de ‘cidade do colete salva-vidas’. Então... Quando, em 2014, Kobane transforma-se em foco dos confrontos entre as milícias curdas e o grupo jihadista Estado islâmico (EI), que, oportunamente, se aproveita da guerra civil no país, os Kurdi fogem para a Turquia, que, embora não ofereça cidadania aos refugiados sírios, lhes garante abrigo temporário. Ocorre que, sem passaportes, os Kurdi ficam impossibilitados de obter visto de residência por um ano e a liberdade de ir e vir no país, devendo, no caso, registrarem-se em um campo de refugiados, nele permanecendo – coisa que não o fazem. “Irregulares”, não podem obter visto de saída da Turquia nem pedir asilo noutro país porque não têm visto de saída da Síria – um novelo que só se emaranha cada vez mais.


Em tempo: durante anos, a Síria negou cidadania à população de origem curda, considerada apátrida pelas autoridades. Em 2011, um decreto autorizou que alguns deles entrassem com pedidos de cidadania, mas outros permaneceram sem o direito e terceiros foram forçados a fugir do país antes mesmo que pudessem dar entrada no processo – caso da família de Alan...


De qualquer modo, em Istambul, eles não viam a hora de deixar a Turquia e, no caso, após outra escala na Grécia, porta de entrada da União Europeia, seguir rumo ao Canadá, já que uma tia paterna de Alan, a cabelereira Tima, vive em Vancouver há 20 anos – era ela, inclusive, quem pagava o aluguel da casa do irmão Abdullah e da sua família na Turquia. Então... Desde que pisaram em solo turco, essa já era a quarta das tentativas de migração – na primeira, foram interceptados pela guarda costeira grega, ordenando que dessem meia-volta. E eles deram. Desta vez, apesar do não cumprimento do acordo por parte dos responsáveis pela travessia de Bodrum a Kos, já que não compareceram com o barco prometido – haja tráfico e calote! –, a família de Alan e demais refugiados sírios não se intimidaram e providenciaram dois botes. Porém, embora relativamente curta (cerca de 22 quilômetros), a rota Bodrum-Kos não deixa de ser arriscada – exemplo disso é que, quando estavam distante apenas 500 metros da costa, foram surpreendidos por ondas tempestuosas, com o pânico aumentando à medida em que subia o nível da água dentro dos botes, pondo fim, definitivamente, à travessia.


Ser ou não ser refugiado

Armandinho, por Alexandre Becker

 A guerra na Síria já gerou mais de três milhões de refugiados e é a “maior crise humana da nossa era”, com quase metade da população forçada a deixar suas casas...

Organização das Nações Unidas (ONU) – agosto/2014


De repente, engolidos pelo mar, à deriva... O clamor das vítimas, adentrando no breu da noite e chamando a atenção da guarda costeira turca, que conseguiu resgatar com vida nove dos 23 passageiros que iniciaram a fatídica travessia: dois do bote que levavam a família Kurdi e sete do segundo bote, que, embora com capacidade para dez passageiros, haviam transportado dezessete   entre os mortos, 7 adultos e 7 crianças: uma bebê de nove meses; dois gêmeos de um ano e meio de idade e mais dois irmãos, um de nove e outro de dez anos, além do pequeno Alan e do seu irmão Ghalib, de cinco anos. Entre os adultos, Rehanna, de 35, mãe dos filhos do desafortunado Abdullah, o único sobrevivente da malograda diáspora familiar dos Kurdi, cujo desfecho, protagonizado por Alan nas impactantes fotografias feitas por Nilüfer Demir, repercutiu mundo afora, expondo, sem mesurar, o insustentável drama dos refugiados.

Curiosamente, diante da repercussão das fotografias, ainda mais se considerarmos a sua influência sobre a opinião pública mundial, o governo canadense ofereceu asilo a Abdullah, que recusou a oferta, optando por retornar a Kobani para enterrar a sua família e onde 16 dos seus parentes já morreram nos conflitos sírios. Em declaração à imprensa, o pai de Alan fez um apelo: Como pai que perdeu os seus filhos, a única coisa que quero é que acabe essa dor e a guerra na Síria.

