quarta-feira, 3 de maio de 2017

O PAU VERMELHO

“Nessa costa, não vimos coisa de proveito, exceto uma infinidade de árvores de verzino...”, registrou o navegador italiano Américo Vespúcio (1454 - 1512), referindo-se ao pau-brasil, na Lettera a Soderini (4/9/1504), dedicada ao político italiano (1452 -1522) após viagem realizada ao Brasil, entre maio de 1501 e julho de 1502.


Com a chegada dos portugueses no Brasil, em 1500, um “achado” valioso, o do pau-brasil, que, majestoso, reinando em meio à diversidade da Mata Atlântica, predominantemente entre o Rio Grande do Norte e o Rio de Janeiro, pagou um preço alto demais por sua exuberância: a sua devastação e a do seu habitat, com a “benção”, diga-se de passagem, da Igreja católica, já que, a pedido dos recém-chegados e em troca de espelhos, vidrilhos, contas, pentes e pedaços de pano, entre outras quinquilharias, nativos logo derrubaram um exemplar da árvore, no qual foi toscamente esculpida uma cruz, portando as armas e as divisas de Portugal, para a realização da primeira missa no Brasil, em 26 de abril. Em pouco tempo, a fartura de pau-brasil despertou a cobiça não somente dos lusos, mas, também, de corsários franceses (estes já eram habitués da costa brasileira desde o séc. XV, mantendo amistosas relações com alguns grupos indígenas, entre eles, os potiguara), holandeses e ingleses – excluídos do Tratado de Tordesilhas, assinado por Portugal e Espanha em 1494 –, que, só no séc. XVI, segundo o jornalista brasileiro Eduardo Bueno, “levaram, em média, oito mil toneladas da madeira por ano para a Europa” – cada embarcação continha cerca de cinco mil toras de pau-brasil por viagem. Ocorre que, desde o séc. XI, a Europa já estava familiarizada com o pó de uma madeira de cor rubra, originária da Sumatra, utilizada para tingir sedas e linhos, revolucionando a moda no continente, aos poucos deixando para trás os trajes sombrios da Idade Média. Exportado da Sumatra para Índia desde tempos remotos, o pó de sapanga (do sânscrito patanga, ou vermelho), ditava o tom dos “nobres do Oriente”. Pelo mar vermelho, os mercadores árabes levavam-no da Índia ao Egito, com uma kerka de bersil (carga de bersil) desembarcando em Saint-Omer, na França, em 1085 – na sequência, em francês, brezil, por ser da cor de uma brasa, e, posteriormente, bois rouge (madeira vermelha); em italiano, bracire, ou brazili, seguido de verzino –, enquanto em Portugal e na Espanha, já com o nome de brasil, a árvore aportou em 1220. 
 



No séc. XVI, em decorrência do bloqueio das rotas comerciais imposto pelos turcos em Constantinopla desde 1453 e apesar de ser menos eficiente do seu similar oriental (Caesalpinia sappan Linn), que, aliás, havia tornado-se um produto muito mais oneroso, o pau-brasil (Caesalpinia echinata), empregado, ainda, na fabricação de embarcações, móveis e congêneres, tornou-se presa da exploração mercenária na recém-achada Terra dos Papagaios, alcançando proporções inimagináveis, a ponto de, já em 1558, as melhores árvores só pudessem ser encontradas a mais de 20 km da costa – daí que, no início do séc. XVII, a fim de evitar o corte indiscriminado do pau-brasil, mas não por consciência ambiental, a Coroa portuguesa tentou controlar a sua exploração, pondo “guardas-florestais nas zonas onde a extração era mais comum”, garantindo, obviamente, o monopólio sobre a árvore, que, na língua celta, é chamada de bress, origem do inglês to bless, ou seja, abençoar. Enfim! O fato é que, “atualmente, a árvore cujo nome foi usado para batizar o Brasil sobrevive praticamente apenas em reservas florestais e jardins botânicos e só lentamente começa a ser reintroduzida em seu ambiente natural” – batismo esse, aliás, de sangue. Dos nativos. E vermelho igual à tinta dos troncos de pau-brasil que eles derrubavam, descascavam, atoravam e transportavam até as embarcações, recebendo, por sua força braçal e ingenuidade, tesouras, anzóis, facas e machados – modus operandi que, ainda segundo Bueno, levou as tribos tupis do litoral brasileiro a saírem “da Idade da Pedra para ingressar na Idade do Ferro. Uma revolução instantânea”. E uma curiosidade: “Os homens engajados no tráfico de pau-brasil eram chamados de brasileiros”, termo que terminou se estendendo aos nascidos no futuro país, apesar de o historiador brasileiro Francisco Adolfo de Varnhagen (1816 - 1878) esclarecer que “se as regras gramaticais tivessem sido corretamente aplicadas, os nativos do Brasil deveriam se chamar brasilienses” – tarde demais para corrigir um lapso, muito menos, reparar um erro de mais de quinhentos anos, ou seja, o assolamento do pau-brasil, que virou um dos símbolos do país e “ganhou” um dia nacional, o 03/05 (Lei nº 6.607, de 07/12/1978), bem como o genocídio indígena – o que dirá da dilapidação da Mata Atlântica, bioma que, hoje, se resume a 7% do que já foi um dia! Não, nem sob os acordes dos arcos dos violinos que, a partir do séc. XVIII, passaram a ser confeccionados com o pau vermelho dos índios...


Fonte: Bueno, Eduardo. Náufragos, traficantes e degredados: as primeiras expedições ao Brasil, 1500-1531 – Rio de Janeiro: Objetiva, 1998 (coleção Terra Brasilis; vol. 2).

O nome Caesalpinia echinata foi dado pelo botânico francês Jean Baptiste Lamarck (1744 - 1829), que classificou o pau-brasil do Brasil em 1789, em homenagem a outro botânico, o italiano Andrea Cesalpino (1519 - 1603). Já a denominação echinata provém do étimo grego ouriço e se refere aos espinhos abundantes da árvore, igualmente conhecida como pau-de-tinta, ou ibirapitanga.

Texto revisado e revisto em 3/5/2015, embora originalmente publicado neste blog em 1º/8/2009.

Nathalie Bernardo da Câmara


PLANTEMOS PAU-BRASIL!




quinta-feira, 27 de abril de 2017

PRÉ-CONCEITO VERSUS PRECONCEITO

“Aves de rapina escolhem sempre o melhor...”.
Provérbio português


Certa vez, caminhando numa calçada de uma rua de um dado lugar – nem me peçam que eu diga qual –, esbarrei num cidadão que eu conhecia desde a nossa tenra idade. De repente, quando do “encontrão” entre nós, papeamos um instante e, depois, continuei a caminhar... Não deu dois minutos, uma pessoa, que, diga-se de passagem, eu nem conhecia, abordou-me e perguntou-me: — Você conhece o novo juiz da comarca?

Respondi que não.

E a pessoa prosseguiu: — Conhece, sim, pois acabou de falar com ele.