Uma guerra que, diferentemente do que muitos pensam, não induz os sírios ao acalento de um suposto sonho europeu ou a uma “terra prometida”, mas, simplesmente, à fuga, que, diga-se de passagem, não é uma opção nem um pedido de misericórdia à Europa, mas, pela proximidade, a única saída – só que sem seguro de vida. Em um vídeo de apenas 45 segundos, um dia após a tragédia que se abateu na costa turca e logo viralizado nas redes sociais mundiais, o adolescente sírio Kinan Masalemeh, de 13 anos de idade, entrevistado pela televisão árabe Al Jazeera na estação de comboios de Budapeste, dá um recado direto: Parem simplesmente com a guerra. Nós não queremos ir para a Europa. Parem a guerra na Síria, apenas isso.

Uma guerra que já dura quatro anos e contabiliza mais de 250.000 óbitos e cerca de 23 milhões de deslocados, sendo um dos seus desdobramentos o fortalecimento dos (des) governantes e do EI, que, aliás, não faz outra coisa senão impor o medo, espalhando terror e caos por onde passa. Daí que, não parando a guerra, a fuga continuará sendo a alternativa de milhares, embora milhares também já tenham naufragado – destino do qual escapou o sírio Sinan Nabir, 51, que, há dois anos, chegou a nado na Grécia. Em Kos, no dia em que o corpo de Alan Kurdi foi encontrado numa praia turca, ele desabafou a BBC Brasil: Que diferença faz morrer lá (na Síria ou no Egito) ou no mar?

À época, em consequência da repercussão internacional alcançada pela divulgação do resgate de Sinan Nabir, que nadou da Turquia para a Grécia, um documento conjunto, pedindo a revisão das atuais normas da União Europeia sobre garantia de asilo e uma “justa” distribuição de imigrantes no bloco, foi assinado pela Itália, França e Alemanha. Não são, portanto, apenas os mares a perder de vista, mas também a quantidade de artes, sobretudo cartuns, e de nacionalidades diversas, produzidas a partir das imagens do pequeno Alan feitas por Nilüfer Demir – a divulgação das fotografias fez a hashtag #KiyiyaVuranInsanlik (humanidadelevadapelaságuas) ir para o topo dos trending topics no Twitter. Enquanto isso, agências humanitárias estimam que, ao longo do mês de agosto, pelo menos duas mil pessoas tentaram cruzar a Turquia rumo à Grécia pela rota por mar Bodrum-Kos, a mesma na qual o pequeno Alan perdeu a vida.


Era uma vez...

“A Europa não pode lavar as mãos diante da montanha de cadáveres que estão se acumulando. E também não tem condições – nem políticas nem morais – de sair afundando embarcações e matando emigrantes para impedir que eles acostem. Também não pode devolvê-los aos países de origem, muitas vezes difícil de ser estabelecida e onde não existem mais governos ou autoridades dignas deste nome...”.

Alfredo Valladão
Cientista político brasileiro


Uma vida ora perseguida por covardes e belicosos insanos encapuzados, ora rejeitada por arrogantes de canetas à mão e empoeiradas cartolas, agora – será? – em busca da redenção – não dá mais para só lavar as mãos ou assistir de camarote, a exemplo da hipocrisia dos países árabes-islâmicos ricos: Qatar, Arábia Saudita e Emirados; uma vida tragada pelas ondas – todos os mataram, todos mataram Alan, apesar de não terem puxado o gatilho, pois, tecnicamente, e sem aviso prévio, ele foi morto pelo mar. O mesmo mar que o devolveu à terra e que, na praia, em meio a flocos de espuma, passou a embalá-lo e a afagá-lo até que resgatassem o seu corpo, gélido como a maresia e o orvalho da manhã, compondo, com feições de uma desbotada aquarela, o epílogo de uma breve e triste história, embora quiçá um instrumento para a abertura de novas portas. Portos. Iluminados por uma estrela do mar...


Artes & tal 











O grito de um sobrevivente



Na linha do tempo




In memoriam

Alan Kurdi, 3, e o irmão, Ghalib, 5 (Foto: Cortesia de Tima Kurdi/The Canadian Press via AP)

“É tarde demais para salvar a família de Abdullah, mas, por favor, vamos usar a nossa voz coletiva para mudar e exigir que os líderes do mundo tomem decisões para aprovar medidas de emergência para refugiados. Vamos pôr fim a esse sofrimento. Os nossos corações estão partidos...”.

Tima Kurdi 


* Durante alguns dias, a maioria dos veículos internacionais de comunicação publicaram os prenomes dos protagonistas dessa história com a grafia turca, mas, após uma informação dada por Tima Kurid, a correção foi feita pela BBC Brasil, que passou a escrever à maneira síria.


Nathalie Bernardo da Câmara


Atualização: Le Monde/AFP, 8/9/2015
Tensões na ilha grega de Lesbos, a Europa mobiliza-se


Na noite da segunda-feira, 7, diante do iminente anúncio que a Europa fará na quarta, 9, expondo ao mundo a sua solidariedade frente ao fluxo de refugiados sírios, que só aumenta, mais de 15.000 pessoas reuniram-se publicamente em Lesbos. Para as autoridades de Atenas, a situação na maior terceira ilha da Grécia está à beira da explosão. Na quarta, portanto, será anunciada pela Comissão Europeia a repartição de cotas de migrante entre os Estados membros da EU – repartição essa que não é uma unanimidade. De qualquer modo, os países que mais acolherão os refugiados são: Alemanha, França e Espanha. Enquanto isso, além das fronteiras europeias, o aceno acolhedor do Quebec, Chile e Brasil – na sexta, 4, uma corveta da marinha brasileira resgatou 220 refugiados sírios que seguiam para a Itália nas águas do Mediterrâneo. 


segunda-feira, 29 de junho de 2015

A RAINHA DO BRASIL E A DAMA DOS EUA

Dois episódios ocorridos na semana passada: um no Brasil, que revelou os conhecimentos arqueológicos da “mulher sapiens” mor, criando uma nova categoria para a evolução humana, e a sua paixão por um tubérculo 100% nacional, ou seja, a mandioca, cujo nome científico é Manihot esculenta Crantz, e o outro nos Estados Unidos, que, por uma decisão surpreendente da sua Suprema Corte, legalizando o casamento civil de pessoas do mesmo sexo, de certa forma “lavou a alma” de mentes e corações livres de todo o mundo e, ao mesmo tempo, sacolejou, incomodando, o conservadorismo dos demais.


No Brasil...

Cartum de Sponholz e um quarteto do também artista Céllus: Sob um varonil céu de um plúmbeo azul/Se entumece a era da mandioca lascada/Tão sem dó, sem piedade, e nem descascada/a toda enfiada, no recôndito âmago do teu sul

A Rainha do Brasil, já dizia o folclorista brasileiro Luís da Câmara Cascudo (1898 - 1986), em seu livro A História da alimentação no Brasil (1967), referindo-se ao “pão dos pobres”, ou seja, à mandioca – tubérculo também conhecido como: aipim, candinga, castelinha, macamba, macaxeira, mandioca-brava, mandioca-doce, mandioca-mansa, maniva, maniveira, moogo, mucamba, pão-da-américa, pão-de-pobre, pau-de-farinha, pau-farinha, tapioca, uaipi e xagala – tudo varia das regiões brasileiras e dos seus dialetos.


Durante o seu discurso no lançamento dos I Jogos Mundiais dos Povos Indígenas (23), em Brasília, que ocorrerão entre os dias 23 de outubro e 1º de novembro do corrente, em Palmas (TO), com a presença de dois mil atletas de mais de 30 países, a presidente Dilma Rousseff surpreendeu com uma inusitada saudação apologética a mandioca, “uma das maiores conquistas do Brasil”, que seria a base da alimentação tupiniquim, bem como quando comparou a criatividade indígena à evolução da espécie humana, fazendo alusão a uma bola artesanal, feita com folhas de bananeira e chamada de Ki, que recebeu do índio Marcos Terena, articulador do evento esportivo – ao longo da cerimônia, não desgrudando-se do presente made in Nova Zelândia e num repente de ludismo impressionante, sob os efeitos, quiçá, de uma “reza” indígena, Dilma Rousseff sentenciou: ― Nós somos do gênero humano, da espécie sapiens, somos aqueles que têm a capacidade de jogar, de brincar, porque jogar é isso aqui. O importante não é ganhar e sim celebrar. Isso que é a capacidade humana, lúdica, de ter uma atividade cujo o fim é ele mesmo, a própria atividade. Esporte tem essa condição, essa benção, ele é um fim em si. (...) Então, para mim, essa bola é o símbolo da nossa evolução, quando nós criamos uma bola dessas, nos transformamos em Homo sapiens ou mulheres sapiens...