Olhei para trás e vi o homem com quem eu acabara de papear, igualmente seguindo o seu caminho: — Quer dizer, então – falei –, que eu estava conversando com o novo juiz da comarca?

E, aí, para o meu espanto e assombração, veio-me a infeliz confirmação.

Ora, eu tinha brincado com o dito cujo quando éramos, ainda, apenas duas crianças, exercendo a prática lúdica da infância. Como o tal homem, então, digamos que ainda imberbe – percebi esse detalhe, ou seja, sem pelos e mal saído das fraldas –, poderia, com apenas vinte e poucos anos, já ser um juiz? Sim, porque a função em si demanda experiência de vida, de vida vivida, não apenas porque carrega um diploma de advogado, mas porque é sábio, porque aprendeu com a experiência, com a vida, não por ser um suposto “iluminado”, coisa que, definitivamente, não existe – não digo que a função seja, literalmente, para final de carreira, mas...

Então... Não, não me considero uma pessoa com preconceitos, mas com pré-conceitos, como um dia – há quase três décadas –, lá em Brasília, explicou-me a diferença, muito sabiamente, um amigo da família, médico-pediatra homeopata, de nome Evaldo de Oliveira, que saiu dos rincões de Macau, no Rio Grande do Norte, para ganhar o mundo com o seu conceito holístico de viver. Só bastaram alguns minutos para Evaldo explicar-me a diferença – até quem tem dois neurônios entenderia –, lembrando que nem Aurélio explica isso.

Então... O preconceito está vergonhosa e deploravelmente associado à discriminação – todas! –, enquanto o pré-conceito é um direito que todos têm assegurado até que se entenda o real conceito de algo – o resto dá história do papo com o meu querido Evaldo, para quem nos conhece, é possível presumir, sem preconceitos, tal qual a origem latina do vocábulo.

Pois. Todo esse prelúdio apenas para dizer que o cargo, ou função, de juiz, que, segundo Aurélio, é aquele “que julga segundo a sua consciência, sem fundamentar a sua decisão”, só deveria ser concedido a alguém que tivesse certa maturidade: tipo a criatura que já viu de tudo e que, por isso, por tão abismada que ficou ao testemunhar a degeneração da raça dita humana, resolveu meter o bedelho, sendo, portanto, de acordo com as leis, supostamente capaz de emitir opiniões sobre não importa qual tema.

O problema é que se, normalmente, já se dá muitas asas a um juiz, que, num dado imaginário, é representado pela imagem de um senhorzinho beirando os 80 anos de idade, que, por lei, nem precisa “fundamentar a sua decisão”, batendo quando bem quer o danado de um martelo, imagina, então, um jovem, de 20 e poucos anos alçado à condição de juiz, sem a dita experiência que se faz necessária, fazendo o mesmo! E piora quando o cara tem uma origem burguesa, com tudo transformando-se num pandemônio...

É por isso que – reservo-me ao direito, amparada por lei, de não entrar em maiores detalhes – não confio num tal juiz que, nascido em 1972, tem, hoje, meros 45 anos de idade, ou seja, um infante juvenil imberbe, igual o juiz da tal comarca que encontrei tempos atrás, que, de uns tempos para cá, se acha o máximo! Quanta arrogância e irresponsabilidade!

Sim, estou falando de Sérgio Moro, que, com apenas 24 anos de idade, se tornou juiz federal... Gente, isso é muito grave! Nunca que esse inexperiente rapaz poderia ter sido eleito juiz, mesmo sendo através de um concurso público – nesse caso, os concursos públicos deveriam ser revistos, sobretudo os seus critérios e não importa a área de conhecimento, para que alguém, não importa quem, se submeta aos mesmos.

É nisso o que eu pensava ao sentar para escrever essas poucas palavras, já que, em hipótese alguma, não me sinto confortável ao observar um psicopata pavoneado – haja redundância! – arvorando-se querer passar-se por um dito justiceiro da lei, uma espécie mal elaborada de Zorro, personagem de histórias em quadrinhos que li em minha doce e maravilhosa infância, quando ele mesmo é quem deveria ser o investigado. E por suas sandices.

Resumindo: não se pode conceder a autoridade de um juiz a um Zé Ninguém, que, por motivos óbvios, é o próprio fora-da-lei... O mais grave, ainda, é que tipos como esse estão rondando-nos a 3x4, igual praga de pardal.

Estou só constatando fatos, que é a minha função como jornalista.

Nathalie Bernardo da Câmara


quinta-feira, 20 de abril de 2017

ERA UMA VEZ NOSSA SENHORA...

Passando há pouco numa sala de casa, onde era exibido um telejornal (19/4), quase não me aguentei de regozijo ao ver uma reportagem onde o prefeito de São Paulo, João Dória (PSDB), praticamente humilhou-se diante do papa Francisco, “exigindo” que ele comparecesse as comemorações dos 300 anos da suposta aparição de Nossa Senhora nas águas do Rio Paraíba do Sul, no interior paulista. Não, não defendo a Igreja católica – longe de mim essa heresia! Só divertindo-me, vendo João Dória e Temer em pânico – este último, ao roubar o poder, em 2016, recebeu as bênçãos de um mafioso em pessoa, que é o dito evangélico e miserável Silas Malafaia, o malfadado e embusteiro "pastor da moral", para, celeradamente, desgovernar e leiloar o Brasil, juntamente com uma horda de larápios, mas que, agora, desesperado, implora ao religioso católico argentino. Só que, não querendo acreditar que o papa Francisco recusou-se, por escrito, vir ao Brasil numa data considerada tão importante para a Igreja católica, ainda mais sendo o Brasil o maior país católico do mundo, João Dória e Temer andam enlouquecidos. Sim, porque Francisco não virá, em sinal de protesto, pois não quer colocar os seus pés no Brasil, país que, atualmente, se encontra sob os malefícios de um golpe de Estado – o nome já o diz – que cometeu injustiças não apenas contra Dilma Rousseff, presidenta eleita democraticamente pelo voto popular, mas, sobretudo, contra o povo brasileiro. Isso é fato. Tanto que, pela cara de Francisco na televisão, fazendo ouvidos de mercador, e pelo que disse, parece que ele não vem, mesmo! É como diz um velho e gasto ditado, embora sempre atual: “Aqui se faz, aqui se paga”. Acho é pouco, querendo a detenção desse pessoal golpista!

Nathalie Bernardo da Câmara

quinta-feira, 9 de março de 2017

O 8 DE MARÇO E O BLOCO DOS CELERADOS (atualizado nas charges)

 “O golpe tem gênero e a história não o absolverá.”
Vitor Teixeira
Cartunista brasileiro

Celerado. [Do lat. Sceleratu.] Adj. E s. m. 1. Criminoso. 2. Perverso, mau.
Fonte: Dicionário Aurélio


Ufa! O Carnaval passou... Nada contra a maior festa popular do Brasil, mas é que eu não estava mais aguentando a empolgação e os aplausos da esquerda brasileira, sobretudo nas redes sociais, a cada vez que o bordão “Fora, Temer” era entoado pelos brincantes e em todos os ritmos – do frevo ao samba, seguindo um trio elétrico ou, ainda, tornando-se tema de marchinhas país afora –, exaltando o protesto que, pela cadência dos leilões, só cai no vazio, sobretudo porque, agora, é tarde, Inês é morta! Sem falar que, no Carnaval, irreverente por natureza, tudo se resume a fantasias. Dito isso, nem adianta chorar o leite derramado, pois a previsão é a de um derrame ainda maior: ignorando o povo brasileiro e os seus reclames, o desgoverno golpista, usurpador e ilegítimo anda a vender – o que ainda não vendeu será vendido – tudo o que representa cifrões, do sal à terra, passando pela água e por nossas lágrimas, só não colocando igualmente à venda os próprios filhos, porque, afinal, filhos também são famiglia.

E fico a pensar... Se as mesmas multidões que, nada temerosas, deram o tom do Carnaval que passou tivessem ido as ruas bradar “Dilma fica” e “Temer não entra” ainda durante a farsa que foi o afastamento da presidenta democraticamente eleita Dilma Rousseff e, posteriormente, o absurdo surrealista do seu impeachment por um bando de celerados, em 2016, e, caso os brados não surtissem efeito, fosse, à época, deflagrada uma greve geral, nacional e irrestrita dos trabalhadores, envolvendo todos os setores da sociedade, o Brasil não teria sido cruelmente golpeado, agora sendo destroçado, as suas riquezas naturais saqueadas em proveito dos golpistas e/ou em benefício de terceiros, inclusive estrangeiros, e o povo brasileiro, duramente coiceado, com os seus direitos, principalmente os trabalhistas, na sarjeta, entre um confete e uma serpentina, sem purpurina – depois ainda há quem reclame quando alguma má língua diz que “o Brasil não é um país sério”!

É por isso que, diante da horda de celerados que ora gora e mal agoura os nossos sonhos e esperanças, o meu ritmo, de todos os musicais, tem sido o chorinho...


II (De cinzas)

Cinza. Não apenas a cor que dá nome ao pó resultante da queima de alguns ramos em ritual de uma dada tradição católica, mas também a cor do hoje e do amanhã do povo brasileiro, a cor do nosso porvir. Qual seria, então, a cor do nosso pó, considerando que já fomos condenados à fogueira das trevas que se abateram sobre nós? Rubra, talvez, posto ser a cor do sangue que ora transborda por todos os poros do solo do Brasil, batizando a pós-democracia de celerados em horda vil?


III (Vlad III e a bela adormecida)


Depois do Bela, recatada e “do lar”, título de uma matéria da revista Veja, publicada em 18/4/2016, na qual o deplorável semanário traça um perfil da então “quase primeira-dama” do Brasil, ou seja, Marcela Temer, 32 – título esse que, aliás, à ocasião, desencadeou inúmeras críticas de usuários das redes sociais aos adjetivos atribuídos à hoje primeira-dama –, eis que, no 8 de março, enquanto o planeta Terra entoava o bordão “Mulheres de todo o mundo, uni-vos!”, o golpista-mor, usurpador, ilegítimo e machista vira motivo de chacota nas redes sociais e de críticas na imprensa internacional ao discursar num evento supostamente em homenagem ao Dia Internacional da Mulher – até dói só a possibilidade de transcrever o conteúdo da fala infeliz de mister Vlad III, aquele, dos empalos, vampiro sanguessuga, cujo DNA – velei-me todo e qualquer amuleto – é capaz de atemorizar até o mais empedernidos dos mortais. Sem problemas, pois o cartunista Renato Aroeira registrou...




Não deixando passar o comentário feito no Twitter pela jornalista e quadrinista Alexandra Moraes, no qual citou Marechal Deodoro (1827 - 1892), primeiro presidente da República (1889 - 1891),  em referência ao discurso do bastardo, no #8M 2017 – os 97 caracteres da internauta resumem tudo...





Inesperadamente, já no dia seguinte, mister Vlad III valeu-se dos artifícios das redes sociais para tentar emendar o soneto. Não, não e não! Pura perda de tempo, pois não engana nem recém-nascidos. Pois, não vem que não tem.


IV (Era uma vez ilusão...)

Desde a consumação do golpe de 2016 no Brasil, incluindo a devastação da Síria, que anda a passos largos rumo a sua exclusão do próximo mapa-múndi, entre outros estragos e desgraças que, orquestradas por psicopatas de plantão, abatem o planeta, vez por outra eu penso que uma das melhores coisas que não fiz na vida foi parir um ser vivo, mesmo alimentando, já a partir da adolescência, o desejo de ter uma filha – escolhi até um nome para ela – quando tivesse com mais de 30 anos de idade. Porém, nesse aspecto, a natureza foi ingrata comigo. Sim, porque, com apenas 35 anos, entrei, como se diz, na menopausa precoce. Daí que, por isso, entre outros, foi-me negado esse sonho que não pude materializar – nem mesmo compensado por alguns talentos com os quais já nasci. Por outro lado, o que minimiza a minha tristeza de não ter posto uma filha no mundo, é que, hoje, sendo, provavelmente, uma adolescente com menos de 18 e, diferentemente de mim, nascida no Brasil, ela estaria fadada ao infortúnio, à infelicidade de, antes mesmo da maioridade, deparar-se com a face mais cruel da maldade de certos seres ditos humanos. E fico a lembrar-me de um filme, visto quando eu ainda adolescia, que muito me impressionou, ou seja, Adeus às ilusões (The Sandpiper), 1965, com roteiro de Dalton Trumbo (1905 - 1956), Michael Wilson (1914 - 1978) e Martin Ransohoff; direção de Vicente Minnelli (1903 - 1986) e  protagonizado pela atriz Elizabeth Taylor (1932 - 2011) e pelo ator Richard Burton (1925 - 1984), cujos temas abordados, entre outros, é a educação. Desse modo, diante dos rumos incertos das escolas brasileiras, considerando que a mentalidade do desgoverno golpista, usurpador, ilegítimo e machista é bem aquém da média, beirando o inóspito, o currículo do ensino médio, no caso, terminará virando caso de polícia. E, aí, com todo esse caos reinante, no atual contexto e na incógnita dos vindouros – mais escatológico não podia –, vem-me à mente o brasileiríssimo Vinícius de Moraes, o poeta enjoadinho:

“(...) Filhos? Melhor não tê-los!” (...)


Pelo menos, por enquanto. E, enquanto isso, demais temerosas previsões no traço do cartunista Jarbas Domingo, do Diário de Pernambuco...




Nathalie Bernardo da Câmara


Em tempo: No dia 1º/3/2017, o jornalista brasileiro Leonardo Sakamoto publicou a seguinte postagem no seu blog:

Blocos gritam “Fora, Temer!”: O que acontece no Carnaval fica no Carnaval?