E os cartunistas deliciaram-se

 Cartum de Son Salvador



 Cartum de Lutte


Nos EUA...

Duas charges com a mesma excelente ideia sobre a aprovação do casamento gay nos EUA – Kevin Siers (Charlotte Observer) e Nate Beeler (Washington Examiner).


Na sexta, 26, a Suprema Corte dos Estados Unidos votou a favor do casamento gay em todo o território norte-americano – a decisão histórica fez os EUA entrar para a lista... O primeiro país a legalizar o casamento de pessoas entre o mesmo sexo foi a Holanda, em 2001. Na sequência, Bélgica (2003); Espanha e Canadá (2005); África do Sul (2006); Noruega (2009); Portugal, Argentina e Islândia (2010); Dinamarca (2012); Brasil, Uruguai, Nova Zelândia e França (2013); Inglaterra, País de Gales, Escócia e Luxemburgo (2014), Irlanda (2015).


E a pergunta que não quer calar:

Cartum de Mariano


Novas piadas virão...

Nathalie Bernardo da Câmara


sábado, 20 de junho de 2015

ELEGIA À GUARDIÃ DOS ROSÁRIOS

Há sete anos, em 18 do corrente, falecia Maria das Dores Câmara, uma tia paterna, de quem gostava muito. Deixei para publicar esta postagem no dia de hoje, pois, durante a semana, confesso que, pela passagem da data, senti certa emoção, envolta, ainda, por ares a minha volta não muito tranquilos. Então... Para a abertura do livreto dos cânticos litúrgicos a serem entoados durante a Missa de Sétimo Dia, à época realizada em sua memória (24/6/2008), elaborei a prosa poética abaixo. O poema que virá na sequência, por sua vez, brotou num repente, como a uma oração, e foi distribuído numa missa que houve trinta dias após a partida da minha tia, em formato de santinho, com foto, aos que compareceram ao evento e para que a família guardasse-o como souvenir – anos depois, em 1º/5/2011, postei-o neste blog. No período do triste episódio, de pesar, eu encontrava-me ausente de Natal, mas, apesar da distância geográfica, quis, de alguma maneira, estar presente – doce lembrança, a da minha tia e eu, cada uma com as suas crenças e convicções, embora o mais bonito disso tudo é que, apesar das nossas diferenças, a nossa convivência sempre foi pautada pelo respeito mútuo...




A GUARDIÃ DOS ROSÁRIOS

A consciência é o teatro íntimo da alma...”.