Acompanhei um rosário de blocos de Carnaval no Rio e em São Paulo. E, em todos, absolutamente todos, em algum momento, ocorreu um coro de ''Fora, Temer!'' por parte dos foliões. Podia faltar samba, purpurina, confete, serpentina, Pierrô, Colombina, Catuaba Selvagem, vaselina, mas tinha sempre um ''Fora, Temer!'' que se espalhava feito gripe.

Blocos com veganos, comunistas, bombadinhos, alternativos, hipsters, coxinhas, petralhas, feministas, da turma do centro ou das comunidades, tinha sempre um ''Fora, Temer!''. A diferença era o ritmo. Segundo colegas jornalistas em Recife, por exemplo, por lá o ''Fora Temer'', em ritmo de frevo, é mais alucinado do que o ''Fora, Temer!'' em ritmo de alguns chorinhos paulistanos.

Claro que é mais fácil entender o que leva alguém a gritar ''Fora, Temer!'' em um bloco do que compreender o que leva um homem hétero malhado a untar seu peito com alguma coisa brilhante e ficar parado, no meio da multidão, olhando para ver se alguém o admira. É da natureza do Carnaval a piada, o escárnio e a ironia – e, a cada ano, há os eleitos para serem execrados. Da mesma forma, é da natureza do comportamento de massa repetirmos algo que o grupo grita para nos sentirmos pertencente a ele e ao momento.

Por fim, é da natureza da democracia que grandes reformas, como a da Previdência, sejam apresentadas à sociedade como propostas de governo de candidatos, no período das eleições presidenciais, para que possam ser escolhidas ou rejeitadas por meio do voto. A possibilidade concreta da perda de direitos em decorrência da negação desse instrumento da democracia deixa muita gente irritada.

Há quem equipare a pessoa que grita ''Fora, Temer!'' apenas num bloco de Carnaval a uma ativista de sofá. Mas o problema não é protestar num sofá ou em um bloco. Ambas ações podem causar impactos. O problema é a falta de formação política – que é a diferença entre fazer algo consciente ou se deixar levar por líderes, falsos líderes, mídia, igreja, enfim. Essa formação se adquire pela convivência com a diferença, coisa que os algoritmos das redes dificultam. Blocos de Carnaval, por outro lado, democratizam o espaço público e chamam as pessoas de volta às ruas, local original de formação da empatia e da política.

O ''Fora, Temer!'' dos blocos acabou se espalhando por vários cantos do país, sendo captado pelas câmeras de TV, ouvido por jornalistas e outros formadores de opinião. Se entrou por um ouvido e saiu pelo outro, não há como saber. Isso não derruba presidente, mas ajuda a mostrar que a desaprovação do homem, por mais que esteja sendo intercalada entre uma marchinha e um samba enredo, está presente e se fazendo ouvir.

Faria ele, por bem, não achar que o que acontece no Carnaval fica no Carnaval.


Leonardo Sakamoto
É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.


domingo, 19 de fevereiro de 2017

BRASIL DESBOTADO (atualizado)

 Foto: Marcos AlvesAgência O Globo

“Nada é tão azul no nosso Brasil. Vivemos tempos sombrios, muito sombrios”.

Raduan Nassar
Escritor brasileiro, autor de Lavoura Arcaica (1975), Um Copo de Cólera (1978), Menina a Caminho (1994) e Menina a caminho e Outros Textos (1997), em discurso durante a cerimônia de entrega do Prêmio Camões edição 2016, no qual denunciou o golpe de Estado no Brasil e os seus desdobramentos: um governo ilegítimo que promove uma política de truculências, de exceções e exclusões.


Lisboa. Em 30/5/2016, pela “extraordinária qualidade da linguagem e da força poética da (sua) prosa” o escritor brasileiro Raduan Nassar – à época, com 80 anos – teve o seu nome anunciado como o vencedor da edição 2016 do Prêmio Camões, considerado a mais importante condecoração literária a um autor de língua portuguesa pelo conjunto da sua obra.

Brasil. Em 17/2 do corrente, o Prêmio Camões foi entregue ao escritor Raduan Nassar em cerimônia realizada no Museu Lasar Segall, em São Paulo – cerimônia essa que, diga-se de passagem, já começou às avessas, pois, tradicionalmente, o homenageado é sempre o último a discursar, não o primeiro, embora o ministro da Cultura Roberto Freire tenha negado que a sua pasta intencionalmente inverteu o ritual.

O fato é que, à ocasião Raduan Nassar proferiu um contundente discurso político de duas páginas (abaixo), chamando o governo de Michel Temer de golpista, “amparado pelo Ministério Público e, de resto, pelo Supremo Tribunal Federal (STF)”, sendo, ao final, aplaudido pelos presentes, que, aproveitando a deixa, entoaram o bordão “Fora, Temer”. Contrariado, Freire deixou de lado o discurso que havia preparado para a sua fala e improvisou (abaixo), rebatendo as críticas do escritor, mas, por diversas vezes, foi interrompido pela plateia, que o vaiou, irritando-o ainda mais, a ponto de ele bater boca com algumas pessoas. Entre elas, o poeta Augusto Massi, professor da Universidade de São Paulo (USP), que não perdeu a oportunidade para alfinetar o Ministro, dizendo que ele não estava “à altura do evento!”, lembrando, inclusive, que a obra de Raduan Nassar é uma obra política – previsível, portanto, que o seu discurso também assim o fosse, ainda mais pelo fato de, historicamente, o escritor ser um intelectual de esquerda. Irascível, Freire prosseguiu atacando verbalmente o público do evento, classificando o seu protesto a favor do escritor como “histriônico”.

Ora, o grotesco, no caso, foi, somente só, a reação tacanha do Ministro, tal qual a mentalidade do governo neoliberal e repressor por ele defendido a ferro e fogo durante o quiproquó – Freire, aliás, a exemplo do senador golpista Cristovam Buarque, é outra decepção: ex-camarada, mais parece uma fraude ambulante, de há muito maculando o histórico e ilibado Partido Comunista Brasileiro (PCB), de cujas fileiras fizemos parte, mas que ele, por interesses escusos, foi um dos que se encarregou de enterrá-lo vivo, maculado de igual modo a cerimônia para a qual ele não estava à altura. Então... Achando pouco, à saída da cerimônia de entrega do Camões, Freire afirmou ao jornal Folha de S.Paulo que decidiu improvisar por causa da “deselegância” do homenageado, sugerindo, ainda, que, por suas posições contrárias ao atual governo, o escritor deveria abrir mão do prêmio, no valor de €100 mil (cerca de 330 mil reais) – o bufão espalhafatoso do rei, com a sua mentalidade caquética e caótica, é que foi o deselegante, além de não distinguir a diferença entre governo e Estado, ignorando que o Camões é concedido não apenas pelo Brasil, mas também por Portugal, numa parceria que remonta a 1988, quando os dois países assinaram um acordo com o objetivo de enriquecer o patrimônio literário e cultural da língua portuguesa, sendo a primeira cerimônia realizada no ano seguinte, na qual o galardoado foi o escritor português Miguel Torga (1907 - 1995).

Eis, portanto, a íntegra do discurso do escritor Raduan Nassar na abertura da cerimônia de entrega da edição 2016 do Prêmio Camões:

“Excelentíssimo Senhor Embaixador de Portugal, Dr. Jorge Cabral.

Senhor Dr. Roberto Freire, Ministro da Cultura do governo em exercício.

Senhora Helena Severo, Presidente da Fundação Biblioteca Nacional.

Professor Jorge Schwartz, Diretor do Museu Lasar Segall.

Saudações a todos os convidados.

Tive dificuldade para entender o Prêmio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri. De todo modo, uma honraria a um brasileiro ter sido contemplado no berço de nossa língua. 

Estive em Portugal em 1976, fascinado pelo país, resplandecente desde a Revolução dos Cravos no ano anterior. Além de amigos portugueses, fui sempre carinhosamente acolhido pela imprensa, escritores e meios acadêmicos lusitanos.

Portanto, Sr. Embaixador, muito obrigado a Portugal.

Infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil.

Vivemos tempos sombrios, muito sombrios: invasão na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo; invasão na Escola Nacional Florestan Fernandes; invasão nas escolas de ensino médio em muitos estados; a prisão de Guilherme Boulos, membro da Coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto; violência contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua. Episódios todos perpetrados por Alexandre de Moraes.

Com curriculum mais amplo de truculência, Moraes propiciou também, por omissão, as tragédias nos presídios de Manaus e Roraima. Prima inclusive por uma incontinência verbal assustadora, de um partidarismo exacerbado, há vídeo, atestando a virulência da sua fala. E é esta figura exótica a indicada agora para o Supremo Tribunal Federal

Os fatos mencionados configuram por extensão todo um governo repressor: contra o trabalhador, contra aposentadorias criteriosas, contra universidades federais de ensino gratuito, contra a diplomacia ativa e altiva de Celso Amorim. Governo atrelado por sinal ao neoliberalismo com sua escandalosa concentração da riqueza, o que vem desgraçando os pobres do mundo inteiro.

Mesmo de exceção, o governo que está aí foi posto, e continua amparado pelo Ministério Público e, de resto, pelo Supremo Tribunal Federal.

Prova da sustentação do governo em exercício aconteceu há três dias, quando o ministro Celso de Mello, com suas intervenções enfadonhas, acolheu o pleito de Moreira Franco. Citado 34 vezes numa única delação, o ministro Celso de Mello garantiu, com foro privilegiado, a blindagem ao alcunhado “Angorá”. E acrescentou um elogio superlativo a um de seus pares, o ministro Gilmar Mendes, por ter barrado Lula para a Casa Civil, no governo Dilma. Dois pesos e duas medidas

É esse o Supremo que temos, ressalvadas poucas exceções. Coerente com seu passado à época do regime militar, o mesmo Supremo propiciou a reversão da nossa democracia: não impediu que Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados e réu na Corte, instaurasse o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Íntegra, eleita pelo voto popular, Dilma foi afastada definitivamente no Senado.

O golpe estava consumado!

Não há como ficar calado.

Obrigado”.
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Um copo de cólera
Após a cerimônia de entrega do Prêmio Camões ao escritor Raduan Nassar, o Ministério da Cultura divulgou uma nota oficial sobre os entreveros ocorridos durante o evento, transcrita abaixo:

“O Ministério da Cultura lamenta, mais uma vez, a prática do Partido dos Trabalhadores em aparelhar órgãos públicos e organizar ataques para tentar desestabilizar o processo democrático. Durante a cerimônia de entrega do Prêmio Camões de Literatura, em São Paulo, o ministro da Cultura, Roberto Freire, teve sua fala interrompida por manifestantes partidários, sinal de desrespeito à premiação oficial dos governos de Brasil e Portugal.

Considerada a mais importante distinção da Língua Portuguesa, o prêmio concedeu 100 mil euros (sendo 50 mil euros arcados pelo Ministério da Cultura) ao escritor brasileiro Raduan Nassar.

O agraciado foi respeitado por todos durante sua fala, ao contrário do que ocorreu com o ministro da Cultura, interrompido de forma agressiva. Apesar de ser um adversário político do governo, Raduan recebeu o prêmio, legitimando sua importância. Uma premiação literária com essa dimensão não merecia esse comportamento intolerante de alguns, que tentaram partidarizar o evento.”

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Igualmente tacanha, a nota do Ministério da Cultura atribui as intervenções do público presente à cerimônia ao discurso do ministro Roberto Freire à “prática do Partido dos Trabalhadores em aparelhar órgãos públicos e organizar ataques para tentar desestabilizar o processo democrático” e que a sua fala foi “interrompida por manifestantes partidários, sinal de desrespeito à premiação oficial dos governos de Brasil e Portugal” – ignoram o óbvio o (s) autor (es) da nota, de igual modo o próprio Freire, ou seja: não é necessário uma pessoa ser filiada a um partido político, no caso, o PT, citado no texto, para que, ideologicamente, ela seja de esquerda, o mesmo valendo para a direita.

Então... Em artigo intitulado Cegueira e linchamento, publicado na Folha em 21/8/2016, o próprio Raduan Nassar deixou claro que não possui “vínculo” com nenhum partido político, mas que, nem por isso, nada o impede de defender a democracia e combater o obscurantismo, a exemplo da sua aparição, meses antes, em 31/3/2016, abrindo mão da sua reclusão de décadas apenas para comparecer a um evento realizado no Palácio do Planalto, durante o qual publicamente afirmou a inexistência de crime de responsabilidade no governo legal e legítimo da então presidente afastada Dilma Rousseff e que, por isso, não havia motivos que embasassem o processo de impeachment que tramitava contra ela no Congresso Nacional.

Desde então, portanto, não estamos vendo, como afirmou a nota esdrúxula divulgada pelo Ministério da Cultura, nenhum “processo democrático” no atual cenário político do Brasil, mas, infelizmente, um golpe de Estado já consolidado, num desgoverno a perder de vista e submetido ao capital estrangeiro, transformando as riquezas naturais do país (entre outros, petróleo, aquíferos e, agora, terras) sem escrúpulo algum, em bens de consumo alheio em detrimento do seu verdadeiro dono, que é o povo brasileiro, dia após dia sendo saqueado e os seus direitos e conquistas sociais confiscados na maior cara dura por sanguessugas desesperadamente famintas e, pelo que se tem visto, sem limites. Coragem, resistência e esperança? Enfim! Falemos do recém-laureado com o Prêmio Camões...