Joaquim Pinto Brazil
Hendecalogo


A Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Negros, na rua Quintino Bocaiúva, em Natal, perdeu a sua guardiã... No dia 18 de junho de 2008, aos 72 anos de idade, Maria das Dores Câmara, ou dona Nenzinha, deixou-nos: foi morar com o Nosso Senhor Jesus Cristo, como ela costumava dizer, de quem era fiel devota.
Generosa, Nen, como, carinhosamente, eu a chamava, tinha vocação para ajudar. E ajudava, do flanelinha desamparado e analfabeto ao ilustrado doutor: fosse com favores, dinheiro, roupa ou, simplesmente, um prato de comida. Era tolerante, sabendo ouvir mesmo quem divergisse das suas crenças.
Agora, vejo que, apesar da dor e da saudade, falar sobre Nen é, até, muito fácil. A pena flui, lépida, sobre o papel. O difícil é aceitar que ela foi-se... E as lembranças são muitas. Remontam à antiga casa, no pé da ladeira, à beira-rio, quando vovó Nanoca, Lu, tia Raimunda e a própria Nen ainda eram vivas.
Lembro, por exemplo, que, quando pequena, as corujas tias Lu e Nen colocavam-me sobre a mesa da cozinha e divertiam-se, apostando, entre elas, quantas bananas eu seria capaz de comer. Às vezes, comia uma palma inteira de banana leite! Ou mais... E elas batiam palmas, dizendo: Mais uma, mais uma!.
Lembro, também, como se fosse hoje, que era Nen quem, inúmeras vezes, pegava-me no Salesiano depois da aula. De mãos dadas, subíamos a pé a rua Junqueira Aires. Durante o trajeto, passávamos diante daqueles casarões antigos que tanto impressionavam-me.
Alguns, resistindo ao tempo; outros no mais completo abandono, como era o caso do antigo Hotel Bela Vista, que, envolto em uma aura de magia e mistério, sempre chamou a minha atenção, povoando o meu imaginário de criança. E, aí, Nen contava histórias. E, assim, íamos subindo a ladeira.
Nos últimos oito anos, contudo, apesar de estar morando em Brasília, sempre que eu ia a Natal não deixava de visitá-la. Ou avisava ou chegava de surpresa, para pegar o feijão, como ela dizia. Quando avisava, era recebida com uma paçoca, um dos meus pratos preferidos.
E eu comia até não poder mais! Mesmo assim, ela, ainda, dizia: Coma mais, minha filha! Comeu tão pouquinho.... E eu comia. Depois, um café e fofocas na pequena varanda da sala, tendo, como única testemunha dos nossos segredos sim, porque tínhamos alguns , o tão familiar rio Potengi.
Em alguns desses papos, Nen, destemida, sempre dizia que, quando pronta a Ponte Nova, iria atravessá-la. E não é que atravessou? Quando eu ia embora, ela dizia: Vá agora não, minha filha! Fique mais um pouquinho.... E eu ficava, sempre saindo com o presente de sempre.
Há vários anos, Nem me abastecia com o único perfume que eu uso há mais de duas décadas. E só não vou dizer o nome para não fazer propaganda... O fato é que Nen era uma mulher singular. Carismática, era querida por todos que a conheciam eu nunca soube de alguma desavença que, porventura, tenha tido.
Vivendo do artesanato, que vendia em suas lojas no Centro de Turismo, Nen tocava teclado; lia partituras; colecionava os mais diversos bonecos de Papai Noel nas mais diversas situações; fazia presépios... O último, por exemplo, o do ano passado, foi uma das coisas mais criativas que eu já vi em toda a minha vida!
De uma precisão, habilidade e beleza sem igual, a obra encantou a todos que a viu. Religiosa e artista que era, ela realizava-se a cada novo presépio e, a cada ano, superava-se. É, Nen tinha a arte nas veias. E eu acho que, entre outras coisa, era por isso que nos entendíamos tão bem!
Nen era surpreendente... Há mais ou menos dois anos, quando gravei um hino religioso para um trabalho de pesquisa que eu estava desenvolvendo no Distrito Federal, ela não hesitou em tocá-lo no teclado, orgulhosa da porção compositora da sobrinha.
Este ano, quando estive em Natal e fui visitá-la, sem saber que seria a última vez em que a veria, ela deu-me um chocolate que trouxe de uma viagem a Gramado. Fiquei enternecida, porque, no doce, em formato de Papai Noel, ela mandou escrever: A minha querida sobrinha...
O gesto foi tão inusitado que, durante meses, relutei em comer o chocolate. Porém, quando não pude mais resistir à tentação, fui, aos pouquinhos, deliciando-me... Pois é, minha querida tia! Eu estava distante no dia em que você partiu, mas, apenas, geograficamente, fisicamente.
De certo modo, eu estava presente, em pensamento e em emoção. E lamento, profundamente, que nem a homeopatia pôde retardar a sua morte infelizmente, inexorável destino reservado a todo ser vivo. Resta-me, portanto, guardar na lembrança o seu sorriso largo, o olhar vívido, a voz repleta de vida.
Enfim! De hoje em diante, não terá mais feijão nem paçoca em casa de Nen. Não terá mais papo, segredos, conselhos. Não terá mais perfume, Papai Noel, presépios... Porém, uma curiosidade. Quem, agora, haverá de guardar, com responsabilidade, devoção e amor, igual Nen tinha, a chave dos rosários?...
E é isso.

Nathalie Bernardo da Câmara
Planaltina-DF, Inverno de 2008




ELEGIA A NEN

(1º/5/1937 - 18/6/2008)

A mulher dos cabelos prateados partiu,
partindo as emoções.
A saudade invade a cidade;
a rua, de pedras seculares,
solo do último adeus.
Do alto da ladeira,
o Cruzeiro vela a procissão;
da água doce do rio,
o sal emerge da dor.
Ele chora, muda de cor,
fica revolto, muda de odor.
O rosário perde as contas,
não sobra sequer um terço.
Da beirada até as pontas,
tudo vira ao avesso.
O tempo silencia;
as nuvens, num vai e vem.
O vento sopra, baixinho:
— Os anjos disseram “amém...”.

Nathalie

Planaltina-DF, 23-24/6/2008