Nascido em Pindorama, no interior de São Paulo, em 27/11/1935, o escritor Raduan Nassar publicou os romances Lavoura Arcaica (1975), a novela Um Copo de Cólera (1978) e dos livros de contos Menina a Caminho (1994) e Menina a Caminho e Outros Textos (1997) – em 1999, Aluízio Abranches dirigiu o filme Um Copo de Cólera, cujo roteiro, em parceria com Flávio R. Tambellini, baseou-se no livro homônimo, e, em 2001, Lavoura Arcaica chegou às telas do cinema através do roteiro e da direção de Luiz Fernando Carvalho, arrebatando alguns prêmios nacionais e internacionais. 12º brasileiro a ser contemplado pelo Prêmio Camões de Literatura, Raduan Nassar coleciona, ainda, alguns dos prêmios literários mais importantes do Brasil, entre eles, o Prêmio Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras (ABL) e o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro (CBL). Com um sem fim de artigos de sua autoria publicados em jornais e revistas, entrevistas e depoimentos, além de dissertações universitárias, Raduan Nassar já teve os seus livros traduzidos para o espanhol, o francês, o alemão e o inglês. Em 2016, o conjunto da obra do escritor, incluindo dois contos e um ensaio inéditos no Brasil, recebeu uma edição comemorativa da editora Companhia das Letras.


Veja, abaixo, a lista dos ganhadores do Prêmio Camões, de 1989 a 2016:

1989 – Miguel Torga (Portugal)
1990 – Hélia Correia (Brasil)
1991 – José Craveirinha (Moçambique)
1992 – Vergílio Ferreira (Portugal)
1993 – Rachel de Queiroz (Brasil)
1994 – Jorge Amado (Brasil)
1995 – José Saramago (Portugal)
1996 – Eduardo Lourenço (Portugal)
1997 – Pepetela (Angola)
1998 – Antonio Cândido (Brasil)
1999 – Sophia de Mello Breyner Andresen (Portugal)
2000 – Autran Dourado (Brasil)
2001 – Eugénio de Andrade (Portugal)
2002 – Maria Velho da Costa (Portugal)
2003 – Rubem Fonseca (Brasil)
2004 – Agustina Bessa-Luís (Portugal)
2005 – Lygia Fagundes Telles (Brasil)
2006 – Luandino Vieira (Angola); recusou o prêmio
2007 – António Lobo Antunes (Portugal)
2008 – João Ubaldo Ribeiro (Brasil)
2009 – Arménio Vieira (Cabo Verde)
2010 – Ferreira Gullar (Brasil)
2011 – Manuel António Pina (Portugal)
2012 – Dalton Trevisan (Brasil)
2013 – Mia Couto (Moçambique)
2014 – Alberto da Costa e Silva (Brasil)
2015 – Hélia Correia (Portugal)
2016 – Raduan Nassar (Brasil)


O peteleco de Raduan Nassar em Roberto Freire...

por Berzé


“Não há como ficar calado”, diria o escritor...

Nathalie Bernardo da Câmara


Adendo:

SOCIÓLOGO REVELA BASTIDORES DA AGRESSÃO DE FREIRE A RADUAN NASSAR


Brasil 24719 DE FEVEREIRO DE 2017 ÀS 09:44

Por Rafael Alves, sociólogo, professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo

Texto literário é coisa para Raduan.

Textos jornalísticos felizmente já estão sendo veiculados.

Este é, quiçá, um desabafo. Uma reflexão a partir do evento em que Raduan Nassar recebeu o Prêmio Camões.

Raduan iniciou seu discurso dizendo ter tido dificuldade para entender o Prêmio.

Eu estou até agora com dificuldades para entender a cerimônia de premiação realizada ontem, 17 de fevereiro de 2017.

Por um lado, sinto a felicidade por ter estado presente num evento de tal importância, ter visto e ouvido uma pessoa como Raduan – o que
especificamente em seu caso é algo ainda mais raro, considerando sua discrição e opção pela reclusão.

Por outro, sinto o mal estar pelo ocorrido, pela maneira com que o ministro em exercício, consequentemente o próprio (des)governo, tratou aquele que é considerado por muitos o maior escritor brasileiro vivo. O desrespeito foi direto ao escritor, mas estendeu-se à plateia e ao próprio Prêmio Camões.

Desrespeitou-se a Cultura, a Literatura, a Língua Portuguesa.

Raduan Nassar foi galardoado com o Prêmio Camões em maio de 2016 por unanimidade do júri. A entrega – do diploma, pois até onde sei o prêmio pecuniário ainda não foi pago – foi adiada ao máximo justamente para afastar a possibilidade de manifestação política do escritor. O evento realizado quase um ano após a definição do prêmio não contava com nada, não foi contratado um show no valor de 500 mil reais sem licitação como o (des)governo fez em novembro de 2016 no Palácio do Planalto. Sem divulgação, deveria passar desapercebido.

O que Raduan Nassar fez foi um ato político.

Reuniu uma plateia que ouvisse seu discurso e replicasse o ocorrido, desmoralizando ainda mais este (des)governo e explicitando seu autoritarismo e descaso com o país.

O Prêmio não foi "dado" por este (des)governo, como disse o ministro em exercício. Foi entregue "apesar" dele.

Da mesma forma ocorreu a cerimônia de premiação. Muito pelo esforço de um amigo – a quem gostaria de dar o crédito, mas talvez ele goste de ser misterioso como Raduan – jornalistas, políticos, escritores, intelectuais, admiradores foram reunidos para presenciar aquele manifesto. O Coral Passarim ofereceu o momento de maior beleza com cerca de vinte meninas cantando músicas brasileiras. Outro amigo propiciou o transporte do coral. As crianças quase foram impedidas de entrar no evento, pois não estavam nos planos do cerimonial e o responsável foi indagado sobre quais músicas seriam cantadas.

A cerimônia ocorreu "apesar" do cerimonial do ministério da cultura.

Este mesmo cerimonial cometeu o despautério de inverter a ordem comum a uma premiação, fazendo com que o homenageado falasse primeiro, deixando o discurso final ao ministro em exercício para que ele transformasse o que deveria ser a cerimônia de entrega do Prêmio Camões em comício da era da pós-verdade.

Minha sensação foi de vergonha alheia.

Pois bem, iniciado o dispositivo, a presidente da Biblioteca Nacional, Helena Severo, erra repetidas vezes o nome do homenageado em seu discurso de apresentação, sendo corrigida pela plateia e pelo próprio Raduan NASSAR. Raduan faz um discurso sucinto, aponta fatos recentes como as invasões em escolas, violência contra manifestações democráticas nas ruas e as tragédias nos presídios para destacar a figura de Alexandre de Moraes, prestes a ocupar uma cadeira vitalícia no Supremo Tribunal Federal. Aponta diretamente a responsabilidade do Ministério Público e do STF na colocação e manutenção do governo de exceção em exercício. Menciona a decisão de Celso de Mello de garantir o foro privilegiado a Moreira Franco, citado 34 vezes numa única delação. Opina que o Supremo atuou coerente com seu passado no regime militar, ao manter Eduardo Cunha como presidente da Câmara, permitindo que instaurasse o processo de impeachment, destituindo Dilma Rousseff, íntegra e eleita pelo voto popular.

Em seguida, o embaixador de Portugal, Jorge Cabral, faz um discurso protocolar, atendo-se ao prêmio.

Roberto Freire, então, toma a palavra. Não dá para dizer que perdeu o decoro em seu discurso, pois já não há decoro nas ações dos membros desse (des)governo há muito tempo. Não dá nem para dizer que tenha sido um discurso, já que improvisa ofensas e bate boca com a plateia. Portanto, toma a palavra e tenta tomar a cena, como tomaram o governo, como tentam tomar o país.

Freire começa por dizer que já seria preocupante vindo de jovens, mas traz perplexidade que alguém com a "experiência" de Raduan considere que a democracia foi abalada. Diz que "quem dá prêmio a adversário político não é a ditadura" e destaca que o prêmio foi aceito, mencionando que não é apenas reconhecimento, que "há prêmio mesmo, para que todos saibam". Defende que o governo é democrático por "permitir" que um "adversário político" receba um prêmio e a prova está naquele evento, em que "foi permitido" ao homenageado que "falasse e imaginasse" o que quisesse.

Ora, só até aí o disparate já era imenso. Em primeiro lugar o Prêmio Camões foi instituído em 1988 por Brasil e Portugal, não é algo de um ou outro governo.

Confunde-se de saída Estado com governo. Trata-se de recursos públicos e não um presente do governante do momento. A escolha do premiado é feita por um júri internacional, não por membros do ministério de Freire. Além disso, Raduan foi escolhido tendo seu nome divulgado em maio de 2016, mês da saída da presidenta Dilma Rousseff.

A truculência e aspiração ditatorial, fazem com que Freire, querendo defender o governo como democrático, dê como prova disso ter "permitido" que Raduan fosse premiado e falasse. A mesquinharia o faz destacar que há prêmio em dinheiro, sem considerar que o valor de cerca de 300 mil reais não deve causar nenhuma cobiça ao homem que há poucos anos doou terras a trabalhadores e uma fazenda com maquinário, cujo conjunto é avaliado em cerca de 20 milhões de reais, para a Universidade Federal de São Carlos, onde hoje funciona o Campus Lagoa do Sino, em que estudam aproximadamente 500 alunos, com eixos centrados no Desenvolvimento Sustentável Territorial, Soberania e Segurança Alimentar, e Agricultura Familiar.

E aconteceu o que Raduan deixara como última frase em seu discurso, não houve como ficar calado.

Augusto Massi, poeta e professor da USP, alertou Freire de que a obra de Raduan era uma obra política, e que o ministro não estava à altura daquele evento. Freire respondeu que Raduan pôde falar, que "nós o respeitamos", ao que Massi apontou o óbvio: "hoje é o dia do Raduan, não é seu!"

Em meio aos aplausos pela intervenção de Massi, Freire ainda disse que foi Raduan quem não entendeu o que se fazia ali, o chama de adversário e passa a desqualificar, mas sem nenhum argumento, a narrativa do golpe.

E a plateia ouve. Não sei se por educação, curiosidade, ou, como eu, atônita ao presenciar algo assim. É impressionante a falta de pudor, como estas pessoas ficam à vontade para, mesmo diante de um público crítico, fazer uma fala quando não vazia de significado ou distorcendo a realidade, simplesmente autoritária. E esse caráter se acentuou.

"O silêncio é de praxe!", bradou a filósofa Marilena Chauí.

Freire tenta seguir "tomando" a palavra. Pois não havia o que responder, não havia argumentos. Apenas precisava falar mais, falar por cima, falar de cima.

E, talvez justamente porque saiba que "não há argumentação possível com o fascista", como disse numa entrevista ao Jornal da Unicamp em 2016, Laymert Garcia dos Santos, professor desta universidade, se dirige à plateia: "não é possível que nós continuemos ouvindo isso aqui!" "Não é possível, pois é um desrespeito ao próprio Raduan", diz Laymert. E Freire, então, vem com a pérola de que Raduan "desrespeitou a todos nós". Diz que está representando um governo, blá, blá, blá... Laymert brada que "o prêmio é maior, ele é um prêmio da literatura da língua portuguesa". O ministro, corroborando o discurso de Raduan, quando denunciou a repressão violenta às manifestações políticas, diz que "esta oposição sionista evidentemente está com os dias contados". A máscara caiu, Laymert ainda lhe indaga antes de as vaias começarem: "é uma ameaça"?

Ao descer do palanque que construiu, Roberto Freire vai diretamente a Laymert chamando-lhe de vagabundo e a Massi de idiota.

Raduan, com seus 82 anos, assistiu a tudo sereno. Depois recebeu cumprimentos, conversou, autografou.

Ouvi alguns aventando se ele deveria ter respondido. Não me parece de modo algum. Raduan também é maior.

Da mesma forma que a força de sua obra não vem da extensão – autor de dois livros e meio, como ele brinca –, não havia mais o que dizer. Já não havia resposta para o que dissera.

O evento político estava consumado.


Raduan fez com que os demais não ficassem calados.


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O ministro que se confundiu a si mesmo com um prémio


O ministro sumirá da história e a obra do premiado fica, enquanto houver alguma forma de livro no planeta.

PÚBLICO – 20 de Fevereiro de 2017, 7:59

ALEXANDRA LUCAS COELHO


 1. A cerimónia de entrega do Prémio Camões, o maior da língua portuguesa, sexta-feira passada, em São Paulo, foi um retrato do que está em curso no Brasil, mas não só. Revelou a que ponto um ministro não distingue Estado e governo, confundindo-se a si mesmo com um prémio. E como querer separar cultura e política leva a uma política sem cultura.

2. O premiado desta edição era o brasileiro Raduan Nassar. A decisão, unânime, foi tomada em Maio de 2016 por um júri composto por críticos e escritores de vários países de língua portuguesa. O anúncio coincidiu com o início do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Mas não era esse governo, ou um seu sucessor, que atribuía o prémio a Raduan Nassar, e sim um júri independente. Aos governos de Portugal e Brasil que na altura da entrega estivessem em funções competiria cumprir, em nome dos Estados, o compromisso que existe desde que o prémio foi instituído, assegurando o montante em dinheiro. Os premiados do Camões não são escolhas de nenhum governo. Qualquer confusão em relação a isto será um insulto à ideia do prémio, aos júris que já o atribuíram, a cada nome que o recebe, e a quem acredita na sua independência.

3. A obra de Raduan Nassar é daquelas que muda a língua e os leitores, e mantém-se tão breve quanto única. Foi publicada sobretudo nos anos 1960 e 1970, depois o autor largou a literatura, tornou-se fazendeiro, desapareceu do espaço público. Durante décadas esse silêncio tornou-se lendário. Mas em 2016, no início do impeachment, Raduan mandou a lenda às urtigas por achar que o impeachment era um golpe. Falou, foi a Brasília ter com Dilma, protestou na imprensa. Fez isso num Brasil dividido ao extremo, o que lhe valeu ser insultado aos 80 anos pelos que acima de tudo odiavam Lula, Dilma e o PT. Não se tratava apenas de discordar de Raduan, mas de o diminuir como anacrónico. Ele, que ao fim de décadas voltara para fazer o mais difícil, aparecer. E como teria sido tentador continuar fora da mortal turba humana. Mas Raduan deixou o olimpo para os livros e arregaçou as mangas.

4. O governo que ocupou o poder pós-impeachment já vai na sua segunda tentativa de ministro da Cultura. Seja por isso, seja porque Michel Temer & Cia receavam o que Raduan pudesse dizer, a entrega do Prémio Camões só aconteceu agora. Dado que Raduan quebrara várias vezes o silêncio em 2016 era de prever que aproveitasse para um discurso político. E foi o que aconteceu. Um breve discurso contundente em relação ao actual governo brasileiro, e ao sistema que o favorece. Depois de um par de frases para o outro lado do Atlântico (“Estive em Portugal em 1976, fascinado pelo país, resplandecente desde a Revolução dos Cravos no ano anterior. Além de amigos portugueses, fui sempre carinhosamente acolhido”), Raduan estabeleceu o contraponto com o Brasil de 2017: “Vivemos tempos sombrios, muito sombrios”. Deu exemplos de invasões em sedes do PT e em escolas de vários estados; de prisões de membros dos movimentos sociais, de “violência contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua”, da responsabilidade governamental nas “tragédias nos presídios de Manaus e Roraima”, de um “governo repressor”: “contra o trabalhador, contra aposentadorias criteriosas, contra universidades federais de ensino gratuito, contra a diplomacia ativa e altiva”. Um “governo atrelado, por sinal, ao neoliberalismo com sua escandalosa concentração da riqueza”, “amparado pelo Ministério Público e, de resto, pelo Supremo Tribunal Federal”. Um Supremo coerente “com seu passado à época do regime militar”, que “propiciou a reversão da nossa democracia: não impediu que Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados e réu na Corte, instaurasse o processo de impeachment de Dilma Rousseff.” Aqui Raduan concluiu: “Íntegra, eleita pelo voto popular, Dilma foi afastada definitivamente no Senado. O golpe estava consumado. Não há como ficar calado.”

5. A plateia, em pé, aplaudiu. Os três anfitriões da cerimónia permaneceram quietos: embaixador de Portugal, Jorge Cabral, directora da Biblioteca Nacional, Helena Severo, e ministro brasileiro da Cultura, Roberto Freire, que então se levantou para ir ao púlpito. Com Raduan já sentado, Freire decidiu responder-lhe de improviso, numa longa intervenção gesticulante, que foi subindo de tom. “Lamentavelmente, o Brasil de hoje assiste perplexo a algumas pessoas da nossa geração, que têm o privilégio de dar exemplos e que viveram um efetivo golpe nos anos 60 do século passado, e que dão o inverso”, disse. “Que os jovens façam isso já seria preocupante, mas não causaria esta perplexidade”. Quando falou no “momento democrático que o Brasil vive” ouviram-se as primeiras gargalhadas e vaias da plateia. A partir daí foi uma escalada, com o ministro a levantar a voz para se impôr ao bruá, martelando palavras. Este prémio, afirmou, “é dado pelo governo democrático brasileiro e não foi rejeitado”. Adiante insistiu: “É um adversário recebendo um prémio de um governo que ele considera ilegítimo, mas não é ilegítimo para o prémio que ele recebeu.” Ou: “Quem dá prémios a adversário político não é a ditadura.” Ou: “É fácil fazer protesto em momentos de governo democrático como o actual.” Ignorou quando alguém da plateia o alertou para o óbvio: “Hoje é dia do Raduan!” Quando alguém pediu “Respeito a Raduan!”, devolveu: “Ele desrespeitou todos nós!” Respondeu sarcasticamente a autores na plateia. A dada altura, o professor da USP Augusto Massi disse: “Acho que você não está à altura do evento.” Massi disse à “Folha de S. Paulo” que Freire lhe chamou idiota depois, na saída. À “Folha, Freire disse que fizera aquele discurso dada a “deselegância” de Raduan: “Se ele viesse dizer que não aceitava o prémio, a crítica que ele fez até podia ser justa.” Mais tarde declarou: “Quem assinou, convidou e pagou o prémio foi este governo.” E ainda: “Tinha tantos que não foram ali para aplaudir um escritor, foram para [me] agredir, acho que até fui brando.”

6. Ou seja, para o ministro a) este prémio é dado por este governo b) quem critica este governo dá mau exemplo c) jovens críticos já é mau mas velhos ainda é pior d) se Raduan queria criticar não aceitava o prémio e) quem vaiara o ministro tinha vindo não por Raduan mas para o agredir a ele, ministro. E com tudo isto o ministro suplantou as críticas de Raduan na repercussão mediática. Em suma, não é de espantar que o megalómano ministro venha a dizer: o prémio, fui eu.

7. Claro que o ministro sumirá da história e a obra do premiado fica, enquanto houver alguma forma de livro no planeta. Para os livros de Raduan Nassar é indiferente o que passou na sexta. Mas a nós, contemporâneos, importa, sim, que um membro do poder político abuse do cargo, confundindo, distorcendo e agredindo um criador como Raduan, protagonista único da cerimónia, que lhe devia merecer, no mínimo, silêncio. Não cabe ao ministro aprovar ou reprovar o discurso do premiado, não lhe cabe responder. Tal como não é preciso alguém estar de acordo com Raduan politicamente para entender como foi absurdo o que se passou. O prémio não é deste governo, é patrocinado por dois Estados, e atribuído por um júri. A sua aceitação nunca deverá implicar um discurso bem-agradecido. Um ministro da Cultura que veja os criadores como estando ao serviço não entendeu nada. Idem para quem sugere que se pode tirar a política da cultura, e vice-versa. De resto, o que o actual governo brasileiro está a fazer na Cultura é um desmonte do muito que veio sendo construído. Se há áreas em que os anos de Lula deram frutos fortes, a Cultura é certamente uma delas.


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Reportagens:

DEPOIS DA LAVOURA

Trinta anos após deixar a literatura, Raduan Nassar doa sua fazenda a uma universidade pública, abandona a agricultura e se recolhe em silêncio no Retiro Feliz
Revista Piauí – EDIÇÃO 70 | JULHO DE 2012
Por RAFAEL CARIELLO –


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Escritor que virou agricultor realiza sonho doando fazenda para UFSCAR

Raduan Nassar deixou a vida literária para se tornar agricultor. Em 2012, ele doou a fazenda Lagoa do Sino para Universidade Federal de São Carlos.


GLOBO RURAL – 08/01/2017

Por José Hamilton Ribeiro